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agosto 23, 2004

Memórias do pano verde

Chegou um pouco cedo à sala onde se realizava a reunião. Olhou em silêncio a sala que tão bem conhecia. Uma mesa comprida e estantes altas, revelando a biblioteca que tinha sido anteriormente. Em cima da mesa costumava haver um pano verde, comprido dos lados, que agora não estava lá. Reparou na ausência do pano e a memória fê-la recuar uns quantos anos. Nunca fixara datas, não sabia dizer se tinha sido há dez anos ou menos. Talvez menos, pensou.

Viu-se de novo naquela reunião com cerca de 10 pessoas e lembrou que ele tinha chegado atrasado. Chegava sempre, até às reuniões. Como seria, agora? Sorriu. Lembrou-se da hesitação dele relativamente ao lugar onde se iria sentar. Nunca se sentava ao lado dela, desde que aquela relação meio louca tinha começado. Tinha ficado imóvel à espera, com o coração a bater acelerado. Afinal puxou a cadeira ao lado dela. E, como por mágica, as vozes dos participantes na reunião baixaram de tom, ficaram quase inaudíveis. Por baixo do pano verde, mãos agitaram-se em dança conhecida. Não se lembrava nada do que se tinha dito naquela reunião. Sabia que lhe tinham feito perguntas e que tinha respondido. Como? Quando a reunião acabou, dois carros saíram voando e, ali mesmo, num dos muitos recantos solitários daquela quinta que ele conhecia tão bem, deram-se um ao outro, como sempre. E separaram-se.

- Telefono-te depois
Telefonava sempre. Ela também. Mesmo que se passassem meses. Até ela se ter afastado, definitivamente. Pensou para si própria que nem tinha precisado de se perguntar porquê. Aconteceu. Como tudo o resto tinha acontecido, tantos momentos como aquele...

- Srª engenheira, a reunião vai começar.
- D. Fátima, tiraram o pano verde?
- Tiraram sim, as pessoas queixavam-se que fazia muito calor.

A D. Fátima nunca percebeu a gargalhada da engenheira. O que é que ela tinha dito que fosse assim tão engraçado?


NOTA: A engenheira e a D. Fátima são personagens de ficção com alguns pontos comuns com a realidade. Para quem não se lembra ou nunca leu, pode encontrar mais posts relacionados com o assunto aqui, aqui e aqui.

Publicado por lique às agosto 23, 2004 10:32 PM

Comentários

Quantas vezes o sonho e a realidade não se confundem! Quantas vezes a realidade não sonha o sonho!Seremos pobres de pedir se não fizermos a nossa realidade sonhar o sonho. Beijos.

Publicado por: henrique doria em agosto 23, 2004 11:15 PM

Destinos fugazes, mãos cúmplices e uma Dona Fátima ao fundo. O pano (verde, claro... não verde-claro, mas verde, claro)inicia a sua ascensão lenta ao som das pancadas de Molière. Depois, deixa-se cair sobre a mesa da sala de reuniões, à boca da cena, deixando apenas adivinhar o jogo amoroso dos dois amantes, agora agitações de verde...
Ouve-se a Dona Fátima perguntando, na entrada da sala, quem quer um cafezinho...
Bem digo eu que ainda hei-de ver-te a publicar "A Estranha História da D. Fátima, da Engenheira e a Fundamentação dos Mitos Urbanos"... Sorriso, com beijo. (Gosto destas tuas histórias. Já tens um comprador para o livro).

Publicado por: OrCa em agosto 23, 2004 11:31 PM

Conheço essa ausência, dos ambientes e do tempo. Comentei hoje no blog Zen o seguinte: os momenentos de felicidade, não tem tempo. a felicidade é uma porta espaço-tempo que pára ( se fecha)com o sentir, por isso a pensamos curta...
Na verdade há momentos em que nos sentimos o centro do mundo, onde só o nosso sentir parece viver, e que temos a ilusão de serem pequenos instantes. Hoje na curta história que vou tentando contar tentei descrever essa ausência, em que o sentir nos arrebata o existir.
No entanto são esses pequenos momentos que nos acompanham anos após anos. se o tempo parasse ao contrário, isto é nos momentos em que nos sentimos tristes acho que seriamos sempre crianças...
(estou a ficar confuso, vou ficar por aqui)

Publicado por: almaro em agosto 23, 2004 11:34 PM

Bom, se a D. Fátima percebesse tinhamos a burra nas couves, lol. Está linda a tua estória... ou história? Nunca me entendo com a utilização destas duas palavras :)) bjks

Publicado por: ognid em agosto 24, 2004 12:15 AM

adorei. ;)

Publicado por: Márcia em agosto 24, 2004 01:10 AM

Olha, eu tenho uma grande identificação com esta engenheira, viu? E hj ela me fez viajar legal...rs... adoro todos os contos com ela! E a cada nova história, mais uma identificação! Será que somos, eu e ela, tão comuns assim? Ou vc faz parte do time? rs... Beijo amiga.

Publicado por: Loba em agosto 24, 2004 02:40 AM

Fiquei com uma pergunta (malandreca) em mente, que tipo de calor o pano verde fazia? ;)
lololololol

Beijos

Publicado por: Sara(vert) em agosto 24, 2004 03:51 PM

Ah, uma outra faceta tua que eu gosto tanto :-) Também compro o livro (como diz o OrCa). Beijo amiga PS: Isto hoje matou-te as saudades do Sapo não ? :-) Lá pelo meu canto voltou tudo ao normal... e não perdi nada ! (outro beijo)

Publicado por: inconformada em agosto 24, 2004 03:54 PM

Todas temos pedaços de memória semelhantes ao descrito neste texto. E que bom poder, entre essas reminiscências, atentar na comicidade dum pormenor, e soltar uma boa gargalhada!
Um beijo, amiga!

Publicado por: Nuri em agosto 24, 2004 04:11 PM

Lique, minha amiga, hj passo para deixar-te um beijinho e prometo voltar para conseguir ler com tempo este texto e fazer a pesquisa dos "aquis" referidos. Tenho que sair agora a correr...tu sabes. Bj, linda! Fica bem

Publicado por: Lia em agosto 24, 2004 04:20 PM

Mãos que conheciam e transpiraram o que os anos e as circunstâncias não conseguem apagar ou fazer esquecer.. **

Publicado por: M.P. em agosto 24, 2004 04:33 PM

Lique
Bati mesmo com o nariz na tua porta, que estava fechada por culpa da weblog.
Gostei da história (panos verdes há muitos... e ainda bem, porque se não era tudo certinho na vida...).
Beijinho.

Publicado por: Nilson em agosto 24, 2004 05:03 PM

Passei para deixar um beijinho e desejar boa semana. A tua história, primorosamente contada, como sempre. Um abraço amiga e fica bem.

Publicado por: Margarida em agosto 24, 2004 05:43 PM

>>Henrique: tens muita razão, o sonho deve sempre fazer parte das nossas vidas. Bjs

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 05:52 PM

>>OrCa: se eu escrevesse algum livro, garanto que tu tinhas que escrever o prefácio... que seria de certeza melhor que o livro! Beijos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 05:53 PM

>>Almaro: Na tua história, a afinidade dos personagens para o tempo. Talvez tenhas razão, talvez a felicidade faça o tempo parar, por isso nos pareça sempre tão curta. Não estás nada confuso. Os teus comentários é que me põem confusa.:) beijos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 05:57 PM

>>ognid: pois era, ia ser o bom e o bonito... Quanto às palavras, deixa lá eu também me baralho.:) Beijinhos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 05:59 PM

>>Márcia: obrigada, amiga! Beijos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:00 PM

>>Loba: também me identifico muito com os teus textos, por isso se calhar a equipa é a mesma!! :) Beijos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:04 PM

>>Sara (vert): ora...;)***

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:06 PM

>>Inconformada: pois, vão esperando pelo livro... É, isto hoje foi para eu me arrepender de falar mal do Sapo! Mas espero que já esteja tudo em ordem. Beijinhos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:08 PM

>>Nuri: é, suponho que este tipo de episódios sucedam na vida de quase toda a gente. E é bom quando a lembrança é divertida! Beijinhos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:10 PM

>>M.P.: mas são boas lembranças, amiga! Isso é que conta. beijinhos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:11 PM

Lique, pequenos momentos que nos fazem viajar no tempo. Mais um belo texto com as nossas conhecidas personagens. Beijos

Publicado por: Marcia em agosto 24, 2004 06:15 PM

>> Nilson: então não é? Panos verdes ou outras variantes fazem parte de viver a vida e não lhe fugir. Bjs

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:16 PM

>>Lia: já te saltei nos comentários... Desculpa. Um beijinho grande, amiga.

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:17 PM

>>margarida: obrigada pelas tuas palavras. Tem uma boa semana. beijo

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:18 PM

>>Márcia: é verdade, fazem-nos viajar para lembranças no fundo da memória... Obrigada. Beijos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 06:21 PM

Lique, só agora consegui entrar no teu blog. Gostei imenso do "capítulo" da engenheira. Não fui, ainda, ver os links para os anteriores, fá-lo-ei logo.
É curioso, como os registos de linguagem, na prosa como na poesia, em ti, não se colocam em extremos. Contém, ambos, a qualidade a que já nos habituaste! Ainda bem! Gostei muito, muito. Beijinho.

Publicado por: moriana em agosto 24, 2004 08:12 PM

Bom , sim enhor gosto de saber que tantas coisas mesmo boas acontecem na vida de toda a gente...mesmo que sejam personagens de ficção:-)
vou dar uma volta nos blogs seus amigos,veremos se algum me vai fazer uma visita;)aquilo por lá procura ser o mais leve possivel:-)

Publicado por: annie hall em agosto 24, 2004 08:28 PM

Folgo em saber q essa personagem consegue rir do passado; sinal de q as repercussões não foram nefastas. Faça-se já um abaixo-assinado p a reposição do pano verde! Ou deduza-se o nr de reuniões... ;) Kiss, cúmplice, claro (q n escuro, como o verde, do pano, claro!)

Publicado por: MJM em agosto 24, 2004 08:30 PM

>>moriana: obrigada pela apreciação, amiga! Eu escrevia muito quando era mais nova, depois deixei e recomecei exactamente quando iniciei o blog no Sapo. Mas a minha formação não é de letras e a linguagem tem talvez esse reflexo da formação científica. Beijinhos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 08:43 PM

>>Annie: eu tenho ido espreitar o seu blogue, mas o avião ainda não tinha aterrado! :) beijinhos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 08:45 PM

>>MJM: nefastas? Não, baby. Naquilo que eu imagino da personagem, tudo evoluiu para uma boa lembrança;) Também acho que o pano verde devia ser reposto! Beijinhos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 08:47 PM

Ai, as histórias que este pano verde podia contar!Não há direito, tirarem-no assim sem pré-aviso...hehe...beijos

Publicado por: MWoman em agosto 24, 2004 09:50 PM

>>MWOMAN: pois é, reformaram-no quando, se calhar podia dar jeito a tanta gente...;) Beijinhos

Publicado por: lique em agosto 24, 2004 09:51 PM

(Cá muito ao fundo, em rodapé... Lique, fico até sem jeito... lá vai o meu fornecimento de lenços de papel!)

Não senhora, mulher! Aquela engenheira, mai-la D. Fátima são personagens cheias de futuro. O quotidiano (urbano?) visto por dois olhares de ironias entrecruzadas... Cheias de presumível entendimento mútuo... e, afinal, tantas vezes iludidas pelos seus próprios arquétipos (ou estereotipos). (- Vê lá tu, que até me dá para os palavrões!...)

Vai-te a elas, bora! Já sabes, dois já te compram o livro!

Publicado por: OrCa em agosto 24, 2004 11:30 PM

Como cantava o Ney: "É por debaixo dos panos..." :) Ah! os sentimentos à solta. Que bonito :-) Beijinho, Lique

Publicado por: yardbird em agosto 25, 2004 09:07 AM

Aqui entre nós... Que saudade tenho do "meu" pano verde! Beijo

Publicado por: fernanda em agosto 25, 2004 09:07 AM

>>OrCa: bom, com dois compradores garantidos, tenho que me pôr a pensar nisso...:)) Bjs

Publicado por: lique em agosto 25, 2004 10:31 AM

>>Yardbird: por acaso, quando escrevi isto lembrei-me dessa canção do Ney, sim senhor... :)) Bjs

Publicado por: lique em agosto 25, 2004 10:33 AM

>>Fernanda: não temos todas (os)? Mas qunado a recordação que fica é boa, são experiências ganhas. Beijinhos

Publicado por: lique em agosto 25, 2004 10:34 AM