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julho 31, 2006
Porque o direito à indignação é um dos que ainda não abdiquei...

Não é um regresso. É apenas a utilização do meu direito de me indignar, de me chocar, de gritar: basta! Volto a editar aqui dois textos que fiz em épocas diferentes, mas que têm o mesmo tema: a guerra, o horror, esta espiral de violência que nos chega todos os dias, sob os olhares "para o lado" daqueles que alguma coisa poderão fazer mas a quem talvez não convenha fazer nada.
Oração
Pelos mortos que me entram na sala à hora de jantar
Pelas crianças feridas de olhos espantados
Pelos homens estropiados que aceitam o inaceitável
Pelas mulheres de rostos onde o rio de lágrimas secou
Pelos jovens que atiram pedras contra tanques
Pelos que matam e morrem e morrem matando
Por todos os que eu queria que não existissem ali
À minha mesa , na minha sala, no meu mundo
Eu peço a qualquer divindade que me oiça
Cristo, Alá, Jeová, Nossa Senhora
Os santinhos todos deste mundo que aumentam dia a dia
Eu peço ao Homem, divindade última da Terra em que vive
Que olhe ,que se envergonhe
Que use a sua ira e a sua compaixão
E que justiça seja feita, hoje e para sempre
Amen
29/04/2004
Realidade
No rectângulo mágico que perdeu o encanto
nas letras trágicas vermelho negro dos jornais
em tudo o que é escrito ou falado em cada dia
não conto os mortos da guerra, da fome, da injustiça.
Para quê contar baixas quando a esperança se extingue?
Só conto olhares pergunta de crianças esfarrapadas
rugas de mulheres onde as lágrimas fazem leito.
Conto gritos de silêncio nos olhos dos homens
e deixo que a dor me tome, me embale, me segrede
me grite até que eu sinta
me encoste na parede
áspera e fria da realidade.
23/11/2004
A realidade continua a mesma e a minha oração (se eu tivesse algum Deus a quem recorrer) também seria igual. São tempos amargos, estes que vivemos. E se pensássemos um pouco nisso, mesmo sem estragarmos de todo as nossas férias de gente dum país pelintra, mas em paz?
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Quem quiser fazer mais alguma coisa além de gritar "Basta!" ( e já é muito), pode assinar esta petição:
aqui, dirigida ao Ministério dos Negócios Estrangeiros Português.
ou esta apoiando o pedido de Kofi Annan de um cessar fogo.
Publicado por lique às 07:59 PM | Comentários (23)
julho 18, 2006
A Poesia nos Blogs - O livro

Faço aqui uma quebra no meu retiro :-) para anunciar que, no seguimento do Encontro que teve lugar a 4 de Março na Quinta da Ribeirinha, Póvoa de Santarém, a editora Apenas Livros conseguiu, em tempo record, aprontar o livro que recolhe três poemas de cada um dos autores participantes, fotos do evento e (até..) prefácios... E uma capa que acho muito bem conseguida, da autoria de Alexandre Castro.
Penso que todos nós, os que estivemos no Encontro, nos sentimos orgulhosos e, como tal, vamos dar voz a esse orgulho lá, no "local do crime", a Quinta da Ribeirinha, a 29 de Julho. Eu aproveito para agradecer ao Jorge Castro (a verdadeira alma deste evento) e à Fernanda Frazão da Apenas Livros, todo o carinho e empenho que puseram nesta iniciativa.
Deixo também aqui o contacto da editora para quem quiser encomendar o livro. Alternativamente poderão também contactar os autores que se encontram listados no Sete Mares.
Publicado por lique às 05:42 PM | Comentários (13)
julho 13, 2006
Neste estranho Verão...
Por muitas razões, das quais ainda não entendi metade (pelo menos), este está a ser um Verão atípico. Estranho, mesmo. Talvez ainda se recomponha e eu reencontre o meu Verão habitual. Talvez não e, daqui para a frente, eu encontre estranhos Verões em cada ano.
Isto é só uma divagação. E uma breve despedida. Férias, trabalho, férias, etc…E também algum cansaço e a necessidade de procurar uma solução alternativa para este alojamento. Quando voltar, já não será aqui, certamente. Mas também isso não é fácil, porque já ando por aqui há dois anos e 4 meses e tenho muita pouca vontade de recomeçar, ainda que mantenha o nome e o registo de escrita do blog. Quem por aqui está há muito tempo e ainda não desistiu, percebe o que quero dizer. De qualquer forma, quando voltar, eu aviso.
E, para acabar com as lamentações, desejo a quem por aqui passa umas boas férias e deixo-vos a música de uma senhora que espero ver em breve, na Aula Magna, ao vivo e a cores: Lila Downs. Beijos e abraços bem repartidos por todos.
Lila Downs, Cumbia del Mole
Publicado por lique às 06:01 PM | Comentários (30)
julho 10, 2006
O (con)texto da foto (III)

O quadro
Sabia-se presa na moldura daquele quadro, olhando impassível os que por ela passavam, como se aquelas cores perfeitas fossem as suas. Alguém a tinha pintado assim, idealizado, retocado nos pormenores. Depois de a ter prendido naquela tela para sempre, acrescentou a moldura, como a porta de uma cela dourada.
Imaginava-se a preto e branco, dramática, ou em pinceladas de cores fortes, revelando todos os contrastes. De alguma forma, detestava aquela perfeição que o pintor lhe atribuíra, aquilo que o retrato mostrava. Culpava-se por ter sido capt(ur)ada assim, escondendo os tons escuros da sua personalidade.
Foi-lhe doloroso entender que precisava planear uma fuga. Apercebeu-se de que o tempo corroía a moldura, pouco a pouco. Esperou até que a primeira lasca se soltou. E depois outra E outra. Era agora só uma questão de paciência. Em breve a moldura partiria, deixando-a fugir para um cenário onde pudesse mostrar todas as cores da vida, sem moldura fixa, sem enquadramento.
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (18)
julho 06, 2006
Carta à moda antiga ou da incerteza da chuva…

Venho por esta dizer-te
que as nuvens passam no céu,
como em qualquer outro dia
daqueles em que o sol hesita.
Por isso esta breve escrita,
do tédio que me envolveu
quando a chuva não sabia
se apagava o Verão aqui.
E mais te dou a entender
nestas pequenas letrinhas,
espelho de ansiedades minhas
neste dia e nesta hora
em que me lembrei de ti:
por mais que tentes, agora,
neste momento preciso,
eu não sei se chove aí.
(escrito num destes dias em que a chuva miudinha ameaçava o Verão)
Foto: Szymon Wladyka
Publicado por lique às 04:18 PM | Comentários (29)
julho 03, 2006
Poema breve para as andorinhas da minha infância

Leva-me contigo, andorinha dos dias distantes
Partamos para terras diferentes
Onde o sol brilha.
Dá-me o teu voar, prenúncio de horas felizes
Não quero poiso permanente
Chega um abrigo.
Ensina-me tudo, alegria dos alvos beirais
Do teu efémero ninho quente
Casa de breve carinho.
Partamos agora, andorinha do tempo antigo
Alcança o beiral da minha alma
E leva-me contigo.
(Texto escrito para as Noites de Poesia em Vermoim cujo tema foi, no dia 01/07, “Andorinhas”)
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (27)