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janeiro 30, 2005

A voz dos amigos (IV)

foto-1.jpg


Perguntas


Onde estavas tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylan
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.


Joaquim Pessoa


Selecção do poema : Maria Branco e Wind

(Agradeço às duas amigas que escolheram este poema que, de alguma forma, tem a ver com a efeméride do passado dia 27 de Janeiro - 60 anos da libertação de Auschwitz. Um poema para não esquecer o horror que aconteceu e o que acontece hoje.)

Publicado por lique às 01:17 PM | Comentários (34)

janeiro 29, 2005

Acontece-me cada coisa...

Estava eu por aqui muito sossegadinha a gozar o meu fim de sábado, quando uma "amiga" (ficaste marcada...) me desafiou para responder a este maldito questionário que circula por aí e há-de calhar a toda a gente da blogoesfera. Ora eu não gosto de fugir a desafios. Mas, lamentavelmente, percebo muito pouco de inglês .... E então, claro, as minhas respostas reflectem aquilo que eu consegui perceber. Desculpem lá se não era isto que esperavam.


1. HAVE YOU EVER USED TOYS OR OTHER THINGS DURING SEX?

Toys... O meu inglês é tão fraquinho, mas tão fraquinho que só percebi que a pergunta tem a ver com o Toi e com sexo. Será que isto é um questionário sobre o sex-appeal dos cantores pimba? Se é, olhem, eu dou-lhe zero.

2. WOULD YOU CONSIDER USING DILDOS OR OTHER SEXUAL TOYS IN THE FUTURE?

Aqui não percebi mesmo nada, mas continuam a falar de Tois... deixemos isso! Dildos, não sei, parece-me uma palavra engraçada, soa-me assim a patinho de borracha. Que é que isso tem a ver com o Toi e com sexo? Eu gosto de patinhos de borracha mas é no banho!

3. WHAT IS YOUR KINKIEST FANTASY YOU HAVE YET TO REALIZE?

Aqui só percebi mesmo fantasia. E tudo fez sentido: estamos no Carnaval. Afinal isto é para me mascarar de patinho de borracha e ir ter com o Toi? Mas afinal que é que o sexo tem a ver com isso? Ai, se eu tivesse estudado mais o inglês...

4. WHO GAVE YOU THIS DILDO?

A gaja que me tramou com isto foi, como é óbvio a Titas. E eu vou ficar a magicar a minha vingança...

5. WHO ARE THE ONES TO RECEIVE THIS DILDO FROM YOU?

Pois agora, eu passo esta "batata quente" às minhas queridas amigas:

Vulcão
Maria Branco
Seila
Menina Marota

e, para variar (até porque já muitos homens responderam), dois homens:

OrCa
Porquinho da Índia/Bertus

que espero aceitem o desafio.

Uff... desta já me safei!

O OrCa fez a sua análise dos resultados deste inquérito:


DonBadalo de roupão
Qual Dom Fuas de Roupinho
Montando o seu alazão
Deu de frosques de fininho

O Porquinho por sinal
Com muita vida de cama
Lá se baldou afinal
Invocando o deus Pijama

Da SeiLá nem sei que diga
Fica o dildo reticente
Atão esta rapariga
Descobre o focinho à gente?

Já a Marota Menina
Foi-se à peça com desplante
Menina e marota ensina
Como no frio estar quente

Maria Branco Donald?
E vovó 'inda p'ra mais?
Diacho! Isto foi balde
De água fria demais...


Alguém quer responder?

Publicado por lique às 07:31 PM | Comentários (35)

janeiro 28, 2005

Navegando (II)

fotosToze026_3.jpg


Foto: Revelações Avulsas


Obrigada

Bertus :

o mar, ora chão,
ora ondulante, bravio,
mar da consolação,
dono deste meu navio,
de quilha
rumada à esperança
onde tu vives comigo,
procurando a bonança
neste teu porto de abrigo.


DonBadalo:

a espuma que se espraia
vinda das ondas do mar
tem leveza de cambraia
em toada de encantar...

ai, se um dia eu pudesse
em tuas ondas mergulhar
mágoa minha que houvesse
seria como sol a brilhar...


Menina Marota que deixou um poema de Florbela Espanca :

"Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!"


deSaracomamor (é bom ver-te aqui com essa disposição radiosa):

talvez espuma

talvez esta espuma branca
além
venha falar das viagens
por fazer

talvez apenas se deixe
amar ao vento
num abraço de fervor

talvez seja apenas sal
excessivamente dor
que o rumor das águas
chorem em segredo

talvez só o labor sagrado
das marés
um excesso de vida
a esmorecer

como a paixão que
nasce onda e desmaia
a nossos pés
na ânsia de se perder

Publicado por lique às 05:18 PM | Comentários (21)

janeiro 26, 2005

Memories

makinzer_orange_blue.jpg


Havia cortinados na janela. Cor de laranja. Coavam a luz do sol da tarde em reflexos quentes. Lá dentro, os sons da avenida esbatiam-se. Não me lembro dos sons. Lembro-me da entrega. Da dádiva total, agora sem limites. Das horas, dos minutos que não contámos mas que se escoaram.
Por vezes, o tempo parecia parar para permitir a viagem para lá dos olhos, fundo, bem fundo. Uma viagem tão longa que só uma quebra na passagem do tempo consente. Capturar sentimentos, descobrir recantos longínquos, abrir devagar portas já cerradas há muito, é a maior aventura. A de desnudar a alma, para lá da nudez dos corpos. Aí, o tempo é uma dimensão que não conta.
Lembro-me da realidade a querer impor-se. De corpos que se separam. Só corpos, afinal. As almas ficaram presas na viagem. E os meus olhos retiveram aqueles cortinados quentes, cor de laranja.

Publicado por lique às 08:28 PM | Comentários (44)

janeiro 24, 2005

A voz dos amigos (III)

DSC01263.JPG

Solidão de ser escrever

Sou um solitário que nesta noite entro
Ouço musica, faço, contemplo
Mas é pela noite fora que vou indo
indo em sombras, em túneis e círculos cantando hinos onde
o eu caminha sozinho.

Sou um solitário que na companhia procura
As coisas com mais sentido de alegria
Com toques, gestos e beijos em loucura
porque a vida é uma
e viver é com os lábios morder-te a língua.

Sou um solitário que se escreve
E que está sempre onde nunca se esteve
Por esses sítios onde este eu se perde e que nada pede
a não ser todos os momentos e ritmos que compõem esta coisa leve
que me faz, me é e me mata a sede.

Carlos Branco


(Hoje, nesta rubrica, a voz de um jovem poeta cujo blog se encontra aí na lista dos que visito. Apreciem!)

Publicado por lique às 04:53 PM | Comentários (28)

janeiro 22, 2005

Se sou assim...

Pelos caminhos da vida
Sem acautelar meus actos
Solto a palavra ferida
Transformo rosas em cactos

Caminho sem precaução
Dou passos desprevenida
Não paro para ver o chão
Pelos caminhos da vida

Sigo em frente sem temor
Nem evito desacatos
Entrego a alma no amor
Sem acautelar meus actos

Se sonho feras espreitar
Ou armadilha estendida
Não me permito hesitar
Solto a palavra ferida

Ao pisar os meus afectos
Sem do amor negar os factos
Firo com dardos directos
Transformo rosas em cactos


(Quadras para um amigo que me deu uma rosa que eu transformei num cacto)

Publicado por lique às 07:06 PM | Comentários (28)

janeiro 20, 2005

Neblina (?)

Estamos a pouco tempo das eleições legislativas. Dei comigo a pensar que falta só um mês.

(Aí vem ela com a porcaria da política, já cá faltava! Não podia limitar-se a fazer uns versos manhosos?)

Vá lá, permitam-me umas reflexõezinhas, ainda que sem a argúcia dos brilhantes analistas políticos da nossa praça. Por acaso, é algo em que este país é pródigo… E até dizem umas coisas.
Pois a minha grande interrogação, a neblina que turva o meu pensamento é mesmo esta: mas em que raio de partido vou eu votar?

(Ah, ela também não sabe!!! Então não é… nem…)

Pois é!! Eu não sei e (choquem-se lá com esta!) nunca tive tanta vontade de não pôr os pés na minha habitual assembleia de voto. Entendo bem as razões que, por exemplo, o Zecatelhado invoca para não ir votar. Na verdade, no dia 20 de Fevereiro eu vou deparar-me com um dilema (ou será mesmo trilema ?) que a campanha eleitoral, de certeza, não vai resolver. Não, não esperem que me ponha para aqui a dizer que não voto neste porque fez (ou não fez) isto e aquilo! Nem vou dizer que, vote em quem votar, o que aí vem é "mais do mesmo". Não faço o trabalhinho de casa a ninguém. E este é um TPC que todos devemos fazer.
Admitindo que voto à esquerda…

(ah que grande novidade!!)

Pois, admitindo que voto à esquerda, ainda tenho uma data de hipóteses. E eu queria que a neblina se fosse dissipando na minha cabeça. Parece fácil? A quem é que parece fácil? Acho que nem aos filiados neste ou naquele partido. A situação do país é de tal forma complicada que …

(Querem ver que ela vai defender o pacto como o Jorginho?)

A situação do país é de tal forma complicada que gostava de não ter que votar no menor dos males… que até pode vir a revelar-se maior! E mais não reflicto, por hoje. É que curiosamente a neblina está ainda a adensar-se mais. E eu gostava que um raio de sol entrasse e a dissipasse. No meu pensamento e no de todos nós. Para encontrarmos uma solução iluminada.

(Está bem, está bem, eu calo-me já.)


[Independentemente de neblinas, espero que todos façamos o trabalho de casa e vamos votar no dia 20 de Fevereiro em plena consciência. Essa vai ser a minha campanha.]

Publicado por lique às 07:17 PM | Comentários (33)

janeiro 18, 2005

A minha cidade

ponte.jpg

A minha cidade não se chama Lisboa,
não tem cheiro a sul
e nem por ela passa o Tejo,
mas como ela, tem Nascentes
leitosos e marmóreos...
Na minha cidade os Poentes são de ouro
sobre o Douro e o mar
e só ela tem a luz do entardecer
a enfeitar o granito...
Na minha cidade, tal como em Lisboa
há gaivotas e maresia
mas não há cacilheiros no rio
há rabelos
transportando nectar e almas...
Da minha cidade nasce o Norte
alcantilado, insubmisso
e o sol, quando chega, penetra-a
delicadamente, carinhosamente,
depois de vencido o nevoeiro...
Na minha cidade também há pregões,
gatos, pombas, castanhas assadas e iscas
e fado pelas vielas, pendurado com molas,
como roupa a secar nos arames...
A minha cidade tem também tardes languescentes,
coretos nas praças
velhos jogando cartas em mesas de jardim
e o revivalismo de viuvas e solteironas
passeando de eléctrico...
É bem verdade que na minha cidade
a luz, não é como a de Lisboa
mas a luz da minha cidade
é um frémito de amor do astro-rei
a beijá-la na fronte, cada manhã!...


Maria Mamede


Foto: M.P.


[A Maria Mamede enviou para mim, para a Lmatta e para o Ognid este poema. Maria, quem agradece tudo somos nós. O Porto não é a minha cidade, mas hoje é como se fosse.]


Publicado por lique às 10:27 PM | Comentários (33)

janeiro 17, 2005

Poema para piano azul

pianoencantado.jpg


Hoje não é dia de desespero
nem desencanto
Nem será dia de amargura
ou desamor
Hoje não quero ouvir choro
não quero pranto
Quero que em cada olhar
se acabe a dor.

Hoje quero que as horas sejam de esperança
sonhada talvez, mas aqui presente
Quem não desiste, luta
Quem de amor vive, ama
Quem dá alegria, ri.

Hoje quero só que as letras do poema
se espalhem nos sons claros dum piano azul.

Foto: Lia Costa Carvalho


Obrigada

Bertus:

vives;
de vida plena e feita.
conclamando a esperança,
em melhores e úteis tempos
sabendo que a receita
deve ser bela e mansa,
e nunca de violência.
com os acordes azuis,
compões amor e decência.
vives.

Vivian:

Hoje
quero apenas ouvir
estas tuas palavras
que soam suaves como notas aos meus ouvidos...
Hoje
quero apenas agradecer-te
por tão formosa seres
por toda beleza que escreves
por poder achar refúgio aqui...
Hoje
quero que saibas
que gosto muito de ti
que é uma delicia vir aqui
Mas acima de tudo quero que saibas
o quanto és importante para mim
quero que saibas
não apenas hoje
e sim,
Hoje
e sempre...

M.P.:

Hoje quero ficar com o teu Poema como lema.
Hoje de Hoje.
Hoje de Amanhã e do Futuro.
Quero viver em Sinfonia Azul com solo em Piano Azul,
esse Piano Azul que a Lia concebeu!...

Publicado por lique às 10:14 AM | Comentários (49)

janeiro 16, 2005

Apelo para a humanidade

Tivemos a tristeza de ver recentemente o Tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço que vivemos, para que não sejamos nós os responsáveis por catástrofes desta natureza.

Tivemos a tristeza de ver recentemente o Tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço que vivemos, para que não sejamos nós os responsáveis por catástrofes desta natureza.

Nós blogueiros, propomos desde já, unirmo-nos em um alerta para a humanidade, e implantarmos cada um de nós, a nosso modo e em nosso ambiente, medidas práticas de mudanças!

É tempo de se falar abertamente. É tempo de se abordarem as questões em profundidade e não de forma restritiva. É tempo enfim, de se falar a sério sobre a questão ambiental e ecológica. Sobre a humanidade!

E com razão. É que cada vez mais se toma consciência de que o combate pela preservação, não tem fronteiras, não é regionalizável e de que a resposta ou é global ou não será resposta.

As chuvas ácidas, o efeito de estufa, a poluição dos rios e dos mares, a destruição das florestas, não têm azimute nem pátria, nem região. Ou se combatem a nível global ou ninguém se exime dos seus efeitos.

As pessoas ainda respiram. Mas por quanto tempo?

Os desertos ainda deixam que reverdejem alguns espaços estuantes de vida. Mas vão avançando sempre.

Ainda há manchas florestais não decepadas nem ardidas. Mas é cada vez mais grave o deficit florestal.

Ainda há saldos de crude por extrair, de urânio e cobre por desenterrar, de carvão e ferro para alimentar as grandes metalurgias do mundo. Mas à custa de sucessivas reduções de reservas naturais não renováveis.

Na sua singeleza, o caso é este:

Até agora temos assistido a um modelo de desenvolvimento que resolve as suas crises crescendo cada vez mais. Só que quanto mais se consome, mais apelo se faz à delapidação de recursos naturais finitos e não renováveis, o que vale por dizer que não é essa uma solução durável, mas ela mesma finita em si e no tempo que dura. Por outras palavras: é ela mesmo uma solução a prazo.

Significa isto que, ou arrepiamos caminho, ou a vida sobre a terra está condenada a durar apenas o que durar o consumo dos recursos naturais de que depende.

Não nos iludamos. A ciência não contém todas as respostas. Antes é portadora das mais dramáticas apreensões.

O que há de novo e preocupante nos dias de hoje, é um modelo de desenvolvimento meramente crescimentista – pior do que isso, cegamente crescimentista – que gasta o capital finito de preciosos recursos naturais não renováveis, que de relativamente escassos tendem a sê-lo absolutamente. E se podemos continuar a viver sem urânio, sem ferro, sem carvão e sem petróleo, não subsistiremos sem ar e sem água, para não ir além dos exemplos mais frisantes.

Daí a necessidade absoluta de uma resposta global. Tão só esta necessidade de globalização das respostas, dá-nos a real dimensão do problema e a medida das dificuldades das soluções. Lêem-se o Tratado de Roma, O Acto Único Europeu e mais recentemente as conclusões da Conferência de Quioto, do Rio de Janeiro e Joanesburgo, onde ficou bem patente a relutância dos países mais industrializados, particularmente dos Estados Unidos, em aceitar a redução do nível de emissões. Regista-se a falta de empenhamento ecológico e ambiental das comunidades internacionais e dos respectivos governos, que persistem nas teses neoliberais onde uma economia cega desumanizada e sem rosto acabará por nos conduzir para um beco sem saída.

Por outro lado todos temos sido incapazes de uma visão mais ampla e intemporal. Se houver ar puro até ao fim dos nossos dias, quem vier depois que se cuide!... e continuamos alegremente a esbanjar a água do cantil.

Será que o empresário que projectou a fábrica está psicológica ou culturalmente preparado para aceitar sem sofismas nem reservas as conclusões de uma avaliação séria do respectivo impacto ambiental?
Mesmo sem sacrificar os padrões de crescimento perverso a que temos ligados os nossos hábitos, há medidas a tomar que não se tomam, como por exemplo:


Levar até ao limite do seu relativo potencial o uso da energia solar e da energia eólica.

Levar até ao limite a preferência da energia hidráulica sobre a energia térmica.

Regressar à preferência dos adubos orgânicos sobre os adubos químicos.

Corrigir o excessivo uso dos pesticidas.

Travar enquanto é tempo a fúria do descartável, da embalagem de plástico, dos artigos de intencional duração.

Regressar ao domínio do transporte ferroviário sobre o rodoviário.

Repensar a dimensão irracional do transporte urbano em geral e do automóvel em particular.

Repensar, aliás, a loucura em que se está tornando o próprio fenómeno do urbanismo.

Reformular a concepção das cidades e das orlas costeiras

Dito de outro modo: a moda política tende a ser, um constante apelo às terapêuticas de crescimento pelo crescimento. È tarde demais para desconhecermos que, quando a produção cresce, as reservas naturais diminuem.

Há porém um fenómeno que nem sempre se associa ás preocupações da humanidade. Refiro-me à explosão demográfica.

Com mais ou menos rigor matemático, é sabido que a população cresce em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética. Assim, em menos de meio século, a população do globo cresceu duas vezes e meia !...
Nos últimos dez anos, crescemos mil milhões!... Sem grande esforço mental, compreendemos aonde nos levará esta situação.

Se é de um homem mais sensato e responsável que se precisa, um homem que olhe amorosamente para este belo planeta que recebeu em excelentes condições de conservação e está metodicamente destruindo; de um homem que jure a si mesmo em cadeia com os seus semelhantes, fazer o que for preciso para que o ar permaneça respirável, que a água seja instrumento de vida e dela portadora, e os equilíbrios naturais retomem o ciclo da auto sustentação, empenhemo-nos desde já nessa tarefa, com persistência e determinação.


Se é a continuação da vida sobre a terra que está em causa, e em segunda linha a qualidade de vida, para quê perder mais tempo?...

Por isso apelamos a todos quantos se queiram associar a este movimento pela preservação Natureza, pela Paz e pelo desenvolvimento harmonioso da Humanidade, para subscreverem este Apelo.

Ao fazê-lo estamos a afirmar a nossa cidadania, enquanto pessoas livres, que olham com preocupação o futuro da Humanidade, o futuro dos nossos filhos!

Lista de Subscritores

Publicado por lique às 02:56 PM | Comentários (0)

janeiro 15, 2005

Do silêncio

carcav-1.jpg


"And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence"

Simon and Garfunkel


Deixem-me falar do silêncio. Do silêncio que se instala. Dentro e fora de nós. Reparem que eu não estou a falar de tristeza. Estou a falar de silêncio. Ausência de palavras, de sons. Que estão lá ou já estiveram. Porque não há ausência sem haver ou ter havido presença. O silêncio pode acontecer só porque as palavras não são ouvidas. Porque não fazem sentido. “People talking without speaking”. Será que o silêncio acontece para procurarmos as palavras verdadeiras, redondas, aconchegantes ou frias e afiadas como lâminas? Ou acontece porque, de repente, não o ousamos perturbar e queremos só ouvir o seu som? O som do silêncio. Belo, quando o desejamos. Terrível, quando se nos impõe.
Aqui, hoje, rodeada de sons, queria fazer silêncio dentro de mim. Para me ouvir, para ouvir os outros, tantos outros, próximos ou não. Não invoco o silêncio por não querer ouvir as palavras. Invoco-o para as conseguir ouvir. Para eliminar o ruído.


Foto - Ognid (roubada, em silêncio...)


Sobre o silêncio, deixou o Rui Luis este belo poema:


escuto-me...
são os ruidos do passado
dentro do silêncio
que me envolve
e escuto-me...

sinto...
as vozes dos meus ais
calaram-se devagar
e fez-se sombra
e sinto...

a paz...
travei as guerras
em terras distantes
meus gritos silenciaram-se
e fez-se paz...


Publicado por lique às 09:58 AM | Comentários (23)

janeiro 13, 2005

Sombras

2-16.jpg


Sombras
Quero as que em teus olhos
despertam a dádiva de toda a ternura.
Quero as que os teus braços
derramam no círculo ao redor de mim.
Quero as que o teu corpo
projecta no meu, na entrega do amor.

Sombras
só quero de ti
que outras já seguem o som dos meus passos.
Não as oiço, pressinto-as mais do que as sei!


Foto daqui

Publicado por lique às 12:17 PM | Comentários (34)

janeiro 11, 2005

A voz dos amigos (II)

mariana-3texto.jpg


Anjos mulheres-VI


As mulheres voam

como os anjos

Com as suas asas feitas

de cristal de rocha da memória

Disponíveis

para voar

soltas...

Primeiro

lentamente uma por uma

Depois,

iguais aos pássaros

fundas...

Nadando,

juntas

Secreta a rasar o

chão

a rasar a fenda

da lua

no menstruo

por entre a fenda das pernas

Às vezes é o aço

que se prende

na luz

A dobrarmos o espaço?

Bruxas

pomos asas em vassouras

de vento

E voamos

Como as asas

lhe cresciam nas coxas

diziam dela

que era um anjo do mar

Rondo alto,

postas em nudez de ombros

e pernas

perseguindo,

pelos espaços,

lunares

da menstruação

e corpo desavindo

Não somos violência

mas o voo

quando nadamos

de costas pelo vento

até à foz do tempo

no oceano denso

da nossa própria voz

Sabemos distinguir

a dormir

os anjos das rosas voadoras

pelo tacto?

Somos os anjos

do destino

com a alma

pelo avesso

do útero

Voamos a lua

menstruadas

Os homens gritam

- são as bruxas

As mulheres pensam

- são os anjos

As crianças dizem

- são as fadas

Fadas?

filigrama cintilante

de asas volteando

no fundo da vagina

Nadamos?

De costas,

no espaço deste século

Mudar o rumo

e as pernas mais ao

fundo

portas por trás

dobradas pelos rins

Abrindo o ar

com o corpo num só golpe

Soltas,

viando

até chegar ao fim

Dizem-nos

que nos limitemos ao espaço

Mas nós voamos

também

debaixo de água

Nós somos os anjos

deste tempo

Astronautas,

voando na memória

nas galáxias do vento...

Temos um pacto

com aquilo que

voa

- as aves

da poesia

- os anjos

do sexo

- o orgasmo

dos sonhos

Não há nada

que a nossa voz não abra

Nós somos as bruxas da palavra
 

Maria Teresa Horta


Selecção do poema - Wind

Foto - Ognid

Publicado por lique às 07:17 PM | Comentários (29)

Prenda para um dia de sol

Sempre disse que aqui se fazem amigos, uns que saltam para a nossa realidade, outros que, ainda que permaneçam neste mistério do virtual, nos dão um carinho tão forte como se os conhecêssemos de há muito.
Hoje recebi uma prenda. O TCA, a Lia e o Nino uniram-se para fazer com que hoje, o sol brilhe por cima das nuvens de tempestade. Obrigada, amigos.
O que é que estão à espera para irem lá ver?

Publicado por lique às 11:54 AM | Comentários (9)

janeiro 09, 2005

Stormy weather

stormy_weather.jpg


O vento de tempestade começou a soprar
No início suave, crescendo em rajadas de desespero
Levantou toda a poeira, destapou feridas escondidas
Instalou-se e esperou a chegada das nuvens grossas
Rolos de algodão negro abafaram toda a respiração
Que abrandou, devagar, devagar…

Agora esperamos a vinda da chuva, sem saber sequer onde vai cair
E quando será o dia do sol brilhar, devagar, devagar…


Ilustração daqui

Publicado por lique às 04:44 PM | Comentários (35)

janeiro 07, 2005

Entre amigos - destaques e agradecimentos

No início de um fim de semana complicado por razões de vária ordem, só tenho tempo para destacar aqui alguns blogs que apareceram recentemente e que, para além de serem da autoria de pessoas que estão na tal “caixinha dos afectos”, são um garante de qualidade de escrita e/ou imagem.

À flor da pele da Aimée e do Corto Veneti

As coisas de que gosto da Lola Viola

Em linha recta da Lmatta

Uma forma de olhar da Lia e do Nino Garbin


Por vezes também, as demonstrações de amizade e de consideração pelo trabalho que fazemos, deixam-nos surpresos e comovidos. Por isso, eu quero agradecer ao Zecatelhado a atribuição do BlogOuro desta semana a este espaço. Zeca, farei por merecer.

A todos desejo um bom fim de semana e vão dando uma olhadela nestes blogs que sugiro. Garanto que não se arrependem.

Publicado por lique às 05:39 PM | Comentários (17)

janeiro 05, 2005

Tu

magica_madrugada.jpg


Existes
aí no limite do meu sonho
onde os gritos do silêncio ecoam.

Miragem
concreta em momentos inventados
fuga de mim em dias de azul.

Absurda
a ideia de ti nas horas caladas
planta no meu peito a flor da solidão.

Aí no limite do meu sonho…

Foto: Luís Lobo Henriques

Publicado por lique às 11:29 AM | Comentários (41)

janeiro 03, 2005

O primeiro dia de trabalho

Naquele primeiro dia de trabalho, após as festas, a D. Fátima olhava pensativa para as revistas que tinha comprado e não lhe apetecia ler. Sabia que a engenheira já tinha chegado e, mais minuto menos minuto, estaria a telefonar para pedir o correio. Mas sentia-se cansada e os papéis à sua frente desencorajavam-na.
Pensou naqueles dias que tinha passado em casa do filho. Tinha feito todas aquelas coisas boas de que eles gostavam, tinha a sensação de não ter saído da cozinha entre o Natal e o Ano Novo. Mesmo assim, a serigaita da nora não tinha tirado o ar de enjoada no Natal e tinha passado a noite de Ano Novo a dizer como seria bom passar o ano no Casino. Onde iriam eles buscar dinheiro para isso? Aquela rapariga só pensava em coisas que o filho não lhe podia dar. Enfim, na verdade, eles que se entendessem. Mas ela preocupava-se. Nunca conseguia deixar de se preocupar.
A real alegria daquele Natal tinha sido a maluqueira do neto com as prendas que tinha recebido. Muitas. O marido era um mãos largas para o neto. Só para o neto, mesmo. A ela tinha-lhe dado um pirex para substituir um que se tinha partido. O filho tinha-lhe comprado um pijama (onde o iria arrumar naquelas gavetas cheias dos que lhe tinham dado nos outros anos?). Enfim… ela tinha comprado a prestações, a uma senhora que lá ia vender ouro, aquele colar que trazia posto e que toda a gente achava lindo. Prenda dela para ela. Tinha feito uma loucura e o marido estava farto de perguntar como é que ela tinha arranjado dinheiro para aquilo.
Pensou que a engenheira devia estar a pedir o correio e pegou nos papéis. Imaginava as Festas dela. De certeza, não tinha mexido uma palha. Devia comprar tudo feito, caríssimo, e havia de ter passado o ano em alguma festa fina, de certeza…


A engenheira também se sentia, a um tempo, cansada e aliviada por aquele período do ano ter terminado. Pensou que, todos os anos, enfeitava a casa e fazia para a família alargada aqueles petiscos da época de que todos gostavam, numa tentativa de criar um ambiente de conforto e felicidade. Naquele ano, ninguém lhe tinha parecido particularmente feliz e ela tinha sempre a sensação de ter falhado em alguma coisa. As prendas tinham sido escolhidas a pensar em cada um, um pouco à pressa porque o tempo tinha sido pouco. As que lhe tinham dado iam de encontro aos gostos que lhe conheciam. Cada vez lhe parecia mais fútil e cansativa aquela escolha e troca de prendas. Estava a ficar velha e desencantada, pensou. Aquele viver em solidão acompanhada a que se tinha habituado desde nova, começava a pesar-lhe.
Lembrou-se que tinha que pedir o correio. Decidiu ir lá abaixo e, de caminho, beber um café. Como teriam sido as Festas da D. Fátima? Não que lhe interessasse muito, pensou, a tentar chamar aquela carapaça de indiferença com que se defendia dos outros e dela própria, sobretudo. Imaginou-a com a família, feliz com a felicidade deles. Sem dúvidas, sem desencantos. E sentiu uma pontinha de inveja.


Entrou no gabinete. A D. Fátima parecia extraordinariamente atarefada. Milagre de Ano Novo?

- Bom dia , D. Fátima! Então esse Natal, como foi?

- Olha a Srª engenheira. Passou bem as Festas?

- Mais ou menos, D. Fátima. Esta época só tem graça para as crianças.

(Mentira. Lembrava-se de anos de rapariga e jovem mulher com Natais tão felizes…)

- Pois é. Mas olhe, eu estive muito bem em casa do meu filho. A minha nora fartou-se de trabalhar e eu aproveitei para descansar. A Srª engenheira também descansou, aposto!

- Claro. Sabe, eu mando vir quase tudo feito. Nunca me deu muito para cozinhar…

(Gostava de cozinhar, sim… Mas por amor, sem obrigação)

- Pois claro, faz muito bem. Olhe, quer ver este colar que o meu filho me deu?

- Muito bonito, D. Fátima. O seu filho tem muito bom gosto.

(Sabia que ela tinha mentido. Uma colega tinha comentado que ela tinha comprado o colar.)


A engenheira saiu do gabinete e, olhou esperançadamente para o telemóvel que andava sempre consigo. Se ele tocasse, se… Talvez aquele dia ainda pudesse dar-lhe aquelas pequenas felicidades que ia coleccionando, antídoto único contra o cinza que por vezes lhe invadia a alma.

[Para quem não se lembra ou nunca leu sobre a D. Fátima e a engenheira, pode encontrar mais posts relacionados com o assunto aqui, aqui, aqui, aqui e aqui].

Publicado por lique às 06:34 PM | Comentários (75)

janeiro 01, 2005

G1 - Porque em mim há sempre gaivotas

seagulls.jpg


Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo
Que chegam em cada abraço,
Que partem em cada beijo,
Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo!

Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo,
Gaivotas de dor profunda,
Dessa dor de que me visto,
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo!

Em mim há sempre Gaivotas
Em bandos, como pardais,
Gaivotas de Liberdade,
Morrem muitas, nascem mais;
Em mim há sempre Gaivotas,
Em bandos, como os pardais!
Que eu, tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo,
Que partem em cada abraço,
Que chegam em cada beijo,
Que nascem no Coração,
Levantam voo da mente,
Gaivotas feitas futuro
E passado e presente,
Gaivotas de todo o Amor,
De sorriso, de partida,
Gaivotas feitas de morte,
De saudade e despedida;
Que ser Gaivota é ser forte,
É ser Livre para Amar,
É ser Livre de partir,
É ser Livre de chegar,
Livremente viajando
Nas vagas de cada olhar;
E, porque me perco no tempo
Por no tempo andar perdida,
Por isso é que há Gaivotas
Dentro de mim, por toda a VIDA!...


Maria Mamede, in "Pelas Letras do Alfabeto"


Foto daqui

Publicado por lique às 08:28 PM | Comentários (32)