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maio 17, 2006

As campaínhas mágicas

ipomea7.jpg

Havia aquele cheiro que vinha das tulhas cheias de açúcar amarelo que fazia torrões gostosos de derreter na boca e das latas de manteiga onde passava o dedo, sempre às escondidas da madrinha que lhe ralhava sem muita convicção. Sabia-se mais ou menos impune naquelas traquinices.
Gostava de estar ali, no fundo da mercearia, vendo o azeite dourado subir na máquina que depois o deitava nas garrafas que os clientes traziam. A madrinha deixava-a por vezes pesar na velha balança aquilo que pediam.

- Põe um papel vegetal por baixo. Ou dois, sempre pesa mais…

Aquelas pequenas aldrabices constrangiam-na.

- É parte do negócio. Senão, não se ganha nada…

Não muito convencida, lá ia pesando e, sem dar por isso, aprendendo a leitura e as contas. Era o orgulho da madrinha vê-la fazer contas e ler nos velhos jornais. Ainda não tinha entrado para a escola e ali, no meio dos cheiros intensos da velha mercearia, aprendeu bem mais do que lhe ensinariam em qualquer primeira classe.

Quando se cansava, saía pelo armazém do fundo para o quintal. Queria ver o rio, mas o canavial era mais alto que ela. Também não chegava às árvores mas apanhava as nêsperas e as ameixas do chão. Sabiam melhor que as que estavam na fruteira da cozinha.
Enquanto o tempo deixava, todos os dias ia visitar as campainhas azul/violeta que nasciam por todo o lado. Sempre as tinha achado flores mágicas. Apanhava uma e ficava com ela na mão, esperando que a vida lhe trouxesse alguma coisa que não sabia definir…
As flores murchavam sempre mas outras nasciam, baloiçando ao vento. Promessas de feitiços por acontecer.

Publicado por lique às maio 17, 2006 12:03 AM

Comentários

Adorei o post. Não sei em quem ou onde é que te inspiraste, mas a par da risota do post, cheira-me a real...

Publicado por: polittikus em maio 17, 2006 12:59 AM

Ai o cheiro das mercearias antigas!
A da minha infância cheirava a bolachas torradas e café :)
todas as coisas que compravamos vinham em cartuchos cinza riscados de vermelho.
e quando o merceeiro tentava pesar a canela, o colorau ou a pimenta junto com o papel de embrulhar, a minha tia fazia um ximfrim porque não queria pagar o peso do papel :) agora sei que se todos os roubos do mundo fossem tão inocentes e pequeninos como aqueles nem davamos por isso!
Bjtos

Publicado por: catarina em maio 17, 2006 01:44 AM

Engraçado o teu texto transportou-me à velha mercearia onde nos "iamos aviar".... ( nem sei como se escreve, tão longimquos são os tempos...)
O açucar, o feijão, a canela, etc...etc.. tudo vendido a peso mt bem embrulhado, e nos tais cartuchos de que falou a pollitikus, saudades de um tempo em q td era mais fácil.....
Beijossssss

Publicado por: mar em maio 17, 2006 09:06 AM

Ausente deste teu espaço lindo há tempos! Maravilha revisitar-te. Sempre. Beijos.

Publicado por: Paula Raposo em maio 17, 2006 11:08 AM

Gosto
São memorias essas niguem apaga
beijocas

Publicado por: Lmatta em maio 17, 2006 11:23 AM

e os rebuçados de mel, embrulhados em papel vegetal? e os chocolates rectangulares envoltos em pratas e com cintas de bonequinhos coloridos?
ai, ai...

beijinhos, lique.

Publicado por: moriana em maio 17, 2006 11:58 AM

"Havia aquele cheiro que vinha das tulhas cheias de açúcar amarelo que fazia torrões gostosos de derreter na boca e das latas de manteiga onde passava o dedo, sempre às escondidas da madrinha que lhe ralhava sem muita convicção. Sabia-se mais ou menos impune naquelas traquinices.
Gostava de estar ali, no fundo da mercearia, vendo o azeite dourado subir na máquina que depois o deitava nas garrafas que os clientes traziam. A madrinha deixava-a por vezes pesar na velha balança aquilo que pediam.

- Põe um papel vegetal por baixo. Ou dois, sempre pesa mais…

Aquelas pequenas aldrabices constrangiam-na.

- É parte do negócio. Senão, não se ganha nada…

Não muito convencida, lá ia pesando e, sem dar por isso, aprendendo a leitura e as contas. Era o orgulho da madrinha vê-la fazer contas e ler nos velhos jornais. Ainda não tinha entrado para a escola e ali, no meio dos cheiros intensos da velha mercearia, aprendeu bem mais do que lhe ensinariam em qualquer primeira classe."**************************************
SORRIO!
FEZ-ME RECUAR NO TEMPO!
MUITO BONITO. deixa-me alguma Nostalgia!
BELA, TAMBEM, A *FLOR SINGELA*!!!!!
.........................................AGRADECO as PALAVRAS em que se referiu a mim, no BLOG, *Conversas de Xaxa*, acerca do Post "Rosas", que o CARISSIMO AMIGO PETER, teve a gentileza de la' colocar!
OBRIGADA!
Ja' se deve ter apercebido que minhas "viagens na NET" (blogues de Meus Amigos e, ou, daqueles que gosto de ler...)sao muito escassas dado que meus problemas de saude se tem acentuado.
Deixo-LHE UM ABRACO AMIGO!
ATE'SEMPRE!
Heloisa.
**********

Publicado por: Heloisa B.P. em maio 17, 2006 02:31 PM

As flores e os frutos e as cores e os sabores e oa aromas e... a mercearia.
Amores...
daniel

Publicado por: anna daniel sant'iago em maio 17, 2006 03:44 PM

Nem sabes como estas campainhas desde sempre me encantam. São tão alegres, tão frágeis e com uma capacidade de renovação invejável. Gostei muito do clima que deste ao texto.
Beijinhos.
Licínia

Publicado por: Licínia Quitério em maio 17, 2006 03:50 PM

Continua a haver magia nas campainhas... :)

Publicado por: sotavento em maio 17, 2006 05:01 PM

Foi bom recordar as nossas velhas mercearias, os seus cheiros e sabores. O azeite medido não havia engarrafado. O arroz nas tulhas, que se tinha de escolher em casa... que saudades de escolher arroz... os litros aquelas mágicas caixas de madeira. E as campainhas que para mim eram também mágicas e muito doces quando se chupavam... Descobri quando lhes quiz dar mais vida com a minha saliva (lol)...Gostei de viajar contigo à minha infância. Beijo Lique

Publicado por: Maria Papoila em maio 17, 2006 06:04 PM

Também eu recordo as mercearias da aldeia.Os papeis de embrulho, etc.
As lojas (grandes superficies)onde se vendia desde as mercearias aos tecidos,e até serviam de posto dos CTT e posto de vacinação, de tudo se fazia ali na grande loja da aldeia.
Como Portugal mudou em 30 anos.Bjos

Publicado por: ciloca em maio 17, 2006 08:52 PM

Um texto cheio de açúcar, Lique! Um texto que traz a doçura dos tempos de infância que sabe bem recordar e que faz regressar cheiros, sons, cores... Adoro essas flores de falas. Sei o nome em Inglês : Morning Glories! Desconheço em Português!
... E não penses que eu deixo de te "atazanar" a paciência por aqui! Qunato ao meu lá... é apenas... um não sei quê... que me fez parar por um tempo!
Beijo grande e OBRIGADA pelas tuas palavras!

Publicado por: M.P. em maio 17, 2006 08:53 PM

Diz Maria Bethânia "música é perfume". Essa metáfora segundo ela, nada como um cheiro ou uma música para nos fazer sentir, viver, lembrar... E através desse texto me vez reviver uma parte maravilhosa da minha infância, quando a inocência e os sonhos eram mais constantes. Você escreve muito bem. Abraço

Publicado por: Andarilha em maio 17, 2006 10:10 PM

É, e dos amores-perfeitos que são lindos.
Beijinho, Amiga. E saudades :-)

Publicado por: Yardbird em maio 17, 2006 10:17 PM

Como a vida regride…
Continuo habitando no mesmo local, desde tempos quase varridos da memória.
E hoje, o cimento e o alcatrão apagaram para sempre (?) a memória desses “sacos de néctar”.

Publicado por: jgonçalves em maio 17, 2006 10:19 PM

Olá Lique

Gostei do texto, por duas razões:
1ª/ Reportar-nos a uma época em que a mercearia era um lugar de actividade comercial sem a frieza e despacho dos centros comerciais aonde o enfado das atendedoras não tem carga afectiva nem atenção que o esmagado comercio tradicional garantia;
2ª/ A dimensão bucólica e de evasão com que terminas.
Bjs

Publicado por: Jose Duarte em maio 18, 2006 12:24 AM

Aconteceu-me reparar em mim a reparar, enquanto me surpreendia no trajecto que o carro percorre de cor e me deixa olhar a paisagem, mil vezes reconhecida, e no paralelo da rabujice sincrónica ao aspirar pólens de cheiros antigos, me interrogar sobre a indiferença dos torrões pejados de malmequeres do campo, tufos dessas campainhas lilases e a memória longínqua de bouquets selvagens que tinham que rapidamente ser oferecidos antes do efémero os transformar numa amálgama adoentada de flores a lembrar papel molhado...
Pensei que há flores que quando arrancadas retrofenecem e os nossos gestos necroflorescem de algum passado...

Publicado por: mjm em maio 18, 2006 03:51 AM

... e eu costumava meter as mãos dentro daqueles enormes cestos de madeira que lá havia cheios de grão, feijão etc. Ainda me lembro da sensação, mas tinha-me esquecido das "bombas" de azeite! Gostei que mo lembrasses.

Publicado por: S. em maio 18, 2006 09:52 AM

Recordei a mercearia do senhor Evaristo, a lata das victórias e o sabão amarelo com cheiros de manhã fresca...
As flores, violáceas quase todas que algumas, raras, eram brancas, derramavam-se nos muros do Seminário e a miudagem chamava-lhes 'bons dias'. Porque, naquele tempo, era sempre bom qualquer dia...
amizade,
jorgesteves

Publicado por: jorge esteves em maio 18, 2006 03:03 PM

Memórias que as palavras transportam, imagens e cheiros que regressam.
Consegues fazer reviver emoções. Obrigada, Lique.
Um beijo.

Publicado por: Ana em maio 18, 2006 09:47 PM

Oi!
ENTRA NO BLOG DO REFLEXÕES E VOTA POIS ELE ESTÁ PARTICIPANDO DO "BLOG DA QUINZENA..." O QUE SIGNIFICA ISSO EU NÃO SEI BEM, MAS DEVE SER ALGO IMPORTANTE!!! RS
NÃO VIRAREI POLÍTICO, MAS "NÃO ME DEIXE SÓ"
http://reflexoesdepoisdos30.blog...0.blogspot.com/
BEIJOS E OBRIGADA!!!

Publicado por: Caíla em maio 19, 2006 02:08 AM

Espaços que deixam saudades e recordações tão agradáveis.Caminhamos para o egoísmo desenfreado onde tudo de bom se perde...
...menos dentro de cada um de nós...

bjs

Publicado por: Ilhota2 em maio 19, 2006 12:00 PM

Sabe-me bem ler-te. Nem imaginas a companhia que me tens feito!
Beijo

Publicado por: Samartaime em maio 19, 2006 03:50 PM

quero comentar sim. se as campaínhas são mágicas, igualmente o é esta escrita. Bom fim-de-semana

Publicado por: dark em maio 19, 2006 05:18 PM

Contunuas a colher feitiços e a enfeitiçar com tuas palavras: Muito bem. Gostei muito do texto. Beijos

Publicado por: manuel em maio 19, 2006 05:58 PM

Nessas contações de histórias é que mais nos percebemos irmanados, à despeito das distâncias... Um beijo, amiga.

Publicado por: batista filho em maio 22, 2006 01:05 AM

ADOREI OS COMENTÁRIOS, EU NÃO TENHO UMA MERCEARIA, MAIS ESTOU PROCURANDO GARIMPAR PRODUTOS DOS INTERIORES, AQUELES DE ANTIGAMENTE...
TENHO CONSEGUIDA VÁRIOS PRODUTOS INTERESSANTES COMO: MANDIOPÃ, CHUPETINHA....E POR AI VAI..
BEIJOS
ANGELITA

Publicado por: ANGELITA GONZAGA em junho 8, 2006 12:41 AM

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