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junho 29, 2006
O (con)texto da foto (II)

Paragem
Passava por ali todos os dias. Sempre com pressa, sempre desejoso de chegar aos muitos destinos do seu dia. Preso em mil compromissos, não podia parar para pensar, muito menos para olhar a vida à sua volta. Nunca tinha dado por aquela rua, nem por aquela casa. Sabia vagamente que aquele era o seu caminho habitual, quase aprendido de cor. O carro ficara lá atrás, no local do costume. Uma sensação de estranheza invadiu-o. Perguntou-se se não se teria enganado. Ninguém por perto lhe podia responder. A rua estava deserta e a casa parecia desabitada, em ruínas. Naquela zona da cidade? Sentiu-se inquieto mas obrigado a parar. Sem saber porquê, pressentiu que o normal fluxo da sua vida tinha sido interrompido. A sua vida… a mulher partira, cansada de esperanças frustradas, os filhos tinham crescido sem que ele os conhecesse. Afectos, alguns, em que não se empenhava muito. Porque pensava nisso, olhando a casa em ruínas? Não sabia, não se sentia sequer. A casa chamava-o. Estranhamente, entendeu que não valia a pena preocupar-se com o atraso. Avançou e bateu fortemente com a mão na madeira à sua frente.
Foto: Andrjez Makal
Publicado por lique às 05:35 PM | Comentários (23)
junho 27, 2006
Preparação do voo

Não faço mais que sentir
ou pressentir
sons ditos em surdina,
talvez ouvir
murmúrios só pensados
incompletos sonhos
imaginados.
Não sei sequer reflectir
a nua realidade
que, estranha, me atravessa.
Será verdade?
Não quero senão sentir!
Que o que restar
me passe ao lado depressa.
Longa será a viagem,
é preciso voar.
Foto: Anna Antipova
Publicado por lique às 05:36 PM | Comentários (19)
junho 26, 2006
Só mais três vezes...
Sofremos demais, ou não foi? Mas acabou (quase) tudo em bem. Por mim, ontem, gostei mais disto:

que disto:

e é assim que os quero ver, só mais três vezes:

Fotos daqui
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P.S.: Desculpem o incómodo mas, se quiserem comentar, agradecia que o fizessem preferencialmente onde diz "Talvez aqui?", porque estes senhores da aeiou - weblog estão a passar para lá do limite da incompetência e não conseguem resolver o problema que existe com o servidor. O que pode significar que eu comece a fazer as malas...
Publicado por lique às 05:08 PM | Comentários (7)
junho 24, 2006
As tardes

Agora as tardes já se perdem
no vulto dos barcos no ocaso.
No sonho de navegar olhos vagueiam
por letras do passado em corpo lasso.
Há rotas por explorar em fim de dia
antigos risos reflectem o sol poente.
Soltam-se sonhos
lembranças vagas de outra gente
que não nós,
ancorados na tarde da melancolia
à margem de uma vida já urgente.
Foto: aidan
Publicado por lique às 12:04 AM | Comentários (22)
junho 21, 2006
O (con)texto da foto (I)

Esperava...
Esperava, de mãos cruzadas sobre a saia do vestido de sonhos. Alheada do mundo restante, da luz e da sombra, do branco e do negro. Tinha tecido uma teia de cores que ninguém via. Sentia-se enredada nela, imobilizada. Nem um dedo mexia, naquela espera. Só o vestido ondulava, convite a quem conseguisse olhá-la e ver. Mas à volta dela, para lá da teia, todos pareciam cegos. Talvez surdos também. Porque, embora quieta no sonho com que se vestia, dela saía um grito que podia acordar o mundo. Um terrível grito de silêncio.
Foto: Ewa Brzozowska
Publicado por lique às 09:16 AM | Comentários (33)
junho 18, 2006
A teia dos afectos

Assim pouco a pouco
cai a distância como bruma
espessa e quente
nos frágeis fios da teia dos afectos.
Qual estranha espuma dissolvente
parte um, depois outro
até que o nada se instala sem aviso.
Logo falamos estranhos dialectos,
palavras como gumes escondidos
fechada que é a alma
selados os sentidos.
Foto: Lmatta
Publicado por lique às 10:34 PM | Comentários (33)
junho 09, 2006
O tempo das cerejas

Espera,
por vezes volta
o tempo das cerejas,
dias que voam no dorso
da brisa que a pele beija.
Sabes,
por vezes fica
nos lábios o rubor,
gota de sangue que salta
como se mordesse o amor.
Foto: libelle
[Dado que a próxima semana é "semana de veraneio", faço aqui uma pausa até ao próximo dia 19. Desejo-vos uma boa semana, a trabalhar ou a descansar, neste "tempo de cerejas".]
Publicado por lique às 05:56 PM | Comentários (43)
junho 06, 2006
Meio (do) dia

Sei do calor lá fora
e dos sons precoces do estio.
O sino, longe, acabou de tocar,
é o meio do dia.
Nem o apelo urgente do mar
nem o cristal de água em fio
me levam para lá desta hora.
Presa na manhã que não termina
mesmo quando a tarde se inicia.
Espero a noite
e a luz que a ilumina.
Foto: Dominika Ciemira
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (24)
junho 03, 2006
(Ainda) à volta do Código DaVinci

Já toda a gente falou disto? Pronto, então também tenho direito a dar a minha opinião. Não vou falar especificamente sobre o livro ou sobre o filme. Vou só divagar à volta do tema que já tantas discussões originou. Primeiro, quero fazer alguns esclarecimentos:
- Não sou católica. Tenho o maior respeito por quem o é.
- Acho que não há assuntos que não se possam discutir, desde que esse mesmo respeito se mantenha.
- Parece-me que, se todos seguissem a doutrina de Cristo (tal como ela nos é transmitida), o mundo seria melhor. Ainda que aquela coisa de “dar a outra face” nunca tenha sido muito comigo…
Pergunto-me porque é que um livro agradável de ler mas que, claramente, não é uma obra-prima e tem falhas óbvias de investigação, provoca tanta celeuma. E mais me pergunto porque é que um filme medíocre, que nunca chega a transpor o suspense do livro, consegue acender ainda mais a polémica. Na verdade, a Igreja Católica tem feito as honras desta questão. E Dan Brown enriquece mais, em cada dia.
Em todo este tema, acho que o escritor teve uma ideia "brilhante" com a recuperação e divulgação do “sagrado feminino”. Sim, francamente, se Deus existe, terá que ser masculino, ter um filho homem, etc.? Onde está o lado feminino da questão? Apenas nas mulheres que o choram? Pouco, muito pouco. É bem pensado recuperar antigas religiões pagãs e continuar o culto da Deusa, agora Maria Madalena. E a Deusa tem que ser fértil, sendo o seu corpo o receptáculo da esperança.
A questão da linhagem real de Cristo (o “sang real”) parece-me um bocado rebuscada e, para mim, nem é sequer apelativa. Eu gosto de pensar que Cristo era de origem humilde, um homem igual a todos os outros. E saltamos assim para o problema fulcral de toda esta saga: a natureza humana ou sagrada de Cristo. É claro que isto é (e só) matéria de fé. E matéria de fé não tem prova possível. Dan Brown faz, num livro de ficção, uma opção. Polémica, talvez. Mas legítima. E que, penso eu, não faz a mínima diferença para quem acredita no que a Igreja Católica ensina.
Então, bem feitas as contas, onde está o perigo que este livro parece representar para o mundo católico? Talvez apenas na curiosidade que desperta (sei que em mim despertou) pelos chamados Evangelhos gnósticos, na verdade por tudo o que nos chega da época em que Jesus viveu, para além do “oficialmente” aprovado. Quem mais escreveu, o que escreveu, quais as possibilidades de muito do que chegou até nós estar profundamente alterado, propositadamente ou não? Como sempre, o conhecimento é o perigo. Não o era já, quando Eva comeu do fruto da árvore proibida? Tinha que ser uma mulher…
Publicado por lique às 12:05 PM | Comentários (25)