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novembro 29, 2004

Quero escrever-te uma carta

StillLifewithLetter.jpg

Quero escrever-te uma carta
de dor
de amor
de humor
Quero enviar-te um postal
de candura
de ternura
de aventura
Quero mandar-te um recado
Rasga a dor
Lê o amor
Ri do humor
Sorri da candura
Chora com ternura
Parte para a aventura


(Texto já publicado no Blogue de Cartas)

[Estamos numa semana light (com menos um dia) e a entrar na dita "época festiva". Desculpem a reciclagem de um texto que, ainda por cima, se farta de dar conselhos. Aproveitem os feriados, partam para a aventura e deixem lá os blogs - este é o conselho que falta]

Publicado por lique às 09:14 PM | Comentários (39)

novembro 27, 2004

Sabendo ser a hora

LoversInTime.jpg

Murmura suave o silêncio da tarde
como se a vida parasse por ali
naquele estar só um
onde dois se encontram.
Algures deve ter cantado um pássaro
que lançou no ar as notas inaudíveis
arrepio sentido no corpo dos amantes
que se olharam na alma
sabendo que era a hora.
E disseram a palavra inevitável
em todas as partidas impossíveis
alma plena olhando mãos vazias

aquele ser só um
sabendo ser a hora


Ilustração daqui

Publicado por lique às 02:24 PM | Comentários (70)

novembro 25, 2004

Os dias

Hourglass.gif

Não há dias perfeitos
Nem aqueles em que dos papeis surge uma excepção
Que traz um sentido de fazer a diferença
Nem aqueles em que o sol brilhante me chama
Quando se reflecte no meu mar azul
Nem aqueles em que uma ternura infinda me encontra
E me faz pensar que há felicidade

Nenhum dia é perfeito
Porque a dor espreita em cada minuto de alegria
A minha, a de outros, a dor do universo
Aquela de que me defendo mostrando indiferença
Mas de alguma forma se faz presente

Já não busco dias perfeitos
Só tento unir pedaços em que a vida se diz bela


Foto daqui

Publicado por lique às 06:18 PM | Comentários (38)

novembro 23, 2004

Realidade

whatdidido.jpg

No rectângulo mágico que perdeu o encanto
nas letras trágicas vermelho negro dos jornais
em tudo o que é escrito ou falado em cada dia
não conto os mortos da guerra, da fome, da injustiça.
Para quê contar baixas quando a esperança se extingue?
Só conto olhares pergunta de crianças esfarrapadas
rugas de mulheres onde as lágrimas fazem leito.
Conto gritos de silêncio nos olhos dos homens
e deixo que a dor me tome, me embale, me segrede
me grite até que eu sinta
me encoste na parede
áspera e fria da realidade.

(Foto tirada daqui. Obrigada ao Pantanero por ter indicado o link)

Publicado por lique às 05:55 PM | Comentários (44)

novembro 21, 2004

Tão longe, tão perto…

Terminal-City.jpg

É um mundo de palavras feitas sentimento
imagens belas, mais que a realidade
ou talvez ousadas a acordar sentidos
Um mundo de sonhos na ponta dos dedos
diálogos pensados sentidos nas letras
que enchem de ilusão o rectângulo de luz

Por detrás dos sonhos existem pessoas
tão longe e tão perto da mão que se estende
rostos sem contornos, sorrisos ou lágrimas
pessoas palavras ao ritmo dos dias
dizendo o que hoje transborda dos dedos
no mundo sonhado em letras reais

Existem pessoas no mundo dos sonhos
tão longe, tão perto da mão que se estende

Ilustração daqui

Publicado por lique às 07:17 PM | Comentários (60)

novembro 19, 2004

Segredo

Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira


Há segredos que não se desvendam. Segredos que sabemos não com o cérebro mas com os sentidos. Segredos que estão em nós e que só alguém pressente.

Publicado por lique às 10:33 PM | Comentários (30)

novembro 17, 2004

Vício

File1657162134.jpg


Vivo presa
em sons murmurados na urgência das horas
palavras escritas, letras de azul
em fundo de luz
aromas que ficam, persistem
vestígios de ti

dá-me agora
a dose diária de amor ternura
antecipada
o pózinho pouco de ciúme
sem razão visível
aquela pitada premente de desejo
ansioso

mata-me hoje o vício de ti.


Ilustração daqui

Publicado por lique às 10:40 PM | Comentários (77)

novembro 16, 2004

A janela da amizade

janela-poetas-1.jpg


somos mulheres e sabemos
da dor a presença escondida
sentimo-la quando todos riem
sabemo-la quando alguém nos diz
que num dado dia foi feliz
mas vem um dia em que a vida
desaba feita um céu que nos empurra
nos comprime contra um chão de pedra fria
mas somos mulheres e sabemos
que o nosso olhar se levanta
procura outros olhares iguais
que são outras tantas mãos estendidas
abrindo a janela da amizade
essência central das nossas vidas


Foto: Lmatta/Ognid

(Este post é a minha colaboração na homenagem a uma amiga muito especial. A publicou todas as colaborações. Em nome da amizade.)

Publicado por lique às 12:34 AM | Comentários (35)

novembro 15, 2004

Contenção

Contido. Foi o que a Ardelua/Cecília disse num comentário, já há uns tempos. E deixou-me a pensar…Por outro lado , a MJM ,num outro post, disse :“tens assim esse à vontade de lamber feridas em público, impudicamente.” Talvez , de facto, alguns textos sejam contidos demais. Será? Por vezes acho até que exponho aqui uma boa parte da minha vida. Ou que, pelo menos, procuro ser verdadeira quando os textos versam a minha intimidade. Afinal será que lambo as feridas de forma contida? E, de facto, será a vida privada de cada um ,só por si, e a não ser que a qualidade da escrita o justifique, matéria de interesse literário? Talvez de interesse humano. Mas será que os blogs são para despertar o interesse humano?
Encontra-se todo o tipo de blogs neste mundo virtual, sendo que a qualidade literária se pode encontrar em qualquer um dos géneros. Os diários pessoais, os de divulgação literária, os de obra poética própria, os de opinião, etc. E há também muitos em que, como é o caso deste, várias coisas se misturam : textos próprios, textos de autores consagrados, artigos de opinião e artigos sobre a vida pessoal. Resumindo, uma mistela. As opções são: separar por tipo de artigos e manter mais que um blog ou deixar ficar assim mesmo, ainda que incaracterístico. Por agora fica assim, até porque não há tempo para mais.
Mas esta conversa (isto hoje vai mesmo ao correr dos dedos no teclado) tinha começado por causa do adjectivo “contido” relativo ao poema Navegando e do comentário, que eu sei pleno de carinho, da minha querida MJM no post A(s) viagem(ens). Os meus textos serão contidos ou exponho demais ao meus sentimentos? Será que não deixo transparecer mais do que exactamente eu quero que transpareça? Muitos textos não serão meros jogos de palavras, sem qualquer motivo real a sustentá-los? Eu não vou responder a estas perguntas. Estou a fazê-las a mim própria, sabendo que explícita em termos de sentimentos e emoções nunca fui. Gosto de reflectir sobre aquilo que sinto. E de ter o retorno relativamente ao que senti no momento em que escrevi. Talvez a contenção esteja nas palavras usadas. Talvez simplesmente eu não acredite em sentimentos arrebatados e, como tal, não os possa passar ao teclado. Tenho para mim que, às vezes, as palavras são demais. O olhar chega mas esse não se vê desse lado do ecran….

(Obrigada à Cecília e à MJM por me porem a pensar, ou não haveria post hoje)

Publicado por lique às 12:00 AM | Comentários (28)

novembro 12, 2004

Recado para mim (na minha agenda para algum dia):

É urgente ir
capturar um raio de sol
prender nos dedos
a água pura e fria
parar o tempo
num instante único
conhecer o prazer
escondido
de abrir lentamente os olhos
para a luz brilhante e azul
ao fundo de uma gruta escura.

(Texto já publicado no Blogue de Cartas)

Publicado por lique às 09:17 PM | Comentários (33)

novembro 11, 2004

Em memória de Yasser Arafat

arafat.jpg


"Gostaria de ser lembrado como um dos palestinianos que sofre, a tentar fazer o melhor pelo seu povo"

Yasser Arafat, numa entrevista ao correspondente da SIC no Médio Oriente

Descansa em paz, essa paz que não te deixaram ter nem na vida nem na morte.

Publicado por lique às 08:45 AM | Comentários (31)

S. Martinho

castanhas2.jpg

Falo então daquele dia de sol
Que todos os anos em nós se repete
Por entre ventos e bátegas de água
Daqueles Outonos que vão já em meio

Falo agora do dia de alegria
Em que provamos frutos vindos da terra
E néctares das uvas há pouco colhidas
Espalhados na mesa da nossa amizade

Falo também do dia do amor
Feito capa quente cobrindo a pobreza
Porque só pelo amor dado e recebido
Em paz se redime toda a humanidade

Foto de M.P.

(texto escrito para as Noites de Poesia em Vermoim do dia 5 de Novembro, organizadas pelo grupo Movimentum - Arte e Cultura )

Publicado por lique às 12:06 AM | Comentários (17)

novembro 08, 2004

Como se fosse verdade

smoke.jpg


O fumo da cigarrilha. Ela sabe que não gosta. Mas está bem, ali. Mistura-se com uma nota nostálgica que se ouve ao longe. Ela ouve. Blues, tem que ser. Ele gostará de blues? Nem sabe. Mas é o único som que imagina. O único que combina com ela, com ele. Connosco, pensa ela. Estranha a palavra. Saboreia-a. Estranhamente, sabe-lhe bem. Como se fosse verdade.

Encostada a ele, o cheiro da cigarrilha envolve-a. Sabe que não gosta. Mas há um sem número de coisas que sabe e que ali não se aplicam. Ali é o espaço do sonho. Da realidade irreal. Ali os “sei” não são nada. Só existem homem e mulher sem saberes, sem certezas. Olhando e olhando-se. Como se o olhar roubasse algo. Um pedaço de alma. Como se fosse verdade.

Onde irão? Não querem ir. Querem ficar. Querem o momento. Deixar o fumo da cigarrilha roçar a garganta e as narinas. Ouvir as notas de algum blues antigo. Cantado por uma mulher. Só a voz de uma mulher pode emprestar a dolência necessária. Porque terão que ir. E não irão juntos. Schiuuuu... Juntos. O som da palavra ecoa por sobre as notas de blues e o cheiro do fumo. Soa bem, um som doce de ternura. Como se fosse verdade.

Ilustração daqui

Publicado por lique às 03:02 PM | Comentários (82)

novembro 07, 2004

Carta ao meu PC

É assim: preciso ter a certeza que não me falhas! Há coisas na vida que nós precisamos de dar como adquiridas. Ter um PC sem problemas emocionais é uma das mais importantes. A sério, sei que se alguma coisa te acontecer vou ficar desesperada, a pensar como vou recuperar memórias que te dei e me esqueci de partilhar com outro companheiro. Também vou deixar de escrever, de trabalhar, tu és o meu suporte para tudo isso. Preciso do teu apoio. Imagina que te acontece alguma coisa definitiva… Nem quero pensar nisso. Como ia eu encarar a hipótese de ter que partilhar a minha vida e o meu trabalho com outro? Esta angústia não me larga. Cada vez que me falas de “erros fatais” fico tão assustada que me baralho toda e acabo por cortar a minha ligação contigo. A seguir recomeço mas acho sempre que algo se quebrou entre nós. E há a questão dos ciúmes. Parece-me que por vezes finges que tens problemas só para não me deixares contactar com os amigos. Isso é feio. Depois voltas ao normal como se nada tivesse acontecido. Diz lá, como é possível viver assim? Claro que não vais responder, acho mesmo que hoje vai ser um dia em que resolveste fazer da resistência passiva a tua arma contra mim. Seja o que for que te peça, fá-lo-ás com uma tal lentidão que eu vou acabar por me exasperar. E, de repente, tudo ficará bem. É sempre assim. Sinto que a nossa ligação vai ter que acabar. O triste é que eu não posso viver contigo nem sem ti. Dás-me um sinal? Ah, finalmente conseguiste abrir o raio do documento que eu precisava….


(A minha habitual preguiça de fim de semana deu-me para "reciclar" um texto que já foi publicado no Blogue de Cartas)

Publicado por lique às 12:32 AM | Comentários (52)

novembro 04, 2004

Folha em branco

leaves.jpg


Sinto, na folha em branco que me espreita, o desejo de se apoderar da minha alma onde outras folhas ondulam num movimento de queda que o meu início de Outono provoca. Cada uma carrega consigo uma lembrança, um olhar, um amor, uma entrega. Cada uma traz gravada uma época da minha vida. Conheço aquela quase ainda verde, mistura de idealismo e loucura de uma juventude insatisfeita. As avermelhadas, nos seus vários tons, são paixões diferentes, amores por pessoas, por causas, pela vida na sua plenitude. Também vislumbro castanhos de um dourado ainda belo, entusiasmos de outono inicial que se recusa a entregar-se ao frio do Inverno.
Cada folha que rodopia na minha alma tem uma história para contar. A folha em branco espera e chama-me sabendo que vou acabar por preenchê-la, freneticamente, com as cores daquelas outras que ela inveja.


(este texto, com ligeiras diferenças, foi escrito para as Noites de Poesia em Vermoim do dia 2 de Outubro, organizadas pelo grupo Movimentum - Arte e Cultura )

Ilustração daqui

Publicado por lique às 11:11 PM | Comentários (26)

novembro 03, 2004

A(s) viagem(ens)

A exterior. Deslocação física para um local estranho onde me esperava a ternura de uma filha “emigrada”. A descoberta do seu espaço físico, psicológico, do seu círculo de conhecidos (amigos, talvez, daqui a pouco..). A percepção da dificuldade de adaptação dela, através da minha. Adaptação a pessoas desconhecidas, à gestão organizada do tempo e dos recursos, a hábitos comportamentais completamente diferentes.
Esta viagem física, eu fiz. Parti e regressei, julgando que ia matar saudades quando afinal elas só se mitigam, para a seguir voltarem mais fortes ainda, apertando o peito como se a toda a emoção ali estivesse centrada.

A interior. Daquelas que é necessário fazer de vez em quando. Porque é necessário reequacionar a vida constantemente e as certezas de hoje são as dúvidas de amanhã. Porque também ,por vezes, temos que nos adaptar a novas realidades, desconhecidas, estranhas. Também este é um processo doloroso. E inacabado. Nesta viagem, eu parti mas ainda não regressei.
Por tudo o que disse, o que aqui fica é também um texto incompleto. Que diz que estou aqui fisicamente e irei escrevendo mas que não estou por inteiro. Há algo em mim que tem que ser encontrado e talvez, quem sabe, consertado. Há algo que tem que se tornar límpido para mim própria. Neste momento a minha água está turva de mais.

Publicado por lique às 01:29 AM | Comentários (82)