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dezembro 14, 2005

Carta ao Pai Natal

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Meu querido Pai Natal:

Ora, pois, eu bem sei que já passei a idade de acreditar em ti. Lá por isso, por favor não atires já a carta para o cesto dos papéis. Tudo o que te vou pedir não se compra. Compreendo que a crise já tenha chegado ao Pólo Norte, por isso só te peço coisas que a tua magia pode resolver. Não me digas que não tens magia, estão por aí as crianças que em ti acreditam com as mãozinhas cheias de brinquedos. Nunca percebi porque é que não espalhas essa magia por todas as crianças do mundo. Talvez os teus poderes não cheguem a tanto…
Estou a afastar-me do assunto desta carta que é o de, egoisticamente, te pedir o que quero para mim. Sim, não te iludas. Mesmo o que pedir para os outros, faço-o porque me fará sentir melhor, se acontecer.

Começo pelo nível mais alto, o mais geral. Para o mundo, eu peço-te doses “industriais” de bom senso e sentido de auto-preservação. Paz? Igualdade? Etc, etc… É isso que te costumam pedir? Mas são óbvias consequências do que te pedi. Acho eu…

Passemos a este delicioso país que nos calhou na rifa. Meu caro Pai Natal, este país é um bico-de-obra. Que pedir? Gostava que a nação (o conjunto de todos os portugueses) encontrasse esse “sentido” de nação na vivência do dia a dia. Complicado? Isto começa a parecer discurso de candidato eleitoral? Pronto, digamos então que gostava de nunca mais ouvir ninguém dizer que Portugal não se cumpriu. Que me desculpem os poetas… mas se um país com quase nove séculos de história como nação independente ainda não se cumpriu, é porque somos todos burros ou anormais. Ou simplesmente gostamos de arranjar boas desculpas para cruzar os braços e ficar na cómoda posição de espectador crítico. Vamos é cumpri-lo, exercendo a nossa cidadania todos os dias e as coisas talvez melhorem.

E para mim? Para mim é simples e complicado, ao mesmo tempo. Saúde, dinheiro e amor, não é essa a fórmula habitual?
Na saúde, acho que terás pouca influência. Talvez seja melhor entender-me com os médicos.
Dinheiro, até me custa pedir com esta crise toda, mas não será possível ganhar o euromilhões? Dava cá um jeito… Mas tenho que jogar, não é? Quase todas as semanas me esqueço mas também, se ganhar jogando, não há nenhuma magia nisso.
Vê lá se consegues entender amor como o conjunto dos afectos, de índoles várias. Isto às vezes é complicado, para muita gente. Peço-te que o meu núcleo de afectos se mantenha e continue a ser o pilar da minha vida. Que mais? Talvez que eu aprenda a viver dia a dia, somando pedaços de felicidade e superando as amarguras. Não acredito que consigas dar-me isto tudo… Ah, e já agora, vá lá, faz com que o Benfica ganhe o campeonato e … esquece, isto já é superior à tua magia!

Para terminar, só quero contar-te uma coisa: eu nunca acreditei em ti. Em criança, acreditava no Menino Jesus. Quando passaste a ser moda, já não tinha idade para acreditar. Mas vi a felicidade que tu (ou a ideia de ti) pôs nos olhos das minhas filhas e acho que é só por isso que te escrevo hoje. Vais desculpar-me que te faça mais um pedido: dá-me de volta o meu espírito de Natal!
Pronto, então, um beijo da

Alice


[Amigos que por aqui passam, vou fazer uma paragem até ao início de Janeiro. Desejo-vos um Feliz Natal e um óptimo 2006. E que o espírito de Natal vos encha os corações! ]

Publicado por lique às 10:52 AM | Comentários (123)

dezembro 11, 2005

Natal, hoje

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Jesus hoje
num qualquer canto do terceiro mundo.
Reis, não terá em adoração
talvez algum chefe da guerrilha
se comova com o choro daquele frágil ser.
Mais um miúdo, afinal, para morrer cedo.
Pastores, talvez
que ainda os há, de olhos doridos
e mãos sem ofertas.
A vida depende das contas bem certas.
Menino com fome, doenças
fugindo das minas, das bombas, das balas
dormindo ao de leve, sem sono profundo.
Se o avião que passa não acertar na gruta
se outra guerrilha não olhar o pardieiro
se escapar à doença
se encontrar comida
dirá a mensagem ao mundo inteiro.
Não terá apóstolos, chega a televisão.
Expulsará os vendilhões
que lhe infestam os templos
políticos, lobbies, multinacionais
e outros que mais.
Dirá:
Amai-vos uns aos outros!

E morrerá assassinado num qualquer buraco
que amor é palavra punida hoje em dia
como naquele tempo
em que, com estrela, reis e pastores
num pequeno estábulo de Belém
um natal de esperança acontecia.


Foto daqui


(Este poema foi escrito para as Noites de Poesia em Vermoim com o mesmo tema e já foi publicado no blogue Movimentum II )

Publicado por lique às 07:22 PM | Comentários (35)

dezembro 08, 2005

Uma canção antiga, uma nova voz (II)

Eu gosto de jazz. Foi um gosto que aprendi, ouvindo e vendo de que forma a voz e os instrumentos podem dialogar fazendo de uma canção algo que ultrapassa em muito música e letra, transformando-a em qualquer coisa única para o intérprete, naquele momento.
Vem isto a propósito de um disco que traz versões jazísticas (nem sei se a palavra existe) de canções clássicas da música portuguesa. Canções que quase todos conhecem e que se afirmaram pela extraordinária beleza da música e da letra. O disco é de Paula Oliveira (voz) e Bernardo Moreira (contrabaixo) e chama-se "Lisboa que adormece".

Fica aqui um "cheirinho" para aguçar a curiosidade. E a minha confissão de que a escolha da canção não foi nada, mas mesmo nada, inocente...
Então, escutem e deixem o jazz "entranhar-se".

Uma flor de verde pinho


Letra: Manuel Alegre
Música: José Niza


Eu podia chamar-te pátria minha
Dar-te o mais lindo nome português
Podia dar-te um nome de rainha
Que este amor é de Pedro por Inês

Mas não há forma, não há verso, não há leito
Para este fogo amor, para este rio
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou e eu sem navio
Gostar de ti é um poema que não digo
Que não há taça, amor, para este vinho
Não há guitarras nem cantar de amigo
Não há flor, não há flor de verde pinho

Não há barco nem trigo, não há trevo
Não há palavras para escrever esta canção
Gostar de ti é um poema que não escrevo
Que há um rio sem leito e eu sem coração

Mas não há forma, não há verso, não há leito
Para este fogo amor, para este rio
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou e eu sem navio
Gostar de ti é um poema que não digo
Que não há taça, amor, para este vinho
Não há guitarras nem cantar de amigo
Não há flor, não há flor de verde pinho


Canta: Paula Oliveira

Publicado por lique às 08:05 PM | Comentários (34)

dezembro 05, 2005

Colho incerteza no passar dos dias

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Entre o dito
e o que falta
há o espaço
da incerteza.
O caminho
inseguro
interdito
o meu trilho
de tristeza.
Passos dados
pela margem
desse leito
de ternura
onde me deito.
E o que falta
no já dito
é o caudal
que corre frio
no meu peito.

Foto: Catedral II

Publicado por lique às 07:43 PM | Comentários (33)

dezembro 02, 2005

A propósito de Bocage

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Bocage ainda és


Bocage ainda és, por teu tormento
Conhecido por todas as graçolas
Que os meninos aprendem nas escolas
Sem que se lhes revele teu sofrimento

Nem Marília nem amor da liberdade
Te salvam do sumário julgado
Da teres um dia aos céus ultrajado
E até, vê lá, manchado a santidade

Viste a vida como ímpia e obscura
E a morte desejaste em tal fervor
Querendo uma campa em terra dura

Que hoje te olhamos com estupor
Onde teus versos de raiva impura?
Revolta, angústia, escassez de amor!


[Bocage nasceu a 15 de Setembro de 1765 e morreu a 2 de Dezembro de1805]

Publicado por lique às 07:45 PM | Comentários (32)