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fevereiro 03, 2005
Conversa (à pressa)

É raro saber de ti. Ocasiões tristes, um amigo comum que morreu, coisas assim. Não que isso seja alguma ideia obsessiva mas, por vezes, apetece-me ouvir a tua voz.
Somos cúmplices. Dizias. Somos cúmplices. E eu costumava rir e perguntar. Cúmplices no crime? Invariavelmente. Era uma piada habitual.
A vontade de ouvir a tua voz. A cumplicidade. Não o amor. Esse voou, fugiu, qual pássaro assustado. Outras mãos o acarinharam. E o pássaro perdeu o medo. Ganhou coragem para voos diferentes.
Mas ouvi-te. O Natal é o pretexto de muitos reencontros.
É a miúda? Disse a tua voz enquanto eu me atarefava nas prateleiras do supermercado. A miúda. Bem passados os cinquenta anos, este “miúda” fez-me rir. Devo ser. Que te havia de responder?
A tua voz disse. Não acreditaste. E eu pensei, enquanto enchia o carrinho. À pressa, sempre à pressa. Talvez não. Talvez não tenha acreditado. Eras importante. Disseste. Era importante? Agora não interessa. Pensei. Agora já não interessa. E disse. Não vale a pena falar disso agora. Já estava na caixa, era tarde.
Disseste ainda. As pessoas não deixam de ser importantes. Não gosto de falar no passado. Eu já estava ao pé do carro. Agora já não interessa. Repito. Um dia falamos. Talvez. Ou nunca. As palavras perderam-se no tempo. Lembras-te? O amor voou. Poisou por aí. Ganhou coragem e partiu. Para outra viagem.
Dezembro 2004
Foto: Carlos Sousa
Publicado por lique às fevereiro 3, 2005 06:04 PM
Comentários
Elos passados, mais ou menos presos, mais ou menos soltos, numa cadeia que se entrelaça e nos liga a quem somos!... :)
Publicado por: sotavento em fevereiro 3, 2005 06:14 PM
Esta conversa não tem nada de apressada. É uma conversa calma, retirada de lá de dentro, com as cores da pressa, da vida que corre depressa, mas contada com calma. E calmo é todo este blog, pintado com pasteis de serenidade. Porque é que eu não o conhecia?
Saudações e elogios que deixo
Publicado por: Eufigénio em fevereiro 3, 2005 06:14 PM
Um pouco de aceitação ou de resignação? mesmo que não... que outro remédio há? Que interessa gostar de alguem se este alguem não gosta com o mesmo tamanho? O que está, está.. e o que não, foi...
Publicado por: hammer em fevereiro 3, 2005 06:41 PM
Quem derá que todas as saudades fossem matadas nestas conversas apressadas...
Abraço querida!
Publicado por: Vivian Oliveira em fevereiro 3, 2005 07:23 PM
Conversas que marcam o nosso íntimo, o nosso coração. A saudade é serena, mesmo que o amor tenha asas e voe, para outros céus...cumplice dos nossos desencontros... A cumplicidade, uma palavra que me é muito cara...
Abraço terno e o meu sorriso maroto...
Publicado por: menina_marota em fevereiro 3, 2005 07:38 PM
Por vezes sei que ela está lá e eu estou aqui e eu penso nela e ela pensa em mim... por vezes tb falamos repetimos mensagens, confirmamos que estamos em sintonia,... à espera
Publicado por: alma ébria em fevereiro 3, 2005 07:50 PM
Amiga Lique está espectacular este post. à pressa, mas devagar:-) Interessa sempre...Bonita foto,) Muitos beijos:)***
Publicado por: wind em fevereiro 3, 2005 08:49 PM
Gosto da tua escrita ao correr, as palavras soltam-se-te dos dedos e chegamos ao fim à espera de mais.
Noite feliz, beijos
Publicado por: yardbird em fevereiro 3, 2005 11:22 PM
Era importante...ficam-nos na memoria.
Publicado por: annie hall em fevereiro 3, 2005 11:28 PM
Ontei postei por duas vezes no teu magnífico sol nascente, e por duas vezes o comentário foi engulido. Chateei-me e olha: desisti.
Li com atencão o que escreveste; e acho que os elos nunca se perdem Lique: mais ou menos vivos, mais ou menos presentes com maior ou menor ternura, ficam sempre, invocando essa cumplicidade que no fundo não se chega a perder. Entendo perfeitamente cada uma das tuas palavras; a vontade de te ouvir, não já o amor, mas simplesmente ouvir-te a cumplicidade!..
Beijinho grande, D.Lique!
Publicado por: aguas de marco em fevereiro 3, 2005 11:37 PM
A brisa murmura suaves odores e palavras e cumplicidades que a memória do tempo não apaga.
Os rabiscos apressados emanam sempre saudades e raivas julgadas adormecidas no abismo em que se tornam as vidas.
Felizmente que mesmo com chuva, sabemos que o Sol está lá, pronto à menor aberta para nos aquecer.
Publicado por: jgonçalves em fevereiro 3, 2005 11:48 PM
Ninguém deixa de ser importante enquanto está na nossa memória. Só guardamos aquilo que verdadeiramente vale, o resto desfaz-se em fumo, desaparece.
Um beijo para ti que és importante para mim.
Publicado por: Ana em fevereiro 4, 2005 03:09 AM
escrita solta, bem encadeada, feita no seu tempo.. sem pressa. gostei bastante.
algumas relaçoes que tive, relaçoes de amizade mesmo, ficaram perdidas no tempo, nao sei o que lhes aconteceu e,algumas vezes,quando vejo alguma dessas pessoas, dou por mim apressada como que com receio de falar mais, de mostrar-me a elas...
beijitos
Publicado por: isa xana em fevereiro 4, 2005 03:10 AM
cumplicidade ou mesmo cumplicidades ... uma palavra também para mim muito cara.
Genial o tempo, o momento, neste teu texto. Atarefada nas prateleiras... já estavas na caixa...
Nasce-se com génio, aprende-se técnica.
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mas deixemo-nos de lamechices:
hoje, do que vi, vale especialmente a pena (depois de passar lá por casa para beber um chá ou uma caipirinha) ir ao PECISCAS.
Publicado por: titas em fevereiro 4, 2005 04:02 AM
Por dentro não temos idade, somos. Por fora temos idade a mais, deixamos de ser. Felizes os que vêm as pessoas pelo que são e não pelo que foram...
Publicado por: Samykas em fevereiro 4, 2005 07:35 AM
"para outra viagem"!... assim a vida!...
viagens felizes as que permanecem em cálida presença de Natal!
gostei muito! significativo o cenário da "estória", o cruzar dos sentimentos com a "banalidade" do quotidiano!
Publicado por: DonBadalo em fevereiro 4, 2005 03:53 PM
Gostei muito da urgência dos três tempos deste texto - o pretérito perfeito, o gerúndio e o presente-fugaz. Numa escrita tão urbana! Gostei imenso dessa impressão escrita. Hesito entre a snapshot e o photomaton :))
Uma frase 'desalojada', linda: "Outras mãos o acarinharam".
E dos versos de para um poema: "À pressa, sempre à pressa. / Agora não interessa."
Eu fiz imensos puzzles! Thks
Big Kiss, Wonder Woman
Publicado por: MJM em fevereiro 4, 2005 05:29 PM
Deixa cá ver se passa aqui, o comentário. Reencontros sempre dificeis, agradáveis e desagradáveis em simultaneo. bjks
Publicado por: ognid em fevereiro 4, 2005 06:28 PM
Até disse "cruzes"...
Estou na maré de "recuar a faniqueira" e fizeste lembrar um dia perdido no tempo...
Passou... a recordação ficou! Mas um dia os olhos cruzaram-se numa esquina perdida do tempo.
Nada dissemos... apenas olhamos!
O coração bateu mais depressa...
Não tive coragem de olhar para trás!
Publicado por: jose gomes em fevereiro 4, 2005 08:01 PM
Faz-me lembrar a cantiga da Betânia: Olá como vai...
Gosto muito deste estilo frase curtas que reflectem o próprio conteúdo do texto.
Beijinhos e parabéns por este texto lindo de "viver".
Publicado por: madalena em fevereiro 4, 2005 08:03 PM
pois Lique eu dizia e tento repetir e pedia desculpa por o dizer - este é um dos textos que mais tenho gostado! gosto do estilo compassado, ritmado, sem palavras a mais, firme cada uma e pleno de pressa e sentires de cada um que a gente sente como se estivesemos a vivê-los! Muito bom! Abração!
Publicado por: seila em fevereiro 4, 2005 08:32 PM
Estes reencontros com passados que marcaram e que nunca se esvaíram no tempo! Por albuma razão.. Não vale a pena dizer qual... O reencontro é sem explicação. Coincidências .. mas as memórias vêm num flash e o filme ressurge nítido como se nunca tivesse o tempo passado... Mas... agora é presente... e nesse presente as vidas são de diferentes rumos... Fica a saudade (ou o alívio) de já ser passado... **
Publicado por: M.P. em fevereiro 4, 2005 09:19 PM
...já uma vez te disse e aqui a MJM "concorda": a tua escrita "voa" as mais das vezes da "gaiola" da prosa e vai pousar na pauta musical da poesia. E assim sendo, ainda maior é o prazer de te ler.
Tem um bom fim de semana, beijos e intés!!
Publicado por: porquinho da india em fevereiro 4, 2005 11:20 PM
As palavras perdem-se no tempo, mas as memórias encarregam-se de as recuperar.
Saudações
Publicado por: Carriço em fevereiro 5, 2005 02:33 AM
As palavras perdem-se mesmo e as pessoas também, por aí, no tempo, e o amor vai fugindo para outras paragens, sem dúvida...Adorei esta tua conversa! Fecham-se uns ciclos, abrem-se outros! Beijinhos, minha amiga, e um bom carnaval ( não lhe acho piada nenhuma! Quem precisa de carnaval para usar máscara ou fantasia? Eu cá vou viajando ao sabor dela sempre que me dá na "real gana!")
P.S. Esta é a terceira vez que comento. Isto está como o Sapo!
Publicado por: MWoman em fevereiro 5, 2005 04:21 PM
>>A TODOS: agradeço a vossa boa vontade em comentar, dadas as dificuldades que têm existido nos últimos dias. Ainda não é desta que volto às respostas individuais. A ver se para a semana isso é possível.
Beijinhos e abraços para todos.
Publicado por: lique em fevereiro 6, 2005 10:11 AM
O meu coração ateu quase acreditou
Na sua mão que não passou de um leve adeus
Breve pássaro pousado em minha mão
Bateu asas e voou
Meu coração por certo tempo passeou
Na madrugada procurando um jardim
Flor amarela, flor de uma longa espera
Logo meu coração ateu
Se falo em mim e não em ti
É que nesse momento
Já me despedi
Meu coração ateu
Não chora e não lembra
Parte e vai embora.
Publicado por: hana_le em fevereiro 6, 2005 11:28 PM
Adorei... revejo-me nestas palavras ... o meu amor também está prestes a voar ... para não dizer já. Este momento ainda não o vivi mas já pensei que vai acontecer ... bjo
Publicado por: Evalina em fevereiro 7, 2005 10:51 PM
Gostei muito de tudo!
Obrigada pela partilha!...
beijo
Publicado por: estorninho em fevereiro 11, 2005 04:14 PM