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outubro 23, 2005

A casa

PICT0166.JPG


Aquela terra tem cheiro de marasmo, de gente parada em vidas sem chama. Talvez seja só a minha reacção, química negativa que eu tenho com o chão onde nasci. Talvez renegue raízes, porque reconheço minhas outras terras, não aquela.
Naquela terra o calor sufoca no Verão e, no Inverno, fustiga-nos o frio . Terras longe do mar, diz-se. Mas não existe essa lonjura toda.
Dizem-na bonita, os que a vêem de fora. Talvez, se não penetrarmos no seu interior, seja possível achá-la bonita. Tem um rio, talvez agora mais um fio de água, que a seca também ali fez estragos. E há uma qualquer beleza especial nas terras que os rios atravessam. Talvez…
O meu caminho ali é sempre igual, entre a visita a quem decidiu ali repousar para sempre e a casa. A casa é como um cofre onde estão memórias guardadas. Memórias misturadas. Daquela bisavó que eu julgava que viveria para sempre. Uma doce memória, que arrasta outras não tão agradáveis. As minhas memórias de criança amada mas solitária. A querer entender os problemas dos adultos. As minhas memórias de adolescente que ali voltava, nas férias. E que revivia a realidade daquela rua estreita. Nas noites de Verão, da taberna do outro lado da rua, que é agora uma pastelaria, saíam os bêbados que iam desabafar desgraças no beco ao pé do quintal. Deitada, nas noites quentes em que o sono não chegava, ouvia-os invectivar a vida. Havia um, talvez até nem fosse sempre o mesmo, que insultava Salazar com todas as asneiras que conhecia, com aquela impunidade que só os loucos e os bêbados possuíam.
Por vezes na casa ainda ecoa a memória de gargalhadas de crianças, abrindo as prendas do Pai Natal. Conseguiam até ouvir os sinos do trenó. Essas são as lembranças mágicas de um tempo feliz. Gostava de poder ficar só com essas e não ver, em cada canto da casa, outros dias, outras tristezas que me fazem ter para com ela um sentimento ambivalente.
É a casa, a única raiz que reconheço, mas está demasiado carregada de recordações. E de perdas. Como a vida.

Foto: hana_le

Publicado por lique às outubro 23, 2005 08:08 PM

Comentários

amei este texto, li e reli
o nosso passado, as vozes, os cheiros, os que se foram, as saudades... dentro da casa, dentro de nós

jocas maradas

Publicado por: susanagar em outubro 23, 2005 08:16 PM

OLá!Vim desejar-te uma BOA semana!
Este "post" de hoje é um regresso às raízes. É evidente que as recordações de sons, cheiros, ambiências são muitas mas ... o Passado pesa nessas ocasiões. :/ Beijo

Publicado por: M.P. em outubro 23, 2005 10:09 PM

Por vezes olhamos em redor e não conseguimos ver para além do vazio que algumas recordações teimosamente nos sobrecarregam as ideias.
Mas é bem verdade que a árvore de maior porte é aquela que tem melhores e maiores raízes.
Tal como nós que teimamos em não olvidar as nossas…

Publicado por: jgonçalves em outubro 23, 2005 10:18 PM

Quem de nós, não carregará consigo uma casa assim?
E não é a vida, toda ela, feita também de ambivalências?
Beijinho Lique, adorei este teu post que (sabe-se lá porquê,tive de reler...

Publicado por: maria em outubro 23, 2005 10:26 PM

Cada casa guarda as suas memórias. Há sempre uma que nos marca mais. Lembraste-me aquela que me recorda a minha infância, ambivalente como a tua, mas onde é bom regressar.
Um beijo, Lique.

Publicado por: Ana em outubro 23, 2005 10:48 PM

As casas que sucedem os seus donos em longevidade conservam viva a memória. Essas casas são museus.
E eu gostei muito desta tua visita guiada pelas memórias de uma terra que, não a sentindo como tua, pertence à tua malha vivencial. Contaste-a de uma forma sensitiva - a melhor maneira de se fazer uma descrição na primeira pessoa e de nos darem a mão enquanto nos mostram os corredores da memória.
Que bonito momento!
Thks. Um Kiss

Publicado por: mjm em outubro 23, 2005 11:13 PM

Este texto comoveu-me porque acontece o mesmo comigo.A terra e a casa onde passei parte da minha infância, já não consegue despertar-me o encantamento de outrora e tenho pena.É talvez porque as perdas e as más recordações se sobrepõem aos momentos bons que lá passei.Um abraço

Publicado por: O PACIENTE PORTUGUÊS em outubro 23, 2005 11:33 PM

Um texto a recordar os natais de outrora, memorias de que temos saudades. Beijinhos.

Publicado por: Maria do Céu Costa em outubro 23, 2005 11:39 PM

E quando já nem a casa está? Fica-nos apenas a vida. Da passada, sem a escora de um quadro, uma escada, aquela porta. Da presente, outra casa que esqueceu a passada, perturbando-se de futuros... E nós vogando no meio de toda essa confusão temporal...

Como sempre - como se fosse hábito adquirido - um belo texto. Vais ver que já tem estatuto de coisa entranhada.

Beijos.

Publicado por: OrCa em outubro 23, 2005 11:54 PM

Lá me fizeste lembrar a casa que me viu cresceu em tudo diferente da tua e tão longe daqui...Nunca mais lá voltei. Prefiro assim. Guardo as recordações.

Um beijo grande e uma boa semana, lique.

Publicado por: MWoman em outubro 24, 2005 12:03 AM

um texto que nos faz pensar, reviver a infancia , o pasado, memorias de saudade e outras que procuramos não recordar, muito bem conseguido, escreves realmente muito bem
"...mas está demasiado carregada de recordações. E de perdas. Como a vida." tens razão, como compreendo isso

um beijo meu

lena


Publicado por: lena em outubro 24, 2005 12:03 AM

os sinos das renas :) essa sim, é uma boa recordação. bjks

Publicado por: ognid em outubro 24, 2005 12:21 AM

Algumas, mais parecem asas, sempre a nos levar para o alto... e nos sentimos leves, leves... Outras, pesadas, como a querer nos arrastar para o fundo... elas, as lembranças. Sem umas e outras, pareceríamos embalagens vazias

Publicado por: batista filho em outubro 24, 2005 01:39 AM

Belo texto o teu.Faz-nos despertar sentimentos de alegrias e tristezas... e a vida continua.Tem de continuar.Bj

Publicado por: Ilhota2 em outubro 24, 2005 09:17 AM


As casas são viagens ao interior de nós mesmos. Mesmo a caliça que se desprende ou estuque, abrindo brechas, mais que feridas, são percursos da memória e a água da vida cumprindo-se. Ainda hoje, a minha "casa" é essa casa mítica e longínqua da infância, mais que o apartamento suburbano onde resido.

Beijo, Lique. Gostei mto.

Publicado por: manuel em outubro 24, 2005 10:34 AM

É...e quando não existe a casa?! quando a/s casa/s se esfarela/m na mó do tempo e a visita fica por fazer e voamos desconcertados num espaço sem mais do que as memórias alteradas nas emoções (contraditórias) que (des)fazemos? ai como sempre quis ter A casa!!! nómadas de nós mesmos e (re)consutores d'A casa e da/s vida/s sem ela pulverizada ...partida...sempre buscando-se...
Um texto que me tocou como se nota
Beijos

Publicado por: seila em outubro 24, 2005 01:03 PM

como te entendo, amiga. e como descreves bem apesar d dor com muita ternura o teu sentir. No meu caso é a estagnação das mentalidades que me faz asfixiar e sentir essa ambivalência e essa dor. Bj grande e boa semana cheia de luz e paz :)

Publicado por: TMara em outubro 24, 2005 02:53 PM

A casa... um passado - nossa história - raizes que não se podem cortar e muito naturalmente para com "ela" aqueles sentimentos antagónicos. São "pedaços" de vida que não queremos perder, porque sem eles ficamos vazios.

Um texto que me maravilhou :)

Beijinhos

Publicado por: Betty Branco Martins em outubro 24, 2005 06:33 PM

Todo nós precisamos d'um refúgio! Nada como o berço! ;)

Publicado por: ugaju em outubro 24, 2005 07:37 PM

Recordações que me fizeram ficar sem palavras. Deveras tocante... Um beijo enorme, minha querida *

Publicado por: Cakau em outubro 24, 2005 09:37 PM

Vim reler e dei comigo a pensar que poderia escrever qualquer coisa semelhante não sobre uma casa mas sobre o Natal.

Data tão cheia de ausências que n me apetece já passar muito por ela.

Um Beijo, Lique.

:) M

Publicado por: pedra em outubro 24, 2005 09:38 PM

Excelente texto, Lique.
Se for viável -- sinceramente acho que sim -- fazer a cartografia das nossas emoções, das nossas memórias, inexoravelmente fixar-nos-emos na casa da nossa infância, no tempo das mais recuadas memórias e a catadupa de afectos que nos marcaram perenemente volta sempre... Haverá coisa mais deliciosa!
Bjs

Publicado por: Jose Duarte em outubro 24, 2005 10:01 PM

Belissimo texto, muito bom.

Casa azul

Memórias presas nas paredes

de um tempo vivido outrora

vejo pedaços de mim,

sentimentos,

risos e brincadeiras,

sonhos e fantasias

Lágrimas invadem os meus olhos

lutando contra os medos e fantasmas

foi a inocência, da minha infância


singularidade

Publicado por: isa em outubro 24, 2005 10:55 PM

{ ...

este teu texto (belo e de meu agrado) fez(.me) lembrar/recordar/despertar uns pedaços de papel “rasgados” que escrevi em tempos sobre “ruas”. fica aqui um dos que consegui recuperar:


fragmentos de “ruas”

1º pedaço

ruas

em seus sulcos
profundos, e memórias
nestas ruas de casas
onde habito e nasci
umas nuas
outras ainda de
janelas
e sorrisos e sulcos
rugas e roupas
más e boas
vidas
. . .

(serei eu pó
e elas seguras)
tão

© temporal

... }

Publicado por: © luz.de.tecto em outubro 24, 2005 10:56 PM

linda esta foto.

eu ouso dizer que não tenho casa**

boa noite e lindo texto.
Rose

Publicado por: Rose em outubro 25, 2005 12:14 AM

Lindíssimo texto, que me transporta a outros tempos e outra casa. Excelente escolha da fotografia também.

Publicado por: Diafragma em outubro 25, 2005 10:47 AM

... e fui transportado para esta casa...
http://photos1.blogger.com/blogger/2834/513/1600/21%20Sonhos%202.jpg

Publicado por: Diafragma em outubro 25, 2005 10:51 AM

Passei só para te deixar um bj….

Publicado por: fernanda em outubro 25, 2005 11:42 AM

Querida Lique
Quando as memórias se identificam com uma casa, é assim... Eu tive muitas casas, não tenho a infância presa num local, talvez por isso tenha esta sede de mudar, não me prendendo aos sítios.
Um beijo
Daniel

Publicado por: Daniel Aladiah em outubro 25, 2005 01:16 PM

:)

Publicado por: Papo-seco em outubro 25, 2005 02:33 PM

Só carrego memórias...da casa dos meus bisavós, na Alemanha, há muitos anos.
A minha vida sem mim.
Beijos

Publicado por: stillforty em outubro 25, 2005 07:09 PM

Fiquei completamente envolvido no texto!
Gosto particularmente da frase fina, o teu alerta prá Vida.

Bj Vagabundo

Publicado por: Vagabundo em outubro 25, 2005 09:29 PM

marasmo é bom qdo estamos exaustos, mas por mto tempo é um tédio...
bjos

Publicado por: Liliane em outubro 26, 2005 02:42 AM

Há casas que são a nossa morada de sempre...
Estou no norte sim, parto logo mais para Coimbra para ai ficar um dia. Estive em Braga, no Porto e em Gaia.
Jinhos

Publicado por: Vera Cymbron em outubro 26, 2005 08:43 AM

Adorei o post, é isto mesmo as nossas raízes, o nosso sentir agora...as recordações.
Um beijo

Publicado por: Maria Clarinda Galante em outubro 26, 2005 09:45 AM

Fico feliz por te reencontrar. As nossas raízes fazem parte da nossa vida por mais longinquas que sejam e sabe sempre tão bem falar delas, e a vida tb é feita de recordações.
Beijinho.

Publicado por: João da Cal em outubro 26, 2005 11:31 AM

>> Amigos, obrigada por me terem acompanhado nesta peregrinação pelas minhas memórias. Acredito que quase todos temos uma relação ambivalente com as nossas origens porque, afinal, assim é a vida.
Beijinhos e abraços para todos

Publicado por: lique em outubro 26, 2005 11:47 AM