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junho 20, 2005
Mendigo

Deixa ficar essa tigela de lata
aí ao teu lado.
Dorme o sono da bebedeira de ontem,
a que as moedas do dia permitiram.
As horas passam
e tu dormes, sonhas com o neto,
menino loiro que embalaste
no teu colo de homem forte.
Dorme então,
foi-se o tempo das crianças loiras.
Perdeu-se de vez na tua memória
o tempo dos risos e de todo o amor.
Fugiu de ti.
Alguém deitará mais uma moeda
na tigela que ainda está vazia.
Alguém silenciará a consciência
com uns trocos.
Talvez hoje a fome te obrigue a comer
quando a alma só te pede que bebas
para não teres mais nenhuma visão
de criança ou mulher.
Quando vier o orvalho da madrugada
chegarás a ti a manta rasgada,
pedirás de novo ao sono que te embale
e que nada te acorde.
(Texto já publicado no Café Expresso - Tadechuva)
Obrigada, Aziluth
Na Soleira da Porta
A sombra atravessa a soleira da porta,
entre dois invernos tão precoces
como a caliça que cedo de mais caiu do olhar,
e se esvaiu nas lajes como apenas sal.
Há uma réstia de luar pendurada nas paredes,
talvez venha do vestido que ninguém veste
bordado da luz sobrante do último estio
o suor acre e perfumado de quem o usou
Ficou no trajecto um silêncio enfeitado de búzios,
o arranque do carro para a auto-estrada da noite
...astenia pura partir antes do horizonte
É agora difícil pensar em montanhas sem pensar em rios,
porque todas as paisagens se perderam no pulsar das veias.
Esta equação apenas move as mãos
no espaço entre as duas linhas:
o diferencial entre duas potências
elevadas ao mistério da perturbação dos sentidos.
Duas linhas traçadas na casa,
separam os hemisférios em que se move o pensamento.
Palavras traçadas, amordaçadas pela sombra
escorrem pelo chão em fachadas de dor.
São múltiplos de sete brilhando no entardecer
que vive num qualquer vão de silêncio.
E ficou apenas nas mãos sulcadas
o tempo que sobrou do traçado da estrada.
Tudo ou quase tudo, se passa na soleira da porta,
mesmo os voos rasantes que a memória dá ao carteiro.
9 de Set. de 2004
Obrigada, Márcia Maia
epílogo
à luz esverdeada do neon
recita versos à lua
que não há
e adormece
— trôpego e roto —
sob a marquise da mercearia
: a salvo da chuva, à margem
da vida, ao largo
de si.
Publicado por lique às junho 20, 2005 10:01 AM
Comentários
Tinha vontade de lhe dizer que este seu poema fala de uma das muitas solidões da cidade que nos aflige,mas que, para quem vai passar o dia a trabalhar num hospital é muita realidade assim logo de manhã.....mas não digo não ,pois ainda vai alguem não compreender e se zanga.... .chamando os médicos de distantes e frios.....um abraço, amiga
Publicado por: annie hall em junho 20, 2005 10:55 AM
Solidões essas que são a suprema indignidade. Todavia, não sersmos cada um de nós culpados?
Somos. Pela omissão e pelo silêncio.
E pensar que um dia trabalharam, produziram, ajudaram o país a enriquecer. E é assim que o país lhes paga. Com indignidades.
Um beijo Alice.
Publicado por: zezinho em junho 20, 2005 11:26 AM
Já tinha saudades de te ler...voltei!
Jinhos grandes, espero que estejas bem, aqui a bonança parece trazer a paz que é precisa.
Publicado por: Vera Cymbron em junho 20, 2005 12:04 PM
Ainda não tinha lido. Que bom teres reposto o poema.
Claro, sobre o conteúdo... eu moro onde se tropeça nele a cada passo. E... dói.
Mas tem de haver saída sem ser a caridade de uma maça e um prato de sopa. Tem de!
Bjs.
Publicado por: eagle em junho 20, 2005 12:11 PM
E que eu li, na altura e reli, novamente agora.
Falar da mendicidade, é falar de solidão, de abandono, de falta de amor.
Da falta de apoios, de assistência e, muitas vezes a começar na própria família que, quando os problemas aparecem... desaparecem.
Um beijo terno
Publicado por: Menina_marota em junho 20, 2005 02:34 PM
Seres humanos "descartáveis", cada vez em maior número. Se outras razões não houvessem, esta bastaria para condenar um sistema económico e social.
Atenta e sensível, trazes à superfície estas questões com a delicadeza de quem não transije com demagogias...
Beijos
Publicado por: manuel em junho 20, 2005 02:37 PM
é esta solidão que me assusta. esta sim. mas espero não a ter.
beijinhos, amiga.
Publicado por: moriana em junho 20, 2005 06:06 PM
Que bom ler um poema deste aqui! Minha grande tristeza é que por aqui esta solidão já se banalizou. Ninguém mais toma conhecimento. Triste,né? Beijo amiga
Publicado por: Loba em junho 20, 2005 08:50 PM
Poema duma realidade dura, que existe mesmo e que muita gente finge que não vê. Muito bom o poema, a deixar transparecer os sentimentos do mendigo. A foto ideal para o poema. Muitos beijos:))***
Publicado por: wind em junho 20, 2005 10:02 PM
Palavras sábias estas
**
Publicado por: Persephone em junho 20, 2005 11:45 PM
É uma realidade com que temos, mais cedo, ou mais tarde (é preferível a 2ª hipótese ...) de nos habituar. Os mais afortunados, nos "depósitos de velhos", hipocritamente designados por "lares".
Publicado por: Peter15 em junho 21, 2005 12:48 AM
E quantos mendigos haverá escondidos? E como haverá sono que nos embale?
Publicado por: Ana em junho 21, 2005 03:38 AM
O poema e a imagem estão perfeitos. O incómodo está lá, em libelo acusatório a todos nós.
Pensando também neles... deixo-te este meu texto:
Na Soleira da Porta
A sombra atravessa a soleira da porta,
entre dois invernos tão precoces
como a caliça que cedo de mais caiu do olhar,
e se esvaiu nas lajes como apenas sal.
Há uma réstia de luar pendurada nas paredes,
talvez venha do vestido que ninguém veste
bordado da luz sobrante do último estio
o suor acre e perfumado de quem o usou
Ficou no trajecto um silêncio enfeitado de búzios,
o arranque do carro para a auto-estrada da noite
...astenia pura partir antes do horizonte
É agora difícil pensar em montanhas sem pensar em rios,
porque todas as paisagens se perderam no pulsar das veias.
Esta equação apenas move as mãos
no espaço entre as duas linhas:
o diferencial entre duas potências
elevadas ao mistério da perturbação dos sentidos.
Duas linhas traçadas na casa,
separam os hemisférios em que se move o pensamento.
Palavras traçadas, amordaçadas pela sombra
escorrem pelo chão em fachadas de dor.
São múltiplos de sete brilhando no entardecer
que vive num qualquer vão de silêncio.
E ficou apenas nas mãos sulcadas
o tempo que sobrou do traçado da estrada.
Tudo ou quase tudo, se passa na soleira da porta,
mesmo os voos rasantes que a memória dá ao carteiro.
9 de Set. de 2004
Publicado por: Aziluth em junho 21, 2005 12:02 PM
Querida Lique
As razões para tal estado são tantas, que cada caso é um caso.
Um beijo
Daniel
Publicado por: Daniel Aladiah em junho 21, 2005 01:08 PM
Infelizmente é assum tantas vezes...
Abraço imenso, WB do MOCHO
Publicado por: whiteball em junho 21, 2005 01:21 PM
Alice,
Há muito que não visitava este teu blog.
Desde que me reformei nunca mais acertei o meu horário... e tenho caído no desleixe, no começa a fazer e logo desiste, dormir - o sonho é a ante câmara da morte, Shakespeare! -, apatia, sei lá que mais...
Espero encontrar-te no sábado.
Um grande abraço.
Publicado por: josé gomes em junho 21, 2005 01:37 PM
Faz pensar esse poema... Gosto tanto da tua sensibilidade. És linda! :) Um beijinho muito grande e boa semana! *
Publicado por: Cakau em junho 21, 2005 03:04 PM
Me fez lembrar este, que escrevi há uns dois anos, para uma situação parecida:
epílogo
à luz esverdeada do neon
recita versos à lua
que não há
e adormece
— trôpego e roto —
sob a marquise da mercearia
: a salvo da chuva, à margem
da vida, ao largo
de si.
Márcia Maia
--
Beijo amiga, daqui onde é inverno mas, hoje, parece verão.
Publicado por: Márcia Maia em junho 21, 2005 03:51 PM
...Urgente!!!...visita o meu blog...
Beijinhos.
Publicado por: Estrela do mar em junho 21, 2005 07:00 PM
:) pelo poema
:( pela rtriste realidade
;) pelo favor...
:* um beijo!
Publicado por: guevara em junho 21, 2005 07:09 PM
Os que não se vêem, são imensos, e não tardará que vão tornando visíveis...
Publicado por: mjm em junho 21, 2005 09:31 PM
(se, falta o 'se' antes do vão)
Para rimar com verão... não há post da abertura da saison?
Kisses, frutados ;)
Publicado por: mjm em junho 21, 2005 09:33 PM
Talvez o que mais nos perturbe, egoisticamente, a nós, que temos casa, refeições, conforto, é sabermos que a distância que nos separa "daquelas" vidas é muito escassa e que aquela realidade não é só para "os outros", os que nascem estigmatizados...
Publicado por: Dora em junho 21, 2005 09:41 PM
Olá lique!
Está excelente este post.
É de facto lamentável que exemplos destes, de pobreza extrema e desistência de lutar cada vez mais proliferem pelas nossas cidades e vilas. Há mais gente sem esperança; há menos solidariedade; havendo muito esforço para resgatar casos destes, hajam tão pouco sucesso.
Bjs
Publicado por: Jose Duarte em junho 21, 2005 10:42 PM
Que sensibilidade, Lique. Encanta-me o teu olhar atento à realidade mas sempre com esse toque de ternura e poesia. Beijinho grande, linda.
(P.S. Sobre a música do Sting, eu lembrei-me mas como os sistemas de som são diferentes, e eu uma "naba" nestas coisas, não te pedi. Mas obrigada na mesma, amiga.)
Publicado por: Mitsou em junho 21, 2005 10:49 PM
venho dar te um beijo*
E obrigada pelas tuas palavras no meu cantinho*******
Publicado por: Persephone em junho 21, 2005 10:58 PM
Exclusão, mendicidade, solidão, sons criados por cada moeda caída na lata da vida que nos perturbam os tímpanos, como gritos, que logo se enchem de silêncios...
Beijos.
Publicado por: OrCa em junho 22, 2005 12:55 AM
puxa, deve ser triste mesmo... ja penspou , a vida é surpreendente, pode acontecer com qq um de nós.
bjos
Publicado por: Liliane em junho 22, 2005 02:02 AM
Chegar assim ao fim da vida, sem um sorriso e um abraço por perto, é um terror que me assombra! Não devia acontecer, nunca! a ninguem.. Bj
Publicado por: fernanda em junho 22, 2005 10:35 AM
retrato triste e possível, de muitas almas. Bjs e ;)
Publicado por: TMara em junho 22, 2005 02:12 PM
...é lamentavel "este quadro social" que origina o teu post...
No tempo do António-que-foi-preciso-cair-da-cadeira-para-desamparar-a-loja, dizia a oposição que "dar uma esmola era atrasar a revolução". Que fazer agora? Pagarmos impostos, ajudarmos os pobrezinhos e ficarmos de bem com a nossa consciência? Não pagar impostos, ingressar na equipa dos descartáveis e passar férias debaixo da ponte?
Ou refazer a revolução, tomarmos conta do poder e fazermos o que os que tomam conta dos poderes não fazem?
Gostava que não me interpretassem mal; não estou a rir. Apenas faço perguntas.
Isto dos "descartaveis", como diz o Manuel, da integração social, do déficit, das reformas duplas e chorudas, das fraudes fiscais, das camarárias, dos apitos dourados, dos metros de superficie que fazem que andam mas não andam, das "casas pias" e de tantas outras pouca- vergonhas em que este país é pródigo...está tudo, mas tudo! estéticamente ligado. A arte, no seu melhor, finalmente instalou-se neste país e definitivamente. Esqueçam -se as Bienais. Vivam a Anuais!
beijos.
Publicado por: Porquinho da India II em junho 22, 2005 02:56 PM
É realmente uma solidão assustadora, minha querida Amiga. Por vezes até custa sair à rua só para a evitarmos. O que não resolve nada
Beijos
Publicado por: Yardbird em junho 22, 2005 03:49 PM
>>Obrigada a todos os que comentaram e que sei sensíveis à infeliz realidade que o post foca.
Obrigada especialmente à Aziluth e à Márcia Maia, cujos belíssimos poemas não podiam ficar escondidos nos comentários.
E uma saudação sempre especial ao Porquinho da Índia e ao seu mais que ferozmente (quase desesperadamente) irónico comentário.
Para todos, beijinhos e abraços.
Publicado por: lique em junho 22, 2005 06:33 PM