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fevereiro 25, 2006

É Carnaval

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É Carnaval. Eu não gosto do Carnaval, tal como não gosto de nenhuma data em que seja “obrigatório” divertirmo-nos. Mas, pensando no lado pagão destas festas, deixo a quem passar por aqui até quarta-feira, um poema de Manuel Filipe (já compraram o livro?) para vos incitar a entregarem-se ao Deus da dança. E, já agora , fica no ar a música de Chico Buarque, acompanhado por uma lenda de sempre – Elis Regina.

O Deus da dança


O Deus da dança ergueu-se, num volteio,
um fruto ao sol,
entre gritos de alegria;
A luz na face,
sem nuvens de permeio,
desce do céu, renovando as cores do dia.

O turbilhão corre solto, na campina,
um frémito sacode a haste das espigas…

No ar doirado, onde tudo se ilumina,
voam fragmentos de flores,
de cantigas…

Manuel Filipe

Foto: Andreas Allgeyer

Publicado por lique às 12:05 AM | Comentários (28)

fevereiro 23, 2006

Zeca - 19 anos

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Zeca Afonso morreu há 19 anos. Fica aqui só o registo, a voz e a emoção.


José Afonso, Canto moço

Publicado por lique às 07:29 PM | Comentários (0)

fevereiro 21, 2006

Da cor dos malmequeres

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Sabem de que cor são os malmequeres? Brancos, amarelos, as duas coisas? Respostas prosaicas. Os malmequeres são cor de primavera. Esta é uma resposta poética.
Também a água não é bem água. Talvez seja um fio de prata ou um líquido caudal. Ou qualquer outra coisa. As cores não são bem as que vemos, mas as de alguma improvável paleta. E sobretudo a dor não é dor. Chamemos-lhe o que quisermos, mas não lhe chamemos dor. Nem tristeza, nem solidão. Nem sequer a tão desejada felicidade. Recorramos a todas as figuras de estilo. Sublimemos. Sobretudo, sublimemos. Façamos um enorme silêncio sobre a vida real, deixemos a poesia dizer do mundo inventado onde, ao de leve, só ao de leve, pairam os nossos sentimentos.
Será para isto que serve a poesia? E será que a poesia tem que servir para alguma coisa? Não para mim, não hoje, sobretudo.
Mas nem sei como vim parar aqui. Hoje eu só queria saber de que cor são realmente os malmequeres. Os verdadeiros que existem nos campos e se sentem nas mãos quando os colhemos. Nos campos reais, da terra real onde cresce a verdadeira vida.

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (39)

fevereiro 17, 2006

Pre(s)sentimento

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pressinto
o dia já perto
como um sol poente
e sei que desperto
um sentir doente
e por isso minto
pelo teu sorrir
pelo meu alento
no peito desperto
um som bem dolente
um olhar aberto
sei que te minto
e bem cá por dentro
pressinto

Foto: Dirk Jesse, in "Staring at the sun"

Publicado por lique às 12:16 PM | Comentários (33)

fevereiro 15, 2006

Do amor, simplesmente

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Eu vi pessoas. Só pessoas. Lançadas numa voragem de sentimentos. E de sentidos. Um vórtice enterrado no coração da montanha. E o viver de hábitos que se forçam, ocasiões fortuitas, abandono, angústia. O sofrimento contido. O pressentir do sofrimento, ainda antes da alegria do reencontro. A revolta contra as circunstâncias e a sua aceitação tácita. E a sociedade à volta que finge não saber. Mas que cobra, quando chega a hora. Cobra até a vida.
E aquele amor, tão grande, tão belo. Tão limpo como o ar da montanha-refúgio. A ternura que passa no olhar ou nas palavras contidas. A erosão do tempo (tantos anos…) que não mata o essencial.

“Jack, I swear…” , e a jura que não é dita perante aquela “imagem” do outro contem todo o sentimento de todas as lágrimas choradas por dentro.

Só vi pessoas. E uma comovente história de amor. Disseram-me que eram dois homens.

Brokeback Mountain

Publicado por lique às 12:01 AM | Comentários (21)

fevereiro 12, 2006

Semente em dias de frio

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Deixa que te olhe
No dia cinza e prenhe de bruma
Que se colou espessa nos vidros
Vago reflexo que não alcanço
Ainda que a alma se expanda
E te toque.
Deixa que pense
Mesmo que seja num dia sem sol
Que o sempre não é somente palavra
De um dicionário coberto de pó
E a vida não é gazela que foge
À nossa frente.
Deixa que sinta
Como sopro leve, lábios conhecidos
Que sussurre o tempo que já esperei
A brisa que trazes nos dedos carícia
E quanto serás eterno em meu corpo
Que aguarda.

Deixa que a vida me diga de ti hoje e amanhã
Para que exista um sulco de esperança
Semente plantada em dias de frio
Na terra que piso.

Foto: Allan Jenkins


Escrito em 18/01/2006

Publicado por lique às 12:28 PM | Comentários (29)

fevereiro 09, 2006

Sensibilidade e bom senso

O título pode enganar. Jane Austen não é para aqui chamada. No entanto, cada vez mais me parece óbvio que o equilíbrio de comportamento deve juntar em doses semelhantes a sensibilidade e o bem senso. Afinal, a sensibilidade é fundamental para “apanharmos” os matizes que fazem de nós e dos outros, pessoas únicas. E o bom senso é a característica que impede exageros a que a sensibilidade nos leva.
Com maioria de razão, estes dois atributos devem ser usados em tudo o que tenha impacto na opinião pública. A dita “liberdade de expressão”, se não for balizada por estes dois factores, corre o risco de ser de mau gosto, ofensiva e de provocar reacções incontroladas. Claro que já adivinharam onde quero chegar. Desde que me conheço que defendo esta liberdade fundamental mas, sinceramente, não vejo de que forma é que ela foi bem servida com a publicação dos “benditos” cartoons na Dinamarca e, sobretudo, com a exaustiva repetição dessa publicação por toda a Europa.
E, como tenho a “mania da conspiração” (será mesmo?), pergunto-me a quem serve esta algazarra toda, quase seis meses depois da publicação original. Neste momento, a Europa “arma-se aos cucos” e aparece, perante o mundo árabe, como a “má da fita” e, extraordinariamente, os EUA adoptam uma posição “equilibrada”. E a famosa “Al Qaeda”, que ninguém sabe bem o que é, tem ainda mais razões para continuar os atentados. Dá que pensar…
Para que não me interpretem mal, é claro que condeno as reacções de violência do mundo árabe. Mas, sinceramente e dados os antecedentes em questões muito menos importantes, esperava-se que fosse diferente?
Sejamos absolutamente claros: quem os publicou e quem reproduziu não teve sensibilidade e, muito menos, bom senso. Exerceu a sua “liberdade de expressão”, claro. Sem ter em conta qualquer tipo de consequências. Podia fazê-lo? Sim. Foi responsável fazê-lo? Não.
E agora uma data de “bem intencionados” e “intelectuais” grita que temos que apoiar a Dinamarca. Mas apoiar a Dinamarca em quê? Há uma guerra a decorrer? Vamos esperar que não e, sobretudo, que exista sensibilidade e bom senso para sarar mais este ferida entre dois mundos que têm que se entender.


P.S.: Podia ter ilustrado este post com um dos cartoons. Recebi-os por mail inúmeras vezes. Mas, pura e simplesmente, recuso-me a fazê-lo.

Publicado por lique às 07:55 PM | Comentários (16)

fevereiro 08, 2006

Manias ou cuidado, fujam que aí vem mais uma corrente...

A Samartaime desafiou-me para expor publicamente as minhas manias. Preparem-se para uma leitura escaldante e absolutamente imprópria para menores! Mas não aqui, que isto é um blogue de família. Mais uma vez reabri o "Eu, de novo", para responder.

Peço em especial ao GNM, à M.P., ao José Duarte, à MWoman ou à Vulcão e ao Carlos que por lá passem (ehehe... quem é amiga, quem é?)

Eu, de novo

Publicado por lique às 07:47 PM | Comentários (0)

fevereiro 06, 2006

Tempo de Inverno

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são curtos dias de alongar
gelos que a manhã desperta
vento que solta estranho grito
silvo de dor desfeita em água fria
abrem-se as mãos ao sol do dia
para amanhã a vida se enrolar
casulo que espera borboleta

o canto cinza do amanhecer
embala a melancolia da terra
dormente, deitada em silêncio
sabendo o segredo que o ventre
carrega onde o frio não chega
esperança calada da semente
doçura verde do renascer

Foto: Guillermo Fernandez-Corroto

Publicado por lique às 05:10 PM | Comentários (26)

fevereiro 03, 2006

Match point , das escolhas e da sorte…

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A sorte. As opções de vida. As paixões. As diferenças de classe. Crime com ou sem castigo? A sorte.

Parece ser impossível juntar tudo isto num filme. Mas não é. O último Woody Allen (diz-se assim, como quando se fala de outra qualquer obra de arte…) é, quanto a mim, um filme que marca uma viragem. Não estamos em Nova Iorque, não estamos a falar de uma classe média neurótica, o humor é quase inexistente. Dir-se-ia que Woody optou claramente por considerar o lado trágico da vida. E mudou-se para Londres, ao melhor estilo europeu.


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Chris Wilton, o rapaz pobre irlandês a quem o ténis abre as portas da dita “classe alta” britânica, tem noção de quanto a sorte é importante no jogo e na vida. E força a sua sorte, abrindo caminho para uma carreira promissora através de um casamento “acima da sua classe”. Será que isto já não existe? Mas as diferenças de classe estão claramente marcadas, até na “benevolência” com que Chris é tratado. Benevolência com condições que podem não ser ditas mas estão implícitas.
O mesmo não se passa com Nola, a sexy aspirante a actriz que, além de ser americana, é demasiado “emocional” e com poucas condições para se integrar naquele meio.
Nola e Chris vêm “de baixo”. Chris é aceite, Nola é rejeitada. A escaldante paixão entre eles mantém-se mas torna-se óbvio que Chris terá que fazer uma escolha. Livre arbítrio completo. Não está em causa se ele ama a mulher ou a amante, mas sim o estilo de vida que escolhe. E o que faz para o assegurar. É assim que uma história, aparentemente já contada muitas vezes, se torna única e completamente diferente.
E, no fim, entra novamente a sorte. Durante uns minutos do filme, existe algum suspense. Será Chris castigado? A referência a “Crime e Castigo “ de Dostoievsky não é casual, claro.
Talvez se possa considerar que a sorte está do seu lado e Chris ganha o jogo. Mas a que preço? Num final aparentemente feliz, o seu rosto traduz o quão trágico pode ser conseguirmos o que ambicionamos.

Só mais uma coisinha. Num cast quase perfeito, Jonathan Rhys-Meyers e Scarlett Johansson são absolutamente brilhantes.

Publicado por lique às 12:37 PM | Comentários (27)