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janeiro 30, 2005

A voz dos amigos (IV)

foto-1.jpg


Perguntas


Onde estavas tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylan
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.


Joaquim Pessoa


Selecção do poema : Maria Branco e Wind

(Agradeço às duas amigas que escolheram este poema que, de alguma forma, tem a ver com a efeméride do passado dia 27 de Janeiro - 60 anos da libertação de Auschwitz. Um poema para não esquecer o horror que aconteceu e o que acontece hoje.)

Publicado por lique às janeiro 30, 2005 01:17 PM

Comentários

E muito bem escolhido, por todas as razões e mais algumas.

Um abração do
Zecatelhado

Publicado por: Zecatelhado em janeiro 30, 2005 01:31 PM


Gosto muito de Joaquim Pessoa... E quanto ao tema, gostaria de aconselhar a leitura de um livro de Ilse Losa "O Mundo Em Que Vivi" - costumo lê-lo na aula com os meus alunos. Espantoso o tanto que não sabem sobre o Holocausto!
Bom Domingo a todos.

Publicado por: LibeLua em janeiro 30, 2005 01:51 PM

O teu poema não ajudou em nada o meu estado de desilusão com as pessoas. Pois é, estou desiludida com as pessoas, até comigo...são tão mesquinhas e pequenas às vezes. Auschwitz é a pontinha do iceberg do mal que a himanidade é capaz.
Jinhos...o poema é muito bem escolhido.

Publicado por: Blue em janeiro 30, 2005 02:58 PM

sabes que me tem apetecido publicar este poema muitas vezes?!! é forte como todo o Joaquim Pessoa! Um abraço!

Publicado por: seila em janeiro 30, 2005 03:12 PM

Olá Lique
Bela homenagem aos mortos de Aushwitz e mais às injustiças e crueldade deste mundo em que vivemos.

Estive fora do país por um tempo, daí a minha ausência.
Actualiza o meu link, por favor, já não é Fio da Navalha.
Beijos e bom domingo.

Publicado por: stillforty em janeiro 30, 2005 03:33 PM

Lique perdoa-me mas após a fotografia só me resta o respeito do silêncio..

Publicado por: myryan em janeiro 30, 2005 04:19 PM

A acutilância de Joaquim Pessoa. (Terá inspirado Batista Bastos? :)) )
Sorry. Deve ser overdose de paracetamol, mas virei a agulha para o registo humorístico - faço isso para 'não estar', como diz o poeta.
A escolha foi excelente. Claro.
Big hug

Publicado por: MJM em janeiro 30, 2005 04:27 PM

boa escolha do poema.
nao conhecia, mas procurarei mais coisas sobre Joaquim Pessoa, fiquei curiosa.
bêjitos

Publicado por: isa xana em janeiro 30, 2005 04:28 PM

Obrigada querida amiga por mais esta oportunidade de parceria com a Maria Branco e o teres gostado:-) Muitos beijos:)***

Publicado por: wind em janeiro 30, 2005 05:07 PM

Olá querida. Boa lembrança e belo texto.
Aliás, fui lendo e a cada pergunta lembrava do ocorrido com os filhos de Principe Charles... Onde estavas tu?
Bom estar de volta aki
bjos

Publicado por: Liliane em janeiro 30, 2005 06:45 PM

Pra nunca esquecer mesmo. Belo poema. Beijo, amiga.

Publicado por: Márcia em janeiro 30, 2005 06:55 PM

Que continuemos lembrando desse massacre, e ao mesmo tempo tentemos praticar a liberdade e a compaixão. É preciso expressar a liberdade em pequenos momentos da vida, para mais tarde compreendermos melhor o que é ser o que verdadeiramente somos.
Um abraço,

Publicado por: Pedro em janeiro 30, 2005 08:10 PM

Não esquecer nunca! Nem Auschwitz, nem que até hoje (ainda hoje) os massacres continuam!...

Publicado por: sotavento em janeiro 30, 2005 08:18 PM

Auschwitz é o HORROR relembrado e que NUNCA pode ser esquecido pelo que representa do maquiavelismo de uns quantos que quiseram a todo o custo controlar o mundo! Estivem em dois campos de concentração: Buchenwald e Bergen-Belsen. Foi o primeiro que mais me marcou pela maneira como foi feita a visita: primeiro somos "preparados" para a visita com um fulme fora de portas do recinto propriamente dito. Esse filme é o relato detalhado do que ali mesmo aconteceu. Depois somos levados até ao campo onde das barracas só existem as marcas e até aos gabinetes médicos. Aí perto está a "solitária" transformada em verdadeiro santuário, uma vez que nas celas há memoriais das famílias de quem l+a esteve preso e acabou por ali morrer. Um IMPRESSIONANTE testemunho! E mais abaixo em edifício enorme e construído para esse fim há um Museu onde se vê muito do que já sabemos trer sido a vida nestes campos de morte! Há também um pavilhão anexo onde estão expostos muitas criações artísticas de muita gente que por ali passou e onde está representada a mundividência desses prisioneiros que tinham a morte como fim certo.Fiquei também no imaginário com a reacção de um jovem alemão àquilo tudo que via pela primeira vez: as lágrimas caíam-lhe pela cara abaixo e apenas conseguia dizer que não percebia como aquilo acontecera e fora causado por compatriotas seus!
Bergen-Belsen é mais um imenso espaço aberto, à altura, coberto de urze em flor, rubra, mas de onde a onde sobressaem lápides em memória de dente ali desaparecida! Sentem-se os fantasmas a voar de árvore em árvore mesmo em tempo de Verão e à luz do dia e é impressionante como em qualquer um destes locais há para quem os visita a necessidade de parar para meditar !
Desculpa o longo comentário... Um beijo!

Publicado por: M.P. em janeiro 30, 2005 08:55 PM

Não conhecia o poema.
É lindo, Lique!
Beijinhos amargurados por ser feita da mesma carne e osso daqueles que mataram e dos que foram mortos!!!

Publicado por: madalena em janeiro 30, 2005 09:12 PM

Todos que viajam deviam arranjar tempo para ir visitar os campos,pelo menos um.Serve de testemunho .Nunca ninguem sai exactamente como entrou.

Publicado por: annie hall em janeiro 30, 2005 09:51 PM

Tenho há pouco tempo, admito, o hábito de me encantar com as belas linhas de prosa ou verso que por aqui semeias.
Em jeito de resposta, digo-te amiga, eu ando às voltas com Hiroshima e Nagasaki e com as crianças que o sol Americano cegou…

Publicado por: jgonçalves em janeiro 30, 2005 10:05 PM

Terrível...
BS

Publicado por: blueshell em janeiro 30, 2005 10:18 PM

Olá lique
Cada geração carrega os seus demónios.
O que aconteceu há 60 anos é uma questão da humanidade.Temem-se réplicas!
Bjs

Publicado por: Jose Duarte em janeiro 30, 2005 10:38 PM

Quando penso em todo esse horror, vem-me sempre à memória o quadro "O Grito", numa associação que só o pasmo tece...
Beijinho e semana bonita, amiga...:))

Publicado por: maria em janeiro 30, 2005 10:42 PM

Olá Lique!Nao conhecia o poema...mas sabia bem tudo o que aconteceu em Auschwitz, lembro-me de documentarios assustadores descrevendo o que tinha sido feito...e pergunto como é possivel haver ser humanos que tratem os da sua raça duma maneira tao miseravel e estupida!?è como uma frase de alguem k nao me lembra o nome "O Homem é o maior lobo do Homem" quem a disse estava bem certo!!
Beijinhos e visite-me!!

Publicado por: sandra em janeiro 31, 2005 12:41 AM

Bonito o poema e feia a realidade...bj*

Publicado por: Lianor Dias em janeiro 31, 2005 11:15 AM

Onde estava a decencia humana, quando aconteceu essa desgraça?!

Publicado por: polittikus em janeiro 31, 2005 01:18 PM

Será que os "homens" que ainda hoje, fomentam guerras, sejam cegos e surdos? Será que não "sentiram" o grito dos seres humanos, que o pecado que cometeram, foi estarem vivos? Por mais que o mundo recorde, existem sempre pessoas (será que são pessoas?) para quem o sofrimento humano está abaixo de todos os padrões imorais que possuem. A guerra, em qualquer circunstância é terrivel, mata, mutila, dizima famílias inteiras, por isso, nunca é demais dizer: Auschwitz, NUNCA MAIS!
Abraço

Publicado por: menina_marota em janeiro 31, 2005 01:34 PM

Bonita homenagem..., que me silencia as palavras.
Boa semana
Beijos

Publicado por: Mar Revolto em janeiro 31, 2005 03:12 PM

Está realmente fantástico.Foi muito bem escolhido este texto.Parabéns a todos,a que o escolheu,e a quem o publicou.

Publicado por: Art Of Love em janeiro 31, 2005 04:43 PM

{ … [copy and past] “cansado, deste falta de tempo e parecer, neste querer dizer e não poder, … por isso quando aqui estiver, tentarei deixar um pequeno silêncio para que possas entender, que aqui me prendo a ler” © o5elemento … }{ beijos* }

Publicado por: o5elemento em janeiro 31, 2005 05:07 PM

A escolha do poema foi excelente e ainda mais combinada com a imagem.
Porque o poema é excelente, apesar de eu não me lembrar muito bem por onde andava.
Talvez estivesse mesmo no Condes (não era um cinema onde havia pulgas?).
Beijinho.

Publicado por: Nilson em janeiro 31, 2005 05:29 PM

Curvo-me perante o poema escolhido/postado, em silêncio. Em silêncio por respeito por todos aqueles que pereceram e o mundo não viu ou não viu o suficiente ou atempadamente ou se deixou convencer por supostas legitimidades, face a supostos ideiais, mas também pelo mundo que reagiu, mas que foi incapaz de vergar ditadores ou democratas de categoria muito duvidosa. Em silêncio por tudo o significa em termos de regressão da Humanidade. Silêncio pelos fracassos. Mas silêncio que me puxa para o grito. Para o grito de horror. Para o grito de revolta. Para o grito de nojo. Para o grito de vergonha... do Homem.

Um grande abraço.

Publicado por: Sandra em janeiro 31, 2005 06:49 PM

...uma bela escolha, esta de um Joaquim Pessoa em muito boa forma, questionando aqueles que passam "distraidos" pela vida...Parabéns.
Beijos e intés!!

Publicado por: porquinho da india em fevereiro 1, 2005 12:27 AM

Tenho pensado muito nos bons escritores e poetas que encontramos neaste nosso cantinho.
É que, para mim, plágio era sinónimo de roubo, desonestidade. Aprendi com a Fata Morgana, há alguns meses, e agora com um jovem poeta, que plágio é tmbém sobretudo sinónimo de perda, de dor.
Vai lá dar o teu apoio.
Um beijo

Publicado por: titas em fevereiro 1, 2005 04:37 AM

Excelente. nunca se pode esquecer o que se passou, o ponto extremo da irracionalidade e desumanidade do bicho homem.

Beijos

Publicado por: Carlos em fevereiro 1, 2005 11:12 AM

>>A TODOS: agradeço terem lido e comentado o poema que estas duas amigas escolheram. Um poema de interrogações que lembra horrores vividos no passado. Para que não nos esqueçamos dos horrores do presente.

Beijinhos e abraços.

Publicado por: lique em fevereiro 1, 2005 11:32 AM

Só agora cá pude chegar... mas venho a tempo de vos agradecer a escolha/homenagem.
Interessa, então, participar também hoje para que, quando daqui a vinte ou trinta anos alguém fizer esta mesma pergunta àqueles de nós que por cá andarem, o nosso olhar permaneça sereno e a resposta seja audível.
Beijos

Publicado por: OrCa em fevereiro 2, 2005 07:42 PM