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março 30, 2005
Fachadas

Fachadas ruínas rasgadas
escondem um e(in)terno terror
espelhos opacos da vida
memórias veladas guardadas
com chaves erradas torcidas.
Fachadas rostos sem visão
sem olhar real, só vidrado
bocas que falam palavras
de dúbia beleza amarrada
com nós apertados pela dor.
Fachadas rostos ruínas
espelhos bocas com nós
amarrados.
Foto: Revelações Avulsas (obrigada Tó Zé, porque o texto nasceu da foto)
Publicado por lique às 12:44 AM | Comentários (43)
março 27, 2005
Grito

Ouviste o meu grito voando perdido?
Aquele que lancei ao vento da noite
e as árvores embalaram em jeito de mães?
Esperei pelo eco na luz da madrugada
escutei cada som para saber a resposta
só me chegou o silêncio.
Perdeu-se o meu grito.
Talvez o encontres dentro de ti.
Publicado por lique às 08:27 PM | Comentários (41)
março 22, 2005
Manhã um pouco cinza

Lá fora, a chuva das muitas preces chegou. Dentro de mim, a manhã está um pouco cinzenta. Um pouco, só. Nada em mim hoje é excessivo, seja pela positiva ou pela negativa. É um daqueles dias em que me travo para não me deixar levar por sentimentos extremos. De alguma forma, procuro a serenidade que me tem faltado. Não sei, no entanto, se congelar sentimentos será o melhor caminho.
Tento trabalhar mas hoje parece ser impossível. E os papéis que me olham… Chego a encontrar-lhes um ar de reprovação.
Também não me apetece passear por blogs e deixar comentários que hoje não podem ter chama nem graça.
Apetece-me escrever tudo o que me vem à cabeça. Hoje a música de fundo é da “Ópera do Malandro”. Oiço vezes sem conta as minhas faixas preferidas. E relembro um Chico franzino de grandes olhos verdes que vi ao longe, usando binóculos, numa festa do Avante há muitos, muitos anos atrás. Éramos todos tão jovens! Parece-me ainda ouvir o ruído da loucura com a “Geni”,“O meu amor”, ou o “O tango do covil” que os MPB4 interpretaram.
A manhã parece melhorar à medida que as memórias da juventude me invadem. Ou talvez, afinal, de neutra passe a melancólica.
Dou-me conta de que estou a escrever com caneta e papel e não a teclar no PC. E de que ler as palavras no papel me dá um prazer e uma tranquilidade especial que já não tinha há algum tempo.
“Reverter o tempo, curuminha,(...) recolher de vez à escuridão do ventre donde não deverias nunca ter saído”. Diz a canção.
Ilustração daqui
[Desejo a todos os que por aqui passarem uma Boa Páscoa]
Publicado por lique às 10:40 AM | Comentários (67)
março 19, 2005
Compasso de espera

Passam no espaço
os passos de alguém
que não deixam traço
da espera sem fim.
Compasso de espera
sem espaço em mim.
E quando os passos
não forem quimera
será que os seus ecos
dão sentido à espera?
Ilustração daqui
Publicado por lique às 12:15 PM | Comentários (47)
março 17, 2005
Poema gorado

Quero escrever um poema. Preciso de palavras,das que ajudam a vida a ter cor. Palavras que fluam dos meus dedos como uma torrente de água transparente. Letras que se juntem e digam esperança. Que falem de amor adulto, completo. Do amor. Frases seguidas de alegria, de entusiasmo, de ternura.
Preciso de palavras dessas, aquelas a que chamamos belas. Para que a vida me pareça bela. Não as sinto nos meus dedos. Não as sinto em mim. Nem sei se ainda se podem escrever palavras dessas. Talvez só se possa dizer da dor, da angústia, da raiva. Talvez só se possa falar de tudo o que nos enche a alma de lama. Porque momentos há em que nos sentimos presos na lama da vida.
Espero pelas palavras que não chegam. Talvez espere em vão pelo tempo em que as sabia. E o poema fica parado, esperando comigo. Poema gorado, mudo, incolor.
Ilustração daqui
Publicado por lique às 10:45 AM | Comentários (43)
março 15, 2005
Make my day, boss

Por onde andas depois daquela escolha definitiva, daquele rasgar do coração, daquela doação de amor total? Eu entendo, claro. Por vezes só se mostra o amor dessa forma. Tu sempre tiveste medo da destruição física daqueles que treinavas, mesmo sabendo que, para eles, chegar ao topo, era a única via de saída para uma vida sem horizontes.
E ela? Ela era especial. Viste isso no primeiro dia e tentaste protegê-la. Mas ela não queria. Não viste como ela não queria, como ela tinha escolhido aquele destino como o único possível? Não te culpes. Your darling, your blood. Muito mais do que a que era verdadeiramente do teu sangue. Não te culpes. Não falo do que tiveste que fazer no fim, mas de a teres tentado levar até ao topo, passando por cima das tuas protecções bem tecidas durante anos. Fizeste-o porque ela o desejava, porque ela queria a glória. E porque a amavas. Ela conquistou-te no primeiro round. KO ao primeiro round, lembras-te? Amor é uma palavra tão abrangente! Provavelmente vias nela a filha, ou não só. Que importa? Fizeste-o por amor.
O teu acto final é só o corolário desse amor. Só tu o podias fazer. Era o que ela esperava de ti. A tua filha, o teu sangue.
Por onde andas? Queria encontrar-te de novo, Frankie, boss! Quero encontrar-te muitas mais vezes, Clint, em cujos olhos de água se reflecte a humanidade de tantas “vidas comuns”. Make my day!
[Texto inspirado no filme Million Dollar Baby e num outro texto desta senhora]
Publicado por lique às 04:10 PM | Comentários (24)
março 13, 2005
Na bruma da tarde

Quero-te na bruma da tarde
na doce movimento das árvores
na incerteza dos dias que acabam
olhos perdidos no longe do mar.
Sei-te nas horas indecisas
em que o dia se despe de luz
como se em ti estivesse a neblina
que me fica em cada despedida.
Chamo-te amor no fim dos dias
quando a maresia invade a paisagem
o sol perde o brilho e espelha o calor
no olhar preso que por vezes queima.
Foto: Ognid
Publicado por lique às 06:33 PM | Comentários (43)
março 11, 2005
Medo

Madrid, 11 de Março de 2005
Medo. Medo de estar aqui, outra vez. De olhar o outro ao meu lado. Diferente. É diferente. Será que é um deles? Talvez não...
Lembro. As bombas. O barulho, o sangue. Chega! Deus, será que é um deles? Fiquei sem marido, sem irmão, sem filho... Há um ano. Já um ano? O terror. As velas, as flores. Exorcismos.
Será que é um deles?
Faixa de Gaza, 11 de Março de 2005
Medo. Hoje os tanques ainda não passaram. A cada ruído, tremo.
O meu marido, irmão, filho saiu. Levava granadas num cinto. E eu rezo. Não vai voltar. Sei.
Estou aqui há quantos anos? Tantos... Espero que eles venham. Conheço-os. Deixarão a casa de pé? Ou será hoje que me tiram tudo?
Medo. Crianças lá fora. Corram! Vêm aí os tanques. São eles.
[Passa hoje um ano sobre o atentado de 11 de Março, na estação de Atocha. Lamento os mortos, os traumas. Mas não consigo ver só um lado da questão. O que é o terrorismo?]
Publicado por lique às 11:54 AM | Comentários (42)
março 10, 2005
É no dourado da tarde

É no dourado da tarde
que me descubro tristezas
pequenas melancolias
inacabadas doçuras.
No ouro do pôr-do-sol
vejo a minha linha d’alma
um limite de horizonte
sono breve de ilusões.
O sol dorme no poente
a noite em breve será
negro cortado de brilho
caminho para outro dia.
Contemplo as brechas da alma
raiadas de ouro vermelho.
Espelho o olhar bem fundo em mim
o sol arde no meu peito.
Foto: Revelações Avulsas
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (25)
março 08, 2005
Mulher. Feminino singular

Botticelli, O Nascimento de Vénus (pormenor)
Hoje, quero dizer de ser mulher. Mulher, feminino singular.
Não filha de pai e mãe, menina preservada, protegida.
Não mulher de alguém, esposa amada, respeitada, com lugar certo na sociedade certa.
Não mãe de filhos(as), desvelada, dedicada, desfeita em preocupação e orgulho.
Mulher por si. Mulher em género e corpo.
Mulher que se (re)conhece ao olhar outra mulher.
Que aprende cedo a conviver com a dor física.
Que quando o desaprende, convive com outras dores.
Que tira da vida o que quer, sabendo muros que se levantam e que contorna ou derruba.
Que luta com outros seres humanos (de qualquer género) pelas suas convicções.
Que sabe da solidão. Da tristeza. Da procura do consolo.
Que pelas mãos e pela palavra conforta quem dela se abeira.
Que aprende o seu corpo como seu. Não de outrem.
Que sabe do desejo. Que o aceita.
Que sabe do prazer. Que o procura.
Que sabe do amor. Que o dá, sem limites, eterno e renovado em cada dádiva.
[Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Este texto é para todas as mulheres, femininas, singulares.]
Publicado por lique às 12:23 AM | Comentários (44)
março 04, 2005
Raízes

Na noite que foi origem de mim
Procuro o local onde tive vida
Dentro da raiz de todo o meu ser
Enrolo-me
Protejo-me
Em casca rugosa faço o meu casulo
Uno-me ao corpo antigo do tronco
De olhos alheios me escondo
Descanso.
Foto: Herzog
Já publicado num post colectivo no Estrela Vertiginosa
Publicado por lique às 11:40 PM | Comentários (41)
março 03, 2005
Faz hoje um ano
Carta a quem ler
Gostava que me entendessem. Eu cheguei aqui há pouco tempo, vinda de um local bem diferente. Um local monótono que começava seriamente a estrangular o pouco que me restava de imaginação. Não conhecia (não conheço) as leis deste mundo onde agora passo algum tempo. O desconhecimento da lei não aproveita a ninguém. Esta é uma máxima que o meu pai me ensinou e que se tem revelado sempre verdadeira. Passo a passo consegui não fazer nenhuma contravenção grave. Passo a passo, até aluguei uma casita. Modesta mas, enfim, dá para me instalar. Passo a passo deixei a alma voar porque este mundo é mais largo. Tem limites ,claro. Quando cheguei, julgava que não (ah, o tal desconhecimento das leis…). Depois entendi que é possível bater com a alma nos limites deste mundo. É até possível sangrar um pouco. Entendi também que, como em todos os mundos, existem forças que puxam para um lado ou para o outro e condicionam de alguma forma o espaço em que me podia mover. Nunca gostei de viver isolada, portanto tentei bater à porta dos vizinhos. E aprendi a não bater onde não há resposta. Pelo menos a não bater mais que três vezes. Estabeleci esse limite: três vezes. Hoje tenho aqui por este mundo alguns amigos e vou tentando, passo a passo, estender as minhas asas sem bater de encontro aos muros. Sabendo que eles estão lá.
Maio 2004
Pois é, amigos, esta é uma semana de comemorações. Faz hoje um ano que iniciei, no Sapo, o blog Mulher dos 50 aos 60. O texto que publico é, de certa forma, um olhar para a minha entrada no mundo dos blogs. Data de Maio de 2004. Desde aí, muitas coisas mudaram naquela visão simplista.
Num balanço rápido, acho que a experiência tem sido positiva. Em termos de evolução na escrita e de amizades feitas. Algumas saltaram para a realidade. Outras mantêm-se virtuais, sem nenhum demérito por isso. A todos os que por aqui passam, lêem, comentam, enriquecem os posts com a sua contribuição, o meu muito obrigada. E espero sinceramente que para o ano aqui estejamos, com iguais razões para celebrar.
Obrigada, Seila e Ognid
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (53)
março 01, 2005
Hoje

Hoje ofereço-me esta canção de Milton Nascimento. Uma das minhas preferidas. Talvez porque uma das coisas que gostava de poder fazer hoje era partir sem ter planos. Sendo que chegar e partir são, de facto, dois lados da mesma viagem.
Não podendo, a canção vai habitar-me durante o dia, imaginando este local como a plataforma duma estação. Também aqui chegam e daqui partem pessoas e se partilham emoções. Espero que alguns de vós embarquem comigo nesta viagem.
Encontros e Despedidas
Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar quando quero
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai querer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
Foto daqui
É verdade, hoje faço anos. Espero ir agradecendo a todos o carinho. Para já quero agradecer em particular aos blogs que me deixaram prendas especiais:
Águas de Março
Catedral - Ognid
Chora que logo bebes - Madalena
Eternamente menina - Menina marota
Luz de tecto - Biquinha
Outsider - Annie Hall
Pantanero
Poemas de trazer por casa e outras estórias(II) - Manuel e Sara
Repensando - Seila
Tadechuva - Zecatelhado
Web Club - Wind
A todos, muito obrigada. Se faltar algum, acuse-se, por favor :)
Publicado por lique às 12:16 AM | Comentários (73)