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setembro 28, 2005
Bróda, não te iludas
Esta, eu tenho que contar. Não sei se tem piada ou se é, pura e simplesmente, uma amostra do país de opereta em que vivemos e de uma das faces que as campanhas eleitorais mostram. Na verdade, observar de perto os mecanismos das campanhas deve ser tão nauseante que retira quaisquer ilusões a quem ainda as tiver.
Um destes dias, caminhava eu tranquilamente por uma das ruas cá do burgo quando vi à distância dois rapazes, um deles negro ( e isto é aqui dito só para explicar a linguagem utilizada), que empunhavam e agitavam uma bandeira que não reconheci (santa ignorância!) . Pensei que fosse de algum clube de futebol mas, assim à primeira, não me lembrava de nenhuma espectacular vitória … Não era a bandeira nacional, por muito que essa seja agitada a propósito de tudo e de nada. Lembra-me isto que está na altura de substituir a minha em que o vermelho já é rosa, o que talvez seja politicamente correcto mas não o é historicamente, porque a selecção deve apurar-se para a fase final do Mundial. Acham graça? Haja causas que nos unem….
Voltando à história, eu ia-me aproximando dos rapazes que, entretanto “atacavam” um outro, mais ou menos da idade deles, mas cujo aspecto alinhadinho em roupas de marca o distinguia claramente dos portadores da bandeira:
- Bróda, estás seguro que vais votar “Fulano de tal”? Vota “Fulano de tal”!
A bandeira agitava-se, colorida, e claro, com aquela ajuda, eu finalmente entendi. O rapaz , visivelmente incomodado, não sei se pela opção política se pelo aspecto dos outros que os marcava obviamente como habitantes de algum bairro da lata das proximidades, afastou-se o mais possível e deu corda aos sapatos…
E, a seguir, era eu, claro.
- Dona, sabes que tens que votar “Fulano de tal”?
Não resisti, claro. Olhei-os de frente e perguntei:
- Porquê?
Isto é que era complicado de responder. Perante o silêncio, continuei:
- Não voto de certeza. Quanto é que vos pagaram para fazer isto? Esse senhor fez alguma coisa pelo vosso bairro?
Perante o contra-ataque e já sem jeito, a resposta veio:
- Dona, nós temo que fazer pela vida. Não há maka, não.
Sorri-lhes e segui o caminho. Agradeci ao Pepetela e ao Ondjake, meus amores de leitura, a tradução mental que fiz. E fui pensando em como é fácil a manipulação nestas campanhas. Claro que é só um pequeno exemplo e desculpem-me se não uso o nome verdadeiro do senhor. É que, por esse país fora, há tantos “Fulanos de tal” que nem teria muita lógica fazê-lo.
Publicado por lique às setembro 28, 2005 12:15 AM
Comentários
Portugal tristemente. Obrigada pela partilha. Bjs e;) amiga
Publicado por: TMara em setembro 28, 2005 12:04 PM
Defendo há muito o voto em branco.
Estou farto destes facínoras. Que é mesmo o que eles são..
Onde andas que já tenho tantas saudades de ti? Além disso, estou preocupado.
Beijinhos
Publicado por: zezinho em setembro 28, 2005 12:23 PM
Campanha de partidos que nadam em dinheiro. Não uma campanha "militante". Digo eu, mas sou suspeito rss. Beijos
Publicado por: manuel em setembro 28, 2005 02:30 PM
No meu tempo era mais fácil, colavam-se cartazes e andava-se à porrada com o emeerrespespes
Publicado por: Papo-seco em setembro 28, 2005 03:23 PM
Risos
Percebi perfeitamente que o discurso segue as linhas orientadoras do pertido!... :)
Publicado por: sotavento em setembro 28, 2005 05:03 PM
*partido
Publicado por: sotavento em setembro 28, 2005 05:04 PM
Crónica do que se passa neste pais que é o nosso Portugal. Gostei de ler este seu post. Beijinhos.
Publicado por: Maria do Céu em setembro 28, 2005 07:09 PM
No entiendo muy bien...ejeje pero mismo asi , vengo desearte buenas noches :) besitos
Publicado por: Romero em setembro 28, 2005 09:24 PM
Boa noite*
Infelizmente é esse o nosso cenário
Um abraço apertado*
Rose
Publicado por: Rose em setembro 28, 2005 10:34 PM
Ôi, dona, 'bora fazer uma campanha pelo Partido Já Chega!...
Mas olha que as opções estão a atrofiar a cada dia que passa. Neste momento, só sei que votar, eu vou. Em quem... está complicado!
Pelo andar que as coisas levam, um destes dias só confio em mim e, mesmo assim, cheio de reservas, que ando para aqui com uns humores muito variáveis.
O que nos vale é ter a certeza nos amanhãs que cantam, mesmo que seja baixinho e em surdina. Sabes, a MJM, com o Mito de Sísifo do Camus deixou-me muito melancólico...
Beijos.
Publicado por: OrCa em setembro 29, 2005 12:07 AM
Infelizmente é este o país que temos! Fizeste bem em contar!
Um beijo.
Publicado por: Ana em setembro 29, 2005 12:53 AM
O "zezinho" chegou primeiro que eu. Sabemos que estiveste de férias, mas já há tempo que não aparecias por lá.
Defendo o "voto em branco" e não o "camelo", como a "bluegift".
Mas agora nas autárquicas, como andamos numa luta contra a Junta de Freguesia, por causa do traçado previsto para o Metro (vd PUBLICO, em artigo de página inteira do dia 24) iremos votar noutro partido que tem apoiado a n/luta (o mesmo do do Zé).
Publicado por: Peter em setembro 29, 2005 01:14 AM
:D
Publicado por: guevara em setembro 29, 2005 01:22 AM
Aí, como cá, a situação é a mesma. Embalada por ventos de ideais libertários e igualitaristas, a juventude de algumas décadas atrás acalentou os mais belos sonhos coletivos. Por outro lado, os de sempre não dormiram em nenhum momento: se rearticularam, cooptaram consciências - continuaram a fazer o que sempre fizeram - com o intuito de se manterem no poder... e têm obtido êxito. Poderia citar o velho Marx, mas nesse momento, prefiro lembrar de Exupéry, quando ele fala:
"Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e milhões de anos que os carneiros as comem, apesar de tudo. E não será sério procurar compreender por que perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis?"
A barbárie continua a vencer, mas alguns, muitos até, mas não a maioria - continuam a lutar, não desistem da fabricação de espinhos "inúteis?" Não, decididamente não são inúteis. Trata-se da nossa própria humanidade X barbárie ou da barbárie X evolução - bem compreendida "evolução" como "sabedoria" e não mero conhecimento (inclusive tecnológico) sem sabedoria para utilizá-lo... "Pensem nas crianças/ Mudas telepáticas/ Pensem nas meninas/ Cegas inexatas/ Pensem nas mulheres/ Rotas alteradas/ Pensem nas feridas/ Como rosas cálidas/ Mas oh não se esqueçam/ Da rosa da rosa..." (Vinicius).
Não dá é, para que os de sempre, aproveitando-se do nosso desencanto consigam subverter os nossos ideais ou calarem os nossos sonhos. O teu sonho não pode morrer. O meu também não. Os nossos sonhos, traduzidos em pequenos gestos que dependem unicamente de nós – não meros espinhos inúteis -, rosas, roseiras com raízes profundas a resistir!
Publicado por: batista filho em setembro 29, 2005 01:29 AM
Querida Lique
Mas... basta ver o tempo de antena que os candidatos corruptos têm na imprensa e na TV. Publicidade gratuita, aparecem como heróis que lutam contra os poderosos e está tudo dito. Sabem quem são os concorrentes dos caciques corruptos? Nem eu... Ai, meu país para onde vais...
Um beijo
Daniel
Publicado por: Daniel Aladiah em setembro 29, 2005 11:06 AM
Não posso defender o voto em branco ou a abstenção, depois de tanta luta para termos direito a votar! É tudo uma questão de tentar perceber que ainda há gente séria... Porque há, mesmo na politica. Já agora gostava de saber quem era o fulano.... Bj linda e desculpa a minha inocencia, mas realmente acredito...
Publicado por: fernanda em setembro 29, 2005 01:45 PM
É um post bem pertinente, amiguinha. Gostei de o ler. *
Publicado por: Cakau em setembro 29, 2005 02:04 PM
o Quê??? Então agora faz-se campanha "à força"?? Realmente...isto caminha a passos largos para o abismo! Admiro a tua coragem em não dares meia volta e afastar-te dali, antes em enfrenta-los e teres-lhes respondido!
Publicado por: Armando em setembro 29, 2005 02:33 PM
estas lavagens cerebrais em tempo de campanha... grrr
beijito, lique
Publicado por: isa xana em setembro 29, 2005 03:59 PM
Isso já não é novo.
Os candidatos pagam para que lhes façam propaganda mas, em muitos casos, funciona ao contrário.
E estão os candidatos tanto tempo sem trabalhar para fazer campanha...
Beijinhos
Publicado por: NILSON em setembro 29, 2005 04:58 PM
>> Isto foi só um episódio dos muitos que por este país se devem passar. Não interessa quem é o candidato porque é um caso que deve ser comum.
Não se pode dizer que se tratasse de um caso de intimidação mas, na verdade, algumas pessoas poderiam interpretá-lo assim. É sobretudo triste como muitos dos métodos usados por esse país fora.
Beijinhos e abraços.
Publicado por: lique em setembro 29, 2005 10:47 PM
Para quem quer o poleiro,todos os meios são lícitos,dá-se qualquer coisa à rapaziada e eles levam a bandeira e o cartaz para onde for preciso,à esquerda, à direita ou ao centro.
Publicado por: O PACIENTE PORTUGUÊS em setembro 30, 2005 03:57 PM
Há muito que a forma de fazer política neste País me desiludiu.
Confesso que já fiz política activa, mas a decepção foi tal, que me afastei definitivamente. O meu Pai, costumava dizer-me:"Um só não salva o Mundo, mas todos juntos, somos capazes!"
Vai o tempo, em que fazer Política era vestir uma camisola de convicções, de lutar por aquilo em que realmente se acreditava, de lutar por causas em que se acreditava!
Agora não! Luta-se pelo melhor lugar, pelo negócio mais chorudo, por uma imposição social, que cada vez denigre mais uma classe social, que defende os seus próprios direitos, em vez daqueles que se propuseram defender.
Acredito nos meus valores. Mas já não consigo acreditar nos valores de muitos que se apresentam numa ânsia louca de subir ao Poder.
Aquilo que contas, começa a ser um lugar comum. A “violência” verbal dos debates televisivos, a forma pouco democrática que se tenta impor acções e convicções, ajudam às barbaridades, que cada vez mais se vêem por aí. Dói-me o coração, de cada vez que se aproxima uma campanha. E, ainda mais, quando vejo o meu País a afundar-se cada vez mais, por uso e abuso de poderes, de pessoas que deveriam acima de tudo estar isentas e dignas, nos lugares que desempenham.
Peço desculpa pelo meu longo comentário. Mas há momentos, em que não posso estar, tal como tu, calada!
Um abraço terno e boa semana ;)
Publicado por: Menina_marota em outubro 3, 2005 10:29 AM