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dezembro 15, 2004

Lama

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é a lama
que empapa campos verdes deste país
que suja paredes brancas onde o sol pára
que turva os olhos de crianças maltratadas
que se insinua em gabinetes de luxo
que impregna (homens) cinzentos cabides de gravatas
que traz consigo todas as podridões humanas

é a lama…

talvez chova um dia água tanta
que a arraste e a dilua neste mar ao longe
destino traçado, ausência dorida, perdição sabida
partida sonhada, aventura cega, salvação final
talvez chova e nos deixe no olhar
um país claro, um país limpo, um país nosso.

Publicado por lique às dezembro 15, 2004 12:08 AM

Comentários

Se é para limpar este país... venha de lá muita chuva!
Não esquecer, porém, que a lama é tida como um bom produto cosmético! :)

Brincadeiras de parte, é mais um belo texto que aqui nos deixa!

Saudações

Publicado por: Carriço em dezembro 15, 2004 12:28 AM

Não questionando sobre o grito aprisionado sob a lama petrificada, ou sobre o que se lança em formato de desabafo já cansado de tantos derrotes, na primeira leitura lembrei-me de Chico Buarque (lá estou eu com os meus brasileiros)...
Espero não sentir que seja "o fim do caminho". Mas já cansa a caminhada, sem o prazer do viajante, que não mudando os passos, muda a paisagem.
Que venha a chuva purificadora!
Kisses lavados

Publicado por: MJM em dezembro 15, 2004 12:45 AM

Brutal a imagem.
Tanta lama neste pais e no mundo! Teria que haver novo dilúvio e não sei se depois alguma pombinha conseguia encontrar um raminho de Oliveira.
Escutei este teu grito! Juntei-me a ele tambem. Sera que alguem nos ouve?
Beijo do coração doce Alice

Publicado por: myryan em dezembro 15, 2004 01:04 AM

Tanta indignação rubra perpassa da tua escrita, lique. Eu penso que esse desejo de purificação cada vez mais se faz sentir neste país, recentemente tão macerado de encenações patéticas por parte de algum poder político. Assim a indignação colectiva se torne caudal...

Publicado por: Dora em dezembro 15, 2004 01:52 AM

Lique, acompanho-te neste teu "grito". Hoje sou eu:)A imagem é brutal, a condizer com a situação vivida no país. Continua assim sem baixar os braços, amiga! Muitos beijos:))***

Publicado por: wind em dezembro 15, 2004 03:08 AM

não gosto de fogueiras purificadoras! e não enjeitaria "sujar as mãos" (no sentido sarteano do termo) para a água pura correr nos rios...

mas tens razão: estamos a precisar de uma boa "enxurrada"!

beijos!

Publicado por: DonBadalo em dezembro 15, 2004 10:47 AM

Amem!

Publicado por: Pantanero em dezembro 15, 2004 11:51 AM

{...

[mais um belo texto nos dás a ler]

[…]
já não sei do que falo, se desta lama que me enriquece a terra [alma] ou a suja, se de matéria depositada e rica [fértil] ou precipitação depositada [débil] […] se da lama [barro] da vida ou se da lama [argila; arro] que me há-de cobrir [findar]. já não sei de que lama dizer [falar]
[…]
© pipetobacco

beijos*

... }

Publicado por: pipetobacco em dezembro 15, 2004 12:31 PM

Já sabes que sou do contra! Relembro aqui as horas deliciosas de infancia passadas com as mãos revolvendo a dita lama, inventando pessoinhas e coisas que me saíam dos dedos! Quanto à "outra" lama, não há nada a fazer. Está colada à Humanidade com super-cola-3. Beijo linda Alice

Publicado por: fernanda em dezembro 15, 2004 01:18 PM

Também me uno ao grito que lanças neste teu belo poema, Lique. Certamente que alguma coisa tem que ser feita, isto já passou dos limites há muito, muito tempo..
Venha àgua tanta (adoro esta frase) que lave com vigor as mazelas deste nosso mundo!
A imagem é dum fascíneo arripiante!
Beijo grande
Ana Maria

Publicado por: Aguas de Marco em dezembro 15, 2004 02:02 PM

Gosto de lama, gosto da chuva, gosto do cheiro que a lama deixa atrás de mim... Adorei o texto.

Publicado por: polittikus em dezembro 15, 2004 03:31 PM

Quero dizer; Ámen (assim seja) e não Amem de amar. As minhas desculpas. Beijo

Publicado por: Pantanero em dezembro 15, 2004 04:05 PM

Se me pudesses ver, verias um rosto embasbacado a olhar para um écran.

Senti-me especialmente tocado por este teu poste.

As palavras não são muitas, mas está lá tudo. Incrível.

PS: Aquela coisa é um antro sem Rei nem Roque, que não sabe por onde vai nem para onde vai. Se calhar é por isso que este teu poste me tocou tanto.

Um dia lavo-o, ponho cortinas de cetim, candelabros com velas rochas e espelhos nos tectos.

:)

Publicado por: Papo-seco em dezembro 15, 2004 04:30 PM

Porra, que tens razão. Chova aí um dilúvio qualquer que limpe este país não só da lama mas, principalmente, da (desculpa o termo) merda toda que por aí abunda. bjks

Publicado por: ognid em dezembro 15, 2004 05:57 PM

Apoiado. Mas....
Mesmo sendo muito criticada , existe uma opção:-desligar o rádio,desligar a televisão,não comprar jornais,e mandar tudo há M....

Publicado por: annie hall em dezembro 15, 2004 06:28 PM

Não consigo deixar de acreditar que pode haver uma sociedade melhor,como chegar até lá agora...não sei:(

Publicado por: annie hall em dezembro 15, 2004 06:30 PM

Emociono-me ao ler o que escreves, ao som de Carlos Paredes que estou a ouvir.
Ai meu País, meu pobre País!

Publicado por: stillforty em dezembro 15, 2004 07:22 PM

Há lá água tanta que limpe das impurezas os vícios de quem oprime e vergasta sobre o cangalho da democracia a liberdade de viver na plenitude da razão.

Publicado por: jgonçalves em dezembro 15, 2004 07:46 PM

...que hei-de eu acrecentar quando me ouviste lamentos tão recentes ácerca desta temática? as palavras faltam-me porque já as esgotei todas; tão só.
Fica bem, beijos e intés!!

Publicado por: porquinho da india em dezembro 15, 2004 08:54 PM

As ideias são como as cerejas. O teu poema lembrou-me outro do Chico Buarque.

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Publicado por: LolaViola em dezembro 15, 2004 09:09 PM

eu hoje ando com um respeito pelas palavras ou pelo que elas contêm/traduzem que,apesar de metáfora linda o poema sem dúvida, tudo que tenha uma réstea de vida e se aplique a esta situação presente eu defendo defendo defendo...lama minha querida lama minha lavada e fértil lama não não e não a estes issos compará-la! mas sim se é de (como diz ali o OrCa) feder, então que venha chuva e leve lama e tudo!

Publicado por: seila em dezembro 15, 2004 09:55 PM

Infelizmente acho que a lama se espalha por mais cantos do mundo, talvez ate encha este planeta por inteiro. Venham de la mais poemas destes para varrer um pouco o pedacinho de lama pessoal que cada um de nos carrega e arrasta consigo. Beijos, ovinho. ;) ja agora um muito obrigado à LolaViola pelo poema do Chico Buarque, fiquei com a canção na cabeça, agora!

Publicado por: hana_le em dezembro 15, 2004 10:54 PM

que venha água então, e lave tudo, purifique tudo. porque já não há alma nem coração que aguente o lamaçal que vamos descobrindo diariamente... :(

Publicado por: pandora em dezembro 15, 2004 11:00 PM

Para limpar tanta lama (da má) era preciso um dilúvio maior que aquele da bíblia!!

Publicado por: saltapocinhas em dezembro 16, 2004 12:57 AM

Tens razão e há por aí tanta lama se atravessando nos caminhos...

(agradeço tuas palavras no manifesto, tocaram-me ;))
Beijo terno

Publicado por: Carlos em dezembro 16, 2004 01:23 AM

Há coisas que, por muita chuva que caia, nunca lavará, Lique. O dílúvio arrastará tudo consigo menos a vergonha pela insensibilidade, os remorsos por tudo o que se devia ter feito e não se fez, e tanta coisa mais. Beijo

Publicado por: yardbird em dezembro 16, 2004 09:25 AM

Excelente analogia da imagem com a palavra sempre fiel à ideia...bj

Publicado por: hammer em dezembro 16, 2004 09:37 AM

Tenho fé que virá muita água limpinha para limpar este País que tanto amamos. Hoje o dia é de sol e céu azul para me fazer sorrir.

Publicado por: grilinha em dezembro 16, 2004 11:16 AM

Pobre lama que da Natureza (pura) vem. Eu compreendo a metáfora. Sim compreendo, mas no ponto em que as coisas estão prefiro o cru. Prefiro a linguagem crua que aponta os homens. Sim, os homens que por interesses da mais variada ordem rumam num caminho diferente que devia ser aquele da sua maior dignidade enquanto espécie. Isto serve o País e serve para o mundo em geral.

Um grande beijinho para ti, Lique :)

Publicado por: Sandra em dezembro 16, 2004 03:21 PM

"um país claro, um país limpo, um país nosso."

Forte, muito forte!
Esta lama querida lique, se limpa com honestidade, amor e paz....

Saudaes, Abraço!

Publicado por: Vivian Oliveira em dezembro 16, 2004 05:16 PM

Venha de lá essa chuva se for para "purificar" embora me sinta muito céptica quanto ao resultado final...mas adorei as tuas palavras!Beijitos, lique.

Publicado por: MWoman em dezembro 16, 2004 05:56 PM

Acho que este teu texto devia ser distribuído em vários locais, a saber:
- Governo
- Assembleia da república
- Partidos políticos
- Organismos públicos
- Comboios e aviões
- Festas e romarias
- Missas
- Casamentos e baptizados
- Enfim, a todos os portugueses

Claro que estou a brincar, mas a sério, porque a tua mensagem é certeira, assertiva, útil e necessária, embora possa não ser suficiente.
Parabéns e um grande beijo amigo.

Publicado por: Nilson em dezembro 16, 2004 06:12 PM

A sujidade da alma o que a retira, o que a escorraça?

Beijinhos, Lique.

Publicado por: moriana em dezembro 16, 2004 09:36 PM

Permite-me que desabafe assim :Ah... Como é BOA a sensação de Alma lavada, Lique!**

Publicado por: M.P. em dezembro 16, 2004 10:14 PM

Uma delícia, lique.
Fizeste muito bem em editar um poema assim.
Bjs

Publicado por: Jose Duarte em dezembro 16, 2004 10:17 PM

o teu poema deixou uma forte imagem visual. está muito bom. beijinhos

Publicado por: sonia em dezembro 16, 2004 10:35 PM

Que venha então a chuva e lave este lamaçal.Votos de um Bom Natal (sem chuva ... )

Publicado por: Peter em dezembro 16, 2004 11:41 PM

Minha amiga, esperemos que chova a cântaros. Bjinhos e um excelente amanhã para ti

Publicado por: amita em dezembro 17, 2004 12:33 AM

Ah, minha amiga, estes nossos países irmãos!! Imagine o tamanho da lama no nosso além-mar aqui... Beijos limpinhos!!

Publicado por: Jane em dezembro 17, 2004 02:15 AM

>>A TODOS: agrdeço a todos os que passaram, leram e comentaram.
A lama (no sentido de sujidade mesmo) que existe neste país é tanta e tal que até uma boa enxurrada não a lavaria toda. Talvez a quadra que atravessamos me tenha levado a desejar alguma limpeza, alguma clareza. Infelizmente não me parece que haja grande possibilidade disso se concretizar.

Vou interromper aqui durante uns dias, porque é necessário trabalhar e preparar o Natal, sobretudo quando se tem uma filhota que está longe e, vindo a casa, quer tudo aquilo a que tem direito. Entretanto, passarei pelos vossos espaços para vos ler e desejar um Feliz Natal.

Beijinhos e abraços

Publicado por: lique em dezembro 17, 2004 09:18 AM

Hoje eu sei que estaremos juntos a ouvir cânticos. Alguns da Mãe-Terra, uterinos.

Entretanto, ouço o teu grito e vejo a lama. Mas também ela se há-de fazer barro, donde, tosco, nascerá um homem novo...

Beijos, com Bom Natal, filhotas e rabanadas.

Publicado por: OrCa em dezembro 18, 2004 07:58 PM