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abril 30, 2005
Vertigem de perfeição

Recordo um Maio de alegria perfeita. Sem mácula. Um Maio de bandeiras, cravos e gritos de uma só voz. De esperanças e certezas. De vertigem de perfeição.
Que Maio é o de hoje? Como podemos dar-lhe a vida, a força, o impulso que leve à reflexão e à acção? Como fazer deste dia algo mais que o gritar de slogans? Como dar-lhe um significado real, ainda que imperfeito?
Da alegria perfeita não se pode abusar. Surge raras vezes na vida e tende a fazer-nos perder nessa vertigem. Se a vivemos, recordaremos sempre. Mas tenhamos consciência de que é matéria do sonho que nos ajuda a avançar e a perceber que Maio, no seu dia primeiro, nos deverá servir para lutar pela moderada alegria de conseguir que todos tenham uma vida justa e digna.
Foto e tratamento da imagem: Catedral II (esta foi mesmo indecentemente gamada...)
Publicado por lique às 05:33 PM | Comentários (20)
abril 28, 2005
As palavras

Falámos de palavras. Falamos com palavras. E sentimos a força das palavras. Palavras, leva-as o vento, diz o povo. Será? Pensemos um pouco nas palavras que lemos ou nos disseram e nunca esquecemos. Aquelas que nos atravessam a mente de quando em quando, provocando uma crispação de dor ou um sorriso.
As vozes dos meus pais e algumas palavras que nunca esqueci. Os livros da escola e tantas palavras que decorei de tal forma que ainda hoje as sei : “Batem leve, levemente…”. As primeiras palavras de amor. Todas as palavras de amor ou paixão que significaram algo. Algumas de desamor que particularmente me feriram. As primeiras palavras das minhas filhas. As palavras dos livros mais lidos, dos poemas mais amados. Das canções que me marcaram. De…
Tantas palavras que a nossa mente retém e que voltam à memória sem sabermos porquê! Será que o vento as levou? Não. Ficaram connosco, indelevelmente marcadas em nós. E provocam emoções diversas. Essa é a força das palavras. De uma forma ou de outra, estimular o nosso pensamento, os nossos sentimentos. E provocar uma qualquer reacção.
E, porque hoje me deu para escrever novamente sobre as palavras, talvez seja altura de deixar falar o silêncio e pensar um pouco em tudo isto que escrevi ao correr dos dedos no teclado e que, afinal, não é mais que um amontoado de palavras. Com ou sem sentido, isso dirá quem ler.
Publicado por lique às 06:57 PM | Comentários (34)
abril 26, 2005
Acordar

Sons indistintos rodeiam-me de repente. Começo a tomar consciência do corpo, afundo mais a cabeça para fugir à luz que vem de algum ponto que não identifico. Não a vejo realmente. Sinto-a e recuso-a. Pensamentos confusos cruzam-me a mente enquanto tento situar-me no tempo. Dia, hora. A pouco e pouco a consciência de mim vai crescendo e tento olhar a luz pela nesga entreaberta da janela dos meus olhos. Um pouco só e de novo lhe fujo, àquela luz que já sei vir do dia que lá fora começa. O meu dia interior ainda não começou. Daqui a pouco, talvez. Os olhos abrem de repente. Nunca sei o que me leva a essa decisão que é sempre súbita e penosa. O tecto, as paredes, tudo o que é familiar se vai materializando, enquanto o pensamento já foge para a lista dos “a fazer”. Há que ordenar ao corpo que se levante e que inicie mais um dia, cumprindo a rotina da manhã.
Recomeço todos os dias. Sem motivação. De manhã é possível sentir entusiasmo pela vida? A minha vontade de viver chega mais tarde, está sempre desfasada das horas do dia.
Ilustração daqui
Publicado por lique às 06:28 PM | Comentários (37)
abril 25, 2005
25 de Abril no coração

(…)
Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena
(…)
José Carlos Ary dos Santos, “As portas que Abril abriu”
[Como hoje é um dia de emoções, convido-os a ver o que as minhas filhotas escreveram sobre este dia. O sentimento da Inês está aqui e o da Ana aqui (ela é a Stela).
Para que a festa seja ainda mais completa, pois que a amizade é um dos valores mais importantes da vida, eu quero dar os parabéns ao Yardbird, que faz hoje anos. Não é maravilhoso nascer a 25 de Abril? Parabéns, amigo!]
Publicado por lique às 08:54 AM | Comentários (27)
abril 23, 2005
Palavras novas

Preciso de palavras novas
palavras não gastas.
Dissemos
esperança
igualdade
liberdade
paz.
Dissemos
mas foram morrendo
as palavras na garganta.
Foram morrendo os gritos
nas praças abertas à luz.
Surgiram outras palavras.
Dissemos
pobreza
iniquidade
corrupção
guerra.
Dissemos.
Esquecemos as palavras
ditas na primeira hora
as que gastámos nos dias
de todo o descontentamento.
Hoje quero palavras novas
de cor rubra como os cravos
que em cada ano me enfeitam os olhos.
Palavras que voltem frescas e limpas
como voltam as flores que acordam gritos
numa nova madrugada.
Publicado por lique às 10:05 PM | Comentários (24)
abril 21, 2005
Arame farpado

Deixem-me a liberdade
de não olhar mais
o que não quero olhar.
De ver só parte
da luz que me envolve.
De me recolher
na concha do início
no ninho da inocência
na serena ignorância
das sombras projectadas
sobre o correr da vida.
Deixem-me a liberdade
de ser só eu
dentro de mim
isolada
pelo arame farpado.
Foto: João Reis
Publicado por lique às 09:49 PM | Comentários (30)
abril 18, 2005
Vento brando em fim de dia

O vento soprava brando nos ramos da árvore. A tarde avançava célere. Era assim o fim daquele dia a que chamámos belo.
Depois viria o que sabíamos não ser nosso. Mas a alma estava plena de entendimento daquilo que afinal nos pertencia.
E nesse saber pairámos.
Nada era importante ali para além do vento na árvore.
Do pássaro que cantava o final do dia.
Do sol declinando na linha do horizonte.
Do imenso mar de emoções.
Foto: Pedro Evangelista
[Por motivos de trabalho, volto só no próximo fim de semana. Talvez lá, onde estou de novo, apareça um outro poeta de Abril. Tentarei ler-vos, se possível.]
Publicado por lique às 12:04 AM | Comentários (32)
abril 15, 2005
Paixão papoila

não
não desdenho a rosa
vermelha paixão acesa
só quero olhar a papoila
beleza vibrante e frágil
espalhando a rubra cor
na linha verde do campo.
não
não desdenho a rosa
mas paixão é a papoila
que arde bela em tempo escasso
dá-se viva à mão que a colhe
partilha o cetim das pétalas
e na mão amada morre
breve.
Foto: Papo-seco
Publicado por lique às 12:07 AM | Comentários (49)
abril 12, 2005
O meu eu dividido
Eu, Lique, estava sentada em frente ao PC. Como tantas vezes. Talvez procurasse escrever um poema... Não, porque esses, normalmente, rabisco-os em papel primeiro. Elas apareceram , assim sem que eu consiga explicar como. Senti-me vazia por dentro. E elas ali estavam. A Alice e a engenheira, olhando-me como se eu fosse uma aberração qualquer. Como se tivesse sido transportada para alguma dimensão paralela, ouvi uma voz semelhante à minha mas um pouco mais suave (a Alice, pensei) dizer:
- Que fazes aí? Fui eu que te criei. Não podes ter vida própria, fora de mim.
- Que absurdo! Eu pertenço ao mundo virtual mas as fronteiras entre o real e o virtual (no caso, entre ti e mim) são ténues. Eu também sou parte de ti.
A voz ríspida da engenheira avisou:
-Vocês duas deixem-se de fitas. A mais forte das três sou eu. E não digas que me criaste. Sabes bem que eu existo e que apareço quando queres fugir de certas lamechices.
Perante a engenheira, a Alice é fraca. Por isso deixa-a aparecer para secar os olhos quando as lágrimas querem sair ou para afastar tudo o que a torna demasiado vulnerável. Quando a Alice consegue infiltrar-se completamente em mim, escrevo coisas assim:
"Sem que isso tenha grande importância
Hoje já só queria um abraço
Um doce, terno e sentido abraço
(...)"
Também é a engenheira que lhe garante aquela fama de trabalhadora e competente. Ela, Alice, sente-se tão preguiçosa…
Eu sei tudo isto. Porque eu sou criação das duas, na verdade. Passaram-me partes de cada uma e formaram um misto das duas.
Oiço a Alice dizer:
- A partir de agora, quem escreve sou eu. Tu vais desaparecer. Vais-me deixar …
- Vou-te deixar fazer o quê? Mas não és tu quem me controla?
É por isto que a Alice precisa da engenheira. Para não se deixar dominar.
-Não, quem escreve sou eu. Acabaram-se esses poemas idiotas. Porque tens que falar de amor? O amor é uma mentira. Escreve sobre o mundo real.
Claro que só podia ser a engenheira a dizer isto. Quando ela domina, escrevo assim:
"(...)
Desprendida
Vou cortando laços
Perdendo abraços
No canto da vida
(...)"
Não conhecem este? Nunca o publiquei. Talvez um destes dias.
Oiço-as discutir e percebo porque me criaram. Sendo virtual, consigo algum equilíbrio que elas nunca conseguiram. Extremadas ambas. Em luta constante. Talvez através de mim cheguem a um meio termo. Talvez, quem sabe, se complementem. E se aceitem.
[Bertus, tenho que confessar que os teus "heterónimos" me deram esta ideia… ]
Publicado por lique às 11:30 PM | Comentários (34)
abril 11, 2005
Cadeia de literatura
Foi-me passado o testemunho nesta cadeia pela Encandescente e pelo OrCa. As minhas respostas estão aqui. Se estiverem interessados, agradeço que passem por lá.
Peço em especial à Seila, ao Yardbird e à Moriana, o favor de lá passarem e de não interromperem esta cadeia que, para variar, me parece muito interessante.
P.S.: face a algumas "reclamações" surgidas, esclareço que os comentários estão desactivados neste post, dado que o conteúdo está lá, no outro lado :)
Publicado por lique às 07:38 PM | Comentários (0)
No rasto da lua

Marc Chagall, Amantes ao luar
Dança comigo à luz do luar
vê se do meu rosto
conheces a sombra.
Mostra-me o mar no rasto da lua
sem brilhos de ouro
que o fazem arder.
Dá-me a beber a água gelada
da pura nascente
que o sol não tocou.
Olha nos meus olhos o reflexo frio
deixa a música romântica cantar
o enganador brilho de aço.
Vê-me a alma pelo avesso
embarca na minha viagem lunar
vem ao reverso de mim à luz do luar.
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (18)
abril 09, 2005
É Primavera ...

É outra vez Primavera. Os pássaros cantam. O ar tem uma doçura sempre (in)esperada.
Céus, que forma convencional e desinteressante de começar um texto! É verdade que é Primavera mas qualquer calendário nos diz isso. Os pássaros cantam e depois? A doçura do ar aparece sempre por esta altura do ano e deprime um bom número de pessoas.
Eu queria falar talvez da felicidade. Daquele sorriso que trazemos por vezes connosco, mesmo que invisível. Teimamos em associá-lo ao ar que nos afaga a face, ao vento que nos despenteia, até à chuva que nos molha, se for caso disso. Mas é mesmo e só felicidade. Um dia, uma hora, um momento. O suficiente para que dentro de nós tudo se harmonize. E suba esse sorriso sem como nem porquê. Mesmo que saibamos o como e o porquê.
Mas a felicidade, essa palavra enorme feita de coisas tão pequenas, não é fonte de inspiração para grandes textos. A tristeza é mãe de muitas mais páginas escritas.
Assim sendo, não sei se sabem, é Primavera. O ar é doce e os pássaros cantam. As flores ornamentam os campos. Lá fora há uma inaudível melodia ao som da qual apetece dançar… Preciso dizer mais?
Foto: Seila
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (35)
abril 08, 2005
Amanhã não se esqueçam
É já amanhã, 9 de Abril, que começa o novo espaço Café Expresso-Tadechuva. Enquanto tomam o café da manhã, não se esqueçam de ler. A periodicidade será semanal. Pelo menos tenho a certeza de que todos os que colaboram (eu, incluída) darão o seu melhor para que assim seja. Tenho a certeza que o Zecatelhado (redactor chefe) está desejoso das apreciações e sugestões de todos.
Publicado por lique às 02:40 PM | Comentários (13)
abril 07, 2005
Parabéns, Ana!

Estás longe e hoje dou-te de presente as tuas próprias palavras, quando tinhas 17 anos. Que o teu dia seja pleno de alegria e que, em cada encruzilhada, escolhas o caminho que te leve à felicidade!
P.S. Não te esqueças de ver o que a mana te preparou aqui.
Foto: Annie Hall
Publicado por lique às 12:01 AM | Comentários (24)
abril 06, 2005
Os dias do silêncio

Não sei porque chegam
os dias do silêncio.
Atam as mãos, a boca, a alma.
Há palavras paradas na voz
sem caminho de saída.
Sei-as mas não as junto
na única frase necessária
naquela tonalidade certa.
As letras afogam-se em mim
e afogam-me nelas.
Náufrago de mim
procuro a luz da saída
formo a palavra chave
a primeira que liberta
o grito fechado.
Será assim (re)nascer?
Foto: Ognid
Publicado por lique às 01:27 AM | Comentários (33)
abril 04, 2005
O lugar chamado amor

Marc Chagall, Amantes nos lilazes
Sabem que, fora dali, é o mundo real. O mundo de cada um. Não o de ambos.
O tempo real é diferente. Regula-se pelos ponteiros do relógio. O tempo deles segue o bater do coração.
Fora dali talvez não se conheçam. Ou se conheçam parcialmente.
Sabem quem são no mundo real. Não sabem bem quem são ali, naquele tempo e espaço paralelos. Procuram. Tacteiam.
No mundo deles, começam a viagem do conhecimento. Do outro e de si próprios.
Saciado, por um momento, o desejo de conhecimento físico, querem a experiência de “ser” o outro. Ser para entender. Possível, naquele mundo. O mundo paralelo.
Dizem de si. Dizem deles. Dizem do outro. E percebem o que, na realidade, é incompreensível.
O mundo real tem, no entanto, formas de se impor. Como regressar quando cada um se tornou parte do outro? Há que, pelo menos, nomear aquele lugar em que o tempo e o espaço são só deles. Para poder encontrar a referência, para poder lá voltar.
Um diz: intimidade. O outro diz: entrega. Ambos dizem: amor.
Publicado por lique às 09:15 AM | Comentários (36)
abril 01, 2005
A cor dos meus dias

Cinza leve de fundo
com um pingo vermelho
de paixão acesa.
Manchas descontínuas
de verde esperança.
Um pouco de azul
em tom de ilusão.
Pinceladas negras
em horas incertas.
Esta é a cor dos meus dias
tinta de óleo em mim pintada
que escorre lenta na tela da vida.
Foto: João Parassu
Publicado por lique às 01:05 PM | Comentários (42)