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março 29, 2006

Cores (II)

AndersonFetter.jpg


Falaste
e era azul
um pouco de céu roubado.
Fiquei
em flor macia
de cor amarelo dourado.
Dissemos
o tom daquela hora mansa
em que o amor amanhecia
e por ser do nosso dia
chamámos-lhe verde esperança.

Foto: Anderson Fetter

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Aí fica outra dose de cores, desta vez com o amarelo! Tenho à minha frente alguns dias de muito trabalho e uma viagem que me vai levar longe, pelo que só devo voltar aqui depois da Páscoa. Fica uma foto de todas as cores e um poema/brincadeira leve, leve... E também a voz de Maria Bethânia, a dizer da saudade. Sejam felizes neste início de Primavera.

Publicado por lique às 06:40 PM | Comentários (61)

março 27, 2006

No verso da folha

JoannaN.jpg

Quero escrever
no verso da folha
palavra incorrecta
de sentir errado.
Virar-me do avesso
e dizer de mim
o que está calado.
Porque, de ser certa,
a frase escondida
breve se revela,
perdido o encanto
que nela habita.
E o verso falado
deixa por não dita
aquela palavra,
a tal incorrecta,
o olhar perverso
que apenas espreita
no poema escrito
na folha perfeita,
na beira do verso.

Foto: Joanna N.

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (30)

março 24, 2006

Cores...

Emgy.jpg

Existe aquela caneta azul. Num copo castanho. Digo, para mim, que com canetas azuis só se devem escrever textos felizes. Mas hoje é daqueles dias em que as palavras me puxam para a felicidade dentro da infelicidade, ou a infelicidade dentro da felicidade. Então a caneta azul não serve. Mas talvez o copo castanho lhe dê as características necessárias. Castanho é uma estranha cor. Nem feliz, nem infeliz. Quente mas quase neutra. Para mim, a beleza do castanho depende das tonalidades. A do azul é inquestionável. Então, se calhar, o melhor é escrever com uma caneta de outra cor arrumada num copo de cor também inquestionável. Por exemplo, uma caneta cinza num copo da mesma cor. Aqui, não tenho dúvidas. Cor neutra, ou talvez não… Ocorre-me que talvez seja mais uma cor infeliz. Nunca mais acerto. Branco e preto? Vermelho e branco? Verde e azul? Desisto. Vou escrever no computador, quero lá saber da cor da caneta!


[Moral da história: quando a inspiração está a zero, não se deve olhar para canetas azuis.]


Foto: Emgy

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (33)

março 21, 2006

Porque não ser...

TomekSlupski.jpg


Porque não ser gato
deitado em novelo no quente da lareira?
Passear pela beira de algum telhado.
Ser gato, tão mimado
no passar do pelo em peles desejosas
das carícias que ousa de forma esquiva.
Ser gato, de uma vida,
que sete seriam o tempo alongado,
tédio marcado para uma hora certa.

Ser gato e ter aberta, à força de querer,
a porta de saída para ser mulher.

Foto: Tomek Slupski


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E, de repente, lembrei-me que hoje é Dia Mundial da Poesia. Fiquem sabendo que acho que os gatos são seres poéticos...

Publicado por lique às 04:01 PM | Comentários (35)

março 19, 2006

Uma canção antiga, uma nova voz (III)

jacinta.jpg

O tempo escasseia mas quero deixar convosco um bocadinho do novo disco de Jacinta, em que ela canta, entre outras, versões portuguesas de temas de Duke Ellington, canções de Djavan, António Carlos Jobim e esta versão da Canção de Embalar de Zeca Afonso. Para quem não conhece e quer conhecer, fica aqui o link do site oficial da cantora.


Jacinta

Publicado por lique às 04:35 PM | Comentários (15)

março 16, 2006

Talvez por tudo querer...

DadaS.jpg

Já não me lembro de quando conheci a Maria. Aceitámo-nos mutuamente e não sei se, na verdade, alguma vez fomos amigas. Dela nunca se sabia nada ao certo. A vida atingia-a em golfadas, em ondas de tristeza ou alegria. Detestava sentir as meias tintas, as esperas, os tempos mortos ou agonizantes e, talvez por isso, forçava situações limite. Só estava bem (ou extremamente mal, o que era quase o mesmo) quando experimentava sentimentos intensos. Positivos ou negativos.
Quem a conhecia à superfície, julgava-a serena e segura. Não descortinava a inquietação no fundo do olhar. Outros achavam-na conflituosa, intolerante para com a falta de inteligência, irritante naquele jeito de querer ter sempre a última palavra numa discussão. Não sabiam que tudo isso era uma forma de sacudir o tédio que por vezes se apoderava dela e de se sentir viva.
Poucos a conheciam realmente. Porque não se deixava adivinhar, fechava-se naquela insatisfação perante a vida. E, mesmo entre esses, ninguém entendia que se fartasse tão rapidamente de tudo o que desejava e, eventualmente, conseguia. Na verdade, só se interessava pelo que não conseguia possuir. Sempre na procura de um qualquer desafio que a fizesse viver.
Não era feliz nem infeliz, ou podia ser as duas coisas num intervalo de tempo mínimo. Tinha alguns, poucos, afectos permanentes. As suas referências. Essas, tentava mantê-las a todo o custo. Até quase à anulação de si própria.

Um dia perdeu alguém que julgava eterno na sua vida e deixou que a tristeza invadisse todos os cantos da alma. Não quis mais desafios, trancou portas e janelas e fez desaparecer tudo o que a distinguia de quem quer que fosse. Lentamente, diluiu-se numa massa informe de gente “normal” e cinzenta. Quando se perguntava por ela, ninguém sabia responder. Maria tinha-se tornado invisível.

Foto: Dada S.

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (42)

março 13, 2006

O fio-de-prumo

JohnDittrich.jpg

Sem rumo,
talvez.
A vida dirá
da rota traçada.
E mais uma vez
não se dobrará
o fio-de-prumo,
vertical marcada
na linha de fogo
que corta o caminho.
Assumo este nada,
ponto em que afogo
o sonho interdito.
Sobra-me este grito
que lanço sozinho
no tempo infinito.

Foto: John Dittrich

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (30)

março 10, 2006

Narcisos em tempo errado

narcisos3.jpg

Disseste que os narcisos
viriam na mesma hora
em que o sol me envolvesse.
Que em tuas mãos chegariam
ternura em molhos tecida.
Prometeste as mesmas cores
que em teu olhar ficariam
como promessa de amor
como uma luz renascida.

Mas a vida em gargalhadas
das promessas desdenhou.
No meu colo em braçadas
narcisos irão florir
e o nosso tempo passou.

Foto: obelixtiti

Publicado por lique às 10:54 AM | Comentários (32)

março 08, 2006

História antiga (?)

AllanJenkins2.jpg


-Menina, menina! Toma cuidado. Não deixes que os rapazes te toquem

As tias avós diziam-lhe aquilo, constantemente. Marcavam-lhe a diferença de ser menina. Coisa feminina, coisa intocável até um dia, guardado, secreto.

-Agora já és mulher. É uma grande responsabilidade. E tu, tão novinha… Cuidado, filha!

Era novinha, sim. E aquela palavra cuidado, a responsabilidade de ser mais uma vez feminina, marcada por um Deus em que ainda tentava acreditar e que todos os meses a fazia dolorosamente lembrar-se de que era “mulher”…

Em si, ela começava a sentir raiva daquela diferença. Desejava ser rapaz, homem, descuidado. Desenvolveu padrões de agressividade para lidar com tudo o que considerava discriminação. De sexo ou com qualquer outra motivação.
Talvez as palavras dos membros femininos da família a tenham marcado nas suas relações de afecto, de trabalho. Talvez fosse irremediável a sua sensibilidade exagerada ao que quer que fosse que lhe soasse a inferioridade resultante da sua condição de mulher.

O orgulho de ser feminina veio-lhe primeiro da maternidade. Misturado com a noção que existiam, de facto, questões em que ser mulher era uma enorme responsabilidade mas também uma extraordinária alegria.

Percebeu depois que mulher é igual e diferente. Não da forma que as mulheres da família lhe tinham dito. Mas na capacidade de doação de si própria, na intuição do olhar que tenta entender o que está por trás de outros olhares. Aceitou essa “diferença”. Abraçou o ser feminino que há tanto tempo a marcava, parte de si mas não condição limitante da sua vida.


[Hoje, Dia Internacional da Mulher, dedico este texto que talvez seja história antiga (ou talvez não…) a todas as mulheres que me lêem … e também aos homens que as tentam entender, porque não?]

Foto: Allan Jenkins

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (25)

março 06, 2006

O túnel de chuva

Noushin Nourizadeh.jpg

Necessário é
atravessar o túnel de chuva
onde o silêncio fez ninho.
Passar a barreira do eco
de antigos sons murmurados.
Sacudir na volta da estrada
o peso carregado de sentir.
E seguir.
Rumo ao lugar isolado
onde o meu canto sozinho
dirá sol nos dias esperados.
Que a vida é sempre o porvir
dito em silêncio ou gritado
e é certo o tempo de chorar.
E o de amar.

Foto: Noushin Nourizadeh

Publicado por lique às 08:56 AM | Comentários (25)

março 05, 2006

Ontem, para as bandas de Santarém...

Foi bonito. Eu sei que esta é uma frase pobre, até gasta, de tanto se dizer por aí. Mas assumam que aqui tem o seu significado por inteiro.
Poetas da blogoesfera juntaram-se ali para os lados de Santarém. E levaram consigo outros que amam a poesia e gostam de a ler e ouvir. E alguns que não puderam ir mandaram poemas para que, de alguma forma, a sua presença fosse marcada. Tudo porque este senhor poeta teve a ideia e realizou o trabalho necessário para juntar esta gente. Conhecemo-nos ou reconhecemo-nos e a poesia ouviu-se, soltou-se, acredito que ficou por ali a pairar naquele espaço que tão bem nos acolheu.
Claro, acresce a isto que se comeu e bebeu muito bem. Algo que nunca é de descuidar porque até os poetas se alimentam e conseguem ver poesia num petisco saboroso ou num bom vinho… Por isso, eu acho que foi ontem que comemorei os dois anos deste espaço e encontrei novos sentidos para a sua existência.
Reportagens fotográficas sairão certamente por aí, que os fotógrafos eram muitos. Eu só quis deixar aqui o que senti e, principalmente, o meu obrigada a quem organizou e a todos os que tornaram o convívio tão agradável.

Publicado por lique às 01:17 PM | Comentários (13)

março 03, 2006

730 dias

m karez.jpg


São assim tantos os dias
que me encontro por aqui?
As palavras que ecoam
nos recantos escondidos
são já tantas, as que li!
E há aquelas que disse,
as que de pronto escrevi,
as que comigo ainda lutam
pelos lugares preferidos
nos sonhos que deixo aqui.

Sei que as horas são demais
e o tempo não vai sobrando,
mas é por mim que aqui ando
e por vós que aqui passais.

(Este blog faz hoje dois anos. Esta é a minha semana de comemorações. :-) O meu obrigada a todos os que, com a presença, o incentivo e o carinho me têm ajudado a ficar por aqui tanto tempo. Em repetição, fica a música que, para mim, define aquilo que este blog tem sido nestes 730 dias.)

Foto: M Karez

Publicado por lique às 12:01 AM | Comentários (28)

março 01, 2006

Lembranças no dia de hoje...

elena-bowell.jpg

A boneca da menina era grande. Vestida de vermelho e branco. Olhos azuis e cabelo louro arruivado. A menina queria ser linda como aquela boneca e ter tranças grandes como ela. Tinha estado doente (muito doente) e aquela boneca era a prenda de Natal que celebrava a sua cura.
Já não se lembra porque lhe chamou Leonor, para logo lhe pôr um diminutivo: “Nô-nô”. A boneca acompanhou-a sempre. Também não se lembra onde arranjava os comprimidos que lhe enfiava na boca para “curar” as maleitas de criança. Isso mais tarde… já a menina andava na escola, brincava numa quinta grande e comia uvas quentes do sol e sujas de pó. A mãe dizia-lhe que faziam mal. Nunca adoeceu por isso.
A menina cresceu, mudou de terra, mudou de casa, namoriscou e foi esquecendo a Nô-nô. Posta a um canto, a boneca, já fora de moda, esperou. Até que um dia uma criança franzina lhe pegou. Chamava-lhe “a pesada”. Porque ela era grande, pesada de mais para as suas mãozinhas sem força. Mas a Nô-nô, com todas as mazelas do tempo à vista, voltou à vida. Mais ainda quando outras crianças lhe pegaram.
A menina da história, já mulher e mãe, embrenhada em trabalho e obrigações, olhava-a com nostalgia. E o tempo foi passando. As outras crianças cresceram também. Mais uma vez, a Nô-nô ficou abandonada num canto da casa que agora já não tem risos de criança.

A menina, agora mulher madura, faz anos hoje. Já os bastantes para pesarem... Não consegue realmente entender porque se lembrou da Nô-nô abandonada naquele canto. Mas sabe que gostava que ela fosse outra vez linda como quando lha ofereceram e que voltasse a arrancar sorrisos em rostos de crianças.


Foto: Elena Bowell

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Obrigada pela lembrança e pelo carinho:

Ognid
paper life
Zecatelhado

Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (44)