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agosto 24, 2005
Tavira (III)

As noites do rio
De noite o rio não dorme. Na incerteza do caudal que o mar lhe permite, torna-se ruína de pedras e lodo ou braço de água bem pleno, a reflectir as luzes da cidade amada. A ponte, que dizem ter sido pisada por homens de tempos passados e outras glórias, é o ponto de paragem de quem olha, de quem ali encontra o pedaço de alma que só certos lugares nos devolvem. Entre a ponte e o rio existe um amor antigo, feito de aproximações e fugas. Por vezes ele quase a beija para logo a seguir se afastar, raso no fundo do leito. Nas renovações e desencantos de cada dia, perdura o amor daquele rio pela ponte que o completa.
A vida que fervilha na água também não pára nas horas em que o sol se esconde. Peixes movem-se em conjunto, dançando estranhas coreografias. Por vezes saltam fora de água, reflexo prateado que a lua acentua. Volteiam, aproximando-se do local onde o homem lhes costuma dar pão. Que razão leva um empregado de café, perdido entre gente diferente daquela com quem foi criado, a ser amigo dos peixes do rio? São estranhos os afectos que a vida nos põe no caminho.
Na maré vazia, quando a água é escassa e o leito aparece, impúdico, os homens escavam na lama, à procura do que lhes dará o sustento do dia seguinte. Enquanto a maré permitir.
No cais, onde a água já está mais perto do seu destino, ecoam os sons da azáfama dos homens nos barcos que ainda não saíram. Todos preparam o dia que se segue, sem que a beleza da noite os faça parar. Só o rio se estende, preguiçoso, namorando agora a lua e a cidade. Quem olha, deixa que a fascinação domine as horas da noite.
Julho 2005
Foto : jcd
Publicado por lique às agosto 24, 2005 07:15 PM
Comentários
Acho que o que dizes do "teu rio" também se adapta ao "meu Douro!" Que é lindo apesar de sujo e de muitos o maltratarem tanto!Beijo.
Publicado por: M.P. em agosto 24, 2005 08:36 PM
Belo texto, lique.
Acho muito correcta a abordagem das várias perspectivas da ponte como construção de lazer, de labor, labuta, de recreio, de afecto. Apenas uma mínúscula observação, assim muito "pequerrucha", a do valor estético das pontes que tantas paletas tem alimentado. Última nota: Por muito estilizada quanto as de Calatrava, como românticas as do Rialto em Veneza,ou muito ousadas como as do Tejo ou Golden Gate, todas elas cumprem os vários vectores de abordagem que editaste no texto. Palpite: essa ponte não é a de Tavira?
Bjs
Publicado por: Jose Duarte em agosto 24, 2005 09:40 PM
lembrei do filme - As pontes de Madison.
bjos
Publicado por: Liliane em agosto 24, 2005 09:50 PM
Lique, um dos teus mais belos textos. Parece um poema pela beleza que é:) Sorri ao lê-lo de ternura. Bela foto. Muitos beijos amiga:))***
Publicado por: wind em agosto 24, 2005 09:57 PM
Cumplicidades há muito estabelecidas, entre o rio e as suas gentes…
Publicado por: jgonçalves em agosto 24, 2005 10:56 PM
Passei por aqui há poucos dias. Se podesse vivia no Algarve o ano todo.
Publicado por: grilinha em agosto 25, 2005 12:55 AM
Sempre brinco, dizendo que nasci com um pé no rio e o outro no mar. As minhas lembranças mais antigas são reavivadas pelas águas e pela música do vento nas palmeiras.
Por isso este texto me é tão próximo. O ritmo das marés dita o ritmo da vida circundante. Conseguistes captar esse ritmo, essa malemolência... e dizes das noites do rio, que ele “não dorme”... e dizes da ponte (que é de um rio sem uma ponte?... e dos homens, sem pontes para uni-los?!)... “Entre a ponte e o rio existe um amor antigo...” E dizes dos peixes e do amor de alguns homens por esses peixes... e dizes das marés... e ao fazeres isso dizes de ti mesma, pois fazes parte do rio, da noite...
Publicado por: batista filho em agosto 25, 2005 01:31 AM
E, aqui de longe, fico desejando vê-la.
Um beijo.
Publicado por: Márcia em agosto 25, 2005 04:48 AM
Paisagem de homens, com rio ao fundo!...
Publicado por: sotavento em agosto 25, 2005 03:06 PM
A água e a sua infinita capacidade de lavar (e de levar) as nossas mágoas... Que seria de nós sem ela?
Boa água a tua, amiga Lique. Serena, inconstante pelas marés, eternamente renovada... Como não havemos de ser amigos dos peixes, eles que frequentam sítios tão recomendáveis?
Beijos.
Publicado por: OrCa em agosto 25, 2005 04:23 PM
"El río Guadalquivir llevará sangre en sus aguas."( ese es el rio de mi ciudad )
Que preciosas tu palabras.
Saludos :)
Publicado por: romero em agosto 25, 2005 05:38 PM
Só gostaria de acrescentar que a "ponte" entre a música e o texto produz um "encontro" maravilhoso. O resto já foi dito.
Publicado por: addiragram em agosto 25, 2005 06:52 PM
Pequenas delicias que encontramos bem no nosso país maravilhoso
lindo,lindo
Baci**
Publicado por: Persephone em agosto 25, 2005 07:32 PM
belo texto, Lique! os odores do rio trazidos por uma ténue cortina de vapor saem do texto enquanto o leio e os meus pés de menina atravessam a ponte com o rio gorgolejando lá em baixo...
Publicado por: seila em agosto 25, 2005 11:39 PM
Voltaste de vez e eu também :-) É bom saber-te por cá, que as saudades já apertavam.(Tavira é uma das pérolas que o Algarve ainda tem)
Beijos, Lique :-)
Publicado por: yardbird em agosto 25, 2005 11:52 PM
Um texto que avicou a minha saudade, de locais onde passei, uma parte da minha infância e juventude...
Deixo um abraço terno (talvez não venha aqui tanto como gostaria, mas sofri um assalto e, não posso estar muito tempo ao pc, por isso venho aqui às "escondidas" e de fugida...)
Jinhos ;)
Publicado por: Menina_marota em agosto 26, 2005 09:22 AM
As férias fizeram-te bem, Alice.
Belo texto.
Bom poder narrativo.
Não esqueças a Noite de Poesia em Vermoim.
Dia 3.
Tema: CIDADES.
Um abraço.
Publicado por: josé gomes em agosto 26, 2005 12:05 PM
Este teu texto está tão lindo, lique, que não sei mais o que te dizer!
Um beijo grande para ti, amiga, e votos de um bom fim-de-semana.
Publicado por: MWoman em agosto 26, 2005 04:53 PM
Chegaram aqui os odores a maresia, o fascínio dos fins de tarde, a hora dos anjos, como eu lhe chamo.
Que bem cheira Tavira!
Bom fim de semana, Lique.
Publicado por: stillforty em agosto 26, 2005 07:14 PM
Algumas imagens nos trazem recordações desconhecidas! Este texto - belíssimo - e esta imagem me fez voltar lá na infância. Vi o rio. Me vi no rio. Eu nem sabia que me lembrava disso! rs...
Beijo amiga
Publicado por: Loba em agosto 26, 2005 08:29 PM
Passei para conhecer ... estou gostando!
Publicado por: Simone em agosto 26, 2005 09:22 PM
Uma imortalizadora de verdades:
"São estranhos os afectos que a vida nos põe no caminho." ;)
Publicado por: mjm em agosto 26, 2005 11:11 PM
...@miga Lique...belíssima foto da cidade de Tavira...e não menos belas o texto que aqui nos deixas...
Olha...já volteiiii...e tenho uma novidadeeee.
Beijinhos e bfs querida.
Publicado por: Estrela do Mar em agosto 26, 2005 11:41 PM
Bonito texto, que nos faz recordar os maus-tratos que o homem lhes proporciona por esse pais fora. E, porque o rio de noite não dorme, nós devemos fazer-lhe companhia.
Beijos
Bom fim-de-semana
Publicado por: Friedrich em agosto 27, 2005 03:40 AM
Viva Lique! Sou o Armando do Portugal no seu pior! Voltei ao fim de tanto tempo!Que bom continuares por cá!! Fiquei tão desiludido por a maior parte dos blogs que eu lia (e tu) já estarem encerrados, mas quem sou eu para criticar isso se fiz o mesmo?? Gostei do teu novo visual (olhando a que a ultima vez que cá vim foi em Julho de 2004). Obviamente que agora que vim para ficar, vais apanhar comigo muitas vezessssssssssssssssssssss!!
Publicado por: Armando em agosto 27, 2005 07:17 AM
Passei para ler-te (novamente) e desejar um bom fim de semana.
Abraço carinhoso ;)
Publicado por: Menina_marota em agosto 27, 2005 09:24 AM
>> Obrigada a todos os que aqui passaram e vieram sentir o "meu rio". Na verdade, a terra não é a minha terra mas é uma das que eu gostava que o fossem.
Deixem-me fazer uma saudação especial ao Armando que está de volta. Muitos não o conhecem por aqui mas foi uma das companhias constantes durante algum tempo (os antigos tempos do Sapo) e depois desapareceu. Sê bem vindo. Espero que agora para ficar.
Beiinhos e abraços a todos
Publicado por: lique em agosto 27, 2005 06:47 PM