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abril 12, 2005
O meu eu dividido
Eu, Lique, estava sentada em frente ao PC. Como tantas vezes. Talvez procurasse escrever um poema... Não, porque esses, normalmente, rabisco-os em papel primeiro. Elas apareceram , assim sem que eu consiga explicar como. Senti-me vazia por dentro. E elas ali estavam. A Alice e a engenheira, olhando-me como se eu fosse uma aberração qualquer. Como se tivesse sido transportada para alguma dimensão paralela, ouvi uma voz semelhante à minha mas um pouco mais suave (a Alice, pensei) dizer:
- Que fazes aí? Fui eu que te criei. Não podes ter vida própria, fora de mim.
- Que absurdo! Eu pertenço ao mundo virtual mas as fronteiras entre o real e o virtual (no caso, entre ti e mim) são ténues. Eu também sou parte de ti.
A voz ríspida da engenheira avisou:
-Vocês duas deixem-se de fitas. A mais forte das três sou eu. E não digas que me criaste. Sabes bem que eu existo e que apareço quando queres fugir de certas lamechices.
Perante a engenheira, a Alice é fraca. Por isso deixa-a aparecer para secar os olhos quando as lágrimas querem sair ou para afastar tudo o que a torna demasiado vulnerável. Quando a Alice consegue infiltrar-se completamente em mim, escrevo coisas assim:
"Sem que isso tenha grande importância
Hoje já só queria um abraço
Um doce, terno e sentido abraço
(...)"
Também é a engenheira que lhe garante aquela fama de trabalhadora e competente. Ela, Alice, sente-se tão preguiçosa…
Eu sei tudo isto. Porque eu sou criação das duas, na verdade. Passaram-me partes de cada uma e formaram um misto das duas.
Oiço a Alice dizer:
- A partir de agora, quem escreve sou eu. Tu vais desaparecer. Vais-me deixar …
- Vou-te deixar fazer o quê? Mas não és tu quem me controla?
É por isto que a Alice precisa da engenheira. Para não se deixar dominar.
-Não, quem escreve sou eu. Acabaram-se esses poemas idiotas. Porque tens que falar de amor? O amor é uma mentira. Escreve sobre o mundo real.
Claro que só podia ser a engenheira a dizer isto. Quando ela domina, escrevo assim:
"(...)
Desprendida
Vou cortando laços
Perdendo abraços
No canto da vida
(...)"
Não conhecem este? Nunca o publiquei. Talvez um destes dias.
Oiço-as discutir e percebo porque me criaram. Sendo virtual, consigo algum equilíbrio que elas nunca conseguiram. Extremadas ambas. Em luta constante. Talvez através de mim cheguem a um meio termo. Talvez, quem sabe, se complementem. E se aceitem.
[Bertus, tenho que confessar que os teus "heterónimos" me deram esta ideia… ]
Publicado por lique às abril 12, 2005 11:30 PM
Comentários
eu vim aqui ter sem querer...um clique e aqui estava...e, da hora...do cansaço, não entendi se o post era de hoje ou de há mais tempo...e depois li-me e li aquele coment do Almaro e...MInha menina mulher Alice que belo texto de gente! Vou repetir o que escrevi ali: "Gosto daquele repetir "sem que isto seja muito necessário" não, não é mesmo de necessidade que se trata...essa a gente amansa com cinema,bolachas, pintura, renda ou uma bravata...aquele abraço, aquele afago não faz rol de precisão é de outra dimensão. Rcebe com muito carinho um (se fosse possível aquele!) afago!" e um abração!
Publicado por: seila em abril 13, 2005 12:46 AM
Na verdade pouco importa quem és quando escreves porque o fazes sempre muito bem.
Eu escrevo directamente no Word. Como estou sempre a emendar o que escrevo (ainda não percebi se é paranóia, se a busca incessante pela inatingível perfeição) perdi a paciência com os riscos e rabiscos no papel, que tornavam tudo mais confuso.
Beijos do músico, ou melhor do soneteiro, ou melhor do maluco (já nem sei o que sou...)
Olha, beijos deste teu admirador e pronto. ;)
Publicado por: Fernando em abril 13, 2005 02:29 AM
O teu eu não está dividido. O teu eu é a reunião de cada uma das tuas partes, que se completam. Um beijo para as três :-)
Publicado por: Ana em abril 13, 2005 03:44 AM
Pois eu gostei muito de ler este diálogo entre as três.
Quantas vezes somos assim mesmo, divididas entre as várias personagens que somos. Porque fictícia ou não, a Lique existe, está aqui connosco, é ela que nos deixa entrever quem é a Alice. E a espaços, a engenheira também.
A Lique é o nosso interface com quem tu és.
E à falta de conhecer (pessoalmente) a Alice, e por acréscimo a engª, vamos/vou conhecendo a personagem que inventaste para te partilhares connosco.
É certo que existam essas lutas. Escrevemos consoante o nosso estado (de alma e não só), certo? Pois então, são os nossos "eus" que se degladiam para ver a luz do dia, através do teclado do pc.
E agora calo-me que já tive tempo de antena demais ;)
Deixo-te um beijo grande e mais uma vez te digo que gostei muito de (vos) ler
Publicado por: Vulcão em abril 13, 2005 08:49 AM
Nenhuma delas faria sentido sem as outras... Será? O conjunto é imperfeitamente (porque humano) perfeito!Bj
Publicado por: fernanda em abril 13, 2005 10:46 AM
"Eu não sou eu nem sou o outro/ Sou qualquer coisa de intermédio/ Pilar da ponte de tédio/ Que vai de mim para o outro" Mário de Sá-Carneiro
Publicado por: ângela em abril 13, 2005 11:01 AM
Finalmente já me abriste a porta do teu blog. Que raiva! Alice, Lique, Engenheira... não me importa o que sejas, o que foste, mas especialmente o que és! Aquela mulher que conheci num certo mês de Novembro, que irradia simpatia, uma lique que passou a ser a Alice real, encantadora, que cativou o meu universo... e para a Mamede gostar dela assim como se fosse "amor à primeira vista" é porque a Alice, a Lique ou o que queres que sejas és mesmo, mesmo muito especial! Ou não fosses a minha querida madrinha...
Um grande, grande abraço, amiga minha.
Publicado por: josé gomes em abril 13, 2005 12:52 PM
Ao longo do dia temos de assumir diversas "personagens" para desempenharmos o papel que temos de desempenhar. Umas vezes, elas sobrepõem-se umas às outras, capazes de nos confundir. Outras vezes são tão distintas que nem parecem fazer, de facto, parte nós. E somos tudo aquilo.
Gostei muito do texto. E dá que pensar ;) Um beijinho intenso *
Publicado por: Cakau em abril 13, 2005 12:56 PM
"Se as coisas são estilhaços
do saber do universo,
seja eu os meus pedaços,
impreciso e diverso."
Fernando Pessoa
Não importa qual das 3 escreve porque todas elas se complementam e se juntam para nos maravilhar e surpreender.
Espero que em breve que nos deixes espreitar o poema da engenheira que ainda não publicaste :)
Beijokas grandes
Publicado por: Betty em abril 13, 2005 12:56 PM
Que grande diálogo Lique! Genial este post:) Gosto da mistura das duas, da Alice e da engenheira. Aliás gosto de todas:) Muitos beijos amiga que cada vez escreves melhor:))***
Publicado por: wind em abril 13, 2005 01:55 PM
Para ti, Um doce, terno e sentido abraço !
Estou como a Engenheira "O amor é uma mentira"...até ver !
Publicado por: Finurias / Toze em abril 13, 2005 03:13 PM
Olá! passei por aqui e gostei muito do teu blog, vou cá voltar.Já agora um abraço para as três.
Publicado por: adeprimida em abril 13, 2005 05:19 PM
Gostei do diálogo, no qual me revejo...
Somos uns fingidores, como dizia o Mestre dos Poetas, ao ponto de nos confundirmos a nós próprios se não tivermos os pés na terra. A minha dúvida é se valerá a pena tê-los na terra...mas que remédio...
;-)
Publicado por: Luís em abril 13, 2005 06:33 PM
...é a única maneira de nos "dividirmos à séria" e um exercício mental muito bom; claro que não é aconselhável experimentá-lo com muitos personagens, porque se corre o risco de cedermos à tentação de perguntar a um deles, qual somos nós de facto.
Agradeço a citação.
beijos e intés!!
Publicado por: porquinho da india em abril 13, 2005 07:40 PM
Só conheço a lique e por ora basta-me! Será ela muito diferente das outras duas? Um beijo para lique, um abraço para a Alice e uma boa noite para a engenheira!
Publicado por: MWoman em abril 13, 2005 08:06 PM
Interessante este desdobramento/construção da personagem. Pergunto-me se eu sou eu, se sou quem gostaria de ser, se o meu verdadeiro eu sou quem neste momento escreve.
Publicado por: Peter em abril 13, 2005 09:37 PM
Olha, a mim tanto faz quem escreve :) Gosto muito do que aqui leio, seja em que registo for. Beijinhos às três!
Publicado por: Mitsou em abril 13, 2005 10:06 PM
Querida Lique
Adoro estes textos sobre relações internas que se externalizam no que escrevemos, em que múltiplas personagens se criam à nossa passagem.
Um beijo
Daniel
Publicado por: Daniel Aladiah em abril 13, 2005 10:14 PM
li o teu texto e quando me preparava para comentar o meu querido Poseídon (nome do meu compuador... sim, eu dei nome ao computador e a tantas coisas que tenho!) lembrou-se de reiniciar e estragar-me a visita. ele tem andado muito lento mas eu sou mais teimosa que ele!!
ora bem, falando agora do teu texto que foi para isso que vim aqui à parte dos comentários... pus-me pensando quantos eus há em mim e vi que, como tu, também eu tenho vários eus que juntos se completam num único eu... só não sei é se tenho uma Lique - o equilíbrio em mim... ainda tenho que descobrir isso:)
beijito
Publicado por: isa xana em abril 14, 2005 02:25 AM
As tantas de nós !
(tu na vás na conversa dele ahahahha ainda te aparece aqui algum Deodato :-) )
Publicado por: lyra em abril 14, 2005 03:45 AM
Deixo te um abraço imenso:)
Rose*
Publicado por: black rose em abril 14, 2005 09:59 AM
confesso a minha "embirração" afectosa com a senhora engenheira (mas isso é o DonBadalo a falar ...)! e sincera amizade pela Alice! quanto à Lique, desconfio que o "romeiro_romeiro" tem um certo fraquinho por ela...
triplo beijo!
Publicado por: manuel em abril 14, 2005 10:50 AM
Deixo-te um grito de admiração...
Fizeste-me lembrar os pensamentos escondidos do "Persona" de Bergman...
Bravo!
Publicado por: Paula em abril 14, 2005 11:48 AM
Ao ler-te ocorreu-me uma dedicatória que tenho ali, num livro que recentemente me ofereceram...
Eis...
"Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre
Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás - como se diz - a casa térrea -
Construirás a partir do fundamento"
[Sophia de Mello Andresen]
Um abraço e a vontade de ler-te sempre...
Publicado por: Menina_marota em abril 14, 2005 02:52 PM
Querida Lique
Continua a olhar para o screen, a ver-te e a vê-las reciprocamente, para assim te sentires cada vez mais tu na tua virtualidade real.
Gostei de mais esta tua aventura nas palavras, que vais dominando com cada vez maior mestria. Parabéns.
Beijo.
Publicado por: Nilson em abril 14, 2005 02:54 PM
rs... eu vivo buscando os meus contrários! Na tentativa de entendê-los ou talvez apenas para explicar-me a mim mesma! Coisa de piscianos? rs... Seu texto está perfeito! Tanto na forma qto no conteúdo! Beijos amiga.
Publicado por: Loba em abril 14, 2005 03:02 PM
Queria dizer algo de belo...algo de fantástico. Uma frase carregada de sabedoria e misticidade, mas perante o que li apenas consigo esboçar um grande Obrigado!...um beijo*
Publicado por: Virgínia Pedras em abril 14, 2005 03:16 PM
Tu e as tuas criações são um só ser.. Tu mesma em projecção de ti, em ânsia de outro tu, em procura do que de ti ainda não descobriste. A criação artística permite isso mesmo. Para mim continuas a ser a Lique.. ;)**
Publicado por: M.P. em abril 14, 2005 08:31 PM
gosto desses heterónimos. e essas facetas misturam-se e dão um bom resultado final. bjks
Publicado por: ognid em abril 14, 2005 10:27 PM
Agora bem vês tu, Lique, como seria a cabeça do F.Pessoa para que o desdobramento funcionasse com aquele brilhantismo.
Quanto ao nosso estimado Bertus, há apenas que reiterar a agilidade criativa.Extraordinária.
De ti, Lique, acho que tens uma enorme versatilidade -- era o que falatava se não desse aminha opinião -- e apresentas-te sempre com muita clareza.
Bjs
Publicado por: Jose Duarte em abril 14, 2005 11:47 PM
>>AMIGOS: Não se preocupem que, por enquanto, ainda não vou a caminho do hospital psiquiátrico! Isto foi só uma divagação sobre diversas facetas do meu carácter que, quem me conhece bem, sabe que existem. E não mais do que isso. Acho que, por aqui e consoante os dias, se vão notando os meus estados de espírito. E obrigada a todos por me aturarem.
Beijinhos e abraços
Publicado por: lique em abril 15, 2005 12:05 AM
A multiplicidade do todo, retida na parte, dá-nos a visão caleidoscópica do todo, pq a parte faz parte do todo, e o todo não é de todo a parte...
;)
Kisses
Publicado por: MJM em abril 15, 2005 12:08 AM
Também eu nunca me conheço quando escrevo... para concluir, logo de seguida, que mais ninguéem escreveria aquilo (para o bem como para o mal).
Afinal, esses desdobramentos de nós é que somos nós. O "outro eu", uno, indivisível e solitário, não tem existência real.
Publicado por: OrCa em abril 15, 2005 12:13 AM
Somos sempre unos na nossa diversidade de identidades. Aliás é essa que nos faz unos. Ou pelo menos a consciência dela. A loucura começa talvez quando nos perdemos no meio deles! Belo texto.
Publicado por: LibeLua em abril 16, 2005 11:06 AM