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dezembro 29, 2004
E aí vem 2005...
E assim, de repente, estamos no fim do ano outra vez. Esta época marca sempre mais um elo na corrente do tempo que teimamos em querer compartimentar. É costume fazer balanços de vida nesta altura. É costume confrontarmo-nos connosco, um pouco a contragosto. Temos o hábito de contabilizar ganhos e perdas de cada ano, como se esta fosse a melhor época para o fazer. Eu posso garantir que não é. Esta é uma época danada em que, por razões várias, as nossas fragilidades teimam em nos agarrar e temos sempre a tendência para ver tudo pelo lado mais lamechas.
Olhemos para o país. Só pode ser o nosso lado mais sensível que nos leva a pensar que nunca existiu tamanha palhaçada a nível político (com o perdão dos palhaços). Oh senhores, nós já vivemos numa ditadura… Com censura, com corrupção, com “tachos” arranjados por compadrio, com negociatas de toda a ordem… Querem comparar?? Isso só pode ser das Festas (assim com letra grande, como costumamos escrever).
Analisemos o mundo. Vivemos duas guerras ditas “mundiais”, com o seu cortejo de horrores, com um número elevadíssimo de mortos, com torturas, tentativas de extermínio de grupos étnicos, etc. Quem diz que o mundo nunca esteve tão mal como agora, só pode estar a ouvir o seu lado mais sensível. Será que estas coisas acontecem hoje em dia? Não, só pode ser das Festas.
Neste fim de ano, também me deu para pensar no que me aconteceu em 2004, aqui neste mundo virtual. Faço contas de somar e subtrair com o que de bom e mau surgiu na minha vida. Positivo, o saldo? Acho que sim. A escrita voltou a ser parte integrante dos meus dias. Entraram na minha vida real pessoas que se instalaram naquela caixinha de afectos que temos dentro de nós. Tudo em 2004. Claro que houve coisas negativas. Mas hoje não me apetece muito falar disso. Mas porque valorizo hoje isto tanto, quando tenho dias em que só me apetece carregar na tecla Delete e fazer desaparecer de vez o blog e a Lique? Só pode ser das Festas.
Pensando bem, talvez seja melhor aproveitar este espírito das Festas e começar a fazer planos e votos para 2005.
Quero um país de cabeça erguida, reencontrado com os que o governam. Quero que todos tenham uma vida digna e com um mínimo de desigualdades sociais. Quero que todas as necessidades básicas (pois, isso: a paz, o pão, habitação, saúde, educação…) deste povo sejam asseguradas. Quero um mundo em paz sem “polícias do mundo” nem “eixos do mal”. Quero que todas as crianças tenham direito à vida e ao sonho. Quero…
Para mim? Quero que me internem depressa, porque ou isto é das Festas ou estou mesmo louca!
(Que o ano de 2005 seja, para todos os que aqui passam, um bom ano!)
Publicado por lique às 10:05 AM | Comentários (56)
dezembro 26, 2004
Tempo de espera

Cessaram os cânticos
que em tardes de chuva
batiam nos vidros daquela janela.
É agora o tempo branco
da espera de outras euforias
doçura amarga arrastada nas horas.
É um espaço, um salto
um saber de distância calada.
Nem um som, nem um murmúrio
quebram os muros que se erguem.
É um caminho de silêncio
dentro de mim rodeada de risos.
Dias parados no limbo do tempo
baço, que a luz do sol é lá fora.
Tempo de espera. Do inevitável. Da alegria. Da saudade.
Foto: Gonçalo Pereira
(Neste pós-Natal deixem-me chamar a atenção para uma das minhas melhores prendas, aqui na blogoesfera. O regresso (para ficar, esperamos todos) dos riscos do TCA.)
Publicado por lique às 01:13 PM | Comentários (68)
dezembro 21, 2004
A voz dos amigos (I)
Não pensava publicar nenhum outro post antes do Natal. Entretanto, tinha o projecto de abrir este espaço à colaboração de amigos convidados, sem nenhuma periodicidade certa. Essa colaboração deveria começar em Janeiro de 2005. O belíssimo conto que a Lola Viola me deixou como comentário ao post "O meu Natal" fez com que eu planeasse uma ante-estreia. Pedi ao Ognid uma foto que ajudasse a criar o ambiente que o conto da Lola pedia. E é com muito prazer que inicio hoje este projecto de colaboração. Espero que todos os que por aqui passam tenham para com os meus amigos que irão aparecendo o mesmo carinho que têm tido para comigo. Lola, esta é uma surpresa para ti. Tem um bom Natal.
Outro Natal..

Há outros natais. Os que são a preto e branco.
Os sábados de manhã no mês de Dezembro são especiais. As cidades ficam muitíssimo mais bonitas, enfeitadas com laços e árvores coloridas, salpicadas por alguns casacos de pele com aroma a perfume, embrulhadas em sorrisos e palavras soltas de feliz natal.
O café habitual onde tomo o meu pequeno-almoço dos sábados de manhã fica muito mais cheio de gente que cumpre os rituais de Dezembro. Este sábado, espero ao balcão mais um pouco, o que não me aflige nada. Tenho tempo. Saboreio em silêncio nos lábios a frase… tenho tempo.
Ao meu lado no balcão, uma mulher de idade indefinida. Imóvel, espera algo. Penso que como eu, espera para ser atendida pela menina que vai tirando bicas e mandando obrigadas e faz favores aos clientes. Mas tenho tempo e foco melhor. Estudo o enquadramento. Serve-me o fundo repleto de vozes alegres, perfumado de café.
Faço zoom. Um xaile na cabeça e uns sapatos de pano fazem-me adivinhar o frio de quem vem de longe em busca de uma nova vida. Usa roupa de cores pardas, sem formas nem desenhos. Tem uma moeda de 50 cêntimos na mão e olha para o vidro onde se protegem os bolos da manhã. Trocamos silêncios e olhares. Com o suporte de uma palavra que oiço como ajuda, entendo que me pede dinheiro para comer. Fico terrivelmente envergonhada com estas situações. Como se eu fosse ela e ela eu. Crio uma empatia estranha com estes estranhos que se cruzam comigo na dor dos seus dias. Digo-lhe baixinho – O que quer? Qual quer? Aponto os folhados, os bolos, enquanto o meu pão com fiambre e abatanado surgem à minha frente. Ela aponta para um bolo pequeno, com creme. Deve ser o bolo mais pequeno da montra. Peço o bolo à menina do balcão que me atende e que já está dentro da minha estória e me diz com os olhos.. só isso?
- Só. Porra, ela não pediu mais nada. – Grito eu já cada vez mais baixinho.
A mulher que poderia ter sido tão bonita e que parece já velha, diz-me obrigada e senta-se na mesa ao lado da que eu tinha escolhido. Comemos as duas em silêncio. Olho para ela disfarçadamente, sinto-me mal, compreendo na satisfação com que ela como o bolo o significado da palavra fome.
Todo este episódio seria banal, não fora o momento que se seguiu. E que me persegue ainda. A mulher terminou o bolo, delicadamente limpou a boca a um guardanapo de papel, olhou-me nos olhos, abriu um sorriso lindo, onde faltavam alguns dentes e disse-me “xau”. Trago comigo este sorriso, como se fosse uma fotografia a preto e branco tirada num dia em que as cores são só dos outros…
Texto: Lola Viola
Foto: Ognid
Publicado por lique às 08:35 PM | Comentários (43)
dezembro 17, 2004
O meu Natal

O apanhar do musgo para fazer o presépio de figuras de barro com um rio feito de pratas de enrolar rebuçados.
A peça de teatro feita na escola juntando, uma vez sem exemplo, rapazes e raparigas.
O dourado dos fritos de abóbora, batidos na noite de Natal em alguidar de barro.
A corrida matinal à chaminé onde os sapatos brilhantes, colocados de véspera, se tinham enchido de doces e prendas.
O silêncio do sono fingido enquanto ouvia os pais irem buscar o que o Menino Jesus nos tinha trazido (a peste do meu irmão já existia, é verdade…)
A reunião da família à volta da mesa, onde tudo o que estava sabia tão bem…
O enfeitar da casa, já noutro local, com anjos e pinhas douradas.
As rabanadas feitas em conjunto, na cozinha a cheirar a fritos.
O riso de outras crianças (minhas) à volta da árvore cheia de (demasiadas) prendas
O espanto nos olhos delas por o Pai Natal lhes adivinhar os desejos.
O sonho de quatro crianças que juravam ter ouvido os sinos do trenó.
Um sentir doce de que o mundo talvez pudesse ter paz.
(estas são algumas das coisas que gosto de lembrar no Natal)
O conhecimento de que havia crianças a quem o Menino Jesus não dava prendas.
A descoberta de que não havia Menino Jesus nem Pai Natal.
A dificuldade dos meus pais para nos satisfazerem os desejos.
O saber que muitas pessoas passam o Natal sozinhas.
A corrida às prendas, como se isso fosse o mais importante
A dádiva de prendas por obrigação.
O dia de desfazer enfeites e guardá-los numa caixa, cheia de dourados e bolas coloridas.
Os olhos dos meninos sem brinquedos nas montras das lojas.
Toda a solidão que se agrava porque é Natal
As saudades de quem não está junto a mim, sendo Natal.
Toda a dor das perdas da vida que aparece no Natal.
A certeza de que o mundo nunca estará em paz no Natal.
(estas são algumas das coisas que não gosto de lembrar no Natal)
[Desejo a todos um Feliz Natal, pleno de tudo o que é bom, doce e reconfortante. Volto com um post antes do Ano Novo]
Publicado por lique às 09:08 AM | Comentários (62)
dezembro 15, 2004
Lama

é a lama
que empapa campos verdes deste país
que suja paredes brancas onde o sol pára
que turva os olhos de crianças maltratadas
que se insinua em gabinetes de luxo
que impregna (homens) cinzentos cabides de gravatas
que traz consigo todas as podridões humanas
é a lama…
talvez chova um dia água tanta
que a arraste e a dilua neste mar ao longe
destino traçado, ausência dorida, perdição sabida
partida sonhada, aventura cega, salvação final
talvez chova e nos deixe no olhar
um país claro, um país limpo, um país nosso.
Publicado por lique às 12:08 AM | Comentários (41)
dezembro 12, 2004
Procurei-te

Hoje procurei-te no sol que brilha lá fora.
Tentei encontrar o teu rosto no mar, na areia da praia, até nas rochas que as vagas acariciam.
Quis ouvir o teu riso na música que sempre me acompanha.
Olhei as crianças no jardim e pensei ver-te sentado naquele banco.
Quis e esperei que a brisa me trouxesse o teu cheiro.
Hoje procurei-te em todos os sítios errados.
Tentei ver-te em todos os locais onde não estás.
Mas acabei por encontrar-te.
Em mim. Como sempre.
(e hoje a música que me acompanha é a de Lhasa de Sela que me maravilhou com o seu concerto na Aula Magna, no passado dia 6)
Publicado por lique às 10:17 PM | Comentários (66)
dezembro 11, 2004
Just like a woman
Diz o Yardbird que esta é a minha música. Como estamos num fim de semana cheio de sol e há que espantar a côr cinza que por aqui tem andado, aqui deixo a letra para que me possam dizer se estão de acordo com ele ou não (ele não se zanga, garanto). Vá lá, não se inibam e, se quiserem sugerir outra, estão à vontade.
Nobody feels any pain
Tonight as I stand inside the rain
Ev'rybody knows
That Baby's got new clothes
But lately I see her ribbons and her bows
Have fallen from her curls.
She takes just like a woman, yes, she does
She makes love just like a woman, yes, she does
And she aches just like a woman
But she breaks just like a little girl.
Queen Mary, she's my friend
Yes, I believe I'll go see her again
Nobody has to guess
That Baby can't be blessed
Till she sees finally that she's like all the rest
With her fog, her amphetamine and her pearls.
She takes just like a woman, yes, she does
She makes love just like a woman, yes, she does
And she aches just like a woman
But she breaks just like a little girl.
It was raining from the first
And I was dying there of thirst
So I came in here
And your long-time curse hurts
But what's worse
Is this pain in here
I can't stay in here
Ain't it clear that--
I just can't fit
Yes, I believe it's time for us to quit
When we meet again
Introduced as friends
Please don't let on that you knew me when
I was hungry and it was your world.
Ah, you fake just like a woman, yes, you do
You make love just like a woman, yes, you do
Then you ache just like a woman
But you break just like a little girl.
(Podem sempre cantá-la, enquanto deixam que este sol de quase Inverno lhes dê pensamentos dourados)
Publicado por lique às 12:25 PM | Comentários (24)
dezembro 09, 2004
Canto cinza

hoje canta a solidão
pássaro negro na árvore dos dias
um canto cinza de embalar a vida
que parou ao lado
nos meus olhos de espanto o brilho escorreu
e ficou gota líquida pairando à beira de água
Publicado por lique às 05:37 PM | Comentários (37)
dezembro 07, 2004
Nascer

Dizem que nascemos
e tudo é igual no grito que damos
no ar que nos dá de presente a vida
naquele respirar já fora da água
Parece que no início
é igual o menino do bairro da lata
e a criança que se deita em finos panos
iguais na procura do sopro da vida
Mas passado um minuto
talvez até nem sequer um segundo
que o tempo aqui é coisa relativa
para um se fecham as portas do mundo
que engalanadas o outro recebem
abrindo doces caminhos de esperança
Contam que em Dezembro
escolheu vir ao mundo entre os animais
em palhas tecidas de pobre humildade
alguém que igualou as duas crianças
lhes poisou nas mãos o dote do amor
e as guiou firme nos caminhos da paz
Contam, que eu não sei
se é história, se é sonho que alguns sonharam
e que, sem piedade, outros da terra apagaram.
(este texto foi escrito para a Noite de Poesia em Vermoim, cujo tema era "Nascimento")
Publicado por lique às 06:58 PM | Comentários (57)
dezembro 06, 2004
Norte sentido

Experimentar o sentimento do Norte era o que eu desejava no fim de semana que passou. Para conhecer amigos adivinhados por aqui na net, ouvir poesia e música e captar na câmara fotográfica a beleza incontestada do Porto, para lá fiz rumo com a Wind , o Ognid e a Lmatta. A Noite de Poesia em Vermoim - concelho da Maia, na noite de sábado, foi o válido pretexto da viagem que nos preencheu com simpatia, amizade, hospitalidade e beleza. Na já amiga M.P. reconhecemos a vivacidade, o espírito e a capacidade de comunicação que em poucos minutos nos aproximaram, como se nos conhecêssemos há muito. O bem receber e a hospitalidade foram-nos mostrados como coisa natural, de todos os dias, pelo sonhador Zé Gomes e família e pela Maria Mamede, uma senhora poetisa. Eu e Wind tivemos finalmente “à nossa beira” o revolucionário de coração puro e olhos doces, Pantanero .
A noite de sábado correu suave, como a poesia que ouvimos e a música que nos foi trazida pelo Grupo Coral “Cantar Poesia” e pelo duo “Sons do Vento”. A extraordinária voz da Ivone dos Sons do Vento levou-nos a paragens onde as águas correm claras e o vento é só brisa. Ali, a cultura desenvolve-se fazendo e não esperando que outros façam. O final da noite em casa de Maria Mamede trouxe-nos os sabores e os saberes de como receber e fazer amigos.
No domingo o sol iluminava a Ribeira e, enquanto as máquinas dos fotógrafos disparavam, eu e a Wind desenvolvemos amizade e cumplicidade, com o Douro por testemunha. Por essa altura, a alma já estava bem repleta de beleza e confortada pelo sentir do Norte. Mas a tarde tinha que nos dar um pouco mais. Em Serralves, a exposição de Paula Rego mexeu com todos os nossos sentidos, agredindo um pouco, maravilhando outro tanto. Final perfeito para quem tinha que voltar para o Sul.
De algo eu sei e aqui fica para que conste. Todos nós partimos do Norte com o desejo de voltar a senti-lo e aos amigos que lá deixámos. Com tempo. Com mais tempo…
Foto: M.P.
(A reportagem fotográfica aparecerá, em breve, no Catedral. O Zé Gomes fará certamente o relato da Noite de Poesia no Movimentum-Arte e Cultura)
[Agradeço ao Zé Gomes e família e à Maria Mamede toda a amizade, as atenções e o terem-nos aberto a porta das suas casas, como se fôssemos amigos de há muito tempo]
Publicado por lique às 12:23 AM | Comentários (44)
dezembro 03, 2004
As horas dos meus dias

Se eu pudesse (d)escrever as horas dos meus dias, saberias de mim aquilo que não digo. Tudo o que nem as palavras que ouves te dizem porque a verdade completa fica comigo. As minhas horas formam uma cadeia quase sem surpresas, repleta de actos, de obrigações, das alegrias e tristezas de uma existência comum. Dizer-te que, quando as horas me trazem a tua lembrança, o dia muda a cor e algo canta em mim melodias inesperadas é, talvez, dizer-te de mais. Ficarias a saber segredos meus, em cada canção está um guardado. Terás que adivinhar os segredos das minhas horas. Das muitas horas da minha vida. Neles está a chave para o conhecimento de mim. E quando me souberes totalmente, podes partir porque já levas contigo a eternidade do amor.
[Eu volto na 2ª feira. A todos um bom fim de semana]
Publicado por lique às 08:44 AM | Comentários (32)
dezembro 02, 2004
Wind

Apareceu em Abril como a brisa leve que tudo refresca soltando no éter uma gargalhada. Companhia certa de todos os dias, sabendo-me assim, lendo já palavras até nas entrelinhas.
Tanta coisa se passou nestes quase oito meses, aqui neste espaço virtual onde as amizades se estreitam sem sabermos porquê, que parece que aquele vento de Abril esteve na minha vida desde sempre.
Mas só alguma afinidade inexplicável pode justificar um reconhecimento instantâneo. Naquele jantar, soubemos quem éramos antes de o dizer. E, para mim, foi reconhecer uma amiga e sentir por aquela "miúda" (desculpa!) uma ternura enorme. Isto, ela não sabe. Mas é um bom dia para lhe dizer.
Porque hoje a WIND faz anos. Parabéns, mulher ventania. Parabéns, companhia de todos os dias, aqui no virtual. No mundo real, naquele que de facto conta, parabéns, minha amiga!
Publicado por lique às 12:06 AM | Comentários (23)