fevereiro 15, 2006
Do amor, simplesmente

Eu vi pessoas. Só pessoas. Lançadas numa voragem de sentimentos. E de sentidos. Um vórtice enterrado no coração da montanha. E o viver de hábitos que se forçam, ocasiões fortuitas, abandono, angústia. O sofrimento contido. O pressentir do sofrimento, ainda antes da alegria do reencontro. A revolta contra as circunstâncias e a sua aceitação tácita. E a sociedade à volta que finge não saber. Mas que cobra, quando chega a hora. Cobra até a vida.
E aquele amor, tão grande, tão belo. Tão limpo como o ar da montanha-refúgio. A ternura que passa no olhar ou nas palavras contidas. A erosão do tempo (tantos anos…) que não mata o essencial.
“Jack, I swear…” , e a jura que não é dita perante aquela “imagem” do outro contem todo o sentimento de todas as lágrimas choradas por dentro.
Só vi pessoas. E uma comovente história de amor. Disseram-me que eram dois homens.
Publicado por lique às 12:01 AM | Comentários (21)
fevereiro 03, 2006
Match point , das escolhas e da sorte…

A sorte. As opções de vida. As paixões. As diferenças de classe. Crime com ou sem castigo? A sorte.
Parece ser impossível juntar tudo isto num filme. Mas não é. O último Woody Allen (diz-se assim, como quando se fala de outra qualquer obra de arte…) é, quanto a mim, um filme que marca uma viragem. Não estamos em Nova Iorque, não estamos a falar de uma classe média neurótica, o humor é quase inexistente. Dir-se-ia que Woody optou claramente por considerar o lado trágico da vida. E mudou-se para Londres, ao melhor estilo europeu.

Chris Wilton, o rapaz pobre irlandês a quem o ténis abre as portas da dita “classe alta” britânica, tem noção de quanto a sorte é importante no jogo e na vida. E força a sua sorte, abrindo caminho para uma carreira promissora através de um casamento “acima da sua classe”. Será que isto já não existe? Mas as diferenças de classe estão claramente marcadas, até na “benevolência” com que Chris é tratado. Benevolência com condições que podem não ser ditas mas estão implícitas.
O mesmo não se passa com Nola, a sexy aspirante a actriz que, além de ser americana, é demasiado “emocional” e com poucas condições para se integrar naquele meio.
Nola e Chris vêm “de baixo”. Chris é aceite, Nola é rejeitada. A escaldante paixão entre eles mantém-se mas torna-se óbvio que Chris terá que fazer uma escolha. Livre arbítrio completo. Não está em causa se ele ama a mulher ou a amante, mas sim o estilo de vida que escolhe. E o que faz para o assegurar. É assim que uma história, aparentemente já contada muitas vezes, se torna única e completamente diferente.
E, no fim, entra novamente a sorte. Durante uns minutos do filme, existe algum suspense. Será Chris castigado? A referência a “Crime e Castigo “ de Dostoievsky não é casual, claro.
Talvez se possa considerar que a sorte está do seu lado e Chris ganha o jogo. Mas a que preço? Num final aparentemente feliz, o seu rosto traduz o quão trágico pode ser conseguirmos o que ambicionamos.
Só mais uma coisinha. Num cast quase perfeito, Jonathan Rhys-Meyers e Scarlett Johansson são absolutamente brilhantes.
Publicado por lique às 12:37 PM | Comentários (27)
maio 09, 2005
Do cinema
O Yardbird, diz ele que para agradecer o facto de eu lhe ter passado a cadeia de literatura, passou-me uma cadeia semelhante sobre cinema. Obrigada, amigo! A próxima que cá chegar vai logo direitinha para ti! :)
As minhas respostas estão aqui, para quem quiser saber algo mais das minhas preferências cinematográficas.
Peço em particular a três especialistas da matéria: o José Duarte, a Dora e o Bruno, para lá irem espreitar o desafio que deixei para eles.
P.S.: Comentários, aqui não há... :))
Publicado por lique às 08:00 PM | Comentários (0)
março 15, 2005
Make my day, boss

Por onde andas depois daquela escolha definitiva, daquele rasgar do coração, daquela doação de amor total? Eu entendo, claro. Por vezes só se mostra o amor dessa forma. Tu sempre tiveste medo da destruição física daqueles que treinavas, mesmo sabendo que, para eles, chegar ao topo, era a única via de saída para uma vida sem horizontes.
E ela? Ela era especial. Viste isso no primeiro dia e tentaste protegê-la. Mas ela não queria. Não viste como ela não queria, como ela tinha escolhido aquele destino como o único possível? Não te culpes. Your darling, your blood. Muito mais do que a que era verdadeiramente do teu sangue. Não te culpes. Não falo do que tiveste que fazer no fim, mas de a teres tentado levar até ao topo, passando por cima das tuas protecções bem tecidas durante anos. Fizeste-o porque ela o desejava, porque ela queria a glória. E porque a amavas. Ela conquistou-te no primeiro round. KO ao primeiro round, lembras-te? Amor é uma palavra tão abrangente! Provavelmente vias nela a filha, ou não só. Que importa? Fizeste-o por amor.
O teu acto final é só o corolário desse amor. Só tu o podias fazer. Era o que ela esperava de ti. A tua filha, o teu sangue.
Por onde andas? Queria encontrar-te de novo, Frankie, boss! Quero encontrar-te muitas mais vezes, Clint, em cujos olhos de água se reflecte a humanidade de tantas “vidas comuns”. Make my day!
[Texto inspirado no filme Million Dollar Baby e num outro texto desta senhora]
Publicado por lique às 04:10 PM | Comentários (24)
outubro 10, 2004
Colateral

Já há uns tempos que aqui não falava de cinema. Nas últimas semanas vi dois filmes que se destacaram do triste panorama de heróis de BD, histórias fantásticas, etc. pelo qual o cinema americano enveredou. Estou a falar de “Terminal de Aeroporto” e “Colateral”.
De “Terminal de Aeroporto” não direi nada a não ser que gostei. A Dora já fez, sobre este filme, um post magnífico (Voltar a casa,do dia 16 de Setembro), e quando a Dora fala de cinema eu guardo silêncio, em reverência.
Ontem fui ver “Colateral”. Sabia que era mais um filme com Tom Cruise (o que não me dizia muito, a não ser da regularidade com que este homem trabalha) , que se inseria no género “thriller” e que o realizador era Michael Mann que, entre muitos outros, fez “O Informador” com Russell Crowe (esta , sim, era uma referência positiva).
O filme passa-se em Los Angeles. As principais personagens são Max, um taxista (Jamie Foxx) e Vincent, assassino profissional (Tom Cruise) que entra no táxi de Max, dando início a uma noite alucinante. E, personagem de fundo e talvez a mais marcante, a noite na selva urbana de L.A.
Toda a acção se centra na interacção entre as personagens centrais e na delas com a cidade e o seu sub-mundo de crime. Polícia, perseguições, amores e tudo o resto estão lá para nos ajudar a compreender a história. Não são aspectos demasiado explorados a não ser na medida em que nos ajudam a perceber Max e Vincent. E a cidade.
O filme desenrola-se num ritmo brilhante até quando parece que pára, de acordo com as reflexões interiores das personagens. As imagens da cidade são belas e têm, ao mesmo tempo, algo de desumano. A música sublinha extraordinariamente os momentos em que Max e Vincent se sentem perdidos neles próprios, no que são, no que podiam ter sido.
Para mim, momentos particularmente brilhantes são a visita à mãe de Max no hospital e a extraordinária cena em que dois coiotes (lobos?) se atravessam à frente do táxi, numa zona relativamente isolada da cidade. O tempo pára aí, juntamente com o táxi.
Tenho dúvidas sobre se os dois actores escolhidos são os melhores para este filme. Não gostei particularmente da interpretação de Jamie Foxx do pacífico, sonhador e, ao mesmo tempo indeciso taxista que vai ultrapassar os seus limites e, de certa forma, encontrar-se. E, perdoem-me as muitas admiradoras de Tom Cruise, embora ele consiga no olhar o desencanto e a raiva suficientes para fazer um Vincent que nos convence, lembrei-me de muitos outros actores que fariam aquele papel de forma bastante mais densa. Não sei se será desta vez que ele vai alcançar o Óscar que há tanto tempo persegue. Mas nem a escolha dos actores nem sequer a utilização de alguns clichés de filmes do género conseguem estragar o filme, o que diz muito da realização, da fotografia e da música. E da forma como Los Angeles e a sua terrível desumanização continuam a inspirar o cinema americano e a dar-nos filmes extraordinários dentro de género, como este.
Publicado por lique às 01:30 PM | Comentários (27)