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outubro 25, 2004
Dizer...

dizer amo-te devia chegar
porquê falar das tuas mãos
fazendo a ronda do meu corpo?
porquê encontrar as palavras
sempre tão poucas e pequenas
para o que sinto quando me olhas
antecipando as horas do prazer?
porquê procurar sons incompletos
para teus lábios ansiosos em mim
procura dos recantos escondidos
do corpo e da alma em comunhão?
porquê querer dizer o indizível
a entrega última de corpos sedentos
o atingir a luz em explosão de cor?
porque preciso explicar a ternura
teus olhos pousados sobre meu rosto
no tempo de deixar que o cansaço
nos agarre em murmúrios doces
nos embale até à hora de partir
sem que nenhum parta realmente?
dizer amo-te devia chegar…
(Até para a semana. Espero voltar a meio da semana. Obrigada a todos os que passarem e lerem)
Publicado por lique às 10:24 AM | Comentários (60)
outubro 23, 2004
Redemoinho inconstante

não contemplo hoje o mesmo mar
daqueles dias de mágicos encontros
a inquietação tomou conta das águas
deixando uma lágrima em cada vaga
feita em espuma ténue de desilusão
sei o mar inconstante na cor, na energia
do redemoinho que me arrasta em turbilhão
por isso dele aparto hoje o meu olhar
renego em mim a imagem quase negra
até outra maré de azul me encontrar
Publicado por lique às 12:52 PM | Comentários (36)
outubro 21, 2004
A sesta
Hoje tenho que falar sobre um assunto de importância capital. Pelo menos deve ser, a julgar pelo destaque que lhe tem sido dado a nível da comunicação social e até do governo. Estou a referir-me à sesta. Não, não é a sexta nem a cesta. É mesmo a sesta. Aquela que se faz durante a tarde e que pode ser mais ou menos saborosa e revigorante, dependendo da duração e de ser feita com ou sem companhia.
Acham, por acaso, que estou a divagar sobre um assunto trivial? Não, porque a questão de saber se um primeiro-ministro deste país de brandíssimos costumes e longas sestas fez ou não uma (sesta) entre uma sessão da Assembleia da República e alguns desfiles da Moda Lisboa foi assunto de discussão durante vários dias. Não fora o magno problema do “peixeiral” entre os dirigentes do Benfica e do Porto e ,certamente, ainda se discutiria a sesta do P.M. Logo, é de crucial importância para o país.
De facto, se contabilizarmos as horas que o primeiro-ministro leva a fazer a sesta mais aquelas em que, digo eu, terá que despachar (com) as suas assessoras, parece-me que sobeja pouco tempo para a governação e para fazer jus ao que todos nós lhe pagamos. Já não estou a falar de festas, particulares ou outras, nem dos roteiros da noite tão do seu agrado. Mas, por outro lado, não será melhor que ele faça a sesta todos os dias, diminuindo assim o risco de decisões menos acertadas (reparem na contenção da linguagem, por favor…)?
Claro que é difícil fazer uma análise profunda da questão e balançar os prós e os contras. Mas, atendendo a que existe em Portugal uma “Associação dos amigos da sesta” que defende acaloradamente os seus benefícios, da qual fazem parte membros proeminentes da nossa sociedade e que até já convidou o P.M. para fazer parte da mesma, porque não institucionalizamos de vez a sesta ,aderimos todos à associação e passamos, pelo menos, a ter umas horas durante o dia em que não somos agredidos por tanta cretinice junta?
P.S.: depois deste texto escrito, tive hoje a notícia de que o P.M. pretende colocar professores sem turma como assessores de magistrados. Pensei que não tinha ouvido bem, mas tudo indica que é verdade, hoje à noite disseram o mesmo, já com as reacções de trinta mil (e uma) entidades.
Então não seria melhor se o homem estivesse a fazer a sesta quando lhe deu para pensar?
Publicado por lique às 09:05 PM | Comentários (37)
outubro 19, 2004
Dia de chuva

A chuva bate nos vidros tapando a visão da paisagem. Desfocadas, as copas das árvores deixam-se balançar com o vento, sabendo que não vale a pena lutar com a natureza.
Vem lá de fora uma insinuação de melancolia que parece colar-se à humidade que impregna os campos, os prédios, até as pessoas. Mas hoje não a vou deixar entrar. À minha volta existe um escudo de doçura e calor, vindo de paragens outras onde é gerado, alimentado e intensamente partilhado. Com esse escudo me protejo hoje contra a força dos elementos e das agressões da vida.
Do leitor de CDs do PC vem o som da música de George Gershwin. A chamar o azul.
Publicado por lique às 09:06 PM | Comentários (77)
outubro 18, 2004
Frente ao mar

agora frente ao mar encontro a serenidade
o coração devagar aquieta-se na certeza
da hora da entrega ao ritmo doutras ondas
navegando marés que morrem noutras praias
raios de sol filtrados por nuvens de Outono
não início de Inverno só primavera tardia
depõem em minhas mãos a dádiva antecipada
despertando o sonho que em vagas inebria
apazigua-se o mar nas rochas junto à praia
e prende o meu olhar para lá do horizonte
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (92)
outubro 16, 2004
Consequências dos excessos de álcool
“Era uma vez um rapaz texano que gostava de se meter nos copos. Em certa ocasião, conduzindo bêbado como um cacho, perdeu o controlo do seu automóvel e destruiu os caixotes de lixo da casa paterna. O pai repreendeu-o duramente, a mãe, Barbara, reconheceu que o rapaz tinha sérios problemas com o álcool e, para o ajudar a corrigir o rumo, confiaram em Deus, que é americano, e nuns milhões de dólares que o garoto perdeu estrepitosamente em péssimos negócios petrolíferos. Demonstrou que era incapaz de administrar a sua própria casa e voltou com fúria ao caminho do álcool. Bourbon, cerveja, vinho californiano, tequilla, desciam pela garganta do jovem texano até que um dia o esperado milagre se apresentou diante dele. Chamava-se Billy Graham, o maior show-man religioso da União. «Aleluia! Louvado seja Ele» gritava o jovem texano nos estádios repletos de outros alcoólicos e alienados como ele. E Deus ajudou-o, agora é Presidente dos Estados Unidos da América e um intelectual requintado, como nos recorda o seu discurso pronunciado na universidade da elite da costa Este a poucos meses de assumir o cargo: «Não tinha qualquer ideia do que devia fazer quando cheguei. Conhecia alguns que tinham um plano, mas muito em breve ficou demonstrado que nos esperavam todas as possíveis vitórias e todas as derrotas, que geralmente nos causam grandes surpresas.»
Este intelectual é hoje o homem mais poderoso do mundo e os que se curvam à sua passagem querem evidentemente ser como ele.”
Luís Sepúlveda, in Uma história suja
(Hoje nem é por ser fim de semana. Estou a ler este livro de “apontamentos” de Luís Sepúlveda e, de repente, pareceu-me interessante este retrato do homem mais poderoso do mundo. Mesmo que já quase todos saibam, não é de mais relembrar.)
Publicado por lique às 05:54 PM | Comentários (32)
outubro 14, 2004
Espera

Pablo Picasso, Sleeping woman
Alonga-se no sofá. Ajeita-se na cadeira ao pé da mesa. Paira no ar que absorvo. Impregna o papel que me desafia. Contempla o Outono avançando nos verdes que já não o são. Torna os dias compridos, mesmo nas horas sem sol. Entra nos sonhos das noites e no sono leve das madrugadas. Acende-se com sons, palavras, mitigação de ansiedades. Instala-se nas horas corridas que a vida impõe. E cresce. Insinua. Inquieta. Dói.
A espera (de ti).
Publicado por lique às 09:29 PM | Comentários (47)
outubro 13, 2004
O inferno dos dias
Todos os dias repito os gestos conhecidos que me dão a segurança da vida cómoda, da casa, do emprego, da televisão, do computador, do video, do cinema…
Ao meu lado, à minha frente, quase em directo morre gente e eu olho. E indigno-me. Ah, claro que me indigno ! E até sou capaz de participar em acções de protesto e todas essas coisas bem intencionadas que fazemos para aliviar consciências. Assino petições e coisas assim. Posso também escrever um texto a que alguns chamam poema...
Não sei porque é que hoje olho para mim e acho tudo isto uma hipocrisia. Hoje não aconteceu nada de especial. Morreram mais uns milhares de crianças de fome e doenças em África. Aqui em Portugal e um pouco por todo o mundo, mulheres morreram em consequência de abortos realizados em condições indescritíveis. No Iraque, devem ter morrido mais uns quantos que vão engrossar as estatísticas , dos dois lados. Na Palestina, a guerra de pedras e pessoas-bomba contra mísseis continua em bom ritmo. No Sudão, tenta-se que os milhares de refugiados voltem a Darfur, restando saber até quando durará a acalmia. Esta lista está, claro, muito incompleta.
Aqui mais perto, mesmo no nosso jardim à beira mar plantado, a corrupção, a iniquidade, a injustiça aparecem abundantemente espalhadas nos media. E não sabemos da missa a metade. Pois claro que me indigno. E digo-o com todas as letras. De vez em quando também escrevo qualquer coisa razoavelmente poética sobre o assunto. E depois? Ah, claro, voto em quem me parece estrategicamente a melhor opção para melhorar este estado de coisas. E tudo continua igual.
Hoje sinto-me hipócrita, triste e impotente perante a voragem de um mundo em que a espécie humana conseguiu construir vários infernos nos quais vamos ardendo, devagar.
Após ter escrito o post, ao reler a Obra Poética de Sophia de Mello Breyner, este poema pareceu vir, em parte, de encontro às minhas dúvidas. Nas palavras de Sophia pareceu-me haver uma resposta.
A FORMA JUSTA
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos-se ninguém atraiçoasse-proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
-Na concha na flor no homem no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas
Publicado por lique às 12:08 AM | Comentários (69)
outubro 11, 2004
A ver cinza no azul

Faz-se o dia entardecer
O sol brinca às escondidas
Com as nuvens escurecidas
Todo o branco fica sujo
Todo o verde já é murcho
Sem a côr-água alcançar
Meus olhos perdem o mar
Na tarde a hora parada
Traz a alma amordaçada
A ver cinza no azul.
Publicado por lique às 04:31 PM | Comentários (75)
outubro 10, 2004
Colateral

Já há uns tempos que aqui não falava de cinema. Nas últimas semanas vi dois filmes que se destacaram do triste panorama de heróis de BD, histórias fantásticas, etc. pelo qual o cinema americano enveredou. Estou a falar de “Terminal de Aeroporto” e “Colateral”.
De “Terminal de Aeroporto” não direi nada a não ser que gostei. A Dora já fez, sobre este filme, um post magnífico (Voltar a casa,do dia 16 de Setembro), e quando a Dora fala de cinema eu guardo silêncio, em reverência.
Ontem fui ver “Colateral”. Sabia que era mais um filme com Tom Cruise (o que não me dizia muito, a não ser da regularidade com que este homem trabalha) , que se inseria no género “thriller” e que o realizador era Michael Mann que, entre muitos outros, fez “O Informador” com Russell Crowe (esta , sim, era uma referência positiva).
O filme passa-se em Los Angeles. As principais personagens são Max, um taxista (Jamie Foxx) e Vincent, assassino profissional (Tom Cruise) que entra no táxi de Max, dando início a uma noite alucinante. E, personagem de fundo e talvez a mais marcante, a noite na selva urbana de L.A.
Toda a acção se centra na interacção entre as personagens centrais e na delas com a cidade e o seu sub-mundo de crime. Polícia, perseguições, amores e tudo o resto estão lá para nos ajudar a compreender a história. Não são aspectos demasiado explorados a não ser na medida em que nos ajudam a perceber Max e Vincent. E a cidade.
O filme desenrola-se num ritmo brilhante até quando parece que pára, de acordo com as reflexões interiores das personagens. As imagens da cidade são belas e têm, ao mesmo tempo, algo de desumano. A música sublinha extraordinariamente os momentos em que Max e Vincent se sentem perdidos neles próprios, no que são, no que podiam ter sido.
Para mim, momentos particularmente brilhantes são a visita à mãe de Max no hospital e a extraordinária cena em que dois coiotes (lobos?) se atravessam à frente do táxi, numa zona relativamente isolada da cidade. O tempo pára aí, juntamente com o táxi.
Tenho dúvidas sobre se os dois actores escolhidos são os melhores para este filme. Não gostei particularmente da interpretação de Jamie Foxx do pacífico, sonhador e, ao mesmo tempo indeciso taxista que vai ultrapassar os seus limites e, de certa forma, encontrar-se. E, perdoem-me as muitas admiradoras de Tom Cruise, embora ele consiga no olhar o desencanto e a raiva suficientes para fazer um Vincent que nos convence, lembrei-me de muitos outros actores que fariam aquele papel de forma bastante mais densa. Não sei se será desta vez que ele vai alcançar o Óscar que há tanto tempo persegue. Mas nem a escolha dos actores nem sequer a utilização de alguns clichés de filmes do género conseguem estragar o filme, o que diz muito da realização, da fotografia e da música. E da forma como Los Angeles e a sua terrível desumanização continuam a inspirar o cinema americano e a dar-nos filmes extraordinários dentro de género, como este.
Publicado por lique às 01:30 PM | Comentários (27)
outubro 08, 2004
Talvez...

Talvez um dia te diga
que chegaste quando não queria ver para além dos muros transparentes que o vidro gelado formava à minha volta.
Talvez amanhã te fale
de como esse jeito provocador desafiou restos de uma velha ousadia e desbravou caminhos que julgava fechados.
Talvez mais tarde te conte,
quando na verdade um de nós partir por esses caminhos que pisei sem lágrimas, que chegaste quando já não eras esperado.
Talvez te diga o que sabes
das surpresas da vida no dobrar de cada esquina.
Publicado por lique às 07:00 PM | Comentários (42)
outubro 06, 2004
Sem grande importância

Sem que isso tenha grande importância
Hoje já só queria um abraço
Um doce, terno e sentido abraço
Que me deixasse esquecer o cansaço
E me levasse pela estrada de volta
Ao tempo bom da vida sem freios
Onde caminho ao sabor dos anseios
Sem que isso seja muito necessário
Hoje queria apenas uma carícia
Suave de dedos roçando no rosto
Que do amor me trouxesse o gosto
E me levasse a procurar a vereda
Estreita de encontro à luz de anil
Talvez azul ou de outras cores mil.
Publicado por lique às 10:20 PM | Comentários (57)
outubro 05, 2004
O ar condicionado
Estamos no Outono. Os dias não deviam ser tão quentes. D. Fátima, encalorada também com aqueles problemas que a mudança de idade só traz às mulheres (abençoadas, de facto, por suportarem todas as partidas que a natureza lhes prega), abanava-se no gabinete.
- Vejam lá se neste gabinete puseram ar condicionado! Lá em cima no da senhora engenheira é um luxo. Fresquinho, sempre que lhe apetece. E ainda tem aquela janela tão grande. Nós aqui estamos num cubículo…
As colegas de gabinete já estavam habituadas ao discurso. Como sabiam que não ia levar a nada, calavam-se com o nariz enfiado nos papéis.
-Pois e vocês não dizem nada! Já não me basta falar para o boneco lá em casa!
Nesse dia D. Fátima decidiu ir falar com a engenheira sobre o assunto. Bateu à porta (sempre fechada aquela porta…) e foi entrando mesmo sem licença.
-Entre, entre! Então há algum problema?
(Que diabo quer ela agora?)
-Srª engenheira, eu vinha perguntar se era possível pôr ar condicionado na sala lá de baixo. É que nós sofremos muito com o calor…
- As suas colegas nunca me disseram nada disso.
- Pois, elas não querem incomodar. Mas eu…
- A senhora não se importa de incomodar, não é?
O sorriso na cara da engenheira não parecia de bom agoiro. Quando ela queria resolver os problemas, não sorria.
- Posso vir noutra altura… mas é que, sabe, eu já não ando bem com isto …sabe? E depois também todos os dias o meu marido me diz que tenho que ir ao médico, que estou a ficar impossível de aturar. Eu já chego aqui num estado de nervos… E ainda com este calor!
- E deve ir ao médico, de facto.
E a engenheira olhou para ela. Talvez pela primeira vez, olhou mesmo. Ficou um bocado em silêncio e disse:
- Vamos ali falar com o Dr. Marques para ver o que é possível fazer.
O Dr. Marques era o responsável pela área financeira. D. Fátima pensou que preferia não ir lá, mas a engenheira já tinha saído porta fora.
- Marques, preciso saber se é possível pôr ar condicionado na sala lá de baixo. As senhoras queixam-se do calor. E, de facto, aquilo não tem condições nenhumas.
- Ora, não me diga que só deram por isso, agora!
- Não, só se queixaram agora…
- Não há verba nessa rubrica e …
- Tretas, homem! Eu bem sei o que acabaram de adquirir para o gabinete da Direcção. E também não havia dinheiro na rubrica, antes. É só um ar condicionado.
O Dr. Marques conhecia o mau feitio da engenheira. Sabia que ela não ia desistir e era bem capaz de lhe fazer o rol de tudo o que tinha sido adquirido sem “haver verba na rubrica”.
- Pronto, está bem ,faça lá a requisição. Mas vai ser difícil…
- Sei que vai ser difícil. Desde que seja rápido! Muito obrigada, Dr. Marques.
Cá fora a D. Fátima achou que devia agradecer. Afinal a mulher tinha resolvido o problema e o ar condicionado fazia-lhe muito jeito.
- Obrigada, Srª engenheira. Agora é que as minhas colegas vão ver! Diziam para eu não vir falar consigo e afinal... Que bom! Sabe, falei-lhe outro dia daquele problema da minha mãe e...
Rapidamente a engenheira atalhou:
- Isto não foi nada. O melhor é a senhora e as suas colegas andarem atrás das meninas da Financeira para terem o ar condicionado. Senão, ou não têm nada ou, no máximo, conseguem uma ventoinha. Ah, e vá ao médico, D.Fátima!
(Estupor de mulher! Nem um agradecimento se pode fazer...)
[A pedido de várias famílias e particularmente dos admiradores da D. Fátima, ela e a engenheira voltam ao vosso convívio. Por mim, estou a ficar um pouco cansada das duas... Para quem não se lembra ou nunca leu, pode encontrar mais posts relacionados com o assunto aqui, aqui, aqui e aqui. ]
Publicado por lique às 03:56 PM | Comentários (70)
outubro 03, 2004
Da saudade

Foto: Man Ray, Tears
A saudade foi entrando sem pedir. Primeiro doce lembrança, depois ligeiro desconforto. Resisti-lhe. Não gosto de me deixar invadir por algo que não controlo.
Riu-se de mim e despertou sentidos para melhor me dominar. Foi-me envolvendo num laço que, a pouco e pouco, se apertou dentro de mim. Tentou deitar abaixo os muros das minhas certezas. Carregada de pedaços de sonho, instalou-se como se fizesse parte do rio que me percorre.
Lutei, procurei tudo o que a vida me ensinou para a enfrentar. Mas, a cada argumento meu, respondeu destapando o que em mim residia sem que eu visse, sem que soubesse sequer.
Não me deu tréguas e já não tento domá-la. Sei que se acalma no olhar das palavras, nas noites em que até o sono se esconde.
Publicado por lique às 08:11 PM | Comentários (80)
outubro 01, 2004
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
Florbela Espanca
(Início de um fim de semana longo. Prevê-se que o sol continue a brilhar. Deixo a quem passar por aqui este belo poema de Florbela)
Publicado por lique às 10:23 PM | Comentários (36)