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julho 12, 2005

Casas com palavras dentro

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Passeamo-nos quase todos os dias por estas ruas. Entramos nas casas, sóbrias algumas na cor e no silêncio, enfeitadas outras de cores e sons. Músicas várias fazem-se ouvir. Sorrimos, concordamos, discordamos, confrangemo-nos por vezes. Porque as casas têm palavras dentro e as palavras transmitem sentimentos. É assim que o nosso passeio que se deseja, tantas vezes, lúdico, se transforma em passeio emocional.
A forma de reagir às emoções que as palavras de outros nos provocam, sejam elas positivas ou negativas, determina muitas vezes um “relacionamento” baseado em assumpções puramente virtuais de ambos os lados. Como nestas ruas inexistentes e nestas casas em que passamos algum do nosso tempo podemos ser, realmente quem e o que quisermos, também as emoções que provocamos podem ter premissas falsas. Emoções reais provocadas por falsas ideias de partida. Será que isso invalida o passeio? Será que as palavras não valem por si, independentemente do que imaginamos de quem as escreve? Será que as emoções não devem estar apenas ligadas às palavras e não forçosamente a quem as escreve?
A personalização destas nossas divagações pode fazê-las perder a magia. Mas também pode dar-lhes uma consistência inesperada, perdidos os mitos que construímos. Isso acontece tantas vezes quando os habitantes são companheiros de caminhada de há muito tempo com quem, na realidade ou não, acabamos por criar laços de amizade. E outras emoções se geram quando essas casas que fazem parte do nosso percurso habitual ficam vazias, abandonadas. Outras se constroem, é verdade. Mas visitar as casas abandonadas é, por vezes, ter a certeza de que ninguém substitui ninguém. E de que há palavras de que sentiremos sempre a falta. Ou pessoas?
Talvez seja essa a razão da atracção deste emaranhado de casas com palavras dentro, cujos habitantes se relacionam em zonas forçosamente circunscritas. Tudo pode acontecer.


(A minha casa mobilada com palavras vai ficar de porta aberta para todos os que passam até meados de Agosto. Tenham umas boas férias, ou façam apenas por viver bem!)

Ilustração daqui

Publicado por lique às 08:52 AM | Comentários (71)

julho 09, 2005

Flor de mim

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Flor, talvez
mas nunca rosa opulenta
nem orquídea requintada
nem cravo aberto de esperança.
Nenhuma flor de enfeite
nenhuma cor de requinte
nenhum emblema gritante.
Flor, talvez.
Se quiseres
perceber a flor de mim
pensa na que surge um dia
entre a secura do campo.
É frágil,breve,pequena
resiste à ardência do sol
no tempo que lhe é dado.
Flor, talvez
da cor dos sonhos suaves.
Flor azul, azul, azul.

Foto: Annie Hall

Publicado por lique às 10:25 PM | Comentários (29)

julho 07, 2005

Mais uma vez

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“Acordei mal hoje. As notícias que saiam da televisão, que eu abro todas as manhãs quase só para ter ruído de fundo enquanto me preparo para sair, eram demasiado chocantes para serem digeridas tão cedo. Eu sei que 50% ou mais do meu horror provem do facto de tudo se ter passado aqui tão perto. Não sou hipócrita e, se morresse o mesmo número de pessoas no Iraque, eu pensaria "Raios partam estes americanos que nunca mais conseguem sair daquilo em que se meteram sem qualquer necessidade e criam condições para esta merda toda!". Mas foi aqui ao lado. E foi tão sangrento, estúpido, sem sentido...Para que é que isto vai servir? A um passo das eleições, isto só garante ainda mais a vitória já anunciada da direita. A perversidade do terrorismo é essa mesmo: muitas vezes só serve as forças que diz combater. Como sair desta "pescadinha de rabo na boca" em que a humanidade se meteu? Alguém tem brilhantes ideias?”

A 11 de Março de 2004, eu escrevi isto no meu blog no Sapo que estava a começar, a propósito do atentado na Estação de Atocha. Por acaso a vitória da direita gorou-se, talvez apenas por ter sabido gerir mal a crise e se ter precipitado.
Hoje infelizmente a cena repetiu-se e eu pergunto-me se ainda penso exactamente o mesmo. Acrescento, concerteza, a minha pena por ver que tudo continua igual e o discurso cada vez se radicaliza mais, de ambos os lados. A “guerra ao terrorismo” iniciada pelos Estados Unidos, na verdade só conseguiu criar condições para mais actos terroristas. E já nem estou a contar aqueles que todos os dias acontecem no Iraque.
Continuo a não ter soluções na manga, só a certeza de que, por mais segurança e por mais países que decidam acrescentar ao “Eixo de Mal”, esta escalada não vai acabar. Mais uma vez a solução terá que ser política e não considero que a política se faça de armas na mão.
Já agora, como há coisas que me fazem confusão, pergunto-me porque ocorreu este atentado na mesma altura que uma crucial reunião do G8 sobre a qual os olhos do mundo se centravam. Claro que agora a reunião passou a ser olhada de outra forma e as manifestações previstas certamente serão reprimidas. Afinal, há coincidências… ou não haverá?
Independentemente da minha solidariedade para com as vítimas e familiares e de obviamente lamentar e condenar o que sucedeu, garanto que não vou pôr flores nem velinhas no blog. Não. Isto tem que ser resolvido de outra forma e, mais uma vez, não teremos que ser todos a fazer a pressão necessária para que as agressões cessem e soluções políticas que mostrem um pouquinho que seja de criatividade sejam encontradas? Ou será que a muitos interesses cujos rostos, hoje, se dizem muito chocados, não interessa mesmo resolver a questão?

Publicado por lique às 07:32 PM | Comentários (22)

julho 05, 2005

Blue Sun

Blue-Sun_sm.jpg


Quero olhar um sol azul
dando ao recorte dos ramos
a filigrana dos sonhos,
algo fria, algo nua.
Um grito de inquietação,
um eco em cada poente.

Promete-me um céu laranja,
um grande chapéu ardente
onde o sol projecta sombra,
algo fresca, algo cinza.
Um calor que só se apaga
na cor verde do crepúsculo.

Sei que existe um sol azul
a meio caminho da angústia
tomando a rota do sonho.


Ilustração daqui

Publicado por lique às 07:25 PM | Comentários (28)

julho 03, 2005

Perfeição

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Dói-me a beleza exagerada
a perfeição azul do horizonte
a doce transparência da manhã
que finda a névoa da madrugada.

Foto: Francisco Costa Pinto

Publicado por lique às 09:07 AM | Comentários (33)

julho 02, 2005

Não custa nada

Não custa mesmo. Não nos pedem dinheiro, só que juntemos o nosso nome aos que querem contribuir para a erradicação da pobreza no mundo, particularmente em África. Muitas acções são possíveis, assinar a lista Live8 que já conta com um anel de solidariedade que dá a volta ao mundo e apoia as reivindicações a apresentar aos dirigentes do G8, é uma delas. Podem assiná-la aqui e obter informações sobre a campanha.
Se quiserem aceder ao site português dedicado à mesma causa , vão a Pobreza Zero.

Publicado por lique às 09:13 PM | Comentários (0)