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setembro 29, 2005
Flor das dunas

o chão de areia
com o sabor do sal
o sopro do vento
sobre o ardor do sol
e a flor
branca e macia
suave resistente
das áridas dunas
em que existe
Foto: hana_le
Publicado por lique às 10:41 PM | Comentários (29)
setembro 28, 2005
Bróda, não te iludas
Esta, eu tenho que contar. Não sei se tem piada ou se é, pura e simplesmente, uma amostra do país de opereta em que vivemos e de uma das faces que as campanhas eleitorais mostram. Na verdade, observar de perto os mecanismos das campanhas deve ser tão nauseante que retira quaisquer ilusões a quem ainda as tiver.
Um destes dias, caminhava eu tranquilamente por uma das ruas cá do burgo quando vi à distância dois rapazes, um deles negro ( e isto é aqui dito só para explicar a linguagem utilizada), que empunhavam e agitavam uma bandeira que não reconheci (santa ignorância!) . Pensei que fosse de algum clube de futebol mas, assim à primeira, não me lembrava de nenhuma espectacular vitória … Não era a bandeira nacional, por muito que essa seja agitada a propósito de tudo e de nada. Lembra-me isto que está na altura de substituir a minha em que o vermelho já é rosa, o que talvez seja politicamente correcto mas não o é historicamente, porque a selecção deve apurar-se para a fase final do Mundial. Acham graça? Haja causas que nos unem….
Voltando à história, eu ia-me aproximando dos rapazes que, entretanto “atacavam” um outro, mais ou menos da idade deles, mas cujo aspecto alinhadinho em roupas de marca o distinguia claramente dos portadores da bandeira:
- Bróda, estás seguro que vais votar “Fulano de tal”? Vota “Fulano de tal”!
A bandeira agitava-se, colorida, e claro, com aquela ajuda, eu finalmente entendi. O rapaz , visivelmente incomodado, não sei se pela opção política se pelo aspecto dos outros que os marcava obviamente como habitantes de algum bairro da lata das proximidades, afastou-se o mais possível e deu corda aos sapatos…
E, a seguir, era eu, claro.
- Dona, sabes que tens que votar “Fulano de tal”?
Não resisti, claro. Olhei-os de frente e perguntei:
- Porquê?
Isto é que era complicado de responder. Perante o silêncio, continuei:
- Não voto de certeza. Quanto é que vos pagaram para fazer isto? Esse senhor fez alguma coisa pelo vosso bairro?
Perante o contra-ataque e já sem jeito, a resposta veio:
- Dona, nós temo que fazer pela vida. Não há maka, não.
Sorri-lhes e segui o caminho. Agradeci ao Pepetela e ao Ondjake, meus amores de leitura, a tradução mental que fiz. E fui pensando em como é fácil a manipulação nestas campanhas. Claro que é só um pequeno exemplo e desculpem-me se não uso o nome verdadeiro do senhor. É que, por esse país fora, há tantos “Fulanos de tal” que nem teria muita lógica fazê-lo.
Publicado por lique às 12:15 AM | Comentários (23)
setembro 25, 2005
O lugar vazio

acordei as palavras
deitadas na sombra
despertei os sentidos
que o calor não tocava
dei tudo o que, parado
na margem sufocava.
da dádiva de mim trago
a certeza funda e calma
digo-te
só o amor preenche
o lugar vazio da alma.
Foto: Hugo Amador
Publicado por lique às 04:27 PM | Comentários (40)
setembro 23, 2005
Uma manhã

De manhã, parei junto ao portão e, à luz do sol, olhei de perto os cavalos que sacudiram as cabeças como se eu fosse um ser extraterrestre. Percebo aquele olhar altivo de narinas frementes. Devo parecer-lhes mesmo um alien e de uma espécie bem inferior à deles. Quem sabe o que se passa na mente de um cavalo?
Dei comigo a pensar que o que estragava o quadro era aquele portão fechado. Se eles fossem selvagens e independentes de qualquer outro ser, se pudessem correr pelo campo, sem portões, a minha felicidade podia ser completa só de os ver, brilhantes e tão absolutamente perfeitos.
Ideias estranhas nos podem invadir a mente quando pensamos em algo tão desejado como felicidade. Pensei que bastava a coragem de abrir portões, o deles e o meu. E correr como eles, absolutamente livre, ser talvez um alien para quem ficasse e para quem encontrasse. E daí? Tudo se resumia em correr livre à luz do sol…
Ah, pois, nada disto faz sentido. Foi só uma daquelas manhãs em que me senti extraterrestre aos olhos de um cavalo.
Foto: Luís Zilhão
Publicado por lique às 09:10 AM | Comentários (26)
setembro 20, 2005
O caminho inverso
Ontem parti. Hoje regresso, percorrendo o caminho inverso, mas não consigo atingir o ponto de partida. Afinal não é este relacionamento com a escrita e com a resposta imediata que nos é dada, uma espécie de relação de amor? Até na óbvia dificuldade de o abandonarmos definitivamente. Existe o mesmo sentimento de perda em cada recomeço. Tendemos, como no amor, a aligeirar a intensidade do que “já foi”, a simplificar, a deitar “carga ao mar”. E, se isso nos permite uma navegação mais tranquila, esbate o encanto original.
Este não é, aqui, o meu primeiro recomeço. De alguma forma, parece-me sempre que só aqui faz sentido voltar. Mas sou diferente em cada regresso, talvez mais desligada, talvez mais desencantada. Regressando, ainda assim, porque sinto a falta de aqui estar e isso, só por si, deve significar alguma coisa.
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Agradeço a todos os que comentaram, os que escreveram mails, os que se “sentaram” nesta porta ou na do “Eu, de novo” à espera, todo o apoio e carinho demonstrados. Só este blog recomeçará, abrindo no entanto aqui oportunidade para alguns posts semelhantes aos que eram publicados no outro espaço. E vamos avançando devagarinho...
Publicado por lique às 10:16 PM | Comentários (32)
setembro 08, 2005
Também gostam de borboletas?

Vim só arejar a casa, regar as plantas, mudar a música e partilhar convosco esta beleza que uma amiga que sabe que gosto de borboletas me ofereceu.
Obrigada a todos. Obrigada especialmente a ti, rain-maker, pela persistência. Isto não é o regresso porque preciso de mais um tempo. Mas confesso que estou cheia de saudades vossas. Beijinhos e abraços.
Publicado por lique às 11:08 PM | Comentários (56)