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agosto 30, 2005

Até sempre

Faço aqui um intervalo na actividade deste blog. Não sei daqui a quanto tempo voltarei. Para falar a verdade, nem sei se voltarei.
Durante cerca de ano e meio (contando com o blog do Sapo), foi muito gratificante ter estado aqui com todos os que por cá passaram. A todos tenho que agradecer as demonstrações de apreço e carinho. O meu mail está por aí, ficarei feliz se continuarem a contactar-me.
Não vou especificar razões para esta decisão, na verdade elas são múltiplas e complexas. Se e quando sentir que tenho condições para voltar, eu aviso toda a gente. :)
Beijinhos e abraços a todos, como de costume.

Publicado por lique às 04:44 PM | Comentários (0)

Limpar o ar

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Quem tem
exorcismo
ou benzedura
uma reza
um trabalho
uma oração
que não falhe?
Como não acreditar?
Preciso limpar o ar
afastar o mau-olhado
pôr os demónios de lado.

Foto daqui

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (41)

agosto 27, 2005

Barco abandonado

barco.jpg

Entre mim e a água
só o abandono dos homens.
Esqueleto ancorado no lodo,
restos dos dias do orgulho
de dominar o azul ondulante.
Entre mim e o céu
só vidas que desta se cansaram.
Não alcanço o espelho em que se vê,
não o toco no destino da viagem,
meu sonho perdido de navegar.

Passam outros, proa erguida sem olhar
que o abandono dói por o sabermos nosso
nalgum dia breve, nalgum tempo próximo.


Julho 2005

Foto: hana_le

Publicado por lique às 06:41 PM | Comentários (29)

agosto 24, 2005

Tavira (III)

gilaoanoite.jpg


As noites do rio

De noite o rio não dorme. Na incerteza do caudal que o mar lhe permite, torna-se ruína de pedras e lodo ou braço de água bem pleno, a reflectir as luzes da cidade amada. A ponte, que dizem ter sido pisada por homens de tempos passados e outras glórias, é o ponto de paragem de quem olha, de quem ali encontra o pedaço de alma que só certos lugares nos devolvem. Entre a ponte e o rio existe um amor antigo, feito de aproximações e fugas. Por vezes ele quase a beija para logo a seguir se afastar, raso no fundo do leito. Nas renovações e desencantos de cada dia, perdura o amor daquele rio pela ponte que o completa.
A vida que fervilha na água também não pára nas horas em que o sol se esconde. Peixes movem-se em conjunto, dançando estranhas coreografias. Por vezes saltam fora de água, reflexo prateado que a lua acentua. Volteiam, aproximando-se do local onde o homem lhes costuma dar pão. Que razão leva um empregado de café, perdido entre gente diferente daquela com quem foi criado, a ser amigo dos peixes do rio? São estranhos os afectos que a vida nos põe no caminho.
Na maré vazia, quando a água é escassa e o leito aparece, impúdico, os homens escavam na lama, à procura do que lhes dará o sustento do dia seguinte. Enquanto a maré permitir.
No cais, onde a água já está mais perto do seu destino, ecoam os sons da azáfama dos homens nos barcos que ainda não saíram. Todos preparam o dia que se segue, sem que a beleza da noite os faça parar. Só o rio se estende, preguiçoso, namorando agora a lua e a cidade. Quem olha, deixa que a fascinação domine as horas da noite.


Julho 2005

Foto : jcd

Publicado por lique às 07:15 PM | Comentários (27)

agosto 22, 2005

Grito preso

Ryan Quinn.jpg

Ryan Quinn, Do they never cry


se o grito saísse
se o som alcançasse o longe mais longe
se a voz me ajudasse
e lançasse o eco por esses caminhos
talvez se soltassem os nós que atam
o peito que arde
talvez se rasgasse o véu que tapa
os olhos que doem
talvez visse hoje no ecrã cinzento
a vida a cores
diferentes.

se o grito
da voz
e o eco
no peito
e as cores
nos olhos
talvez…

Publicado por lique às 10:43 AM | Comentários (26)

agosto 21, 2005

As partidas que a vida nos prega

Ontem perdi um amigo. Hoje o meu irmão faz anos. Claro que o post para o meu irmão já estava preparado, com o carinho com que preparamos os presentes para os que amamos. Talvez a vida seja isto mesmo e nos conduza por esta mescla de sentimentos confusos.

O luto pelo meu amigo vai demorar a fazer, dentro de mim. Os parabéns ao meu irmão só podem ser dados hoje.

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vase of flowers dali.jpg


Salvador Dali, Vaso de flores, aguarela



“Eu em Alenquer e esta riqueza aqui!”

Foi a frase que ficou para a história da família, dita por mim com 7 anos , num dia 21 de Agosto de um ano que não interessa para a questão, ao olhar o berço onde um bebé enfezado ensaiava o choro. Pois, mal sabia eu o que me esperava com a “riqueza”! Estão a ver o quadro? Paizinhos à espera de um rapaz, tendo uma filha única e mimada até aos 7 anos? Muito mimada… É, não se faz! O choque foi tal que não me lembro de uma data de tempo dos primeiros anos da “riqueza”…
Bom, mas lembro-me de algumas coisas que lhe fiz com justa causa, como pôr-lhe uma malagueta na boca ou uma inofensiva brincadeira a que ele chamava “os olhos” e que consistia apenas em olhá-lo fixamente sem desviar o olhar. Ainda estou para saber porque é que ele tinha medo… Apesar das minhas vinganças ( eu repito, com justa causa) parece-me que a “riqueza” conseguiu crescer mais ou menos normalzinha (o conceito de normalidade é relativo…). E a prova é a sensibilidade e a criatividade que todos vocês lhe conhecem. Vamos lá dar os parabéns ao Ognid, o meu irmãozinho que faz anos hoje!

Parabéns e um dia muito feliz!! Claro que a ilustração tinha que ser de Dali - uma aguarela pintada no ano do teu nascimento (era bom sinal poder dar-te o original...) e até a música hoje é ao teu gosto (velhinha, velhinha... :))

Publicado por lique às 03:35 AM | Comentários (17)

agosto 20, 2005

Meu amigo

Foste assim, sem avisar, sem dizer nada, sem que eu tenha sequer pressentido que ia ficar sem ti. E agora, quem me vai fazer sentir mal comigo mesma quando baixo os braços e abandono a luta? Quem me vai fazer sentir especial, sabendo eu à partida que o não sou? Com quem vou travar aquelas “batalhas” de palavras que, no fundo, eram um divertimento para ambos?
Disseste uma vez aqui nos comentários : “Amo-te”. Porque tu eras assim, coração aberto, alma grande como o mundo e não te resguardavas quando os sentimentos eram puros. Eu digo-te hoje, esperando que me oiças onde quer que estejas, que também te amo porque existem muitas espécies de amor. Amamos todos os que têm um lugar cativo no nosso coração. E tu vais ter lugar no meu, sempre.
Descansa em paz, Pantanero. Em cada luta, em cada desânimo, eu vou lembrar-me de ti. Porque sei que é o que tu desejarias que eu fizesse.

Publicado por lique às 03:52 PM | Comentários (8)

agosto 17, 2005

Silêncio

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o silêncio
um pouco de nada no dia que passa
uma aragem gelada no calor da tarde
um frio suor nas noites de insónia.
nada existe
para lá da certeza exacta da distância
que em nós interiormente se afirma
no amargo sopro do desencanto.
nem a espera
a vida não tem margem que a pare
e as horas arrastam-se e correm
num mesmo tempo simultâneo.

só a esperança
que entra pelas frestas do desejo
de viver.

Foto: Ognid

Publicado por lique às 06:21 PM | Comentários (22)

agosto 15, 2005

Tavira (II)

portugal127.jpg


Cores da cidade

Procurei-te na cidade branca
Nas vielas que o sol queima
Nas pedras gastas das calçadas
Nas igrejas de portas cerradas
Procurei-te na cidade azul
No céu transparente que a cobre
No rio murmurante que a envolve
Nas águas que em paz se misturam
Vi o vermelho nos barcos
O verde no quieto jardim
O laranja ardente do sol

Procurei-te e só a mim encontrei
Nas cores multiplicadas da cidade.


Julho 2005

Foto daqui

Publicado por lique às 08:14 AM | Comentários (22)

agosto 12, 2005

Tavira (I)

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A ilha


Existe sempre a magia de chegar. E de a ver do barco, sabendo que me aguarda em cada ano. É quase uma dependência que me leva de volta. Como se ali residisse o reencontro com a inocência das férias de outrora.
A ilha. Espaço de sonho entre a água e as águas. Paraíso por vezes perdido e logo reconhecido em momentos de cumplicidade com o mar de sempre, a areia que os dedos procuram em vão reter, a carícia rude do sol, o silêncio que de alguma forma se consegue impor por cima do ruído de quem não sabe que a paz e a generosidade do mar moraram ali, em tempos. E que bastava escutar o murmúrio daquela vastidão azul, aquele som que não chega a ser ruído, para encontrar, de alguma forma misteriosa, uma alma amiga. Um mar de confidências, risos e lágrimas. Olho-o sempre como um ombro que não falha. Nunca falhou no primeiro abraço, em que o reencontro traz lembranças de muitos dias passados, nem no da despedida em que lhe digo sempre “até para o ano”. E a água faz-se cálida, pensando eu que é só para mim. Como se precisasse de guardar aquela provisão certa de sonho que tem que durar um ano inteiro.


Julho 2005


Publicado por lique às 12:12 AM | Comentários (24)

agosto 09, 2005

Agosto sem gosto

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Bah! Não gosto de Agosto
tédio de dias ardentes
enjoo de noites claras
daquele lendário luar
que (lhe) dá no rosto.
Os dias são excessivos
e a vida pára?
Bah! Não me dá gosto
esta espera do começo.
Podemos saltar o mês?
Podemos viver a vida
sem esperas nem ausências?
Que há neste gosto de Agosto
o fumo espesso de dormências.

Foto daqui

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Mas a Márcia diz que, do outro lado do oceano, é assim:

AGOSTO

Clara claridade
claríssima
clarente.
Clara lente a perscrutar
os corpos brancos de inverno.
E as almas.

Claro vento
ventania
canta claro cata-vento
canta vento a despertar
frutos e cores
cheiros e flores
sabores.
Amores?
A gosto:
Agosto.

Publicado por lique às 08:03 PM | Comentários (24)

agosto 06, 2005

Mudança de visual

Ainda não é o regresso. De momento, estou a fazer obras na casa. Espero que gostem do novo visual. O meu obrigada ao Ognid por, involuntariamente (é só "fanar" fotos...) ter contribuido para este look.
Na verdade, já estava cansada daquele olho e da cor associada. Mas, sobretudo, estas são cores da natureza e outonais, o que sinceramente me agrada. Também esta é a paisagem que vejo, quase todos os dias, da janela do meu gabinete. A tal quinta que, de vez em quando, me inspira.
Espero que continuem a ter umas boas férias (os que estão em férias, claro...). Para os outros, uma boa travessia do deserto de Agosto. Eu volto em breve. Até já.

Publicado por lique às 06:36 PM | Comentários (20)