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abril 30, 2006
Maio sonhado

Que venha Maio
e traga nos dias a plenitude da terra,
renascer de promessas que Abril plantou!
Que seja então Maio,
cheiro de brisa suave que em si carrega
mil águas caídas no solo que secou!
Floresça Maio agora
nesta hora de bandeiras caídas no chão,
cravos desfraldados no tempo de outrora
e traga de novo
a força que sonhámos ter dentro da mão!
Foto: Roman Kamyshnikov
Publicado por lique às 12:26 PM | Comentários (15)
abril 27, 2006
Insónia

ergo-me incauta
na margem da noite
e atiro letras
à porta do silêncio
Foto: Mike Greenberg
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (26)
abril 24, 2006
Do cinza se fez vermelho...

Ia então um Abril cinzento
de dias fechados no horizonte
onde a chuva, por medo, se calava.
As horas amanheciam sobre o monte
e havia aquele frio que gelava
como sopro nascido bem cá dentro.
E foi só mais uma madrugada,
momento que esperávamos igual,
instante primeiro de mais um dia,
aquele em que uma súbita alegria
se instalou, inesperado vendaval.
E nessa hora nova que surgia
renegámos o medo, já tão velho.
A chuva era uma doce melodia
e a luz da flor no frio metal
pintou o dia cinza de vermelho.
[Que o 25 de Abril permaneça, pelo menos, nos nossos corações!]
Publicado por lique às 05:54 PM | Comentários (28)
abril 20, 2006
Manhã de claridade

Que exista sempre esta manhã de claridade
e a luz do sol em voo rasante sobre o Tejo
som da gaivota que me fala de saudade
barco que entra pelo porto do meu peito
dia que nasce na maré do teu desejo!
E que, na alma que viaja sobre o leito
daquele rio que o sonho vê primeiro,
habite límpida esta onda sem idade
que agora embala o convés do cacilheiro!
Foto: Jorge Rosa
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (27)
abril 17, 2006
Texas não é só isto...

Há viagens que sonhamos e outras que a vida nos “impõe”. Nunca tinha pensado ou planeado ir ao Texas, muito menos a Houston, cidade mal conotada com as negociatas do petróleo e com a dinastia Bush e a actual administração americana. Mas os filhos levam-nos onde não pensamos ir, esticam os nossos limites para lá do imaginável. E, assim, lá fui eu, ainda que não muito convencida…
Não posso dizer que seja uma cidade de encanto. Nem que me deixou um desejo incontrolável de regressar. Mas posso dizer o que não esperava: senti-me confortável em Houston. Deu-me um pouco a sensação de uma grande aldeia, apesar das auto-estradas e dos arranha-céus. Muito grande, claro. É só a quarta cidade dos EUA.
Penso que esse sentimento vem do que realmente caracteriza as cidades, muito mais que os monumentos e os locais mais ou menos belos: as pessoas que nelas vivem.
Existe em Houston uma classe quase invisível, a não ser que frequentemos as lojas e os restaurantes mais caros. É essa a classe dos grandes negócios, da riqueza quase obscena que por ali paira. Depois existem os visíveis nos autocarros, no metro rail, nos táxis, nas lojas: maioritariamente negros e latinos. A cidade é bilingue, o espanhol é falado em todo o lado, espontaneamente até com aqueles que, como eu, têm a óbvia marca de não americana.
Claro que esta separação da população é um pouco simplista mas corresponde em grande parte a uma marcada divisão de trabalho. Há profissões em que não se encontram brancos (taxistas, condutores de autocarros, empregados de supermercados, etc). Os meios universitários e as profissões que exigem um nível de educação mais elevado (por exemplo as profissões na área da saúde que em Houston têm uma relevância grande, devido ao Texas Medical Center, um dos maiores dos EUA), parecem ser mais permeáveis à integração racial. Mas ainda predominam os brancos.
Racismo? Discriminação? Os factos estão aí.
Mas eu disse que me tinha sentido confortável. É verdade.Porque há uma simpatia sulista, até um pouco exagerada, que nos faz sentir bem. Apesar de repararmos nas desigualdades, apesar da cidade ser tão tipicamente americana no seu jeito de viver completamente dependente dos carros, comer fast food péssimo, etc., apesar de, na verdade, não haver nada para ver que nos faça ficar maravilhados… Também existem bonitos espaços verdes, alguns museus que vale a pena ver, um shopping center que se recomenda vivamente a todos os consumistas (a Galleria), bela comida de todos os quadrantes, sobretudo mexicana e um bar tipicamente texano onde se cantam os blues da quase vizinha Nova Orleãs – o Big Easy (quando lá fui, não eram blues mas uma mistura de country e rock que me levou de volta aos anos sessenta). Por tudo isso e porque a minha filha lá está temporariamente, tenho que reconhecer que Houston, Texas, não é só aquela imagem estereotipada que (quase) todos temos.
Na foto: Rice University, Houston, TX
Publicado por lique às 12:07 AM | Comentários (28)