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julho 10, 2006

O (con)texto da foto (III)

sirensiren.jpg

O quadro


Sabia-se presa na moldura daquele quadro, olhando impassível os que por ela passavam, como se aquelas cores perfeitas fossem as suas. Alguém a tinha pintado assim, idealizado, retocado nos pormenores. Depois de a ter prendido naquela tela para sempre, acrescentou a moldura, como a porta de uma cela dourada.
Imaginava-se a preto e branco, dramática, ou em pinceladas de cores fortes, revelando todos os contrastes. De alguma forma, detestava aquela perfeição que o pintor lhe atribuíra, aquilo que o retrato mostrava. Culpava-se por ter sido capt(ur)ada assim, escondendo os tons escuros da sua personalidade.
Foi-lhe doloroso entender que precisava planear uma fuga. Apercebeu-se de que o tempo corroía a moldura, pouco a pouco. Esperou até que a primeira lasca se soltou. E depois outra E outra. Era agora só uma questão de paciência. Em breve a moldura partiria, deixando-a fugir para um cenário onde pudesse mostrar todas as cores da vida, sem moldura fixa, sem enquadramento.


Publicado por lique às julho 10, 2006 12:03 AM

Comentários

Querida Lique, não estaremos todas nós assim capturadas numa moldura ou numa gaiola de ouro?
Vamos ver quem foge primeiro quando a moldura cair.
Abraços da Pitanga (a primeira da fila)

Publicado por: pitanga em julho 10, 2006 02:26 AM

Lique, bom dia. Excepcional. Este con(texto) da foto está enquadrado. Ela prisioneira da tela e nós da vida. Que muitos de nós teimamos em tornar a prisão de ouro e orná-la com belas molduras. Que se emoldurem os sonhos depois de realizados. Adorei o texto. bom dia

Publicado por: Nina em julho 10, 2006 09:23 AM

Um quadro, uma fotografia, a captura do indizível. As tuas palavras são magníficas. O quadro também. Beijinhos.

Publicado por: Paula Raposo em julho 10, 2006 10:17 AM

a força expressiva de algumas imagens ( ou vidas ) estilhaça todas as molduras. e captivam o olhar. e subvertem o discurso...

Publicado por: heretico em julho 10, 2006 12:29 PM

Muito criativo o post.

O blog já conhecia.

:)

Publicado por: your-shell em julho 10, 2006 12:36 PM

Peço desculpa ao herético por um erro no meu link.

Não quero enganar ninguém.

Boa tarde.

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Julgava que os links que aqui deixam os comentadores eram para mim. Aparentemente, não. Terei muito prazer em transmitir ao herético o teu link correcto

Publicado por: your-shell em julho 10, 2006 12:40 PM

Mais ums momentos deliciosos passados aqui.
Jinhos

Publicado por: Maria Clarinda em julho 10, 2006 12:44 PM

e escapou da moldura que a aprisionara com tamanha perfeição
:)

Publicado por: isa xana em julho 10, 2006 09:23 PM

Bom dia Lique.É já um hábito vir aqui ler-te.E que bem sabe respirar a tranquilidade que nos ofereces.Um bom dia para ti.Bjs

Publicado por: Ilhota2 em julho 11, 2006 10:10 AM

A minha prisão é mais dificil de corroer.. Quem dera fosse uma moldura, sensivel ao caruncho e ao passar do tempo... O meu quadro está metido numa gaiola de oiro. Beijão

Publicado por: fernanda em julho 11, 2006 12:23 PM

Um belo texto, cheio de sentimentos nobres...

Publicado por: polittikus em julho 11, 2006 12:55 PM

Perfeita sintonia entre a imagem e o texto, ou melhor, entre o texto e a imagem.
Quantas vezes ficamos presos na moldura que nos querem criar!
Um beijo, Lique.

Publicado por: Ana em julho 11, 2006 01:08 PM

Gostei de ler. Muito.

Publicado por: hfm em julho 11, 2006 06:27 PM

Receio haver molduras que nunca se desfazem!... :|

Publicado por: sotavento em julho 11, 2006 11:45 PM

Espero que todas as molduras se quebrem e a essência da vida possa encher a atmosfera que nos rodeia.
Um abraço, amiga

Publicado por: josé gomes em julho 12, 2006 01:41 PM

Olá Lique:
Imagem muito adequada ao fantástico texto que hoje nos trazes, sobre a libertação por desgaste dos encaixes a que nos conduzem... Há quem nunca se encaixe... Beijo

Publicado por: Maria Papoila em julho 12, 2006 09:17 PM

Receio que todos tenhamos a nossa moldura de que só a morte nos poderá libertar.

Publicado por: Luisa em julho 12, 2006 09:36 PM

Nem todas as fugas são possíveis... porque por vezes a moldura é imquebrável...

Belo texto... gostei de ler.

Um abraço ;)

Publicado por: Menina_marota em julho 15, 2006 03:56 PM