agosto 31, 2004
Vai, menina

Pablo Picasso, Mother and Child
Sei que vou ter que te dizer até já, pensando adeus. Menina que nasceste de mim, que estiveste no meu colo, a quem sequei tantas lágrimas, com quem ri risos cristalinos. O caminho abre-se à tua frente e eu vejo-o claro, cheio da luz que tu consegues trazer contigo. A luz da tua inteligência, da tua ironia, da tua ternura. Vais-te embora, menina, e fico a contar os dias até voltares, até te ver de novo naquele aeroporto ou lá no país abaixo do mar. É o teu destino que tomas nas tuas mãos. Não mais nas minhas. Eu só posso esperar, apoiar, suportar. Assim será. Que sejas feliz, menina, nesse país que tu adivinhas frio e de que tens um pouco de medo, eu sei. Mas o caminho passa por lá e tu tens que o fazer. Por tua escolha. Por tua lúcida escolha que eu só posso respeitar e admirar, já não tanto como mãe mas como de mulher para mulher, de amiga para amiga. Vai então, menina, e não olhes para trás. Faz a tua vida que as tuas raízes estão aqui, esperando.
(Para a Ana que parte para a Holanda no sábado)
Publicado por lique às 09:38 PM | Comentários (44)
agosto 30, 2004
A tua falta

Faz-me falta
Tua presença diária
Voz de sorriso velado
Em palavra fugidia
Faz-me falta
A ilusão de um verso
Que adivinho secreto
Dando cor a cada dia
Fazes-me falta
Tu que hoje ainda não sei
Sabendo já entretanto
O que o regresso inicia.
Hoje em que te sinto faltar
Dia de silêncios estranhos
Espero a doçura do chegar.
(Para um amigo ausente)
Publicado por lique às 10:56 PM | Comentários (33)
agosto 29, 2004
Deserto azul

Será desilusão
Ou um saber já antigo
Que me arrasta assim
Pelas ruas conhecidas
Sem ver nelas um sinal
Sem um ar (des)entendido
Que acenda luz no caminho?
Será algo já sabido
Esquecido de tanto querer
Que me dá esta aridez
Vendo no verde o deserto
Olhando o cinza no azul
(Des)percebendo palavras
De solidão entendidas
Apelos sem nenhum grito?
A aridez já esquecida
Vinda de dias antigos
Sopra em deserto azul
Publicado por lique às 08:37 PM | Comentários (28)
agosto 28, 2004
Vieste como um barco carregado de vento

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro
onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.
Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos
que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa
e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.
Maria do Rosário Pedreira
Publicado por lique às 08:19 PM | Comentários (21)
agosto 27, 2004
Women on waves

É verdade que vamos entrar em fim de semana, dias em que é costume haver por aqui uns poemas dos autores que eu gosto, para que a minha inspiração possa respirar um pouco e pensar na próxima semana. E haverá, amanhã.
Hoje tenho que trazer aqui este assunto, sem querer obviamente chocar as convicções de ninguém. O chamado “barco do aborto” está a caminho de Portugal. Uma interrogação fundamental se me depara:
- Que diabo de país é este que ainda não conseguiu resolver este assunto a contento de ninguém, a ponto de ser considerado um dos países onde os direitos das mulheres nesta matéria são espezinhados?
Assim de repente, parece-me que despenalizar o aborto e criar condições de apoio e aconselhamento médico não é incentivar à prática do aborto. Isto é o que diz o senso comum. Afinal, as mulheres que se vêem sem condições para criar uma criança não deixam de praticar o aborto. Simplesmente, se tiverem dinheiro fazem-no sem riscos, se não tiverem arriscam-se a morrer.
Pensando um pouco sobre tudo isto, não consigo sequer perceber porque é que, num país em que, que eu saiba, já não existe religião oficial do Estado, se continua a seguir a política (mais habitual em países dominados até politicamente pela Igreja católica) de proibir e penalizar criminalmente as mulheres que decidem abortar. Despenalização significa que quem é contra continua a sê-lo e a seguir a sua consciência mas não obriga os outros a seguir as suas convicções. E isto é democracia e estado laico. Não me venham falar em direito à vida os que defendem que, quando há a escolher entre a vida da mãe e do bebé, se deve escolher o bebé e deixar morrer a mãe.
Dito tudo isto, eu não sou a favor nem contra o aborto. Sou totalmente a favor do direito de opção. Apoiado, aconselhado e acompanhado por uma política correcta de planeamento familiar.
Agora já desabafei, pronto. Tenho andado com esta conversa entalada na garganta há uns dias. Quem quiser saber mais sobre a “Women on waves” pode consultar este sítio.
Publicado por lique às 09:23 PM | Comentários (36)
agosto 26, 2004
Angústia de outono

A angústia é isso.
Olhar o espelho e não ver mais o rosto de que gostavas mas um outro em que as marcas do tempo se vão sentindo, pouco a pouco.
Olhar o teu corpo e saber que já não é o corpo jovem de outrora, tem marcas dos anos, dos amores, da maternidade tão desejada mas tão exigente.
Olhar as tuas filhas e vê-las mulheres jovens como já foste, há uns tempos. Orgulho mesclado com um pouco de inveja da vida por viver.
A angústia é isso.
Olhar para dentro de ti e encontrar lá escondida, num canto qualquer, a mesma rapariguinha, a mesma mulher. Sentir que, por dentro, não envelheceste. Tens algumas marcas, algumas rugas mas és capaz das mesmas ilusões e dos mesmos sonhos. Talvez mais serenos, mas ainda assim…
Porque é que a alma, o coração, onde quer que os sentimentos se alojem, não vai também envelhecendo, acomodando-se com o passar do tempo e adormecendo em paz?
Publicado por lique às 09:36 PM | Comentários (62)
agosto 25, 2004
Só eu sei meu sonho

Não estar aqui
SÓ
Não ser assim
EU
Ser sem sentir
SEI
Ter um viver
MEU
Voar em pleno
SONHO
Quadro: Naedja
Publicado por lique às 09:53 PM | Comentários (42)
agosto 24, 2004
Dos cavalos e das vacas

Acho que já disse que trabalho num edifício que se encontra dentro de uma quinta. Se não disse, fica dito. Da janela do meu gabinete, vejo um longo prado onde costumam estar cavalos e vacas. É sempre um prazer renovado olhá-los ali, quase em liberdade. Na semana passada, numa daquelas manhãs de chuva que já nos dão o Outono quando ainda não desfrutámos o Verão, fui ver se lá estavam e, de facto, alguém se devia ter esquecido de os guardar e a chuva fustigava-os com força. O que me chamou a atenção foi que estavam imóveis e se tinham encostado uns aos outros (cavalos com cavalos e vacas com vacas, também não exageremos), tentando que o corpo de outro os abrigasse da chuva. Não corriam, não se ouvia um som, abrigavam-se uns aos outros, só.
Olhando para as minhas habituais pilhas de papeis mais ou menos inúteis (se pensarmos em termos de destino da humanidade) e lendo de relance as notícias na net, interroguei-me sobre o que é que tinha feito perder à nossa espécie aquele sentido de protecção mútua. Houve tempos imemoriais em que as tempestades que fustigavam a humanidade eram mesmo só as tempestades da natureza. E em que o sentido de protecção mútua existia. Que se perdeu com tudo o que, supostamente, ganhámos? Vivemos hoje para nós e quando muito para os mais próximos (família). Talvez porque, nessa esfera, o instinto ainda se aplica. Mas e os outros? Importamo-nos com as tempestades de toda a ordem que os atingem? Oferecemos o nosso corpo ou a nossa mente como protecção?
Não vou deixar aqui mais perguntas. Isto é só uma reflexão acerca dos cavalos e das vacas…
Publicado por lique às 10:06 PM | Comentários (51)
agosto 23, 2004
Memórias do pano verde
Chegou um pouco cedo à sala onde se realizava a reunião. Olhou em silêncio a sala que tão bem conhecia. Uma mesa comprida e estantes altas, revelando a biblioteca que tinha sido anteriormente. Em cima da mesa costumava haver um pano verde, comprido dos lados, que agora não estava lá. Reparou na ausência do pano e a memória fê-la recuar uns quantos anos. Nunca fixara datas, não sabia dizer se tinha sido há dez anos ou menos. Talvez menos, pensou.
Viu-se de novo naquela reunião com cerca de 10 pessoas e lembrou que ele tinha chegado atrasado. Chegava sempre, até às reuniões. Como seria, agora? Sorriu. Lembrou-se da hesitação dele relativamente ao lugar onde se iria sentar. Nunca se sentava ao lado dela, desde que aquela relação meio louca tinha começado. Tinha ficado imóvel à espera, com o coração a bater acelerado. Afinal puxou a cadeira ao lado dela. E, como por mágica, as vozes dos participantes na reunião baixaram de tom, ficaram quase inaudíveis. Por baixo do pano verde, mãos agitaram-se em dança conhecida. Não se lembrava nada do que se tinha dito naquela reunião. Sabia que lhe tinham feito perguntas e que tinha respondido. Como? Quando a reunião acabou, dois carros saíram voando e, ali mesmo, num dos muitos recantos solitários daquela quinta que ele conhecia tão bem, deram-se um ao outro, como sempre. E separaram-se.
- Telefono-te depois
Telefonava sempre. Ela também. Mesmo que se passassem meses. Até ela se ter afastado, definitivamente. Pensou para si própria que nem tinha precisado de se perguntar porquê. Aconteceu. Como tudo o resto tinha acontecido, tantos momentos como aquele...
- Srª engenheira, a reunião vai começar.
- D. Fátima, tiraram o pano verde?
- Tiraram sim, as pessoas queixavam-se que fazia muito calor.
A D. Fátima nunca percebeu a gargalhada da engenheira. O que é que ela tinha dito que fosse assim tão engraçado?
NOTA: A engenheira e a D. Fátima são personagens de ficção com alguns pontos comuns com a realidade. Para quem não se lembra ou nunca leu, pode encontrar mais posts relacionados com o assunto aqui, aqui e aqui.
Publicado por lique às 10:32 PM | Comentários (42)
agosto 22, 2004
Janelas da alma

Se um dia
Por acaso
Alguma luz cintilante
Viesse bater à porta
Desafio lançado à vida
A tudo o que ainda resta
E eu não quisesse ouvir?
Se uma hora
Um instante
Qualquer raio de luar
Entrasse pela janela
Abrindo a estrada do sonho
Em dias já outonais
E eu desviasse o olhar?
Quando o vento (me) murmura
Dançando no meu beiral
Abro as janelas da alma
À procura de um sinal.
Quadro: Krista Taylor
Publicado por lique às 11:14 PM | Comentários (41)
Uma homenagem à escrita

Nas minhas viagens na net encontrei este sítio que está linkado aí ao lado em Sítios porque não é exactamente um blogue. Trata-se de uma homenagem à escrita, tal como o nome indica e podem lá encontrar biografias e textos de Al Berto, Fernando Pessoa, José Luís Peixoto, Ruy Belo, Sophia de Mello Breyner. Existem também colectâneas temáticas: Poetas a cantar, Poetas a rir e poemas e contos sobre gatos. O projecto está em desenvolvimento, podem deixar a vossa opinião, assinando o livro de visitantes. É uma visita que recomendo vivamente.
Publicado por lique às 01:45 PM | Comentários (12)
Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Publicado por lique às 12:01 AM | Comentários (16)
agosto 21, 2004
Baile de máscaras

Até o amor nos ensinar
dançaremos como quando dança
o mar
água que por dançar se deita
sem transparência
até lavarmos nossa cara
dentro da imprevista onda
derradeira
do mar a água mais clara:
a mais funda.
Até que a paixão nos instrua
dançaremos como se dançasse
a lua
que enquanto gira sempre oculta
a mesma face
até mudarmos nossa roupa
para vestirmos a máscara
absoluta
da lua a face mais clara:
a outra.
Jayme Kopke
Publicado por lique às 07:23 AM | Comentários (18)
Psst...

O Ognid do Catedral faz anos hoje. Como sei? Ora, disse-me aqui este meu dedo que adivinha! Vão lá dar-lhe os PARABÉNS!!!
Publicado por lique às 12:24 AM | Comentários (10)