« maio 2005 | Entrada | julho 2005 »
junho 29, 2005
Só os olhos...

Marc Chagall, Enchantement vesperal
O sol ia alto e o dia suave.
Com os olhos celebrámos o momento.
Dissemos o que a alma sussurrava
nos caminhos misteriosos do corpo.
Só os olhos disseram gritando
que nos sabemos de um tempo sem memória
e dia a dia sem estranheza nos damos
que é nossa a hora.
Publicado por lique às 09:15 PM | Comentários (28)
junho 27, 2005
(Des)ilusões

Hoje o tema é ilusão. Ou, se quiserem, desilusão. Tanto faz, não é? Uma conduz inexoravelmente à outra, num espaço de tempo mais ou menos curto. Claro que a ideia de falar sobre isto não surge por acaso. Por vezes a necessidade de escrever tem tudo a ver com as nossas interrogações. Mas, como estou preguiçosa e desinspirada e já muita gente falou sobre ilusões e desilusões de forma bem mais interessante do que eu, vamos ouvir o que alguns consagrados disseram. Parece que alguns acreditam que as ilusões nos ajudam a viver ou, pelo menos, a suportar a vida.
“As ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro”
Victor Hugo
“Sem se iludir, a humanidade pereceria de desespero e de tédio”
Anatole France
Mas, em contrapartida, há muitos que consideram a ilusão como algo que, de alguma forma nos cega, se calhar apenas porque queremos acreditar nela.
“Nada é mais fácil do que se iludir, pois todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro”
Demóstenes
“Corremos alegres para o precipício, quando pomos pela frente algo que nos impeça de o ver”
Blaise Pascal
“Perder uma ilusão torna-nos mais sábios do que encontrar uma verdade”
Ludwig Borne
Gosto desta última. Tem muito a ver com o que penso, pelo menos neste momento. É assim , nunca se sabe, amanhã posso pensar diferente. Até porque a mais sensata das citações que encontrei, é esta pequena pérola:
“A última das ilusões é crer que as perdemos todas”
Maurice Chapelan
Publicado por lique às 12:52 AM | Comentários (37)
junho 26, 2005
Para ti, miúdo
Não te disse que ainda ia escrever sobre ti no meu blog?
Já pouco há para dizer de original sobre os vários encontros de blogues que se sucedem. Este foi particularmente agradável pelo local, pela óptima companhia e convívio e pela qualidade superlativa da comida (é importante, claro...). Também o foi pela hospitalidade nortenha que a Jacky tão bem representou.
Original, realmente original, foi a tua presença, miúdo. Não gostas que te chame miúdo, aposto. E, de facto, a par da traquinice de criança, há em ti uma maturidade de raciocínio que me pareceu extraordinária, desde o início. E soube que ias ao Encontro, não só por seres filho de quem és, mas por direito próprio, porque tens um blog. Eras um blogger como qualquer outro ali presente. Aguentaste o almoço na maior, jogando os teus jogos, que conversas de adultos quando comem e bebem um bocado começam a ser coisa chata. E, no fim, desafiaste-me tu ou fui eu que me meti contigo? Diabo, rapaz, eu já não tenho idade para correr atrás de ti à volta das mesas do Tromba Rija! Nem para me escapar das tuas cócegas à beira Douro, no cais de Gaia. Mas fiquei com uma grande vontade de te voltar a ver, Mário. E de ganhar fôlego para correr atrás de ti e te fazer as cócegas todas que te fiquei a dever.
(Um obrigada ao Orlando pela organização, à Jacky, à Cláudia e ao Mário pelo carinho e hospitalidade)
Publicado por lique às 12:52 AM | Comentários (11)
junho 22, 2005
Dança

Dançar
Seguir a música que se insinua
Deixar o corpo encontrar a magia
Dos passos certos
Ritmados
Sonhar…
Eu gosto de dançar. Sempre gostei, desde que me lembro. Não exactamente daquelas danças consagradas: a valsa, o tango, o passo-doble. Essas são a beleza perfeita quando dançadas por quem sabe. São o encanto para os olhos quando o par rodopia enlaçado num qualquer salão.
Dança comigo
Não ouves a música?
Aquele som latino marcado
Quente ritmo de sedução
Enlaça-me
Dança-(me)
No caminho da música, os corpos evoluem, expressam-se, encontram a forma certa de dizer o que sentem. O que o som os faz sentir ou o que sentem sem qualquer som. E por vezes a dança já não é só dança, é amor feito ao som dolente de um slow.
Agora leva-me
Sentes a proximidade?
O meu corpo junto ao teu
Num tão lento movimento?
Parece música…
Aqui, em nós.
Som: Touch and Go, Tango in Harlem
Publicado por lique às 06:18 PM | Comentários (36)
junho 20, 2005
Mendigo

Deixa ficar essa tigela de lata
aí ao teu lado.
Dorme o sono da bebedeira de ontem,
a que as moedas do dia permitiram.
As horas passam
e tu dormes, sonhas com o neto,
menino loiro que embalaste
no teu colo de homem forte.
Dorme então,
foi-se o tempo das crianças loiras.
Perdeu-se de vez na tua memória
o tempo dos risos e de todo o amor.
Fugiu de ti.
Alguém deitará mais uma moeda
na tigela que ainda está vazia.
Alguém silenciará a consciência
com uns trocos.
Talvez hoje a fome te obrigue a comer
quando a alma só te pede que bebas
para não teres mais nenhuma visão
de criança ou mulher.
Quando vier o orvalho da madrugada
chegarás a ti a manta rasgada,
pedirás de novo ao sono que te embale
e que nada te acorde.
(Texto já publicado no Café Expresso - Tadechuva)
Obrigada, Aziluth
Na Soleira da Porta
A sombra atravessa a soleira da porta,
entre dois invernos tão precoces
como a caliça que cedo de mais caiu do olhar,
e se esvaiu nas lajes como apenas sal.
Há uma réstia de luar pendurada nas paredes,
talvez venha do vestido que ninguém veste
bordado da luz sobrante do último estio
o suor acre e perfumado de quem o usou
Ficou no trajecto um silêncio enfeitado de búzios,
o arranque do carro para a auto-estrada da noite
...astenia pura partir antes do horizonte
É agora difícil pensar em montanhas sem pensar em rios,
porque todas as paisagens se perderam no pulsar das veias.
Esta equação apenas move as mãos
no espaço entre as duas linhas:
o diferencial entre duas potências
elevadas ao mistério da perturbação dos sentidos.
Duas linhas traçadas na casa,
separam os hemisférios em que se move o pensamento.
Palavras traçadas, amordaçadas pela sombra
escorrem pelo chão em fachadas de dor.
São múltiplos de sete brilhando no entardecer
que vive num qualquer vão de silêncio.
E ficou apenas nas mãos sulcadas
o tempo que sobrou do traçado da estrada.
Tudo ou quase tudo, se passa na soleira da porta,
mesmo os voos rasantes que a memória dá ao carteiro.
9 de Set. de 2004
Obrigada, Márcia Maia
epílogo
à luz esverdeada do neon
recita versos à lua
que não há
e adormece
— trôpego e roto —
sob a marquise da mercearia
: a salvo da chuva, à margem
da vida, ao largo
de si.
Publicado por lique às 10:01 AM | Comentários (33)
junho 17, 2005
Momentos

Marc Chagall, Amoureux au bouquet
Viu que ele descansava e sorriu. Lá bem longe, a tarde despedia-se. Sabia que cada momento se eternizaria neles. Era nessa dualidade do tempo que se perdiam para se encontrarem logo a seguir.
Pensou que não queria que ele a olhasse já. Veria para lá do que ela dizia. Sabia dela e de como a alma se lhe escancarava nos olhos. Nunca tivera a certeza se esse baixar de defesas era, nela, fraqueza ou força.
Dir-lhe-ia como tudo era simples. Tão simples como o que de mais complexo a vida tem. Simples como a música que ela sabia que tocava lá fora, ainda que só eles a ouvissem. Simples como estar vivo.
Agora, ele já podia olhá-la.
Publicado por lique às 12:44 PM | Comentários (25)
junho 14, 2005
Ai, Florbela...

Fosse eu Florbela e em meu canto
te diria as vezes que já te esqueci
p’ra mais doidamente me lembrar de ti
e tentar saber-te em horas de espanto.
Fosse eu poeta, aquele ser maior
pudesse amar-te assim perdidamente
cantasse versos meus a toda a gente,
e jamais se calaria o meu amor.
E em teus olhos que guardam meus tesouros
naquelas tardes que são lagos de calma
deixaria fantasias, meus palácios mouros.
Eterna sonhadora, com dálias no regaço
em oferenda te daria corpo e alma
prendendo-te p’ra sempre em meu abraço.
(Tenho que realçar as muitas palavras que pedi emprestadas a Florbela para conseguir escrever um soneto destes… Na verdade, foi escrito para as Noites de Poesia em Vermoim cujo tema era "Soneto". Apeteceu-me brincar com o assunto porque tenho a certeza de que nunca saberei fazer poemas com rima e métrica certa.)
Publicado por lique às 09:19 PM | Comentários (35)
junho 13, 2005
Até sempre, poeta!

As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
As tuas palavras, escutamo-las nós. Até sempre, poeta!
(Nestes dias, vi desaparecer três pessoas que para mim eram, de alguma forma, referências. Tristes são os tempos em que aqueles que pensamos que não morrem, vão desaparecendo um a um. A obra fica, é verdade. E a minha saudade também.
A minha homenagem a Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal está aqui.)
Publicado por lique às 11:29 AM | Comentários (27)
junho 11, 2005
Pela janela da memória

Hoje espreito pela janela da memória,
espalho a incerteza pelos cantos da casa.
Respiro um nevoeiro rendilhado.
Prendo-me e fujo de mim
em cada esquina.
Foto: Américo Cardal
Publicado por lique às 10:10 PM | Comentários (13)
junho 09, 2005
Do significado das palavras
Sempre acreditei no valor e na beleza das palavras. No entanto, acontece repetirem-se até ao instante em que já não significam nada. São só um conjunto de caracteres com um som convencionado. Quando nos apercebemos que não fazem sentido, tudo soa estranho à nossa volta.
Gostava de poder viver num mundo de palavras com significado. Ou num mundo silencioso, só com olhares e gestos. Os olhares não se gastam. Os gestos valem por si. Não são símbolos que, quando isentos do sentimento original, nos confundem ou, pior, nos fazem sentir vazios de emoções.
Convoco muitas vezes o silêncio. É a minha defesa sempre que oiço palavras que já não trazem consigo o significado que um dia tiveram. Mas que se repetem. E repetem… até que tudo o que se vai (des)construindo em mim me obriga a articular os sons que , por convenção, damos aos caracteres que formam a palavra “Basta!”.
Publicado por lique às 09:10 AM | Comentários (39)
junho 06, 2005
O cair da noite

Hoje escolho o silêncio
nesta hora da tarde que já foi nossa.
Palavras enfeitam e traem o sentido
dizem grinaldas de rosas em locais de cardos
e doçuras de mel em amargos sabores.
Por isso fico em silêncio.
Hoje nem digo da suavidade da hora
ou do sol ardendo na linha do horizonte.
Digo que a brisa me arrepia corpo e alma
mesmo quando é só quente carícia.
Em silêncio me recolho.
Não direi nada que mascare o cair da noite
sobre nós.
Foto: Jorge Casais
Publicado por lique às 09:05 PM | Comentários (36)
junho 04, 2005
Do amor eterno

Marc Chagall, Lovers
“Dois amantes ditosos não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,
são eternos como a natureza”
Pablo Neruda, Cem sonetos de amor
Só o título já faz sorrir os cépticos. E com esta música de fundo e as palavras de Neruda, têm que concordar que isto hoje tem todos os ingredientes de um post quebra-corações. Pois não é essa a minha intenção… embora possa acabar por ser isso mesmo. Ora, eu não disse já que sou contraditória?
Nunca acreditei que o amor pudesse ser eterno. Sempre precisei que o fosse. É compreensível isto?
A história de Romeu e Julieta sempre me pareceu tão inverosímil como um qualquer milagre que me contem. Todas as histórias de amores únicos, de almas gémeas, de pares que se amam “para sempre”, despertam as piadas cínicas que guardo para quem me conta uma patranha e se convence que eu a vou aceitar por boa.
Entretanto sei que, quando amamos, precisamos de pensar que é para sempre. Eu, pelo menos, sinto assim. Senão, que graça tem? Meias entregas, reservas, relações a prazo… para quê? É eterno…. pois, já sei, enquanto dura. Sábia constatação a do poeta.
A minha dúvida é: porque precisamos de acreditar que é eterno? Porquê esta necessidade de absoluto, de infinito? Porque achamos que o sentimento é incompleto enquanto não dizemos “sempre”, sabendo conscientemente que “sempre” não existe?
E seremos todos(as) assim, ou serei mesmo eu que sou uma incorrigível romântica sob a capa de cepticismo que gosto de mostrar? Querem dar uma achega à minha divagação?
Som: Chico Buarque e Telma Costa, Eu te amo
Publicado por lique às 09:14 AM | Comentários (43)
junho 01, 2005
Suspensão de mim

Em suspensão me sinto.
Flocos de mim flutuam no ar
falsa leveza que me rasga.
E a alma pesa.
Uso um sorriso suspenso
um doce de amargo sabor,
aquela radiância cinza
dum baço sol.
Qualquer palavra que digo
ressoa como um cristal
carrega o peso do chumbo.
E o som esmaga.
Foto: Roberta Jardim
Publicado por lique às 08:33 AM | Comentários (34)