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fevereiro 27, 2005
A voz dos amigos (VII)

Rosas pretas
Noventa e quatro. porta encarnada. não deixes cair. não deixes cair. pronto molhou-se. a alma dela foi para o céu. não te sujes...a tua mãe... Mãeeeeeeeeeeeee. Nãooooooooo. porra a puta da cadela na vai parir os cães aqui. Jorgeeeeeeeeeeee. o que é que o senhor disse? Oh! Madalena tira esta merda daqui. foda-se outra vez a chover. Alberto, Alberto, Albeeeerto....Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
A boca entreabria-se num esgar. Sorriso amolecido na cara escorrendo numa baba transparente e grossa. Sorrindo o víamos nas tardes de fim de tarde quando a casa nos chamava e entre ela e a rua depois do trabalho...qualquer trabalho...se interpunha a rua cheia de gente com, precisamente, uma casa e um trabalho e entre o desejo do primeiro e a fuga do segundo, aquela ou uma outra rua apinhada de outras gentes nas mesmas condições de ir correndo entre. Nesses fins de tarde era que ele se sorria, ou era quando a gente não tinha tempo para o ver sorrir, mas via que ele estava sempre ali naquele meio recanto da loja, muito arrumado aquele monte de cartão e a manta de xadrez e o jornal. Havia sempre um jornal diário muito arrumado em cima da manta.
Na pressa de encurtar a distância do chegar a casa, a gente via, um bocadinho de todos os finais de cada uma tarde correndo entre, a gente ia vendo um dia mais um bocadinho que se enfiava num recanto do ver que às vezes era mais que olhar e deixava assim um quente em alguma parte do corpo da gente que corria entre o trabalho e a casa de recolha do cansaço. E quando esse ficar o corpo a levar o que tinha visto, fosse a baba, o cabelo pastoso e encanecido, a manta, o sorriso. Quando uma imagem qualquer se deslocava colada numa zona qualquer de quem passava, ficava aquilo a que se costuma chamar pena ou tristeza ou raiva ou alguma coisa assim dependendo de quem era a pessoa ou, mesmo, de que intervalo era o que se estava a passar naquele dia entre o trabalho e o rever a casa.
Tremias tanto, Alberto! Foda-se, a merda do jornal ficou de lado. Porra o jornal ficou torto. Arre a merda do jornal tem que ficar direito. Mãeeeeeeeeeeee. Ei! Ai! Olha aquele papagaio de papel do António rasgou-se. Mãeeeeeeeee. Mãeeeeeeeeeee.
As mãos rebuscavam o jornal em gestos rápidos com desvelos. O rosto rasgava-se num rito de ansiedade. Uma voz aparou-lhe o rolar do seu constante pensar-falar-silêncio ruidoso.
- Senhor Alberto! Vamos comer a sopinha?!
Um olhar muito verde desfez-se-lhe de medroso em terno. As mãos pararam sobre as folhas de jornal muito novo, muito folha sobre entre folha. As mãos colocaram o jornal sobre o monte de manta e papelão. O jornal arrumado. O olhar muito verde muito sorriso sempre fixando aquela “Senhor Alberto! Vamos comer a sopinha?!” na cara rosada da D. Marieta de todos os fins de tarde que trazia sempre duas rosas bordadas nos olhos pretos.
Depois da sopa, ela levava as duas rosas que tinha bordadas cada uma no negro dos olhos e deixava-lhe uma luz que se aninhava num nele, no mesmo dele que vibrava sempre que pensava...estava sempre a pensar...e nesse pensar ouvia um ele que nem sabia se ainda era ele ou outro que lhe ficara despegado numa zona do ter sido; e essa luz que as duas rosas deixavam, brilhava no mesmo sítio de si de quando pensava em grito que era tão grito que nunca percebeu porque nunca nenhum dos que passava na rua, entre o trabalho e o ir para casa, lhe perguntou porque é que gritava assim Mãeeeeeeeeeeeeeeeee.
Foto: Ognid
[Hoje tenho comigo uma escritora extraordinária. Saboreiem o texto porque a escrita da Seila é para saborear, mesmo. Para mim é um duplo prazer porque a considero uma Mulher com letra grande e uma amiga. A bela foto é da autoria do artista de serviço. Obrigada aos dois]
Publicado por lique às fevereiro 27, 2005 12:22 AM
Comentários
{ ...
[escolha]
por ti reclamada [exigida] [;]
por ele[a] tida [alcançada; obtida] [;]
por nós sentida [lida]
© pipetobacco
beijos*
... }
Publicado por: pipetobacco em fevereiro 27, 2005 12:44 AM
Tens razão... um texto para saborear! E a foto excelente como sempre.
É bom ter amigos como os teus. Parabéns e um beijinho.
Publicado por: Ana em fevereiro 27, 2005 01:25 AM
Escelente texto...pregando rosas negras aos sentimentos...*
Publicado por: Lianor Dias em fevereiro 27, 2005 02:55 AM
Eu queria dizer uma coisa.Venho sempre aqui em silencio ( nunca comento...), e sempre que tenho tempo para aqui demorar-me, mastigar as palavras, cheirá-las, degustar os seus sentidos...
Hoje tive esse tempo...e demorei-me por entre as ruelas da vida aqui vivida e sentida.
Ainda não cheguei aos 50.Acabei de fazer 40 no final do ano transacto. Mas sinto tudo o que aqui transpira...
Um abraço
Publicado por: valeria em fevereiro 27, 2005 04:56 AM
"Desnascer" de certas vidas...
Publicado por: sotavento em fevereiro 27, 2005 12:19 PM
Belo e sofrego texto da querida seilá. Fiquei com um nó no estômago. Ela tem essa capacidade de me fazer ficar assim.) bela a foto do ognid a condizer perfeitamente com o tecto. Boa parceria:) beijos para os três:)***
Publicado por: wind em fevereiro 27, 2005 04:45 PM
Está tudo dito em cima pelos nossos amigos. É por estas coisas ( e outras ) que cada vez me sinto mais feliz por ter "entrado" nestas coisas dos blogues.
Fica bem e em paz.
Um abração do
Zecatelhado
Publicado por: Zecatelhado em fevereiro 27, 2005 05:50 PM
saboreando o texto tao bem escrito e a fotografia tao bem tirada... te desjo uma boa semana
*
Publicado por: isa xana em fevereiro 27, 2005 10:33 PM
Esta Senhora mais uma vez me faz ficar sem palavras para comentar. Prefiro sentir só. Obrigado por teres usado uma foto minha. Beijos às duas.
Publicado por: ognid em fevereiro 27, 2005 11:48 PM
Mas que belo texto! Coisas assim dá gosto ler, ainda bem que o inseriste, Lique.
Muito bem conseguido, o trabalho de vocês três.
Beijos.
Publicado por: aguas de marco em fevereiro 27, 2005 11:54 PM
É quase sempre muito difícil para mim comentar os textos da seila tal é a sua intensidade! Aquela mulher parece um ciclone de palavras! Fantástico. Parabéns a todos e um beijo.
Publicado por: MWoman em fevereiro 28, 2005 12:01 AM
Vidas ... um belo texto que nos permite ver a vida fora dela e com uma foto a condizer.
Publicado por: Peter em fevereiro 28, 2005 12:05 PM
"Um olhar muito verde desfez-se-lhe de medroso em terno..." quem "manipula" desta forma o material da escrita é um grande escritora! tens toda a razão, Lique! uma bela parceria...
beijos
Publicado por: manuel em fevereiro 28, 2005 12:19 PM
Comentar os textos da Seilá torna-se cada vez mais difícil.
Primeiro porque iria repetir tudo o que está dito acima.
Segundo, porque admiro demais essa Mulher que cada dia mais me surpreende...
Terceiro (e relativo a este texto) tem uma leitura fácil, corredia, mas que dá cá cada sopapo...!!!
Seilá, gostei imenso... cada dia aprimoras mais o teu verdadeiro sentido de escrita.
Quanto à foto não comento... é do Ognid, está tudo dito!!!
Um abraço a todos, especialmente para ti, Alice.
Publicado por: josé gomes em fevereiro 28, 2005 12:51 PM
e que sabor!
Publicado por: náufrago em fevereiro 28, 2005 02:09 PM
Tens toda a razão porque a Seilá é mesmo uma grande escritora.
E esse conto é magnífico.
Parabéns por a teres como amiga.
Beijo grande.
Publicado por: NILSON em fevereiro 28, 2005 06:47 PM
Iniciei a leitura... fui lendo, texto abaixo, lentamente... Já nem era texto, era diário, sentimento, uma lágrima, depois um sorriso, quase certo de tristeza... E o tempo tão frio, na rua... E já tinha a certeza de quem era a autoria, pelo retrato, pela pungência, pelo alinhamento das palavras, a acotovelarem-se em busca de um outro ordenamento...
É o melhor elogio que me ocorre, este de se identificar alguém por aquilo que e como escreve.
Beijos às duas.
Publicado por: OrCa em fevereiro 28, 2005 07:37 PM
Acho que Alberto gostaria do meu post de hj heheheh
Desbocado......
bjos querida!
Publicado por: Liliane em fevereiro 28, 2005 09:14 PM
Será que hoje consigo? Ontem não consegui comentar, quando chegava ao fim não gravava, dava erro.
E o que eu queria dizer, também já disse à Seila, era que ela podia pensar em editar uns contos.
A fotografia é excelente, ou não viesse da catedral.
Beijinhos
Publicado por: Cecília em fevereiro 28, 2005 10:08 PM
Creio ser a primeira vez que li um texto da Seilá. O que eu perdi! Na sua excelência é sentido, sofrido, corrido, com laivos de um brilho intenso, que fere, alegra, alimenta os olhos de quem a lê. Belíssima foto condizente. Minha amiga Lique estás de duplos Parabéns: pelos grandes amigos que tens e porque amanhã (1 de Março) renasces para mais um ano. Tudo de bom para ti e uma bjoka grande, amiga.
Publicado por: amita em fevereiro 28, 2005 10:55 PM
Que HISTÓRIA!!! Um texto de tirar o ar a quem o lê mas que se lê e relê! Texto profundo de leituras que ficou soberbamente ilustrado... Beijos aos parceiros! :)
Publicado por: M.P. em fevereiro 28, 2005 11:22 PM
Minha amiga, antes de mais, deixaram-te lá nos comentários do devaneios uma mensagem para ti.
Depois aproveito também para te desejar um dia feliz!
Muitos parabéns, Alice!
Beijocas aqui desta tua amiga virtual de já há muitos meses!
MWoman ( MªManuela para os amigos!)
Publicado por: MWoman em fevereiro 28, 2005 11:57 PM
Bom, o meu relógio já passava das 24h, bolas! E eu a pensar que estava a ser tão britânica e afinal até me adiantei!hehehe...
Publicado por: MWoman em março 1, 2005 12:02 AM
>>A TODOS: obrigada por terem vindo ler e partilhar comigo a arte da Seila e do Ognid. A eles, mais uma vez, obrigada por terem aceite o convite.
Beijinhos e abraços
>>MWOMAN e amita: obrigada, amigas. Um beijinho grande para vocês.
Publicado por: lique em março 1, 2005 12:34 AM
Um texto de rara semsibilidade e humanidade mtº bem entretecidadas. Foi um prazer lê-lo. Quase k se toca o k ambos vivem.Bjs e ;)
Publicado por: TMara em março 2, 2005 07:30 AM