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agosto 28, 2004

Vieste como um barco carregado de vento 

Ag.jpg


Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

Maria do Rosário Pedreira

Publicado por lique às agosto 28, 2004 08:19 PM

Comentários

Estranhamente, a minha inquietação de toda a tarde acomodou-se ao ler este poema que transcreves. O movimento do mar pacificou-me. Poema de sentimentos ainda vivos mas solitários, já sem correspondência. Impressionante a assumpção de que só no sonho é possível a imagem perdida. Beijinho.

Publicado por: moriana em agosto 28, 2004 08:52 PM

Lique, que poesia mais linda...estou encantada. Não conhecia Maria do Rosário e vou procurar saber mais de suas obras...acho que vou fazer um post sobre ela no LS. Obrigada por esse poema. Beijos

Publicado por: Marcia em agosto 28, 2004 08:53 PM

Lique. passo a vir aqui, gosto!bj

Publicado por: hammer em agosto 28, 2004 09:07 PM

Bela escrita da Maria do Rosário. E talvez pq a noite de sábado esteja particularmente bonita retenho ..."e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.".Bj

Publicado por: Lia em agosto 28, 2004 09:45 PM

Lindo, simplesmente lindo. Um mar de sensações já vividas...

Publicado por: polittikus em agosto 28, 2004 10:13 PM

gosto imenso deste poema .bjs.

bfs.

Publicado por: maat7 em agosto 28, 2004 11:21 PM

tb te agradeço e muito este maravilhoso texto pra fechar a minha noite de sabado... lindo!
bj

Publicado por: pandora em agosto 28, 2004 11:41 PM

Lindíssimo este texto..
Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
Um beijo azul com a lua cheia ao fundo.

Publicado por: atuaLolita em agosto 28, 2004 11:46 PM

"Cheguei" aqui, pela "mão" da Maria.
Belíssima escolha esta!
Vou voltar.
Parabéns por tão bonito espaço.
Beijo

Publicado por: Cris em agosto 29, 2004 12:24 AM

Texto dorido, magoado.. mas muito bonito...
Deus, como somos frágeis!...
Uma boa semana, beijinho.

Publicado por: Nuri em agosto 29, 2004 11:32 AM

{ olá lique ... desculpa não ter sido explicito no teu post'e anterior ... por isso ... deixo um novo comentário nesse post'e ... gostei muito deste novo design muito acolhedor proprio do seu autor © biquinha ... }{ beijos* }

Publicado por: o5elemento em agosto 29, 2004 12:11 PM

A fotografia do olho é fenomenal!!! Parabéns!!!

Publicado por: Gotinha em agosto 29, 2004 12:17 PM

finalmente consegui encontrar.te ufffaaaaaaa!!!!!!

ora estavas num lado, ora noutro lado...bonita casinha nova....aquele olho tá lindo.

venho logo com mais tempo para ver esta casainha linda. beijocas

Publicado por: sofia em agosto 29, 2004 03:01 PM

a desilusão da vida ou o estranho reconhecimento da realidade, daquilo que nos fica, do que nos diz a nós próprios e que mais ninguem sabe, a não ser os breves pensamentos quando olhamos a vida e que contamos vagamente para os outros se aperceberem das breves angústias...
a vida é tremendamente complicada por ser tão simples...

Publicado por: hammer em agosto 29, 2004 04:17 PM

Vale sempre a pena esperar !

Publicado por: Finurias em agosto 29, 2004 04:32 PM

Tristemente LINDO este Poema... Termina na noite, em casa... Ao mesmo tempo que há um caminho de fora para dentro - interiorização de uma tristeza imensa por uma perda incomensurável - dá-me a sensação de essa noite ser também o caminho contrário, de dentro para fora, em entrada pelo sonho que funcionará como lenitivo para todo esse sofrimento... Será? **

Publicado por: M.P. em agosto 29, 2004 05:47 PM

Bonitas escolhas que fazes, lique. Este em particular, embora triste, é lindíssimo...beijos e um resto de domingo feliz.

Publicado por: MWoman em agosto 29, 2004 07:02 PM

A TODOS: obrigada por terem vindo ler este poema, que eu pessoalmente acho lindíssimo, de Maria do Rosário Pedreira.
Quero dizer olá e dar as boas vindas à Cris e à Gotinha que vejo aqui pela primeira vez. Visitar-vos-ei em breve.
À Márcia quero dizer que, se quiser fazer um post sobre esta poetisa, encontra na net alguns bons sítios com referências. Quanto mais leio poemas dela, mais gosto da forma extraordinariamente bela e comovente como ela assume a fragilidade perante a separação, a ausência, a solidão.

Beijinhos e uma boa noite de domingo!

Publicado por: lique em agosto 29, 2004 07:45 PM

Não conhecia a poetisa, Lique. Gostei. Vou ver o site. Beijinho

Publicado por: yardbird em agosto 29, 2004 09:02 PM

Não conhecia. Vou ter que arranjar tempo para ir lá ao site ver. bjks

Publicado por: ognid em agosto 29, 2004 10:50 PM

lique, tão belo, tão um pouco de todas nós, mulheres...que continuamos a guardar nossas belas
lembranças no país dos sonhos...

Beijinhos

Publicado por: betania em agosto 31, 2004 01:17 AM