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maio 29, 2005

Estranheza

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Sentia-se estranha naquele dia. Tudo no pequeno mundo que lhe sustentava a vida parecia ir ruindo pouco a pouco. Na verdade, não saberia dizer se era essa a causa daquela sensação de se olhar como se saísse de si. Todos os ruídos da tarde se ouviam, como se nela se tivesse feito o silêncio.
Foi então que a solidão bateu à porta. Quis dizer que não estava, apenas porque não era o dia ideal para a receber. Como poderia ser, se aquela estranheza não a largava?
Ainda assim, ela foi-se insinuando. Não era de se deixar escorraçar. Entrou e agarrou o gato que dormia. Pô-lo no colo mas, talvez sentindo o frio que dela vinha, o bicho fugiu e foi alongar-se junto da janela, na réstia do sol quente do fim de tarde.
A mulher recusou aquela companhia. Que lhe interessava ouvir quem lhe dizia do silêncio da casa, naquele instante em que os outros não estavam? Que lhe interessava deixar entrar na alma aquele frio? Pôs música a tocar, recomeçou o livro abandonado, agarrou no telefone. A solidão recuou, como se estrategicamente procurasse só um tempo melhor para se impor.
E a mulher continuou a ver-se, espectadora de si. Estranha. E olhando-se, àquele vulto que lhe parecia diferente do que via para lá do espelho, percebeu da fragilidade de tudo o que a envolvia. Da possibilidade de tudo partir, de um momento para o outro, como qualquer vidro. Nem pensou em cristal. Isso seria sonhar-se. Ela via-se claramente como parte de um todo, sem ilusões. E via-se frágil.

Som: Sting, Fragile

(Bom, ainda não é Junho. Mas eu já tinha saudades vossas...)

Publicado por lique às 06:30 PM | Comentários (47)

maio 13, 2005

Intervalo

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Hoje a inspiração não parou por estes lados. Fui pedir palavras emprestadas. Nos poemas de Sophia encontrei sempre refúgio. Hoje não é excepção.


Eu só quero silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto

Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias

Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma

Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Coral"

Foto: Jorge Adn Costa


[Faço aqui um intervalo, que espero breve, na actividade deste blog e do "Eu, de novo" onde será provavelmente ainda publicado mais um post. Em princípio, voltarei em Junho. Obrigada a todos os que me têm lido e, por aqui, têm demonstrado apreço e carinho.]

Publicado por lique às 06:01 PM | Comentários (64)

maio 11, 2005

No deserto

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Falas-me de oásis em que podemos descansar
matar a sede que nos toma na voragem dos dias.
Falas-me de momentos roubados em que a vida pára
de locais onde é possível haver intervalos no tempo.

Sei que os oásis são raros para a longa travessia
de um deserto feito de momentos iguais.
E na verdade o tempo não pára em lugar algum
apenas abranda e suaviza as afiadas arestas.

Por isso não me digas de oásis nem de tempo.
Fala-me da vida que nasce nos desertos
da beleza da planta que resiste e cresce
mesmo onde a água é escassa e o tempo árido.

Foto: Paulo Bizarro

Publicado por lique às 05:46 PM | Comentários (28)

maio 09, 2005

Do cinema

O Yardbird, diz ele que para agradecer o facto de eu lhe ter passado a cadeia de literatura, passou-me uma cadeia semelhante sobre cinema. Obrigada, amigo! A próxima que cá chegar vai logo direitinha para ti! :)
As minhas respostas estão aqui, para quem quiser saber algo mais das minhas preferências cinematográficas.
Peço em particular a três especialistas da matéria: o José Duarte, a Dora e o Bruno, para lá irem espreitar o desafio que deixei para eles.


P.S.: Comentários, aqui não há... :))

Publicado por lique às 08:00 PM | Comentários (0)

maio 08, 2005

Neblina dos sonhos

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Na neblina da manhã olho a medo o mundo dos sonhos.
Contemplo o lugar indefinido onde a vida se dissolve em bruma.
Passos indecisos caminham por mim na margem do nevoeiro.
Não sei de estrada ou rumo certo, nem se me encontro ou se me perco.
Fico sempre aquém dos sonhos difusos, recuso entrar no caminho de bruma.
Resisto parada no início da manhã, esperando o sol que mostra o caminho.

Foto: José Godinho


Publicado por lique às 03:32 PM | Comentários (35)

maio 06, 2005

Hoje não escrevo

Hoje não me apetece escrever. Esta é uma frase perigosa porque devia parar já aqui. Escrevi que não me apetecia escrever, o que é, já por si, um paradoxo. Mas posso tentar entender a razão desta minha constatação. Não tenho assunto, tenho assunto mas não tenho inspiração, tenho assunto e inspiração mas, simplesmente, não estou para aí virada? Já escrevi até agora 63 palavras. Com 63 palavras faz-se um poema (e ainda sobejam) ou muitos postzinhos pequeninos só com uma ou duas frases. E agora já são 88 palavras. Dava para muito mais. Mas, pronto, não me apetece escrever. Deve ser de ter estado na fortaleza. Ou de ainda estar… O que é certo é que estou para aqui a esbanjar palavras sem fazer nada de produtivo com elas. E, para falta de produtividade já basta… calma, não posso entrar por aqui, senão escrevo mesmo. E, já disse, não me apetece. Mais vale pôr aqui um dos meus poetas favoritos e resolver assim a situação. Ou simplesmente não fazer nenhum post. Posta, como alguns dizem. Cá para mim, nem tudo se deve aportuguesar. Porque posta, seja ela de bacalhau ou outro peixe, ou ainda um belo naco de carne, não tem nada a ver com estas tentativas literárias que para aqui fazemos. Ou terá? Nãã… 216 palavras. Detesto palavras deitadas fora. Ficam para aí soltas, sem significado, sujeitas a interpretações erradas. Não gosto nada de mal entendidos. Que fazer com estas palavras todas? 244, por agora. Não sei ainda. Mas uma coisa é certa: hoje não vou escrever.

Publicado por lique às 12:25 AM | Comentários (38)

maio 04, 2005

Fortaleza

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Fechada assim por dentro frente ao mar
revelo só a luz que me ilumina
na fresta que de mim se entrevê.
Nada digo do que está por trás do muro
protecção ou barreira que me sela a alma
e impede a entrada dos ventos invasores.
Nada, nem as brechas que minam as paredes
nem as labaredas dos fogos acesos na noite
nem o bater das ondas e a carícia do mar.
Nada me descobre ou me desnuda.
Nada me mostra.
Eu, fortaleza de mim.

Foto: Revelações Avulsas

Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (38)

maio 02, 2005

Poema nosso

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Porque dizemos às vezes
o dia é nosso
pensamos agarrá-lo nas mãos cerradas
recusamos ver para lá do limite
das horas que roubamos ao correr do tempo.
Porque ao de leve tocamos
o fio da eternidade
desviamos o olhar da margem estreita
que limita o sonho na realidade dos dias
e dizemo-la planície de horizonte perdido.
Porque entregamos de nós
o infinito possível
vivemos suspensos de horas esperadas
que enfeitamos com as flores da ternura
e preenchemos com a urgência do desejo.

Porque sabemos da vida
e nela nos damos
escrevemos o poema no fluir do tempo
como se o dia fosse nosso…

Foto: José Luís Mendes

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (29)