fevereiro 25, 2006

É Carnaval

andreas allgeyer.jpg

É Carnaval. Eu não gosto do Carnaval, tal como não gosto de nenhuma data em que seja “obrigatório” divertirmo-nos. Mas, pensando no lado pagão destas festas, deixo a quem passar por aqui até quarta-feira, um poema de Manuel Filipe (já compraram o livro?) para vos incitar a entregarem-se ao Deus da dança. E, já agora , fica no ar a música de Chico Buarque, acompanhado por uma lenda de sempre – Elis Regina.

O Deus da dança


O Deus da dança ergueu-se, num volteio,
um fruto ao sol,
entre gritos de alegria;
A luz na face,
sem nuvens de permeio,
desce do céu, renovando as cores do dia.

O turbilhão corre solto, na campina,
um frémito sacode a haste das espigas…

No ar doirado, onde tudo se ilumina,
voam fragmentos de flores,
de cantigas…

Manuel Filipe

Foto: Andreas Allgeyer

Publicado por lique às 12:05 AM | Comentários (28)

outubro 28, 2005

Para ti, no teu aniversário

Jardim

Não importa que ames
ou que te amem, pois o que eu adoro
em ti não o sabes, alma,
nem os outros o sabem.

Jamais te viste, nunca
te verão, qual meus olhos
te viram e vêem – como a minha vida
encarnada no pálido tesouro
do teu corpo invisível,
pois é a carne da minha alma –

Só ficarei quando partires,
ou te levem os outros,
da verdade pura e inalterável
que à tua vida somente eu posso dar.

Juan Ramón Jimenez

Publicado por lique às 12:27 PM | Comentários (0)

junho 13, 2005

Até sempre, poeta!

315_gr.jpg


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade


As tuas palavras, escutamo-las nós. Até sempre, poeta!


(Nestes dias, vi desaparecer três pessoas que para mim eram, de alguma forma, referências. Tristes são os tempos em que aqueles que pensamos que não morrem, vão desaparecendo um a um. A obra fica, é verdade. E a minha saudade também.
A minha homenagem a Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal está aqui.)


Publicado por lique às 11:29 AM | Comentários (27)

maio 13, 2005

Intervalo

f680017.jpg


Hoje a inspiração não parou por estes lados. Fui pedir palavras emprestadas. Nos poemas de Sophia encontrei sempre refúgio. Hoje não é excepção.


Eu só quero silêncio neste porto
Do mar vermelho, do mar morto

Perdida, baloiçar
No ritmo das águas cheias

Quero ficar sozinha neste espanto
Dum tempo que perdeu a sua forma

Quero ficar sozinha nesta tarde
Em que as árvores verdes me abandonam.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Coral"

Foto: Jorge Adn Costa


[Faço aqui um intervalo, que espero breve, na actividade deste blog e do "Eu, de novo" onde será provavelmente ainda publicado mais um post. Em princípio, voltarei em Junho. Obrigada a todos os que me têm lido e, por aqui, têm demonstrado apreço e carinho.]

Publicado por lique às 06:01 PM | Comentários (64)

fevereiro 27, 2005

A voz dos amigos (VII)

pedinte-1.jpg


Rosas pretas


Noventa e quatro. porta encarnada. não deixes cair. não deixes cair. pronto molhou-se. a alma dela foi para o céu. não te sujes...a tua mãe... Mãeeeeeeeeeeeee. Nãooooooooo. porra a puta da cadela na vai parir os cães aqui. Jorgeeeeeeeeeeee. o que é que o senhor disse? Oh! Madalena tira esta merda daqui. foda-se outra vez a chover. Alberto, Alberto, Albeeeerto....Mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

A boca entreabria-se num esgar. Sorriso amolecido na cara escorrendo numa baba transparente e grossa. Sorrindo o víamos nas tardes de fim de tarde quando a casa nos chamava e entre ela e a rua depois do trabalho...qualquer trabalho...se interpunha a rua cheia de gente com, precisamente, uma casa e um trabalho e entre o desejo do primeiro e a fuga do segundo, aquela ou uma outra rua apinhada de outras gentes nas mesmas condições de ir correndo entre. Nesses fins de tarde era que ele se sorria, ou era quando a gente não tinha tempo para o ver sorrir, mas via que ele estava sempre ali naquele meio recanto da loja, muito arrumado aquele monte de cartão e a manta de xadrez e o jornal. Havia sempre um jornal diário muito arrumado em cima da manta.
Na pressa de encurtar a distância do chegar a casa, a gente via, um bocadinho de todos os finais de cada uma tarde correndo entre, a gente ia vendo um dia mais um bocadinho que se enfiava num recanto do ver que às vezes era mais que olhar e deixava assim um quente em alguma parte do corpo da gente que corria entre o trabalho e a casa de recolha do cansaço. E quando esse ficar o corpo a levar o que tinha visto, fosse a baba, o cabelo pastoso e encanecido, a manta, o sorriso. Quando uma imagem qualquer se deslocava colada numa zona qualquer de quem passava, ficava aquilo a que se costuma chamar pena ou tristeza ou raiva ou alguma coisa assim dependendo de quem era a pessoa ou, mesmo, de que intervalo era o que se estava a passar naquele dia entre o trabalho e o rever a casa.

Tremias tanto, Alberto! Foda-se, a merda do jornal ficou de lado. Porra o jornal ficou torto. Arre a merda do jornal tem que ficar direito. Mãeeeeeeeeeeee. Ei! Ai! Olha aquele papagaio de papel do António rasgou-se. Mãeeeeeeeee. Mãeeeeeeeeeee.

As mãos rebuscavam o jornal em gestos rápidos com desvelos. O rosto rasgava-se num rito de ansiedade. Uma voz aparou-lhe o rolar do seu constante pensar-falar-silêncio ruidoso.
- Senhor Alberto! Vamos comer a sopinha?!
Um olhar muito verde desfez-se-lhe de medroso em terno. As mãos pararam sobre as folhas de jornal muito novo, muito folha sobre entre folha. As mãos colocaram o jornal sobre o monte de manta e papelão. O jornal arrumado. O olhar muito verde muito sorriso sempre fixando aquela “Senhor Alberto! Vamos comer a sopinha?!” na cara rosada da D. Marieta de todos os fins de tarde que trazia sempre duas rosas bordadas nos olhos pretos.
Depois da sopa, ela levava as duas rosas que tinha bordadas cada uma no negro dos olhos e deixava-lhe uma luz que se aninhava num nele, no mesmo dele que vibrava sempre que pensava...estava sempre a pensar...e nesse pensar ouvia um ele que nem sabia se ainda era ele ou outro que lhe ficara despegado numa zona do ter sido; e essa luz que as duas rosas deixavam, brilhava no mesmo sítio de si de quando pensava em grito que era tão grito que nunca percebeu porque nunca nenhum dos que passava na rua, entre o trabalho e o ir para casa, lhe perguntou porque é que gritava assim Mãeeeeeeeeeeeeeeeee.

Seila


Foto: Ognid


[Hoje tenho comigo uma escritora extraordinária. Saboreiem o texto porque a escrita da Seila é para saborear, mesmo. Para mim é um duplo prazer porque a considero uma Mulher com letra grande e uma amiga. A bela foto é da autoria do artista de serviço. Obrigada aos dois]

Publicado por lique às 12:22 AM | Comentários (25)

fevereiro 20, 2005

A voz dos amigos (VI)

ponte-salto.jpg


Um dia final, de um mês qualquer


Encontraram-se no jardim no dia aprazado
Um dia final, de um mês qualquer
Ela riu: Estás ridículo nesse fato, mas era o combinado.
Ele disse: E tu és só camisola e gola alta, como tinhas prometido.
Sentaram-se num banco ao acaso
Porque o acaso os juntara
E no acaso tinham caminhado
E o acaso os levara àquele jardim.
Àquele banco escolhido ao acaso
Onde trocando vidas
Riram dos sucessos, riram dos fracassos
Riram dos medos, das esperanças, das desilusões
Ele apertado num fato caro, a viola ao lado
Ela só gola alta e caneta na mão.
Houve também silêncio porque a amizade
Não é feita só de palavras
Mas de compassos de dar tempo ao tempo e sabe esperar.
Ela disse: Anoiteceu, está lua cheia.
Como prometido e combinado, respondeu ele.
E juntos caminharam até à ponte prometida
Onde entoaram trovas à lua e cantos de revolta
Acompanhados de uma viola que ria
Ele de fato novo, ela de gola alta.
E a noite era deles, porque única, prometida
Porque era noite de rindo de si rir da vida
Porque era noite de soltar a voz.
E a cidade parou para ouvir o canto
E a cidade era espanto da ousadia
De quem quebrava o canto silêncio da cidade morta
De quem se suspendia na ponte
Entre as duas margens que fazem a vida.
Em baixo corria o rio
Uma corrente contínua, monótona nunca antes quebrada.
Deram o passo à frente na ponte prometida
Quando rindo calaram canto e viola.
E no dia seguinte foi o pasmo na cidade
Um rio parado separava as margens da ponte contínua da vida
E um fato novo e uma viola retinham o som da corrente antiga
E uma camisola cara empunhando uma caneta dizia palavras inauditas.
Nunca encontraram quem a roupa vestiu
Quem se sentou no banco do acaso
Quem com um passo em frente parou o rio
Quem ousou rindo de si rir da vida cantando cantar trovas à lua
Quem ousou quebrar a corrente
Estender a mão e guardar liberdade.


Poema: Encandescente

Foto: Ognid


[À escritora que admiro desde que entrei na blogoesfera e ao artista da câmara, o meu muito obrigada]

Publicado por lique às 10:54 PM | Comentários (24)

fevereiro 08, 2005

A voz dos amigos (V)

cavalo.jpg


Cavalo Branco

Branco
Riscado no verde
Cruza sombras num galope
No fremir de asa branca
Crepita o bosque fremente
Desse fogo que não arde
No restolho esvoaçante

Corre
Corcel libertado
Cruza o manto de verdura
Corre livre
Enfim liberto
E ao vento o peito aberto
Traz ao bosque outra frescura

Corre
Mítico unicórnio
E que ao som do teu tropel
Floresça este vergel
Brotem fontes de água pura

Alado cavalo branco
Trazes asas de luar
E dourar de cada estrela
Nesse louco cavalgar

Cavalo
De correr mundo
Querer-te alado unicórnio
De fadas cruzando o bosque
Ou duendes misteriosos
Até perceber que és só
E apenas o que serás:
Um cavalo branco e belo
Que me transporta no sonho
Levando-me bosque afora
Ao encontro da aventura.

Poema e foto : Jorge Castro (OrCa)


[Quem não o conhece? É um privilégio tê-lo aqui, entre os meus amigos]

Publicado por lique às 11:13 AM | Comentários (38)

janeiro 30, 2005

A voz dos amigos (IV)

foto-1.jpg


Perguntas


Onde estavas tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylan
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.


Joaquim Pessoa


Selecção do poema : Maria Branco e Wind

(Agradeço às duas amigas que escolheram este poema que, de alguma forma, tem a ver com a efeméride do passado dia 27 de Janeiro - 60 anos da libertação de Auschwitz. Um poema para não esquecer o horror que aconteceu e o que acontece hoje.)

Publicado por lique às 01:17 PM | Comentários (34)

janeiro 24, 2005

A voz dos amigos (III)

DSC01263.JPG

Solidão de ser escrever

Sou um solitário que nesta noite entro
Ouço musica, faço, contemplo
Mas é pela noite fora que vou indo
indo em sombras, em túneis e círculos cantando hinos onde
o eu caminha sozinho.

Sou um solitário que na companhia procura
As coisas com mais sentido de alegria
Com toques, gestos e beijos em loucura
porque a vida é uma
e viver é com os lábios morder-te a língua.

Sou um solitário que se escreve
E que está sempre onde nunca se esteve
Por esses sítios onde este eu se perde e que nada pede
a não ser todos os momentos e ritmos que compõem esta coisa leve
que me faz, me é e me mata a sede.

Carlos Branco


(Hoje, nesta rubrica, a voz de um jovem poeta cujo blog se encontra aí na lista dos que visito. Apreciem!)

Publicado por lique às 04:53 PM | Comentários (28)

janeiro 18, 2005

A minha cidade

ponte.jpg

A minha cidade não se chama Lisboa,
não tem cheiro a sul
e nem por ela passa o Tejo,
mas como ela, tem Nascentes
leitosos e marmóreos...
Na minha cidade os Poentes são de ouro
sobre o Douro e o mar
e só ela tem a luz do entardecer
a enfeitar o granito...
Na minha cidade, tal como em Lisboa
há gaivotas e maresia
mas não há cacilheiros no rio
há rabelos
transportando nectar e almas...
Da minha cidade nasce o Norte
alcantilado, insubmisso
e o sol, quando chega, penetra-a
delicadamente, carinhosamente,
depois de vencido o nevoeiro...
Na minha cidade também há pregões,
gatos, pombas, castanhas assadas e iscas
e fado pelas vielas, pendurado com molas,
como roupa a secar nos arames...
A minha cidade tem também tardes languescentes,
coretos nas praças
velhos jogando cartas em mesas de jardim
e o revivalismo de viuvas e solteironas
passeando de eléctrico...
É bem verdade que na minha cidade
a luz, não é como a de Lisboa
mas a luz da minha cidade
é um frémito de amor do astro-rei
a beijá-la na fronte, cada manhã!...


Maria Mamede


Foto: M.P.


[A Maria Mamede enviou para mim, para a Lmatta e para o Ognid este poema. Maria, quem agradece tudo somos nós. O Porto não é a minha cidade, mas hoje é como se fosse.]


Publicado por lique às 10:27 PM | Comentários (33)

janeiro 16, 2005

Apelo para a humanidade

Tivemos a tristeza de ver recentemente o Tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço que vivemos, para que não sejamos nós os responsáveis por catástrofes desta natureza.

Tivemos a tristeza de ver recentemente o Tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço que vivemos, para que não sejamos nós os responsáveis por catástrofes desta natureza.

Nós blogueiros, propomos desde já, unirmo-nos em um alerta para a humanidade, e implantarmos cada um de nós, a nosso modo e em nosso ambiente, medidas práticas de mudanças!

É tempo de se falar abertamente. É tempo de se abordarem as questões em profundidade e não de forma restritiva. É tempo enfim, de se falar a sério sobre a questão ambiental e ecológica. Sobre a humanidade!

E com razão. É que cada vez mais se toma consciência de que o combate pela preservação, não tem fronteiras, não é regionalizável e de que a resposta ou é global ou não será resposta.

As chuvas ácidas, o efeito de estufa, a poluição dos rios e dos mares, a destruição das florestas, não têm azimute nem pátria, nem região. Ou se combatem a nível global ou ninguém se exime dos seus efeitos.

As pessoas ainda respiram. Mas por quanto tempo?

Os desertos ainda deixam que reverdejem alguns espaços estuantes de vida. Mas vão avançando sempre.

Ainda há manchas florestais não decepadas nem ardidas. Mas é cada vez mais grave o deficit florestal.

Ainda há saldos de crude por extrair, de urânio e cobre por desenterrar, de carvão e ferro para alimentar as grandes metalurgias do mundo. Mas à custa de sucessivas reduções de reservas naturais não renováveis.

Na sua singeleza, o caso é este:

Até agora temos assistido a um modelo de desenvolvimento que resolve as suas crises crescendo cada vez mais. Só que quanto mais se consome, mais apelo se faz à delapidação de recursos naturais finitos e não renováveis, o que vale por dizer que não é essa uma solução durável, mas ela mesma finita em si e no tempo que dura. Por outras palavras: é ela mesmo uma solução a prazo.

Significa isto que, ou arrepiamos caminho, ou a vida sobre a terra está condenada a durar apenas o que durar o consumo dos recursos naturais de que depende.

Não nos iludamos. A ciência não contém todas as respostas. Antes é portadora das mais dramáticas apreensões.

O que há de novo e preocupante nos dias de hoje, é um modelo de desenvolvimento meramente crescimentista – pior do que isso, cegamente crescimentista – que gasta o capital finito de preciosos recursos naturais não renováveis, que de relativamente escassos tendem a sê-lo absolutamente. E se podemos continuar a viver sem urânio, sem ferro, sem carvão e sem petróleo, não subsistiremos sem ar e sem água, para não ir além dos exemplos mais frisantes.

Daí a necessidade absoluta de uma resposta global. Tão só esta necessidade de globalização das respostas, dá-nos a real dimensão do problema e a medida das dificuldades das soluções. Lêem-se o Tratado de Roma, O Acto Único Europeu e mais recentemente as conclusões da Conferência de Quioto, do Rio de Janeiro e Joanesburgo, onde ficou bem patente a relutância dos países mais industrializados, particularmente dos Estados Unidos, em aceitar a redução do nível de emissões. Regista-se a falta de empenhamento ecológico e ambiental das comunidades internacionais e dos respectivos governos, que persistem nas teses neoliberais onde uma economia cega desumanizada e sem rosto acabará por nos conduzir para um beco sem saída.

Por outro lado todos temos sido incapazes de uma visão mais ampla e intemporal. Se houver ar puro até ao fim dos nossos dias, quem vier depois que se cuide!... e continuamos alegremente a esbanjar a água do cantil.

Será que o empresário que projectou a fábrica está psicológica ou culturalmente preparado para aceitar sem sofismas nem reservas as conclusões de uma avaliação séria do respectivo impacto ambiental?
Mesmo sem sacrificar os padrões de crescimento perverso a que temos ligados os nossos hábitos, há medidas a tomar que não se tomam, como por exemplo:


Levar até ao limite do seu relativo potencial o uso da energia solar e da energia eólica.

Levar até ao limite a preferência da energia hidráulica sobre a energia térmica.

Regressar à preferência dos adubos orgânicos sobre os adubos químicos.

Corrigir o excessivo uso dos pesticidas.

Travar enquanto é tempo a fúria do descartável, da embalagem de plástico, dos artigos de intencional duração.

Regressar ao domínio do transporte ferroviário sobre o rodoviário.

Repensar a dimensão irracional do transporte urbano em geral e do automóvel em particular.

Repensar, aliás, a loucura em que se está tornando o próprio fenómeno do urbanismo.

Reformular a concepção das cidades e das orlas costeiras

Dito de outro modo: a moda política tende a ser, um constante apelo às terapêuticas de crescimento pelo crescimento. È tarde demais para desconhecermos que, quando a produção cresce, as reservas naturais diminuem.

Há porém um fenómeno que nem sempre se associa ás preocupações da humanidade. Refiro-me à explosão demográfica.

Com mais ou menos rigor matemático, é sabido que a população cresce em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética. Assim, em menos de meio século, a população do globo cresceu duas vezes e meia !...
Nos últimos dez anos, crescemos mil milhões!... Sem grande esforço mental, compreendemos aonde nos levará esta situação.

Se é de um homem mais sensato e responsável que se precisa, um homem que olhe amorosamente para este belo planeta que recebeu em excelentes condições de conservação e está metodicamente destruindo; de um homem que jure a si mesmo em cadeia com os seus semelhantes, fazer o que for preciso para que o ar permaneça respirável, que a água seja instrumento de vida e dela portadora, e os equilíbrios naturais retomem o ciclo da auto sustentação, empenhemo-nos desde já nessa tarefa, com persistência e determinação.


Se é a continuação da vida sobre a terra que está em causa, e em segunda linha a qualidade de vida, para quê perder mais tempo?...

Por isso apelamos a todos quantos se queiram associar a este movimento pela preservação Natureza, pela Paz e pelo desenvolvimento harmonioso da Humanidade, para subscreverem este Apelo.

Ao fazê-lo estamos a afirmar a nossa cidadania, enquanto pessoas livres, que olham com preocupação o futuro da Humanidade, o futuro dos nossos filhos!

Lista de Subscritores

Publicado por lique às 02:56 PM | Comentários (0)

janeiro 11, 2005

A voz dos amigos (II)

mariana-3texto.jpg


Anjos mulheres-VI


As mulheres voam

como os anjos

Com as suas asas feitas

de cristal de rocha da memória

Disponíveis

para voar

soltas...

Primeiro

lentamente uma por uma

Depois,

iguais aos pássaros

fundas...

Nadando,

juntas

Secreta a rasar o

chão

a rasar a fenda

da lua

no menstruo

por entre a fenda das pernas

Às vezes é o aço

que se prende

na luz

A dobrarmos o espaço?

Bruxas

pomos asas em vassouras

de vento

E voamos

Como as asas

lhe cresciam nas coxas

diziam dela

que era um anjo do mar

Rondo alto,

postas em nudez de ombros

e pernas

perseguindo,

pelos espaços,

lunares

da menstruação

e corpo desavindo

Não somos violência

mas o voo

quando nadamos

de costas pelo vento

até à foz do tempo

no oceano denso

da nossa própria voz

Sabemos distinguir

a dormir

os anjos das rosas voadoras

pelo tacto?

Somos os anjos

do destino

com a alma

pelo avesso

do útero

Voamos a lua

menstruadas

Os homens gritam

- são as bruxas

As mulheres pensam

- são os anjos

As crianças dizem

- são as fadas

Fadas?

filigrama cintilante

de asas volteando

no fundo da vagina

Nadamos?

De costas,

no espaço deste século

Mudar o rumo

e as pernas mais ao

fundo

portas por trás

dobradas pelos rins

Abrindo o ar

com o corpo num só golpe

Soltas,

viando

até chegar ao fim

Dizem-nos

que nos limitemos ao espaço

Mas nós voamos

também

debaixo de água

Nós somos os anjos

deste tempo

Astronautas,

voando na memória

nas galáxias do vento...

Temos um pacto

com aquilo que

voa

- as aves

da poesia

- os anjos

do sexo

- o orgasmo

dos sonhos

Não há nada

que a nossa voz não abra

Nós somos as bruxas da palavra
 

Maria Teresa Horta


Selecção do poema - Wind

Foto - Ognid

Publicado por lique às 07:17 PM | Comentários (29)

janeiro 01, 2005

G1 - Porque em mim há sempre gaivotas

seagulls.jpg


Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo
Que chegam em cada abraço,
Que partem em cada beijo,
Eu tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo!

Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo,
Gaivotas de dor profunda,
Dessa dor de que me visto,
Eu trago sempre Gaivotas
Neste céu onde eu existo!

Em mim há sempre Gaivotas
Em bandos, como pardais,
Gaivotas de Liberdade,
Morrem muitas, nascem mais;
Em mim há sempre Gaivotas,
Em bandos, como os pardais!
Que eu, tenho sempre Gaivotas
Do pensamento ao desejo,
Que partem em cada abraço,
Que chegam em cada beijo,
Que nascem no Coração,
Levantam voo da mente,
Gaivotas feitas futuro
E passado e presente,
Gaivotas de todo o Amor,
De sorriso, de partida,
Gaivotas feitas de morte,
De saudade e despedida;
Que ser Gaivota é ser forte,
É ser Livre para Amar,
É ser Livre de partir,
É ser Livre de chegar,
Livremente viajando
Nas vagas de cada olhar;
E, porque me perco no tempo
Por no tempo andar perdida,
Por isso é que há Gaivotas
Dentro de mim, por toda a VIDA!...


Maria Mamede, in "Pelas Letras do Alfabeto"


Foto daqui

Publicado por lique às 08:28 PM | Comentários (32)

dezembro 21, 2004

A voz dos amigos (I)

Não pensava publicar nenhum outro post antes do Natal. Entretanto, tinha o projecto de abrir este espaço à colaboração de amigos convidados, sem nenhuma periodicidade certa. Essa colaboração deveria começar em Janeiro de 2005. O belíssimo conto que a Lola Viola me deixou como comentário ao post "O meu Natal" fez com que eu planeasse uma ante-estreia. Pedi ao Ognid uma foto que ajudasse a criar o ambiente que o conto da Lola pedia. E é com muito prazer que inicio hoje este projecto de colaboração. Espero que todos os que por aqui passam tenham para com os meus amigos que irão aparecendo o mesmo carinho que têm tido para comigo. Lola, esta é uma surpresa para ti. Tem um bom Natal.

Outro Natal..


natal-pb.jpg


Há outros natais. Os que são a preto e branco.

Os sábados de manhã no mês de Dezembro são especiais. As cidades ficam muitíssimo mais bonitas, enfeitadas com laços e árvores coloridas, salpicadas por alguns casacos de pele com aroma a perfume, embrulhadas em sorrisos e palavras soltas de feliz natal.
O café habitual onde tomo o meu pequeno-almoço dos sábados de manhã fica muito mais cheio de gente que cumpre os rituais de Dezembro. Este sábado, espero ao balcão mais um pouco, o que não me aflige nada. Tenho tempo. Saboreio em silêncio nos lábios a frase… tenho tempo.

Ao meu lado no balcão, uma mulher de idade indefinida. Imóvel, espera algo. Penso que como eu, espera para ser atendida pela menina que vai tirando bicas e mandando obrigadas e faz favores aos clientes. Mas tenho tempo e foco melhor. Estudo o enquadramento. Serve-me o fundo repleto de vozes alegres, perfumado de café.

Faço zoom. Um xaile na cabeça e uns sapatos de pano fazem-me adivinhar o frio de quem vem de longe em busca de uma nova vida. Usa roupa de cores pardas, sem formas nem desenhos. Tem uma moeda de 50 cêntimos na mão e olha para o vidro onde se protegem os bolos da manhã. Trocamos silêncios e olhares. Com o suporte de uma palavra que oiço como ajuda, entendo que me pede dinheiro para comer. Fico terrivelmente envergonhada com estas situações. Como se eu fosse ela e ela eu. Crio uma empatia estranha com estes estranhos que se cruzam comigo na dor dos seus dias. Digo-lhe baixinho – O que quer? Qual quer? Aponto os folhados, os bolos, enquanto o meu pão com fiambre e abatanado surgem à minha frente. Ela aponta para um bolo pequeno, com creme. Deve ser o bolo mais pequeno da montra. Peço o bolo à menina do balcão que me atende e que já está dentro da minha estória e me diz com os olhos.. só isso?

- Só. Porra, ela não pediu mais nada. – Grito eu já cada vez mais baixinho.

A mulher que poderia ter sido tão bonita e que parece já velha, diz-me obrigada e senta-se na mesa ao lado da que eu tinha escolhido. Comemos as duas em silêncio. Olho para ela disfarçadamente, sinto-me mal, compreendo na satisfação com que ela como o bolo o significado da palavra fome.

Todo este episódio seria banal, não fora o momento que se seguiu. E que me persegue ainda. A mulher terminou o bolo, delicadamente limpou a boca a um guardanapo de papel, olhou-me nos olhos, abriu um sorriso lindo, onde faltavam alguns dentes e disse-me “xau”. Trago comigo este sorriso, como se fosse uma fotografia a preto e branco tirada num dia em que as cores são só dos outros…


Texto: Lola Viola

Foto: Ognid

Publicado por lique às 08:35 PM | Comentários (43)

novembro 19, 2004

Segredo

Nem o Tempo tem tempo
para sondar as trevas

deste rio correndo
entre a pele e a pele

Nem o Tempo tem tempo
nem as trevas dão tréguas

Não descubro o segredo
que o teu corpo segrega

David Mourão Ferreira


Há segredos que não se desvendam. Segredos que sabemos não com o cérebro mas com os sentidos. Segredos que estão em nós e que só alguém pressente.

Publicado por lique às 10:33 PM | Comentários (30)

outubro 16, 2004

Consequências dos excessos de álcool

“Era uma vez um rapaz texano que gostava de se meter nos copos. Em certa ocasião, conduzindo bêbado como um cacho, perdeu o controlo do seu automóvel e destruiu os caixotes de lixo da casa paterna. O pai repreendeu-o duramente, a mãe, Barbara, reconheceu que o rapaz tinha sérios problemas com o álcool e, para o ajudar a corrigir o rumo, confiaram em Deus, que é americano, e nuns milhões de dólares que o garoto perdeu estrepitosamente em péssimos negócios petrolíferos. Demonstrou que era incapaz de administrar a sua própria casa e voltou com fúria ao caminho do álcool. Bourbon, cerveja, vinho californiano, tequilla, desciam pela garganta do jovem texano até que um dia o esperado milagre se apresentou diante dele. Chamava-se Billy Graham, o maior show-man religioso da União. «Aleluia! Louvado seja Ele» gritava o jovem texano nos estádios repletos de outros alcoólicos e alienados como ele. E Deus ajudou-o, agora é Presidente dos Estados Unidos da América e um intelectual requintado, como nos recorda o seu discurso pronunciado na universidade da elite da costa Este a poucos meses de assumir o cargo: «Não tinha qualquer ideia do que devia fazer quando cheguei. Conhecia alguns que tinham um plano, mas muito em breve ficou demonstrado que nos esperavam todas as possíveis vitórias e todas as derrotas, que geralmente nos causam grandes surpresas.»
Este intelectual é hoje o homem mais poderoso do mundo e os que se curvam à sua passagem querem evidentemente ser como ele.”


Luís Sepúlveda, in Uma história suja

(Hoje nem é por ser fim de semana. Estou a ler este livro de “apontamentos” de Luís Sepúlveda e, de repente, pareceu-me interessante este retrato do homem mais poderoso do mundo. Mesmo que já quase todos saibam, não é de mais relembrar.)

Publicado por lique às 05:54 PM | Comentários (32)

outubro 01, 2004

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

dg105.jpg

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca


(Início de um fim de semana longo. Prevê-se que o sol continue a brilhar. Deixo a quem passar por aqui este belo poema de Florbela)


Ilustração daqui

Publicado por lique às 10:23 PM | Comentários (36)

setembro 04, 2004

Passou o dia

northern_night.jpg


Passou o dia, foi-se o perigo.
Ressuma brandamente a
cabeleira de crinas sobre as vagas,
faz-te um leito de espuma.

Dilata o curto coração que te
dizima, ordena-lhe que cresça e
à sombra da repousada brisa
se aquiete e durma.

Eu sei. É o amanhã. De véspera
te consome, por ele tremes já neste
crepúsculo de vigília. Porém eu digo-te
que será sempre igual a hoje, nada
temas. Dilata o coração e dorme.

Nuno de Figueiredo

Quadro daqui

Publicado por lique às 08:12 PM | Comentários (33)

agosto 28, 2004

Vieste como um barco carregado de vento 

Ag.jpg


Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

Maria do Rosário Pedreira

Publicado por lique às 08:19 PM | Comentários (21)

agosto 22, 2004

Para atravessar contigo o deserto do mundo

desert_sunset.jpg


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento


Sophia de Mello Breyner Andresen


Publicado por lique às 12:01 AM | Comentários (16)

agosto 21, 2004

Baile de máscaras

masquerade.jpg

Até o amor nos ensinar
dançaremos como quando dança
o mar
água que por dançar se deita
sem transparência
até lavarmos nossa cara
dentro da imprevista onda
derradeira
do mar a água mais clara:
a mais funda.

Até que a paixão nos instrua
dançaremos como se dançasse
a lua
que enquanto gira sempre oculta
a mesma face
até mudarmos nossa roupa
para vestirmos a máscara
absoluta
da lua a face mais clara:
a outra.

Jayme Kopke

Publicado por lique às 07:23 AM | Comentários (18)