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novembro 29, 2005
Quase Inverno

Na encosta para lá das árvores a noite já se anuncia. Curtas são as horas nestes dias em que o sol nos foge. Dentro de nós fazem-se lentamente balanços de vida. Mais um ciclo de tempo se fecha.
Sabemos que a natureza apenas parece adormecer para renascer a seguir. Mas isso não minora o frio que o seu sono nos causa, nem o arrepio de saber que o nosso “adormecimento” é diferente. E o “renascer”, na verdade, vai perdendo a capacidade de acertar o passo pelo da mãe terra.
Hoje a noite cai rápida lá fora. Deixo que os pensamentos se alonguem pelo ano que está quase no fim. Dum lado os ganhos, do outro as perdas. O balanço far-se-á. Contemplo as árvores sem folhas e evito o arrepio. Agasalho-me um pouco mais. Procuro calor onde sei que o encontro. Preparo o renascer. É quase Inverno.
Foto: Laura Sina
Publicado por lique às 10:56 PM | Comentários (23)
novembro 26, 2005
Manhã

pode vir a manhã
todas as manhãs do mundo.
nenhuma será início
página branca num livro
adivinhado.
os demónios soltos na noite
deixam rasto na luz do sol
tapam de angústia
as primeiras horas do dia.
a manhã é um lento caminho
passos que dou em direcção a mim
um acerto de alma que deslizou.
os olhos fechados focam o quadro
do dia azul, nítido, claro
o dia certo.
Foto: Sparkle, Stretching high
Publicado por lique às 09:09 PM | Comentários (34)
novembro 23, 2005
Tempo (nosso)

Existimos na linha ténue do tempo em que nos inventamos.
Inventamo-nos na realidade das horas em que existimos.
Foto: Laura Sina
Publicado por lique às 08:04 PM | Comentários (37)
novembro 20, 2005
Vou-me sentar à janela

vou-me sentar à janela
a ver a vida lá fora.
os meninos do jardim
aquela mulher que passa
o homem que vai embora.
e eu sentada aqui dentro
com um vidro de permeio
vejo os risos que não oiço
sinto os olhos da mulher
presos na pressa do homem
que se cruza no passeio.
a rua é um mar de acasos
de vidas que não se sabem.
tento eu ligar os passos
em qualquer conto inventado
visto através da vidraça.
a chuva esconde os pedaços
da vida que está lá fora
e eu sentada à janela
olhando o que sonho dela.
Ilustração: daqui
Publicado por lique às 07:24 PM | Comentários (36)
novembro 18, 2005
Canção para uma geração… ou várias?

Em 1976, Elis Regina tinha 31 anos e estava no auge da fama. O disco “Falso Brilhante” e o show que o acompanhou foram um êxito que parecia difícil ultrapassar. Desse disco fazia parte esta canção que, para mim, mais nova (não muito, não muito…) mas já com responsabilidades de casamento e filha, me pareceu a “cara” da minha geração. Curiosamente, cerca de vinte anos mais tarde, as minhas filhas emocionaram-se tanto como eu, quando a ouviram. Assim, deixo aqui a voz de Elis e a letra da canção para que possam dizer se, sendo embora uma canção datada, fala ou não das angústias dos jovens de várias gerações.
Como Nossos Pais
António Carlos Belchior
Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado prá nós que somos jovens
Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu 'tô por fora', ou então que eu 'tô inventando'
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude
Tá em casa guardado por Deus contando vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
como nosso pais.
Canta: Elis Regina
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (40)
novembro 14, 2005
Dias de sol e chuva

se entro
no espaço
entre mim
e o eu sonhado
caminho sem pé
em água funda.
mergulho
e não respiro.
iço-me
na beira de mim
onde o ar
me enche o peito
de realidade.
eco da chuva
na janela aberta
em ilusão de sol.
Ilustração: Salma Shami
Publicado por lique às 06:51 PM | Comentários (37)
novembro 10, 2005
Tempo

não o sinto
a não ser na carne.
a alma parece imune
ao arrepio da passagem
como se o vento que o transporta
não secasse a eterna fonte
miragem dum oásis
inexistente.
o deserto alastra dentro de mim
trazido pelo sopro
inevitável
do tempo.
Foto daqui
Publicado por lique às 06:40 PM | Comentários (45)
novembro 05, 2005
Uma nesga de céu

Já vos aconteceu começar a escrever sem fazer a mínima ideia do que vão pôr no papel mas tendo uma frase, uma só frase que por todo o lado murmura, fala, grita? Não é o terror da folha em branco, não estou minimamente aterrorizada porque sei que seja o que for que escreva terá que, de alguma forma, ir encontrar esta frase que hoje me obceca :”Uma nesga de céu”. Não o céu todo, nem sequer o azul sem nuvens. Só um pequeno, ínfimo pedaço daquela imensidão. Não será aquilo a que todos temos direito? As vidas cinzentas do dia a dia, a monotonia que nos faz repetir os mesmos gestos às mesmas horas tapam-nos a nossa “nesga de céu”. Levantar às mesmas horas, maquinalmente cumprir a rotina diária, comer às mesmas horas, nos mesmos sítios, com as mesmas pessoas… Onde está a cor da vida? E, sobretudo, onde está o azul? Claro, escapamos de quando em vez, ou porque nos encontramos face a face com a beleza sob qualquer forma ou porque nos defrontamos com sentimentos que nos transcendem e algo acende em nós a luz que revela a paleta multicolor. Entrevemos então a nossa “nesga de céu”. Rara, preciosa. Dificilmente duradoura. Se o for, não lhe damos a importância devida. Distinguir nela o azul da harmonia e guardá-lo em nós nalgum canto escondido é a tarefa que perseguimos, por vezes uma vida inteira.
As palavras trouxeram-me até aqui. Umas atrás das outras, sem nenhum caminho traçado à partida. E tal como comecei, sem destino certo, tenho que acabar. Porque nisto de entrever a “nesga de céu”, não há receitas, nem mezinhas. Muito menos sermões ou grandes dissertações. Ela está por aí. Procurem-na, que eu também o faço. Por vezes encontro-a, por vezes perco-a.
Foto: Manuel Galrinho
[Por motivos profissionais, só voltarei aqui na próxima 5ª feira. Bom fim de semana! ]
Publicado por lique às 08:43 AM | Comentários (43)
novembro 02, 2005
Não me perco nem me acho

não me perco nem me acho
no percurso que sabemos
pele com pele
secreto caminho dos lábios
em corpo alheio.
deixo de mim esta angústia
que sai por todos os poros
solidão que escorre em fio
p’los dedos que acariciam.
não me perco
só encontro nos teus olhos labirinto
que me encerra porque o quero
nem me acho
vejo de mim imagem nítida
claro reflexo espelhado em tua alma.
Foto daqui
Publicado por lique às 05:54 PM | Comentários (38)
novembro 01, 2005
Uma alegria esperada

Aqui na blogoesfera, algumas pessoas são para mim referência e tenho orgulho em, durante mais de ano e meio, lhes ter seguido o percurso sabendo que era sua vocação escrever e que um dia teriam o seu trabalho publicado.
A Encandescente é uma dessas pessoas. E a alegria esperada cumpriu-se. Foi hoje lançado o livro de poesia “Encandescente”. O livro, ainda não disponível nas livrarias, poderá ser adquirido através do mail da editora.
Parabéns, Encandescente! Sabes como te desejo toda a felicidade para este livro.
E parabéns a todos nós porque mais um blogger vê a sua obra publicada. Mas, na verdade, o importante é que mais um poeta de qualidade vê as suas palavras escritas em letra de imprensa.
Publicado por lique às 11:21 PM | Comentários (10)
Olhares diferentes
Hoje , o TCA deu nova roupagem e um olhar diferente a dois poemas meus. É uma prova de que as palavras ecoam de forma diversa, de acordo com quem as lê. E cada um, ao dar-lhes a sua interpretação, as enriquece e torna suas. Obrigada, TCA.
Publicado por lique às 08:47 AM | Comentários (10)