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junho 03, 2006

(Ainda) à volta do Código DaVinci

davincicode1.jpg

Já toda a gente falou disto? Pronto, então também tenho direito a dar a minha opinião. Não vou falar especificamente sobre o livro ou sobre o filme. Vou só divagar à volta do tema que já tantas discussões originou. Primeiro, quero fazer alguns esclarecimentos:

- Não sou católica. Tenho o maior respeito por quem o é.
- Acho que não há assuntos que não se possam discutir, desde que esse mesmo respeito se mantenha.
- Parece-me que, se todos seguissem a doutrina de Cristo (tal como ela nos é transmitida), o mundo seria melhor. Ainda que aquela coisa de “dar a outra face” nunca tenha sido muito comigo…

Pergunto-me porque é que um livro agradável de ler mas que, claramente, não é uma obra-prima e tem falhas óbvias de investigação, provoca tanta celeuma. E mais me pergunto porque é que um filme medíocre, que nunca chega a transpor o suspense do livro, consegue acender ainda mais a polémica. Na verdade, a Igreja Católica tem feito as honras desta questão. E Dan Brown enriquece mais, em cada dia.

Em todo este tema, acho que o escritor teve uma ideia "brilhante" com a recuperação e divulgação do “sagrado feminino”. Sim, francamente, se Deus existe, terá que ser masculino, ter um filho homem, etc.? Onde está o lado feminino da questão? Apenas nas mulheres que o choram? Pouco, muito pouco. É bem pensado recuperar antigas religiões pagãs e continuar o culto da Deusa, agora Maria Madalena. E a Deusa tem que ser fértil, sendo o seu corpo o receptáculo da esperança.
A questão da linhagem real de Cristo (o “sang real”) parece-me um bocado rebuscada e, para mim, nem é sequer apelativa. Eu gosto de pensar que Cristo era de origem humilde, um homem igual a todos os outros. E saltamos assim para o problema fulcral de toda esta saga: a natureza humana ou sagrada de Cristo. É claro que isto é (e só) matéria de fé. E matéria de fé não tem prova possível. Dan Brown faz, num livro de ficção, uma opção. Polémica, talvez. Mas legítima. E que, penso eu, não faz a mínima diferença para quem acredita no que a Igreja Católica ensina.

Então, bem feitas as contas, onde está o perigo que este livro parece representar para o mundo católico? Talvez apenas na curiosidade que desperta (sei que em mim despertou) pelos chamados Evangelhos gnósticos, na verdade por tudo o que nos chega da época em que Jesus viveu, para além do “oficialmente” aprovado. Quem mais escreveu, o que escreveu, quais as possibilidades de muito do que chegou até nós estar profundamente alterado, propositadamente ou não? Como sempre, o conhecimento é o perigo. Não o era já, quando Eva comeu do fruto da árvore proibida? Tinha que ser uma mulher…

Publicado por lique às junho 3, 2006 12:05 PM

Comentários

Olá lique!
O perigo pode estar numa circunstancia muito simples: a do papel da mulher em todo o enredo. Há alguma figura feminina na Curia em Roma? A importância que a mulher tem para a Igreja é relevante?
Não parece ser, para além de exercício da fé, quase nunca na condução e interpretação teológica.
Não há uma única religião monoteista que conside a mulher com paridade.
Bjs

Publicado por: Jose Duarte em junho 3, 2006 03:28 PM

Eu sou católica!;
Os católicos erram!
... Porque os católicos são humanos !;
Os VERDADEIROS católicos têm Paz e sentem prazer em ajudar os outros;
Preocupam-se mais com os outros do que com o seu umbigo;
Os VERDADEIROS católicos, embora errem, gostariam de imitar Cristo;
...O problema é que muitos, que se intitulam Católicos, não conseguem ser BONS católicos, gostariam de o ser mas... a sua FÉ não é suficientemente FORTE para imitar Cristo. Daí os erros que muitos Católicos têm feito à humanidade !

Publicado por: Frioleiras em junho 3, 2006 05:55 PM

Adorei o texto. É óbvio que incomoda a Instituição Católica a mulher ser algo diferente do que ela apreogoa há séculos. Isso é evidente. Dan, apesar do equívocos, coloca a mulher, no real lugar importante que cabe na vida de Cristo. Quem sabe?
A agonia da I.Católica pode advir exatamente disso...as pessoas vão começar a pensar. E isso não é bom para a retrograda igreja.
Beijos

Publicado por: Della Porther em junho 3, 2006 06:13 PM

Quanto a mim,quando o Dan Brown escreveu o livro,nunca imaginou que ele se iria transformar num filão tão "gordo" e quanto mais polémica houver melhor para ele.Quando li o livro achei-o "viciante",não o conseguia largar,nunca li um livro em tão pouco tempo.Para mim,é apenas uma obra de ficção,mas não me repugna a ideia de haver na obra um fundo de verdade - a relação de Maria Madalena com Cristo,a existência de uma filha ... por que não?O problema da Igreja, são os dogmas que são postos em questão - um Cristo que afinal não era casto nem celibatário, uma mulher que terá sido a própria Igreja a transformar em prostituta arrependida,a posição da mulher que a Igreja Católica sempre tem relegado para segundo plano,como se se tratasse de uma peça defeituosa e origem do pecado.Perante um Cristo tão "humanizado",como é que a Igreja poderá justificar o celibato dos padres e continuar a impedir o acesso das mulheres à vida eclesiástica?Mas o importante é que por mais que tentem denegrir o livro (e agora o filme)ele continuará a cativar muitos leitores.Um abraço

Publicado por: GATO ESCALDADO em junho 3, 2006 06:17 PM

ara compreender melhor a tese do livro recomendo a leitura do livro em que o Código Da Vinci se baseia.... Holy grail

Publicado por: polittikus em junho 3, 2006 07:41 PM

Pois é, muito haveria que dizer sobre isto; não só sobre o post em si, mas também sobre os comentários já feitos. No entanto serei breve referindo apenas um aspecto...
Independentemente de Dan Brown, uma coisa será o Cristo real (cuja existência histórica ainda não está provada)e outra coisa é aquilo que a igreja fez dele. Um homem assim só poderia ter amado as mulheres e ser amado por elas sem restrições; para as mentes sãs haverá algum mal nisso?
A castidade imposta pela igreja tem por objectivo manter o seu dominio sobre os homens.
A educação baseada numa moral negadora da sexualidade dá origem a neuroses, sem as quais nenhum ser humano seguiria uma ideologia irracional, nem acreditaria em deus. A fé basei-se nisso. (Freud, Reich)
A quem lhe custar acreditar nisto experimente criar um filho no respeito completo pelas suas necessidades biológicas, em total liberdade.
Não o receiem fazer porque essa criança criada assim estará mais perto de Cristo do que qualquer cristão que se preze.
Quanto a dar a outra face, só o consegue fazer quem tiver uma enorme coragem e força interior. E todos nascemos com ela mas é-nos roubada pouco depois.
Cristo, Gandhi...tinham essa força.
Um beijo.
Luis

Publicado por: Luis em junho 4, 2006 08:51 AM

Temos de a tentar recuperar.
Bom post.

Beijinhos.

Publicado por: Maria do Céu Costa em junho 4, 2006 11:38 AM


Gostei de ler o livro, mas ainda não vi o filme!

Quanto a mim o tema subverte um dos tabús da Igreja Católica : o corpo da Mulher...

Dái a reacção...

(Permite que te dê os parabens pelo poema "Palavra aberta" uns posts atrás...)

Publicado por: heretico em junho 4, 2006 02:01 PM

o post está muito bom,
gostei de ler o livro, o filme não me despertou interesse, está muito aquém do livro

e a polemica é sempre a mulher e neste caso Maria Madalena, ela sempre e a igreja não quer aceitar, ou não lhe convém aceitar, a igreja impõe a castidade, assim domina,

ao lado de Cristo na ceia estará presente Maria Madalena? Se for que mal tem isso?


dar a outra face? não consigo~

adoro vir ler-te, as tuas partilhas são excelente

beijinhos para ti doce menina

lena

Publicado por: lena em junho 4, 2006 02:58 PM

querida Lique,
sempre achei graça à historia de Adão e eva, porque me parecia que era a que melhor mostrava o caracter do ser Humano: a mulher curiosa, que tinha que ir comer a maçã para ver qual era o efeito e o homem estupido e influenciavel que se deixa levar nesse erro pela mulher :):) e depois não hesita em apontar a culpa à mulher e à serpente embora saiba de antemão que serao todos castigados :)
Agora falando em tom mais sério, o codigo de da vinci de Dan Brown basea-se numa velha historia jà explorada até à medula e que jà não traz nada de novo, mas que desta vez chegou ao publico com toda a publicidade americana e marketing Hollywoodiano e por isso ganhou uma aura que até hoje nunca tinha achado.
O essencial é olhar a obra como uma ficção e deixar o fundo historico verdadeiro na mãos dos historiadores e arqueologos, porque so esses um dia nos poderão trazer algo de novo... isto é se a Igreja catolica deixar mexer numa estrutura de dois mil anos :):) porque esses senhores gostam pouco de descobertas inovadoras e mudanças que lhe toquem na pele!
Um bjto grande e um bom domingo!

Publicado por: catarina em junho 4, 2006 05:18 PM

Querida Lique
Até me atrai o feminino divino... mas não é com falsidades que lá se vai. Quase tudo em Dan Brown é falso, basta ver os estudos americanos sobre o fenómeno.
Um beijo
Daniel

Publicado por: Daniel Aladiah em junho 4, 2006 07:13 PM

O filme não vi, sobre o livro concordo no geral contigo.Já quanto à Católica não estarás a esquecer que "criaram" uma mãe Virgem e tudo a quem os papas fazem culto absoluto?

O meu pai diria. "padres? sabem-na toda!"

Que me desculpem os católicos, não falo da religião, falo do clero.

Bjs

:)

Publicado por: pois.claro em junho 4, 2006 10:26 PM

Belo texto. Brilhantes reflexões.
... e já agora, aproveito e agradeço a "dica" no blog de Poesia da MM. Muito obrigado.
jc

Publicado por: jota_ce em junho 5, 2006 01:13 AM

Muito lúcidas considerações sobre este tema que um livro de qualidade discutível fez saltar para a ribalta. O incómodo da Igreja é revelador da sua posição patriarcal que quer perservar a todo o custo. Mas, como diz o Herético "e pure si muove"...
Beijinhos.
Licínia

Publicado por: licinia quiterio em junho 5, 2006 08:50 AM

Normalmente não leio um livro, ou vejo um filme quando do lançamento. Só depois, de preferência - bem depois! - é que o faço. Valeu pelo artigo e comentários. Um beijo.

Publicado por: batista filho em junho 5, 2006 12:51 PM

Há modas também nas artes como em tudo o resto.E os gostos divergem e ainda bem.Penso que acima de tudo há que ter abertura de espírito e não deixar que os dogmas tomem conta do nosso pensamento.E conseguir separar a ficção da realidade. Se for assim está tudo bem !
Bjinhos

Publicado por: Ilhota2 em junho 5, 2006 02:51 PM

O livro é o que está na cabeça do autor, não tem que ser forçosamente verdade.
A cabeça de alguns católicos não imagina o que é a imaginação. Para eles só existem dogmas creados por eles próprios.
Sou católica, não praticante. Detesto a hipocrisia da igreja.
Beijos, Lique

Publicado por: A Rapariga em junho 5, 2006 03:35 PM

Li o livro numa altura em que ainda não se falava muito dele em Portugal. E li-o como uma obra de ficção, ao princípio até quase como um policial. Confesso que não me encantou grandemente e fiquei desiludida porque estava à espera dum desfecho diferente. Sou católica mas as conclusões do livro não me afectaram. Cada um é livre de imaginar e inventar histórias. E esta é mais uma história e não um tratado de teologia.
Tenho ouvido muita gente referir que a Igreja está contra o livro e contra o filme mas de facto não li nada vindo oficialmente da hierarquia da Igreja sobre o caso.

Publicado por: Luisa em junho 5, 2006 05:34 PM

Gostei das tuas "voltas" à volta da coisa!... :)

Publicado por: sotavento em junho 5, 2006 06:45 PM

Lique, gostei imenso do teu texto.
Como tu não sou católica e como tu até considero que os valores da religião católica e o seu sentido ecuménico, se cumpridos ajudam ao entendimento entre os homens.
Quanto ao livro, estou como tu, não entendo como um romance, pode afectar a Igreja e atemorizam-me todos os fanatismos e fundamentalismo.
Assusta-me que a Igreja Católica, e o Papa possam a vir tomar atitudes semelhantes a Ayatola Khomeiny com os "Versículos Satânicos" de Salmam Rudshie.
O livro não vi mas nem me apetece ver.
O senhor Dan Brow deve estar contentíssimo com a polémica porque já ganhou milhões de dólares com a mesma.
Beijo

Publicado por: Maria Papoila em junho 5, 2006 07:08 PM

Li o livro, mas não vi o filme.
No essencial concordo contigo.
E também me parece que a reacção da Igreja Católica terá mais a ver com os outros evangelhos, que foram preteridos e, por isso, quase só são conhecidos por especialistas.
A reacção ao aparecimento recente do Evangelho de Judas confirmará a tua tese.
Beijinhos.

Publicado por: Nilson Barcelli em junho 5, 2006 09:32 PM

Parecem-me sensatas e interessantes as questões que levanta sobre a questão (que, é bem verdade, tem mais 'parra do que uva'...)

amizade,
jorgesteves

Publicado por: jorgesteves em junho 6, 2006 12:55 PM

Ó teu texto põe... «o dedo na ferida»! E isso é costume doer! rsrsrsrs
Beijo

Publicado por: samartaime em junho 8, 2006 01:33 AM

Já muito foi dito, não vou repetir.Contudo quero que saibas que concordo com tudo o que disseste.
A religiao católica assenta na biblia, livro escrito muitos anos depois dos acontecimentos e reflectindo usos e costumes da época e daquela região do mundo. Daí que a mulher não tinha importancia.Ainda hoje decorridos mais de 2000 anos a mulher não tem papel naquela região do mundo.

Publicado por: ciloca em junho 8, 2006 10:46 PM

Olá minha querida Lique!
Parece que desta vez estou mesmo de regresso...
Vim até cá para te ler e que bem eu fiz!
Também vi o filme, mas ainda não li o livro.
Sou convictamente Cristã e como sou Mulher de Rituais, sigo aqueles que meus Avoengos me ensinaram (Os Católicos).
Gostei do filme! Não sei fazer crítica, mas acho que como romance (ficção ou mais qualquer coisa)
me agradou.
Faz pensar e fazer (pelo menos para dentro) tantas pergunta.
Aflora alguns assuntos, como o de certas(chamesmos-lhes Seitas)dentro da própria igreja,
que fanáticamente tentam camuflar saberes, verdadeiros ou hipotéticos, e acabam por cair em erros por causa dos quais estão prontos a julgar, condenar e executar, como outros fizeram e fazem e a quem eles criticam por isso.

Fanatismo, é fanatismo seja qual fôr o lado de onde vem; logo, condenável.

Quanto àe questões que levanta, deu-me, pelo menos a vontade de saber mais, sobre as Ordens Religiosas primitivas (Templários, etc.)
e ainda sobre todo esse conceito sobre Maria Madalena;
No entanto a ânsia de saber, pelo menos no que me diz respeito, não abala a minha fé.
Ou se acredita ou não se acredita!!!
E tudo o resto servirá apenas para confirmar ou desmentir o Sim ou o Não, a meu ver, é claro.
Perdoa ter-me alongado.
Um beijo enooooooooorme da
Maria Mamede

Publicado por: Maria Mamede em julho 8, 2006 05:35 PM

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