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janeiro 31, 2006

A palavra solta

MarianneLeCarrour-Ariane'swire.jpg

Não penso
Procuro
Percorro às avessas
O tempo obscuro
Envolvo o corpo
Nas pregas tecidas
De antigos minutos
Deslizo num túnel
De horas sofridas
Não paro
Recuo
Caminho na borda
Do sentir revolto
Da espiral inversa
E volto
Ao verso primeiro
À palavra solta
No espaço contido
Do eu verdadeiro.

Foto: Marianne Le Carrour, Ariane's wire

Publicado por lique às 08:53 PM | Comentários (30)

janeiro 29, 2006

E a neve caiu...

Leceia-Heloísa.jpg

Borboletas brancas geladas rodopiaram no ar e enfeitaram o verde, abrindo o sorriso das crianças. Ficou a pureza do frio e a insólita angústia que sentimos, quando o que conhecemos se altera. Talvez tembém a certeza de que sabemos muito pouco, nesta breve jornada em que teimamos ser aprendizes de feiticeiro.

Foto daqui - Neve em Leceia, Barcarena

Publicado por lique às 08:34 PM | Comentários (25)

janeiro 28, 2006

Tempos...

A Sara passou-me mais uma dessas cadeias das quais eu já tinha tantas saudades.... :) A finalidade é darmos uma ideia de nós, através dos tempos (começando há 10 anos atrás) e dos nossos gostos e medos actuais.
Reabri o "Eu, de novo" para lá pôr as minhas respostas (só para isso...). Se, por acaso, estiverem interessados, podem passar por lá e dar uma olhadela. Por vezes, acaba por ser um exercício interessante olharmos para trás...


Eu, de novo

Publicado por lique às 07:19 PM | Comentários (0)

janeiro 26, 2006

Essência

she_s_gone.jpg


Não sou mais
que a palavra escondida no meu beijo
emprestada à carícia dos meus dedos
reflectida em silêncio nos teus olhos.

Foto: Sophie Thouvenin

Publicado por lique às 11:03 AM | Comentários (28)

janeiro 23, 2006

Talvez haja alguma lição a aprender

Cumpriu-se o que era esperado. De qualquer forma, respeitando concerteza a opção da maioria, parece-me que a esquerda tem aqui alguma coisa a aprender. Será que vai ser capaz de o fazer e recuperar a capacidade de mobilização que perdeu? Sinceramente duvido. Ficou-me a sensação de que o aparelho do PS prefere este resultado a ter Manuel Alegre numa segunda volta (que enorme sapo...).
Relativamente a este candidato em que votei, sinto que teve o mérito de saber capitalizar a esperança, a necessidade do sonho e a total inabilidade dos partidos (nomeadamente o PS) para satisfazerem as necesidades dos cidadãos. E podia estar feliz com o resultado dele se não fosse esta expectativa de "aguentar" Cavaco Silva durante, pelo menos, cinco anos.
A democracia tem destas coisas. Também tem a certeza de que outras lutas chegarão. Para já, é altura de pensar noutros assuntos que urgem. Volto lá para o fim da semana, como tinha dito. Boa semana para todos.

Publicado por lique às 12:20 AM | Comentários (37)

janeiro 19, 2006

Até para a semana

cavaco.jpg

EL-REI D. SEBASTIÃO ESTÁ MORTO. DEIXEM-NO EM PAZ!


O tempo é curto, o trabalho é muito e a inspiração pouca. Por isso e porque, na verdade, nem sequer me tem sido possível ler-vos, voltarei quando tudo estiver normalizado, eventualmente lá para quarta-feira da próxima semana.

Entretanto, teremos um fim de semana eleitoral. Votarei, como sempre. Com uma única convicção: aquela que deixo aqui consubstanciada nesta imagem que roubei à TMara. Gostava que um dia tivessemos consciência de que o "homem providencial" somos todos nós, juntos. Não sei se alguma vez chegarei a ver isso. Mas posso sempre ter esperança...

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Acredito que a divisão das "esquerdas" nesta eleição gerou muito desânimo e indecisão. Mas Cavaco só ganha à primeira volta se tiver 50% dos votos expressos+1. Qualquer voto à esquerda é uma contribuição para lhe tirar essa maioria.

TEMOS ALGUM PODER NA MÃO , NO DOMINGO.
MOSTREMOS O QUE NÓS, A ESQUERDA, NÃO QUEREMOS.
VOTEMOS TODOS, INDEPENDENTEMENTE DE QUEM É O NOSSO CANDIDATO.
VAMOS LÁ TENTAR TIRAR-LHE A MAIORIA .
MOSTREMOS QUE, ATÉ NA DIVISÃO, PODE HAVER UNIÃO PARA O QUE É FUNDAMENTAL!

Para que tudo aqui seja transparente neste apelo, eu voto Manuel Alegre.

Publicado por lique às 04:01 PM | Comentários (24)

janeiro 16, 2006

Instantes

juanramóncórdobaleón.jpg


Na manhã que nasceu há pouco, existe uma pureza de cores que me faz acreditar no equilíbrio do mundo. Uma neblina muito leve adoça a luz forte do sol e recorta as silhuetas conhecidas no horizonte. Paira um sentimento de paz inexplicável, uma certeza fugaz de que tudo está bem. É um instante, um breve hiato no tempo normal. Tudo se dilui rapidamente na consciência dos sentidos feridos pela agressão dos sons e cores da rotina matinal.


(Num breve instante de uma vulgar manhã, perdida no trânsito e olhando a harmonia, onde ela existe.)

Foto: Juan Ramón Córdoba León


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Talvez também em busca, se não da harmonia, pelo menos do conhecimento da beleza e da poesia aqui na blogoesfera, deixem-me chamar a atenção para o Encontro "Poesia nos blogs", iniciativa do OrCa dos Sete Mares que se realizará a 4 de Março na Póvoa de Santarém. Para informações e inscrição sigam por este caminho.

Publicado por lique às 07:18 PM | Comentários (20)

janeiro 13, 2006

Poesia (?)

fougere-sophiethouvenin.jpg

Poesia. Caminho que as palavras escolhem para se juntar. Sem justificação ou prévia intenção. Expressão de sentimentos, de sensações. Jogo de palavras, até.
Olhando à minha volta, a poesia pode estar em todo o lado. Uma flor, uma pedra. O belo e o feio. Tudo pode despertar uma frase que insiste em fazer-se ouvir. Uma frase que sei ter ligação com outras. E que só me larga quando encontra as palavras que a completam. Nessa obsessão pelo complemento, pela forma, pelo final, o poema instala-se e sussurra-me ao ouvido, como se não fosse possível dizer nem escrever mais nada. Tento fugir dele, agarrar outras palavras, outras ideias. Tudo sai imperfeito. Tudo desagua naquele que está dentro de mim, latente.
Num momento, numa hora inesperada, o poema encontra a forma de se dizer e os versos jorram, encaixam. Lutam um pouco entre si, até encontrarem a forma procurada. E eu escrevo.
Mas nenhum poema me deixa completamente. As palavras parecem mudar, acendem interrogações, sugerem novas ideias e inquietações. Por vezes, outra frase salta. E tudo recomeça.
Poesia. A que leio e a que tento escrever. Aquela sem a qual não vivo. A que acende o sonho ou denuncia a iniquidade. A ideia que se faz palavra e as palavras que são alimento das ideias.

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Escrevi isto há uns meses para ser publicado noutro local. Nunca me pareceu adequado para editar aqui. Relido, pareceu-me até um texto que reflecte alguma presunção.
Fica aqui hoje apenas porque, de alguma forma, a poesia parece ter-me abandonado. Nenhuma palavra me persegue, nenhuma frase se torna obsessiva. Só o porquê deste silêncio. Talvez temporário. Talvez não…

Foto: Sophie Thouvenin

Publicado por lique às 08:05 PM | Comentários (26)

janeiro 10, 2006

Fugir

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Sempre esta vontade de fugir. De quê, não sei. De mim própria, provavelmente. Partir simplesmente sem destino nem limite. A palavra é essa. Partir. Quebrar amarras, deixar lugares, sem adeus, sem despedidas. Sentir a falta das pessoas em vez de me desiludir delas. Todos os dias.
Mas fico. E com razões que (me) dou, me engano, sabendo-o. Talvez a viagem seja ilusão. Porque, na bagagem, comigo levaria a vontade de fugir.

Arte digital: Sergio Curtacci

Publicado por lique às 08:28 PM | Comentários (31)

janeiro 07, 2006

Olhares (gravados em mim)

IMG_502.jpg


O olhar de súplica da criança esfarrapada.
O desencanto nos olhos sem brilho dos velhos solitários
O olhar revoltado dos que sofrem injustiças inesperadas
Os olhos de aceitação dolorida dos que só esperam injustiças
O olhar sem vida das mulheres que a abandonaram no percurso
A desilusão nos olhos daqueles que ainda se decepcionam
As múltiplas tristezas pintadas nos muitos olhares de todos os dias

O olhar cristalino das crianças felizes
A sabedoria nos olhos dos velhos que a podem transmitir
O olhar de luta dos que acreditam no seu poder colectivo
O desafio nos olhos dos que acreditam no seu poder individual
A radiosa alegria nos olhos das mulheres que descobrem a vida plena
Os olhos de ilusão daqueles que todos os dias acreditam
Todas as alegrias de um dia reflectidas num só olhar


A humidade da ternura nos teus olhos quando somos o que queremos ser
O véu de tristeza no teu olhar de adeus, como se cada vez fosse a última.


Foto: Laura Sina, These are the last tears

Publicado por lique às 04:16 PM | Comentários (24)

janeiro 06, 2006

Poemas de Manuel Filipe

capa-livro-manuelfilipe.jpg


Foi lançado o livro que reúne os poemas escritos por Manuel Filipe entre 1969 e 2004. São quase 400 páginas de poesia de qualidade. O livro pode desde já ser encomendado através deste e-mail. O preço é de 12 euros acrescido de portes de correio. Deixo-vos aqui uma amostra da poesia deste autor, esperando que vos desperte a vontade de ler mais.

Dia azul


Num dia azul, meu amor,
Irei contigo.

Porque é fatal partir,
(há outras ilhas)
porque a alma se vai embalando de vazio,
porque o corpo definhará com a espera.

Anunciado já o fim das maravilhas,
desterrei os meus olhos pelo rio
até ao mar,
cintilante refúgio da quimera...

E de repente
no ar vibrou, breve e plangente
o apelo insistente da sirene;

Largaremos lentamente em fumo e sonhos,
entre as gaivotas que pairam no poente.


Publicado por lique às 09:17 AM | Comentários (8)

janeiro 03, 2006

Pedra

MIntegui1.jpg


hoje sou pedra
nada me move
me incomoda
ou me comove.
duro granito
parado algures
ténue limite
entre o horizonte
e o infinito.
digo: sou pedra
e espero o vento
sobre as arestas
sopro de gelo
um corte lento.
direi: sou pedra
e sei que minto
um toque leve
mesmo de acaso
tudo desfaz.
restam partículas
um ser difuso
a visão breve
da dor que sinto.

Foto: José Angel Mintegui Bilbao

Publicado por lique às 10:16 PM | Comentários (28)

janeiro 01, 2006

E em 2006...

carinameyerbroicher-lifeisalongandwindingroad.jpg

Um ano mais. Nunca entendi bem a lógica da euforia das festas de fim de ano. Será que provem do facto de termos vivido mais um ano ou da alegria de termos à frente outro do qual não sabemos quais as surpresas que nos reserva? Não sei e sinceramente nunca experimentei essa euforia.
Costumo, de uma forma quase inconsciente, fazer balanços de fim de ano. Sei que o ano de 2005 foi um dos piores da minha vida, por razões que não são para aqui chamadas. Talvez devesse, então, ter esperança que 2006 fosse melhor. Sinceramente, nem por isso. Talvez que a nível pessoal isso possa acontecer e digo isto de uma forma bastante céptica. No entanto, nós não nos podemos separar da conjuntura que nos rodeia e temos que convir que esta não é, de todo, brilhante.

Olhemos para o país em que vivemos. Em 2006, teremos um novo Presidente da República. Parece-me que muita gente pensa que poderemos ter um “salvador da Pátria”. Alguém que nos salve da crise, do desemprego, da real depressão (não só económica) em que estamos mergulhados. Este povo sempre acreditou em “homens providenciais”. Pessoalmente, é um conceito que não me diz nada. Talvez existam épocas de viragem e até pessoas que catalisam as capacidades e as aspirações de um povo. Mas de certeza que um homem só não faz a diferença. Muito menos, no nosso regime político, um Presidente da República. Então… o que é que exactamente esperam essas pessoas? Que um homem infrinja as regras do regime, interfira com o Governo e num passe de mágica resolva tudo? Quando entenderemos todos que é o conjunto da nação que tem que mudar? Quando largaremos esta aspiração do Messias ou D. Sebastião ou o que queiram chamar-lhe?
Certo é que em 2006 algo tem que mudar por estas bandas. Sob pena de ser tarde demais.
Tinha que falar disto. Afinal, é o assunto de que toda a gente fala , neste início de ano. E, tendo já tomado uma opção de voto que, no fundo, é mais pela negativa que pela positiva, gostaria bem que, algum dia, não fosse assim. Gostaria de, um dia, votar em algo em que realmente acreditasse. Sonhos, utopias...

À meia noite, cumprindo aquela tradição de "um desejo por cada passa", dei por mim a achar que não tinha "grandes desejos" que chegassem para as doze passas. Há desejos tão abrangentes que englobam os aspectos mais importantes da nossa vida. E nem me esqueci da passa para o Campeonato do Mundo...
Para mim, o ano começa um pouco triste. A minha filha "holandesa" vai, durante seis meses, virar "americana". Mais longe... Sei bem que a distância pode ser, psicologicamente, um conceito relativo. Na prática, impõe-se.

Ainda assim, neste primeiro dia do ano, encaro-o com serenidade mas sem ilusões. Com a certeza de que me dará coisas positivas e negativas. E sabendo que só me irá oferecer de positivo aquilo que eu conseguir conquistar. A todos os níveis. Não é sempre assim?

[A todos desejo um ano de 2006 que realize os sonhos pelos quais tenham lutado.]

Foto: Carina Meyer Broicher, Life is a long and winding road

Publicado por lique às 10:51 AM | Comentários (23)