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maio 31, 2006

Do voo da borboleta

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Do voo da borboleta se diz que é belo. E efémero. Como a vida.
Assim da vida se possa dizer que, por curta que seja, cumpre a sua finalidade. Como o voo da borboleta.

(E qual é a finalidade da vida? Não perguntem que isso já não sei. Mas hoje deu-me para aqui. Poucas palavras. São fases...)

Foto: Huub Keulers

Publicado por lique às 04:01 PM | Comentários (19)

maio 28, 2006

Palavra aberta

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Não olhes. Vê.
Mesmo que os olhos
te ardam.
Não toques. Sente.
Mesmo que o corpo
te doa.
Não fales. Diz.
Mesmo que a alma
te sangre.

De ti quero a palavra aberta
transcrição clara dos sentidos.

Foto: Ewa Brzozowska

Publicado por lique às 07:46 PM | Comentários (27)

maio 25, 2006

As palavras do dia

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Há que percorrer a manhã, desde o descolar dos olhos até ao sentimento de realmente acordar que vem com os rituais do café, dos papéis em cima da mesa em pose de urgência. Até lá só o movimento dos gatos, o prazer da água no corpo, aquele arranjo mínimo para que a imagem entrevista no espelho seja agradável e a curta viagem de carro. Por todo o lado, há palavras que se cruzam na mente ainda entorpecida. Palavras que não se fixam, impressões de um momento que, no momento seguinte, fugiram. Nunca será possível reter em palavra escrita todos os flashes que a retina capta de uma forma incompleta.
O dia estende-se em obrigações de muitas palavras onde raramente existe a luz de um som inspirador. Só letras que parecem espantadas, brancas e quase sem sentido. As cores e os sons que chegam de fora são um apelo apetecível. Vão sendo arrumados na memória para um dos dias libertadores de palavras.
A tarde acrescenta a melancolia que lhe é própria, como se a luz se fosse a pouco e pouco esvaindo, trazendo tonalidades próximas do sonho à banalidade das horas. Por vezes, versos soltam-se com os raios de sol que se despedem e volteiam no dourado do poente. É no final do dia e na noite, que acorda todas as interrogações, que dos dedos saem palavras que precisam ser escritas, frases vindas de improváveis recordações, uma espécie de carga em bruto que luta para tomar forma. As palavras do dia.

Foto: Marianne Le Carrour

Publicado por lique às 01:20 PM | Comentários (31)

maio 22, 2006

Lâmina de mágoa

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Na palavra desarmante
me encontras presa
oscilante
entre a manhã que adivinho
e a noite que anuncias.
E é na orla dos dias
desse difícil caminho
que te chamo amor
amante
lançando a voz sobre o fio
dessa lâmina de mágoa.
Vê que no leito do rio
que o teu olhar alcança
o meu corpo é a água.

Foto: Angelicatas

Publicado por lique às 06:36 PM | Comentários (29)

maio 19, 2006

Mais recordações...

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Como temos andado, por aqui, numa onda de recordações, deixo-vos para o fim-de-semana a voz e a poesia dum senhor que me encantou há muito tempo. E continua a encantar, de cada vez que o oiço. Espero que gostem tanto como eu. Bom fim de semana!


Patxi Andión, Me está doliendo uma pena

Publicado por lique às 05:32 PM | Comentários (25)

maio 17, 2006

As campaínhas mágicas

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Havia aquele cheiro que vinha das tulhas cheias de açúcar amarelo que fazia torrões gostosos de derreter na boca e das latas de manteiga onde passava o dedo, sempre às escondidas da madrinha que lhe ralhava sem muita convicção. Sabia-se mais ou menos impune naquelas traquinices.
Gostava de estar ali, no fundo da mercearia, vendo o azeite dourado subir na máquina que depois o deitava nas garrafas que os clientes traziam. A madrinha deixava-a por vezes pesar na velha balança aquilo que pediam.

- Põe um papel vegetal por baixo. Ou dois, sempre pesa mais…

Aquelas pequenas aldrabices constrangiam-na.

- É parte do negócio. Senão, não se ganha nada…

Não muito convencida, lá ia pesando e, sem dar por isso, aprendendo a leitura e as contas. Era o orgulho da madrinha vê-la fazer contas e ler nos velhos jornais. Ainda não tinha entrado para a escola e ali, no meio dos cheiros intensos da velha mercearia, aprendeu bem mais do que lhe ensinariam em qualquer primeira classe.

Quando se cansava, saía pelo armazém do fundo para o quintal. Queria ver o rio, mas o canavial era mais alto que ela. Também não chegava às árvores mas apanhava as nêsperas e as ameixas do chão. Sabiam melhor que as que estavam na fruteira da cozinha.
Enquanto o tempo deixava, todos os dias ia visitar as campainhas azul/violeta que nasciam por todo o lado. Sempre as tinha achado flores mágicas. Apanhava uma e ficava com ela na mão, esperando que a vida lhe trouxesse alguma coisa que não sabia definir…
As flores murchavam sempre mas outras nasciam, baloiçando ao vento. Promessas de feitiços por acontecer.

Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (28)

maio 14, 2006

Roda, roda...

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Roda, roda, cinco cantinhos
onde a solidão se esconde,
não há lugar que não ronde,
baila em volta das esquinas
dos desvios dos caminhos.
Ai, que acorda as meninas
na falua que lá vem!
E aquele medo que navega
já pendurado na quilha…
Queres chocolate ou baunilha?
Roda, roda a escuridão,
já não há lugar seguro.
A menina lá no escuro
é que vai ser apanhada.
Foge, foge, minha linda
para a luz que te aguarda.
Não queiras olhar ainda
para a solidão escondida,
repara na longa estrada.
Ela espera lá ao fundo,
dança nas voltas da vida
em cada esquina do mundo,
roda, roda, cinco cantinhos.

Foto: andreas hering

Publicado por lique às 06:22 PM | Comentários (23)

maio 12, 2006

100 000 cliques

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No poema
No cinema
Até na prosa
Gostosa?
Na crítica
Meio política
No dislate
Disparate
No dia-a-dia
Arrelia
Alegria
Ou lamento
Já sem tento
Cem mil cliques
Do dedinho
No ratinho
São razão
De presunção
E se são tiques?

(Ali o contador marcou 100.000 cliques. Dada a falibilidade destas contas, acho que é melhor sorrir e pensar um pouco. As interrogações também são uma forma de dar à questão a perspectiva e o distanciamento devido. Obrigada a todos, mesmo que sejam tiques…)

Publicado por lique às 04:37 PM | Comentários (26)

maio 10, 2006

Da saudade ou dos "desaparecidos"...

Vi por aí uma foto de alguém que “desapareceu” há mais de um ano. Alguém que me marcou pelo sopro de ar fresco que trouxe na sua escrita, pela capacidade de mobilizar pessoas em projectos comuns, por ser ela, inconfundível. Um caso sério de comunicação. Uma das pessoas que não esqueço, que me faz percorrer de vez em quando o seu espaço abandonado, que ainda me faz sorrir ou me molha os olhos, ao ler velhos comentários.

Aqui na blogoesfera, as aparições e desaparições são coisa normal. Custa-nos ao princípio, depois habituamo-nos, naquela convicção de que, se as pessoas abandonaram isto, foi porque a vida real as chamou de um modo mais forte. E isso é bom. Seja pela carreira, seja pelos afectos, a vida fora dos blogues é a verdadeira vida. Quase tudo aqui é ou se transforma em ilusão. E quem se convence que não é, corre o risco de se magoar seriamente.

Mas não se interrogam por onde andam essas pessoas? Se voltaram e estão por aí, num qualquer blog que não conhecem? Se não voltaram e perderam totalmente este “vício” (ah, sim, é um vício…)? Sou só eu que tenho esta costela saudosista e percorro blogs abandonados, leio textos que me tocaram, releio comentários antigos? Afinal são pessoas que quase todos os dias me diziam uma frase, me deixavam um sorriso, escreviam palavras que me divertiam ou emocionavam. E um dia… puff…"desapareceram" por motivos que posso até conhecer. Deles, ficou a saudade. Talvez seja por isso que hoje pus esta música de fundo.


(Num dia de interrogações sobre o sentido de permanecer aqui. Sei porque comecei, até posso explicar a razão de ter ficado tanto tempo mas custa-me encontrar algo que justifique continuar. Talvez seja só uma fase...)

Publicado por lique às 03:07 PM | Comentários (25)

maio 08, 2006

Um pequeno segredo

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Queria dizer-te
daquele pequeno segredo
que guardo nas dobras da alma.
Se te encontrasse
se soubesse coordenadas
do teu rasto, pista para a ti chegar…
Queria trazer-te
notícias deste degredo,
casulo onde procuro a calma.
Se te avistasse
se de ti visse as pegadas
na terra húmida que tenho que pisar…

Só um pequeno segredo
na pista das pegadas do teu rasto,
notícia deste casulo em terra húmida.

Foto: Renya Jozwik

Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (21)

maio 04, 2006

Apaga-se a luz

EwaBrzozowska.jpg

Apaga-se a luz
nos dias compridos
sem um “ai Jesus!”
sem sinal da cruz
nem som de gemidos.
É a luz que se apaga
e não digo um ai
não perco os sentidos
nem falo da chaga
que por vezes mói
nem procuro paga
p’los dias doridos.
Deixa, a luz apaga
eu vivo sem ela
acendo no peito
o sol duma vela
pequena, a preceito
dos dias compridos
em que a luz apaga
sem som de gemidos.

Foto: Ewa Brzozowska

Publicado por lique às 05:08 PM | Comentários (29)

maio 02, 2006

Estou-me nas tintas...

Hoje estou-me nas tintas para tudo o que me põem à frente como sendo a realidade. Borrifo-me, estou-me lixando. A economia está mal, estamos na cauda da Europa numa data de coisas, quero lá saber… O desemprego aumenta (que não, diz o governo, recorrendo a estranhos malabarismos matemáticos), e eu com isso?? Morremos aos magotes na estrada de cada vez que há um diabo de um fim-de-semana prolongado, e depois? Ora aí está uma estatística em que estamos á frente. Alguma havia de ser… A corrupção alastra e parece que os tribunais têm tendência a fazer vista grossa, e que é que querem que eu faça? Já estou quase numa de dizer que o que é bom é ser corrupto e não ser apanhado. Afinal, não dá despesa ao Estado com a investigação para depois ser absolvido. A saúde, a educação, enfim aquelas coisinhas básicas para as quais descontamos balúrdios dos nossos ordenados, são regidas por critérios puramente economicistas, quaisquer escolas ou hospitais são fechados sem ter em conta o facto de serem os únicos num raio de n quilómetros (muitos)... e querem que eu chore? Pode ser que os transportes façam mais negócio a levar as criancinhas e os doentes. Entretanto, pode ser que muitos fiquem analfabetos e outros morram. E...? Afinal, o importante é que não sejam info-excluídos. Isso é que nunca. Que não haja uma única pessoa neste país que não saiba mexer num computador, consultar a Internet, enfim todas essas actividades que lhe facilitarão imenso a vida, sobretudo se viver num estado de pobreza escondida, se tiver uma pensão miserável, se estiver desempregado, se, se…. Por falar em reforma, estou a ver que, quando me reformar, vou ter para aí metade da pensão que esperava, mas que seja tudo por uma boa causa… Isto se me deixarem reformar e não decidirem que temos que trabalhar até morrer. Afinal porque não? Já viram, hoje estou-me mesmo nas tintas. Afinal, vêm aí meses exaltantes, vamos lá todos abanar o capacete para o Rock in Rio (que agora podia ser Rock in Rio Tejo, raios!) e alguém tem dúvidas de que a selecção vai fazer um Mundial extraaaaaordinário? Menos ais, menos ais… para todos termos orgulho e andarmos para aí aos pulos a empunhar a bandeira nacional (eu também, claro, ia lá perder a festa…). Ai, que bom que é estar-me lixando para isto tudo!

Publicado por lique às 06:43 PM | Comentários (25)

maio 01, 2006

Encandescente - 2º livro

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Já foi lançado o segundo livro da Encandescente. “Erotismo na Cidade” estará nas livrarias na próxima semana. Parabéns e toda a felicidade do mundo para mais esta obra!
Quem leu o primeiro livro, quem a lê assiduamente no blog e no site, sabe que é indispensável ler o segundo. E todos os que se seguirem. Para o encomendar, basta contactar por mail a editora.

Publicado por lique às 11:13 PM | Comentários (5)