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maio 25, 2006

As palavras do dia

MarianneLeCarrour.jpg

Há que percorrer a manhã, desde o descolar dos olhos até ao sentimento de realmente acordar que vem com os rituais do café, dos papéis em cima da mesa em pose de urgência. Até lá só o movimento dos gatos, o prazer da água no corpo, aquele arranjo mínimo para que a imagem entrevista no espelho seja agradável e a curta viagem de carro. Por todo o lado, há palavras que se cruzam na mente ainda entorpecida. Palavras que não se fixam, impressões de um momento que, no momento seguinte, fugiram. Nunca será possível reter em palavra escrita todos os flashes que a retina capta de uma forma incompleta.
O dia estende-se em obrigações de muitas palavras onde raramente existe a luz de um som inspirador. Só letras que parecem espantadas, brancas e quase sem sentido. As cores e os sons que chegam de fora são um apelo apetecível. Vão sendo arrumados na memória para um dos dias libertadores de palavras.
A tarde acrescenta a melancolia que lhe é própria, como se a luz se fosse a pouco e pouco esvaindo, trazendo tonalidades próximas do sonho à banalidade das horas. Por vezes, versos soltam-se com os raios de sol que se despedem e volteiam no dourado do poente. É no final do dia e na noite, que acorda todas as interrogações, que dos dedos saem palavras que precisam ser escritas, frases vindas de improváveis recordações, uma espécie de carga em bruto que luta para tomar forma. As palavras do dia.

Foto: Marianne Le Carrour

Publicado por lique às maio 25, 2006 01:20 PM

Comentários

:)

querer comentar queria, se soubesse. Mas hoje só sei mesmo reler.

:) Bjinhos.

Publicado por: autumn em maio 25, 2006 04:25 PM

Querida amiga, mais uma vez parabens.Li e reli o texto na ansia de o reter em mim.Tão bem descreve o sentir de muitos de nós.Que bem descreve a manhã, o acordar, e finalmente o entardecer e a vontade de contar/soltar para o papel todas as emoções do dia. Beijos de parabens, pela excelente partilha.

Publicado por: ciloca em maio 25, 2006 06:30 PM

Vim do Blog da Annie Hall para o teu. São dos locais indispensáveis e onde me sinto, sinceramente, bem.
No da Annie o sorriso bailou em mim, momentâneamente. Aqui, ao ler-te, embalada pela música da Enya que estou a ouvir no PC, senti toda uma nostalgia de palavras, que tantas vezes, ficam por dizer. Adorei esta profundeza, que só na aparência, não é visível. Um estado de alma, que me sensibilizou que tivesses aqui partilhado. Obrigada.

Deixo-te um abraço com todo o carinho do meu coração.

Publicado por: Menina_marota em maio 25, 2006 07:02 PM

Gosto da maneira como descreves a constante companhia das palavras ao longo do dia. Que seríamos nós sem elas? Difícil imaginar, não?
Beijinhos.
Licínia

Publicado por: licinia quiterio em maio 25, 2006 07:58 PM

Hoje falas das palavras de um dia Lique, e de forma magistral... A mim, hoje, deu-me para deixar uns pensamentos em esboço sobre a comunicação para lá delas... Gosto sempre muito de ler-te e reler-te, hoje particularmente.
Beijo

Publicado por: Maria Papoila em maio 25, 2006 08:48 PM

Quero abraçar-te forte!
BShell__0o0o0o0o00

Publicado por: BlueShell em maio 25, 2006 08:50 PM

Olá menina,

ler-te é um como um balsamo para a alma.

Muitos beijinhos

Isa

Publicado por: isa&luis em maio 25, 2006 09:25 PM

As palavras colhidas ao atropelo durante o dia entre sombras e luzes perdidas, ganham forma e harmonia, à noite, no sossego do nosso canto.
E tu, sabes moldar essas palavras como mais ninguém :)
Um bjto

Publicado por: catarina em maio 25, 2006 09:50 PM

Quase descreveste o meu despertar...

Publicado por: polittikus em maio 25, 2006 09:54 PM

E marcha em catadupa o correr do dia, embrenhando-nos os sentidos de coisas sérias e quase intocáveis, tantos afazeres e tanto por fazer, que por vezes, apenas a solidão do sofá e o breu dos olhos fechados nos iluminam os quereres.

Publicado por: jgonçalves em maio 25, 2006 10:36 PM

Olá Lique

Um calmo e apaziguado sobrevoo -- Planando com placidez -- sobre o quotidiano, não resignado mas levemente ansioso por um qualquer desejo de sublime.
Bjs

Publicado por: Jose Duarte em maio 25, 2006 11:00 PM

Alice,
Hoje apeteceu-me passar por aqui e dar.ye um abraço.
Primeiro foi o Zé Machado.
Agora o Fernando...
O mundo está a ruir aos poucos...
Um abraço, amiga.

Publicado por: josé gomes em maio 25, 2006 11:20 PM

Tantas as palavras que durante o dia dizemos e ouvimos mas só algumas têm significado. E essas ficam cá dentro, em gestação, até que um dia saem feitas poesia ou prosa e cheias de significado como as do teu texto.

Publicado por: Luisa em maio 26, 2006 12:07 AM

Se soubesse, escrevia, tão bem como tu, sobre o peso dos silêncios do dia que nunca desaguam em nenhuma página!... :)

(Por acaso sabes porque raio é que o teu blog agora lhe deu para nunca se recordar de mim?!... Tenho que estar sempre a relembrá-lo de quem sou, sem que eu tenha lá muita certeza!...) :)))

Publicado por: sotavento em maio 26, 2006 12:10 AM

tu dizes assim: e eu acredito porque de facto não sei de onde vem. Vêm e impõem a saída e brotam e brotam Outras vezes fazem um reboliço por dentro, como novelos de palha áspera voando nos ventos alísios e arranham até encontrarem a adequada nascente...
Bjs e;) amiga, bom f.s

Publicado por: Amla em maio 26, 2006 02:27 AM

desculpa, houve um erro nolik. Bjoca

Publicado por: Amla em maio 26, 2006 02:28 AM

Há palavras cujo dom é o de se prender a nós.As tuas tem esse dom.Por isso entram e ficam para sempre. Um bom dia para ti. Bjs

Publicado por: Ilhota2 em maio 26, 2006 09:26 AM

Gostei muito destas palavras e do retrato suave e tão por de dentro que fazes dos seus aconteceres que retratam o decorrer do dia no nosso eu que se quer de fora do andar acabrunhado do dia real. Lindo!!

Publicado por: seila em maio 26, 2006 09:33 AM

Querida Lique,

Um texto em que as palavras são a companhia constantede quem as ama.Às vezes fugitivas e arredias; outras vezes dóceis, obedecendo ao punho de quem escreve. Beijo grande.Adorei o teu texto, amiga; uma prosa poética magnífica!

Publicado por: canela-e-jasmim em maio 26, 2006 10:50 AM

O Desfolhada faz hoje 2 anos.
Voltarei na próxima semana mais assiduamente para ler-te.
Beijokas, Betty

Publicado por: Betty em maio 26, 2006 01:00 PM

A dificil arte de ser lúcido, diria...

Pressente-se a metamorfose na difícil viagem das "palavras onde raramente existe a luz de um som" para aquelas (palavras) "que dos dedos saem palavras que precisam ser escritas"

Gostei muito. Beijos

Publicado por: manuel em maio 26, 2006 01:50 PM

as palavras que dizemos todos os dias, a rotina, misturada neste excelente texto, onde me senti e viajei, os papeis que nos tocam e que muitas vezes os sinto frios, cheios de números, misturados nas palavras ácidas

uma viagem partilhada com a sensibilidade que tu tão bem consegues descrever, uma manhã que chega ao entardecer...

ler-te é um privilégio

beijinhos para ti doce Lique e um abraço meu onde vai todo o carinho que tenho por ti

lena

Publicado por: lena em maio 26, 2006 03:03 PM

Para saber escrever é preciso saber, mas escrever, ainda por cima, bem é um dom! Não tenho vindo visitar-te por tristes razões, mas a partir de agora, não faltarei.
Beijos

Publicado por: jo em maio 26, 2006 07:12 PM

Um texto excelente, profundo e repleto de melodia. É sempre um prazer ler aquilo que escreves, ficamos de alma cheia.Bjs

Publicado por: GATO ESCALDADO em maio 26, 2006 08:40 PM

as palavras deveriam ser sempre de bênçãos.
bjoks

Publicado por: Liliane em maio 26, 2006 08:52 PM

as palavras do dia têm-me faltado ultimamente. de início por não brotarem em mim e depois porque me foi retirado por algum tempo o meu instrumento de trabalho no âmbito da escrita: o meu computador. é que ao comtrário de muitos eu escrevo muito melhor ao som do teclado e de uma musiquinha instrumental

mas agora voltei

*

Publicado por: isa xana em maio 27, 2006 01:16 AM

O texto lembra-me uma sinfonia com vários andamentos e timbres. É necessario muito talento para "dominar" a escrita como tu fazes...

Publicado por: heretico em maio 27, 2006 09:04 PM

Simon and Garfunkel cantam "bright eyes". Leio "as palavras do dia" já pela madrugada... e não sem razão te dou razão, pois "É no final do dia e na noite, que acorda todas as interrogações, que dos dedos saem palavras que precisam ser escritas, frases vindas de improváveis recordações, uma espécie de carga em bruto que luta para tomar forma. As palavras do dia." # Um beijo. Que o bom Deus te presentei com sonhos bons, daqueles que ao despertarmos, mesmo sem nos lembrar ao certo, sentimos que a manhã é uma dádiva que não pode ser desperdiçada.

Publicado por: batista filho em maio 28, 2006 05:01 AM

Como se um dia fosse um rio...
E o final do dia e a noite... a foz!

Obrigado.
daniel

Publicado por: daniel sant'iago em maio 28, 2006 10:12 AM

Fiquei aqui...por minutos perdida...aliás encontrada nos textos...Com Katie Melua cantando...Chovendo na minha cidade ..o que quero mais? Só que escrevas mais...não to pedindo muito. Beijos no coração
della-porther

Publicado por: Emilia em maio 28, 2006 03:05 PM

E assim os dias e as noites se perfazem em palavras desfeitas sob o meu olhar atónito! Beijos, Alice.

Publicado por: Paula Raposo em junho 2, 2006 11:51 AM

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