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outubro 29, 2005
Uma canção antiga, uma nova voz

“Era uma vez a história de um grande amor entre um aristocrata e uma acrobata. Desse amor criou-se um circo. A saga do circo virou poema. Do poema nasceu inspiração para a mágica de texto, música e poesia. A magia ganhou vida no palco, em forma de dança. E o final feliz da história foi o sucesso. O itinerário de O Grande Circo Místico poderia ser contado assim - mas esta história ainda não acabou”
Foto e texto : Tom Lisboa
A música do ballet, criada em 1982 para o Balet Teatro Guaíra, por Edu Lobo e Chico Buarque viria a ser um enorme êxito, com temas interpretados, na época, por vozes como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gal Costa, Zizi Possi, Simone e Jane Duboc. Muitos têm sido recriados ao longo do tempo por outros cantores.
O tema que aqui deixo hoje é um dos que mais gosto, era originalmente interpretado por Gilberto Gil e foi recentemente incluído no segundo disco de Maria Rita: essa, a filha de Elis Regina.
Sobre todas as coisas
Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado: desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado
Pelo amor de Deus
Ao Nosso Senhor, pergunte se ele
construiu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado: o macho, a fêmea, o bicho, a flor
criado pra adorar o Criador
E se o Criador inventou a criatura por favor,
se do barro fez alguém com tanto amor
para amar Nosso Senhor
Não, Nosso Senhor, não há de ter lançado em movimento
Terra e Céu, estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
pra circular em torno ao Criador
Ou será que o Deus que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
e esses vales são de Deus
Pelo amor de Deus, não vê que isso é pecado
desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado
Pelo amor de Deus!
Edu Lobo – Chico Buarque
Publicado por lique às 09:23 AM | Comentários (32)
outubro 28, 2005
Para ti, no teu aniversário
Jardim
Não importa que ames
ou que te amem, pois o que eu adoro
em ti não o sabes, alma,
nem os outros o sabem.
Jamais te viste, nunca
te verão, qual meus olhos
te viram e vêem – como a minha vida
encarnada no pálido tesouro
do teu corpo invisível,
pois é a carne da minha alma –
Só ficarei quando partires,
ou te levem os outros,
da verdade pura e inalterável
que à tua vida somente eu posso dar.
Juan Ramón Jimenez
Publicado por lique às 12:27 PM | Comentários (0)
outubro 26, 2005
Modos de olhar

Escarpa
Ergue-se a escarpa
no caminho da vida
sem retorno
sem escada
ou vereda que a aplane.
Só pela escalada
no ar cristalino
se alcança a visão
de novos caminhos
no horizonte escondido.
Oração
natureza mãe
deusa fértil
origem e matriz
no teu corpo rocha
protege-me do agreste
sopro da vida
mata-me a sede
de água sem mancha
embala-me o sono
limpo de angústia
encerra-me em ti.
Foto: sotavento
Publicado por lique às 11:40 AM | Comentários (35)
outubro 23, 2005
A casa
Aquela terra tem cheiro de marasmo, de gente parada em vidas sem chama. Talvez seja só a minha reacção, química negativa que eu tenho com o chão onde nasci. Talvez renegue raízes, porque reconheço minhas outras terras, não aquela.
Naquela terra o calor sufoca no Verão e, no Inverno, fustiga-nos o frio . Terras longe do mar, diz-se. Mas não existe essa lonjura toda.
Dizem-na bonita, os que a vêem de fora. Talvez, se não penetrarmos no seu interior, seja possível achá-la bonita. Tem um rio, talvez agora mais um fio de água, que a seca também ali fez estragos. E há uma qualquer beleza especial nas terras que os rios atravessam. Talvez…
O meu caminho ali é sempre igual, entre a visita a quem decidiu ali repousar para sempre e a casa. A casa é como um cofre onde estão memórias guardadas. Memórias misturadas. Daquela bisavó que eu julgava que viveria para sempre. Uma doce memória, que arrasta outras não tão agradáveis. As minhas memórias de criança amada mas solitária. A querer entender os problemas dos adultos. As minhas memórias de adolescente que ali voltava, nas férias. E que revivia a realidade daquela rua estreita. Nas noites de Verão, da taberna do outro lado da rua, que é agora uma pastelaria, saíam os bêbados que iam desabafar desgraças no beco ao pé do quintal. Deitada, nas noites quentes em que o sono não chegava, ouvia-os invectivar a vida. Havia um, talvez até nem fosse sempre o mesmo, que insultava Salazar com todas as asneiras que conhecia, com aquela impunidade que só os loucos e os bêbados possuíam.
Por vezes na casa ainda ecoa a memória de gargalhadas de crianças, abrindo as prendas do Pai Natal. Conseguiam até ouvir os sinos do trenó. Essas são as lembranças mágicas de um tempo feliz. Gostava de poder ficar só com essas e não ver, em cada canto da casa, outros dias, outras tristezas que me fazem ter para com ela um sentimento ambivalente.
É a casa, a única raiz que reconheço, mas está demasiado carregada de recordações. E de perdas. Como a vida.
Foto: hana_le
Publicado por lique às 08:08 PM | Comentários (37)
outubro 21, 2005
Será?

Armand Payami, Ambivalence
Ah, feliz!
Pois esqueci…
Hoje não dá
amanhã já tarda.
Talvez encomende
o minuto certo
a hora precisa
dum dia qualquer.
Será que se vende?
[Tenham um bom fim de semana. E... sejam felizes! ]
Publicado por lique às 12:05 AM | Comentários (27)
outubro 18, 2005
Sem dúvida

Titouliv, Indoor Games
Quero-te, sem dúvida,
na incerteza de te querer.
Quero-te na orla afiada
da palavra que te envolve
e em arco me alcança.
Quero-te sem que a certeza
me atinja e me descanse.
Quero-te, sem dúvida.
Agosto 2005
Publicado por lique às 08:31 PM | Comentários (41)
outubro 16, 2005
Os olhos das mulheres

Modigliani, Woman with blue eyes
Os olhos das mulheres trazem consigo a água das nascentes.
Meninas, deixam que ela brilhe reflectindo as cores que delas se abeiram. Essa é a idade em que a água, por vezes, turva para sempre.
Mulheres, transbordam-na para os olhos dos amantes, esperando que, ao recebê-la, eles lhes entendam a alma. Difícil é entender a alma de outro ser e a água perde a luz em cada amor que termina.
Amigas, partilham-na com quem tem sede daquela transparência. E guardam reservas em recantos, mesmo quando tudo à volta parece ter secado.
Mães, fazem dela dádiva total, ainda que a sede lhes torne os olhos baços. E encontram sempre mais um pouco, mais uma gota. É aí que a nascente se torna rio.
Os olhos das mulheres levam consigo as miríades de cores que os outros lhes quiserem dar.
Publicado por lique às 04:54 PM | Comentários (40)
outubro 14, 2005
Rosario Flores

Como alguns dos que me dão o prazer de por aqui passar manifestaram curiosidade relativamente à senhora que aqui tem várias vezes servido de "pano de fundo" musical, este fim de semana deixo-vos a voz extraordinária de Rosario Flores. Espanhola, filha de Lola Flores (os mais velhinhos ainda se lembram...) e de António González, "El Pescadilla", nasceu definitivimente predestinada para a música. Aqueles a quem o nome não diga nada, talvez se lembrem da actriz que dá corpo à toureira Lydia em "Hable con ella" de Pedro Almodóvar. Ela mesma, Rosario.
Então escutem, cantem, dancem, façam o que quiserem mas sejam felizes e tenham um bom fim de semana.
Al son del tambor
Esta rumba dedicada
a un gitano muy señor
que aprendio en barrio de gracia
y hacer el ventilador.
Esta rumba que yo canto,
yo la canto con amor
pa' que sepa todo el mundo
el regalo que dejó
Con el son de una mesa
y sentao en una silla
ya no se canta la rumba
como cantaba "El Pescadilla"
Y al son del tambor
bailando esta rumba
tocando la tamborera
y va moviendo sus caderas (bis)
Esta rumba tiene fuerza
y brilla tanto como el sol
nadie tocara la rumba
como Antonio la toco
La cantaba en mil idiomas
y un ingles muy catalan
con su arte a lo gitano
no se podrian aguantar
Con su baile de guerra
y la camisa se partia
ya no se canta la rumba
como cantaba "El Pescadilla"
Y al son del tambor
bailando esta rumba
tocando la tamborera
y va moviendo sus caderas (bis)
Con su baile de guerra
y la camisa se partia
ya no se canta la rumba
como cantaba "El Pescadilla"
Y al son del tambor
bailando esta rumba
tocando la tamborera
y va moviendo sus caderas (bis)
Y las guitarras estan mirando al sol
de esta rica rumba
Publicado por lique às 07:25 PM | Comentários (21)
outubro 12, 2005
Andando ao contrário da chuva

Sol, sempre. Sol quase impiedoso para a terra que aguarda, ansiosa, que a água a salve da sua condição desértica. Sol que, no entanto, nos acaricia em cada dia, fazendo-nos desejar que fique.
O sol leva-me para aquela praia, a mesma, a que acumula, como tesouros, recordações de muitos anos. Na esplanada, o aroma do café mistura-se com aquele agridoce cheiro da maresia. O leve ruído do mar e o calor suave que envolve o corpo distraem-me da leitura programada. Ali, as palavras do livro valem menos que o momento da vida. Poder-se-á dizer que a felicidade simples é isto, uma manhã de sol numa esplanada à beira mar. E as recordações que me trazem o saber de momentos futuros, perante aquele mar que me reconhece. Sinto-me próxima daquele “sempre” que poderá ser finito, tão finito como a linha do horizonte, da qual não consigo avistar o termo.
5 de Outubro de 2005 - memórias do último dia de "Verão"
Foto: Nuno Ferreira
Publicado por lique às 08:43 AM | Comentários (31)
outubro 09, 2005
Casulo

Acordei
com a chuva correndo em fio
orla suave
de melancolia no horizonte
dos dias que a vida desconhece.
Embrulhei-me no manto frágil
do ar molhado.
Fiz um casulo da alma
adormeci a borboleta e esperei
a palavra certa
estilete de doçura que liberta
as asas de mil cores em voo livre
arco íris em cada gota que cai.
Foto: evilgreg3000
Publicado por lique às 08:32 PM | Comentários (43)
outubro 07, 2005
Ser asim
Ah,ser assim,
independente
até de mim!
Seguir adiante
ter um destino
mesmo distante.
Ver sempre o fim
dos meus inícios
dentro de mim.
Tão dependente,
por ser assim…
[Vamos para mais um fim de semana eleitoral. Será que este país conseguirá mostrar que a corrupção e a incompetência não compensam? Duvido, mas é por isso que vou votar. Desejando que todos o façam em consciência, ofereço-vos um pequeno poema e mais um pouquinho do novo disco de Maria Rita...]
Publicado por lique às 05:35 PM | Comentários (20)
outubro 05, 2005
Memórias de Verão

Matisse, Femme endormie
Sesta
Lá fora parece só existir um som indistinto de pássaros e cigarras. Os normais ruídos da vida numa cidade abrandam ou distanciam-se, naquele concentrar de sentidos no calor do corpo e na dormência que o invade. Pairam no quarto aromas e sabores de mar, de sol, misturados com os perfumes familiares que ficam na casa em cada regresso da praia. Uma mistura complexa de champôs, cremes, água de colónia. Dentro dela, o silêncio, o total abandono à doçura do momento. O braço estende-se no lençol, como que tacteando a ausência. E, suavemente, o corpo entrega-se, rende-se e, envolto no calor da tarde, deixa-se deslizar para o espaço entre o sonho e a realidade.
Julho 2005
Publicado por lique às 08:31 AM | Comentários (27)
outubro 04, 2005
Incerteza irreal

A incerteza ocupa o espaço limitado por todas as barreiras.
A melancolia repousa no tempo roubado à realidade.
Num mar onde não tenho pé, desaprendi de nadar.
Talvez me segure a uma rocha, talvez aviste o porto, talvez não. Talvez...
Foto: Nuno Belo
Publicado por lique às 12:47 PM | Comentários (18)
outubro 02, 2005
Ténue

Sinto-me ténue
miragem indiferente
nuvem de vapor criada
pelo toque do sol quente
na pele do asfalto molhada.
Publicado por lique às 10:23 AM | Comentários (26)