julho 06, 2006
Carta à moda antiga ou da incerteza da chuva…

Venho por esta dizer-te
que as nuvens passam no céu,
como em qualquer outro dia
daqueles em que o sol hesita.
Por isso esta breve escrita,
do tédio que me envolveu
quando a chuva não sabia
se apagava o Verão aqui.
E mais te dou a entender
nestas pequenas letrinhas,
espelho de ansiedades minhas
neste dia e nesta hora
em que me lembrei de ti:
por mais que tentes, agora,
neste momento preciso,
eu não sei se chove aí.
(escrito num destes dias em que a chuva miudinha ameaçava o Verão)
Foto: Szymon Wladyka
Publicado por lique às 04:18 PM | Comentários (29)
julho 03, 2006
Poema breve para as andorinhas da minha infância

Leva-me contigo, andorinha dos dias distantes
Partamos para terras diferentes
Onde o sol brilha.
Dá-me o teu voar, prenúncio de horas felizes
Não quero poiso permanente
Chega um abrigo.
Ensina-me tudo, alegria dos alvos beirais
Do teu efémero ninho quente
Casa de breve carinho.
Partamos agora, andorinha do tempo antigo
Alcança o beiral da minha alma
E leva-me contigo.
(Texto escrito para as Noites de Poesia em Vermoim cujo tema foi, no dia 01/07, “Andorinhas”)
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (27)
junho 27, 2006
Preparação do voo

Não faço mais que sentir
ou pressentir
sons ditos em surdina,
talvez ouvir
murmúrios só pensados
incompletos sonhos
imaginados.
Não sei sequer reflectir
a nua realidade
que, estranha, me atravessa.
Será verdade?
Não quero senão sentir!
Que o que restar
me passe ao lado depressa.
Longa será a viagem,
é preciso voar.
Foto: Anna Antipova
Publicado por lique às 05:36 PM | Comentários (19)
junho 24, 2006
As tardes

Agora as tardes já se perdem
no vulto dos barcos no ocaso.
No sonho de navegar olhos vagueiam
por letras do passado em corpo lasso.
Há rotas por explorar em fim de dia
antigos risos reflectem o sol poente.
Soltam-se sonhos
lembranças vagas de outra gente
que não nós,
ancorados na tarde da melancolia
à margem de uma vida já urgente.
Foto: aidan
Publicado por lique às 12:04 AM | Comentários (22)
junho 18, 2006
A teia dos afectos

Assim pouco a pouco
cai a distância como bruma
espessa e quente
nos frágeis fios da teia dos afectos.
Qual estranha espuma dissolvente
parte um, depois outro
até que o nada se instala sem aviso.
Logo falamos estranhos dialectos,
palavras como gumes escondidos
fechada que é a alma
selados os sentidos.
Foto: Lmatta
Publicado por lique às 10:34 PM | Comentários (33)
junho 09, 2006
O tempo das cerejas

Espera,
por vezes volta
o tempo das cerejas,
dias que voam no dorso
da brisa que a pele beija.
Sabes,
por vezes fica
nos lábios o rubor,
gota de sangue que salta
como se mordesse o amor.
Foto: libelle
[Dado que a próxima semana é "semana de veraneio", faço aqui uma pausa até ao próximo dia 19. Desejo-vos uma boa semana, a trabalhar ou a descansar, neste "tempo de cerejas".]
Publicado por lique às 05:56 PM | Comentários (43)
junho 06, 2006
Meio (do) dia

Sei do calor lá fora
e dos sons precoces do estio.
O sino, longe, acabou de tocar,
é o meio do dia.
Nem o apelo urgente do mar
nem o cristal de água em fio
me levam para lá desta hora.
Presa na manhã que não termina
mesmo quando a tarde se inicia.
Espero a noite
e a luz que a ilumina.
Foto: Dominika Ciemira
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (24)
maio 28, 2006
Palavra aberta

Não olhes. Vê.
Mesmo que os olhos
te ardam.
Não toques. Sente.
Mesmo que o corpo
te doa.
Não fales. Diz.
Mesmo que a alma
te sangre.
De ti quero a palavra aberta
transcrição clara dos sentidos.
Foto: Ewa Brzozowska
Publicado por lique às 07:46 PM | Comentários (27)
maio 22, 2006
Lâmina de mágoa

Na palavra desarmante
me encontras presa
oscilante
entre a manhã que adivinho
e a noite que anuncias.
E é na orla dos dias
desse difícil caminho
que te chamo amor
amante
lançando a voz sobre o fio
dessa lâmina de mágoa.
Vê que no leito do rio
que o teu olhar alcança
o meu corpo é a água.
Foto: Angelicatas
Publicado por lique às 06:36 PM | Comentários (29)
maio 14, 2006
Roda, roda...

Roda, roda, cinco cantinhos
onde a solidão se esconde,
não há lugar que não ronde,
baila em volta das esquinas
dos desvios dos caminhos.
Ai, que acorda as meninas
na falua que lá vem!
E aquele medo que navega
já pendurado na quilha…
Queres chocolate ou baunilha?
Roda, roda a escuridão,
já não há lugar seguro.
A menina lá no escuro
é que vai ser apanhada.
Foge, foge, minha linda
para a luz que te aguarda.
Não queiras olhar ainda
para a solidão escondida,
repara na longa estrada.
Ela espera lá ao fundo,
dança nas voltas da vida
em cada esquina do mundo,
roda, roda, cinco cantinhos.
Foto: andreas hering
Publicado por lique às 06:22 PM | Comentários (23)
maio 12, 2006
100 000 cliques

No poema
No cinema
Até na prosa
Gostosa?
Na crítica
Meio política
No dislate
Disparate
No dia-a-dia
Arrelia
Alegria
Ou lamento
Já sem tento
Cem mil cliques
Do dedinho
No ratinho
São razão
De presunção
E se são tiques?
(Ali o contador marcou 100.000 cliques. Dada a falibilidade destas contas, acho que é melhor sorrir e pensar um pouco. As interrogações também são uma forma de dar à questão a perspectiva e o distanciamento devido. Obrigada a todos, mesmo que sejam tiques…)
Publicado por lique às 04:37 PM | Comentários (26)
maio 08, 2006
Um pequeno segredo

Queria dizer-te
daquele pequeno segredo
que guardo nas dobras da alma.
Se te encontrasse
se soubesse coordenadas
do teu rasto, pista para a ti chegar…
Queria trazer-te
notícias deste degredo,
casulo onde procuro a calma.
Se te avistasse
se de ti visse as pegadas
na terra húmida que tenho que pisar…
Só um pequeno segredo
na pista das pegadas do teu rasto,
notícia deste casulo em terra húmida.
Foto: Renya Jozwik
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (21)
maio 04, 2006
Apaga-se a luz

Apaga-se a luz
nos dias compridos
sem um “ai Jesus!”
sem sinal da cruz
nem som de gemidos.
É a luz que se apaga
e não digo um ai
não perco os sentidos
nem falo da chaga
que por vezes mói
nem procuro paga
p’los dias doridos.
Deixa, a luz apaga
eu vivo sem ela
acendo no peito
o sol duma vela
pequena, a preceito
dos dias compridos
em que a luz apaga
sem som de gemidos.
Foto: Ewa Brzozowska
Publicado por lique às 05:08 PM | Comentários (29)
abril 30, 2006
Maio sonhado

Que venha Maio
e traga nos dias a plenitude da terra,
renascer de promessas que Abril plantou!
Que seja então Maio,
cheiro de brisa suave que em si carrega
mil águas caídas no solo que secou!
Floresça Maio agora
nesta hora de bandeiras caídas no chão,
cravos desfraldados no tempo de outrora
e traga de novo
a força que sonhámos ter dentro da mão!
Foto: Roman Kamyshnikov
Publicado por lique às 12:26 PM | Comentários (15)
abril 27, 2006
Insónia

ergo-me incauta
na margem da noite
e atiro letras
à porta do silêncio
Foto: Mike Greenberg
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (26)
abril 24, 2006
Do cinza se fez vermelho...

Ia então um Abril cinzento
de dias fechados no horizonte
onde a chuva, por medo, se calava.
As horas amanheciam sobre o monte
e havia aquele frio que gelava
como sopro nascido bem cá dentro.
E foi só mais uma madrugada,
momento que esperávamos igual,
instante primeiro de mais um dia,
aquele em que uma súbita alegria
se instalou, inesperado vendaval.
E nessa hora nova que surgia
renegámos o medo, já tão velho.
A chuva era uma doce melodia
e a luz da flor no frio metal
pintou o dia cinza de vermelho.
[Que o 25 de Abril permaneça, pelo menos, nos nossos corações!]
Publicado por lique às 05:54 PM | Comentários (28)
abril 20, 2006
Manhã de claridade

Que exista sempre esta manhã de claridade
e a luz do sol em voo rasante sobre o Tejo
som da gaivota que me fala de saudade
barco que entra pelo porto do meu peito
dia que nasce na maré do teu desejo!
E que, na alma que viaja sobre o leito
daquele rio que o sonho vê primeiro,
habite límpida esta onda sem idade
que agora embala o convés do cacilheiro!
Foto: Jorge Rosa
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (27)
março 29, 2006
Cores (II)

Falaste
e era azul
um pouco de céu roubado.
Fiquei
em flor macia
de cor amarelo dourado.
Dissemos
o tom daquela hora mansa
em que o amor amanhecia
e por ser do nosso dia
chamámos-lhe verde esperança.
Foto: Anderson Fetter
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Aí fica outra dose de cores, desta vez com o amarelo! Tenho à minha frente alguns dias de muito trabalho e uma viagem que me vai levar longe, pelo que só devo voltar aqui depois da Páscoa. Fica uma foto de todas as cores e um poema/brincadeira leve, leve... E também a voz de Maria Bethânia, a dizer da saudade. Sejam felizes neste início de Primavera.
Publicado por lique às 06:40 PM | Comentários (61)
março 27, 2006
No verso da folha

Quero escrever
no verso da folha
palavra incorrecta
de sentir errado.
Virar-me do avesso
e dizer de mim
o que está calado.
Porque, de ser certa,
a frase escondida
breve se revela,
perdido o encanto
que nela habita.
E o verso falado
deixa por não dita
aquela palavra,
a tal incorrecta,
o olhar perverso
que apenas espreita
no poema escrito
na folha perfeita,
na beira do verso.
Foto: Joanna N.
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (30)
março 21, 2006
Porque não ser...

Porque não ser gato
deitado em novelo no quente da lareira?
Passear pela beira de algum telhado.
Ser gato, tão mimado
no passar do pelo em peles desejosas
das carícias que ousa de forma esquiva.
Ser gato, de uma vida,
que sete seriam o tempo alongado,
tédio marcado para uma hora certa.
Ser gato e ter aberta, à força de querer,
a porta de saída para ser mulher.
Foto: Tomek Slupski
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E, de repente, lembrei-me que hoje é Dia Mundial da Poesia. Fiquem sabendo que acho que os gatos são seres poéticos...
Publicado por lique às 04:01 PM | Comentários (35)
março 13, 2006
O fio-de-prumo

Sem rumo,
talvez.
A vida dirá
da rota traçada.
E mais uma vez
não se dobrará
o fio-de-prumo,
vertical marcada
na linha de fogo
que corta o caminho.
Assumo este nada,
ponto em que afogo
o sonho interdito.
Sobra-me este grito
que lanço sozinho
no tempo infinito.
Foto: John Dittrich
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (30)
março 10, 2006
Narcisos em tempo errado

Disseste que os narcisos
viriam na mesma hora
em que o sol me envolvesse.
Que em tuas mãos chegariam
ternura em molhos tecida.
Prometeste as mesmas cores
que em teu olhar ficariam
como promessa de amor
como uma luz renascida.
Mas a vida em gargalhadas
das promessas desdenhou.
No meu colo em braçadas
narcisos irão florir
e o nosso tempo passou.
Foto: obelixtiti
Publicado por lique às 10:54 AM | Comentários (32)
março 06, 2006
O túnel de chuva

Necessário é
atravessar o túnel de chuva
onde o silêncio fez ninho.
Passar a barreira do eco
de antigos sons murmurados.
Sacudir na volta da estrada
o peso carregado de sentir.
E seguir.
Rumo ao lugar isolado
onde o meu canto sozinho
dirá sol nos dias esperados.
Que a vida é sempre o porvir
dito em silêncio ou gritado
e é certo o tempo de chorar.
E o de amar.
Foto: Noushin Nourizadeh
Publicado por lique às 08:56 AM | Comentários (25)
março 03, 2006
730 dias

São assim tantos os dias
que me encontro por aqui?
As palavras que ecoam
nos recantos escondidos
são já tantas, as que li!
E há aquelas que disse,
as que de pronto escrevi,
as que comigo ainda lutam
pelos lugares preferidos
nos sonhos que deixo aqui.
Sei que as horas são demais
e o tempo não vai sobrando,
mas é por mim que aqui ando
e por vós que aqui passais.
(Este blog faz hoje dois anos. Esta é a minha semana de comemorações. :-) O meu obrigada a todos os que, com a presença, o incentivo e o carinho me têm ajudado a ficar por aqui tanto tempo. Em repetição, fica a música que, para mim, define aquilo que este blog tem sido nestes 730 dias.)
Foto: M Karez
Publicado por lique às 12:01 AM | Comentários (28)
fevereiro 17, 2006
Pre(s)sentimento

pressinto
o dia já perto
como um sol poente
e sei que desperto
um sentir doente
e por isso minto
pelo teu sorrir
pelo meu alento
no peito desperto
um som bem dolente
um olhar aberto
sei que te minto
e bem cá por dentro
pressinto
Foto: Dirk Jesse, in "Staring at the sun"
Publicado por lique às 12:16 PM | Comentários (33)
fevereiro 12, 2006
Semente em dias de frio

Deixa que te olhe
No dia cinza e prenhe de bruma
Que se colou espessa nos vidros
Vago reflexo que não alcanço
Ainda que a alma se expanda
E te toque.
Deixa que pense
Mesmo que seja num dia sem sol
Que o sempre não é somente palavra
De um dicionário coberto de pó
E a vida não é gazela que foge
À nossa frente.
Deixa que sinta
Como sopro leve, lábios conhecidos
Que sussurre o tempo que já esperei
A brisa que trazes nos dedos carícia
E quanto serás eterno em meu corpo
Que aguarda.
Deixa que a vida me diga de ti hoje e amanhã
Para que exista um sulco de esperança
Semente plantada em dias de frio
Na terra que piso.
Foto: Allan Jenkins
Escrito em 18/01/2006
Publicado por lique às 12:28 PM | Comentários (29)
fevereiro 06, 2006
Tempo de Inverno

são curtos dias de alongar
gelos que a manhã desperta
vento que solta estranho grito
silvo de dor desfeita em água fria
abrem-se as mãos ao sol do dia
para amanhã a vida se enrolar
casulo que espera borboleta
o canto cinza do amanhecer
embala a melancolia da terra
dormente, deitada em silêncio
sabendo o segredo que o ventre
carrega onde o frio não chega
esperança calada da semente
doçura verde do renascer
Foto: Guillermo Fernandez-Corroto
Publicado por lique às 05:10 PM | Comentários (26)
janeiro 31, 2006
A palavra solta

Não penso
Procuro
Percorro às avessas
O tempo obscuro
Envolvo o corpo
Nas pregas tecidas
De antigos minutos
Deslizo num túnel
De horas sofridas
Não paro
Recuo
Caminho na borda
Do sentir revolto
Da espiral inversa
E volto
Ao verso primeiro
À palavra solta
No espaço contido
Do eu verdadeiro.
Foto: Marianne Le Carrour, Ariane's wire
Publicado por lique às 08:53 PM | Comentários (30)
janeiro 26, 2006
Essência

Não sou mais
que a palavra escondida no meu beijo
emprestada à carícia dos meus dedos
reflectida em silêncio nos teus olhos.
Foto: Sophie Thouvenin
Publicado por lique às 11:03 AM | Comentários (28)
janeiro 03, 2006
Pedra

hoje sou pedra
nada me move
me incomoda
ou me comove.
duro granito
parado algures
ténue limite
entre o horizonte
e o infinito.
digo: sou pedra
e espero o vento
sobre as arestas
sopro de gelo
um corte lento.
direi: sou pedra
e sei que minto
um toque leve
mesmo de acaso
tudo desfaz.
restam partículas
um ser difuso
a visão breve
da dor que sinto.
Foto: José Angel Mintegui Bilbao
Publicado por lique às 10:16 PM | Comentários (28)
dezembro 11, 2005
Natal, hoje

Jesus hoje
num qualquer canto do terceiro mundo.
Reis, não terá em adoração
talvez algum chefe da guerrilha
se comova com o choro daquele frágil ser.
Mais um miúdo, afinal, para morrer cedo.
Pastores, talvez
que ainda os há, de olhos doridos
e mãos sem ofertas.
A vida depende das contas bem certas.
Menino com fome, doenças
fugindo das minas, das bombas, das balas
dormindo ao de leve, sem sono profundo.
Se o avião que passa não acertar na gruta
se outra guerrilha não olhar o pardieiro
se escapar à doença
se encontrar comida
dirá a mensagem ao mundo inteiro.
Não terá apóstolos, chega a televisão.
Expulsará os vendilhões
que lhe infestam os templos
políticos, lobbies, multinacionais
e outros que mais.
Dirá:
Amai-vos uns aos outros!
E morrerá assassinado num qualquer buraco
que amor é palavra punida hoje em dia
como naquele tempo
em que, com estrela, reis e pastores
num pequeno estábulo de Belém
um natal de esperança acontecia.
Foto daqui
(Este poema foi escrito para as Noites de Poesia em Vermoim com o mesmo tema e já foi publicado no blogue Movimentum II )
Publicado por lique às 07:22 PM | Comentários (35)
dezembro 05, 2005
Colho incerteza no passar dos dias

Entre o dito
e o que falta
há o espaço
da incerteza.
O caminho
inseguro
interdito
o meu trilho
de tristeza.
Passos dados
pela margem
desse leito
de ternura
onde me deito.
E o que falta
no já dito
é o caudal
que corre frio
no meu peito.
Foto: Catedral II
Publicado por lique às 07:43 PM | Comentários (33)
dezembro 02, 2005
A propósito de Bocage

Bocage ainda és
Bocage ainda és, por teu tormento
Conhecido por todas as graçolas
Que os meninos aprendem nas escolas
Sem que se lhes revele teu sofrimento
Nem Marília nem amor da liberdade
Te salvam do sumário julgado
Da teres um dia aos céus ultrajado
E até, vê lá, manchado a santidade
Viste a vida como ímpia e obscura
E a morte desejaste em tal fervor
Querendo uma campa em terra dura
Que hoje te olhamos com estupor
Onde teus versos de raiva impura?
Revolta, angústia, escassez de amor!
[Bocage nasceu a 15 de Setembro de 1765 e morreu a 2 de Dezembro de1805]
Publicado por lique às 07:45 PM | Comentários (32)
novembro 26, 2005
Manhã

pode vir a manhã
todas as manhãs do mundo.
nenhuma será início
página branca num livro
adivinhado.
os demónios soltos na noite
deixam rasto na luz do sol
tapam de angústia
as primeiras horas do dia.
a manhã é um lento caminho
passos que dou em direcção a mim
um acerto de alma que deslizou.
os olhos fechados focam o quadro
do dia azul, nítido, claro
o dia certo.
Foto: Sparkle, Stretching high
Publicado por lique às 09:09 PM | Comentários (34)
novembro 20, 2005
Vou-me sentar à janela

vou-me sentar à janela
a ver a vida lá fora.
os meninos do jardim
aquela mulher que passa
o homem que vai embora.
e eu sentada aqui dentro
com um vidro de permeio
vejo os risos que não oiço
sinto os olhos da mulher
presos na pressa do homem
que se cruza no passeio.
a rua é um mar de acasos
de vidas que não se sabem.
tento eu ligar os passos
em qualquer conto inventado
visto através da vidraça.
a chuva esconde os pedaços
da vida que está lá fora
e eu sentada à janela
olhando o que sonho dela.
Ilustração: daqui
Publicado por lique às 07:24 PM | Comentários (36)
novembro 14, 2005
Dias de sol e chuva

se entro
no espaço
entre mim
e o eu sonhado
caminho sem pé
em água funda.
mergulho
e não respiro.
iço-me
na beira de mim
onde o ar
me enche o peito
de realidade.
eco da chuva
na janela aberta
em ilusão de sol.
Ilustração: Salma Shami
Publicado por lique às 06:51 PM | Comentários (37)
novembro 10, 2005
Tempo

não o sinto
a não ser na carne.
a alma parece imune
ao arrepio da passagem
como se o vento que o transporta
não secasse a eterna fonte
miragem dum oásis
inexistente.
o deserto alastra dentro de mim
trazido pelo sopro
inevitável
do tempo.
Foto daqui
Publicado por lique às 06:40 PM | Comentários (45)
novembro 02, 2005
Não me perco nem me acho

não me perco nem me acho
no percurso que sabemos
pele com pele
secreto caminho dos lábios
em corpo alheio.
deixo de mim esta angústia
que sai por todos os poros
solidão que escorre em fio
p’los dedos que acariciam.
não me perco
só encontro nos teus olhos labirinto
que me encerra porque o quero
nem me acho
vejo de mim imagem nítida
claro reflexo espelhado em tua alma.
Foto daqui
Publicado por lique às 05:54 PM | Comentários (38)
outubro 26, 2005
Modos de olhar

Escarpa
Ergue-se a escarpa
no caminho da vida
sem retorno
sem escada
ou vereda que a aplane.
Só pela escalada
no ar cristalino
se alcança a visão
de novos caminhos
no horizonte escondido.
Oração
natureza mãe
deusa fértil
origem e matriz
no teu corpo rocha
protege-me do agreste
sopro da vida
mata-me a sede
de água sem mancha
embala-me o sono
limpo de angústia
encerra-me em ti.
Foto: sotavento
Publicado por lique às 11:40 AM | Comentários (35)
outubro 21, 2005
Será?

Armand Payami, Ambivalence
Ah, feliz!
Pois esqueci…
Hoje não dá
amanhã já tarda.
Talvez encomende
o minuto certo
a hora precisa
dum dia qualquer.
Será que se vende?
[Tenham um bom fim de semana. E... sejam felizes! ]
Publicado por lique às 12:05 AM | Comentários (27)
outubro 18, 2005
Sem dúvida

Titouliv, Indoor Games
Quero-te, sem dúvida,
na incerteza de te querer.
Quero-te na orla afiada
da palavra que te envolve
e em arco me alcança.
Quero-te sem que a certeza
me atinja e me descanse.
Quero-te, sem dúvida.
Agosto 2005
Publicado por lique às 08:31 PM | Comentários (41)
outubro 09, 2005
Casulo

Acordei
com a chuva correndo em fio
orla suave
de melancolia no horizonte
dos dias que a vida desconhece.
Embrulhei-me no manto frágil
do ar molhado.
Fiz um casulo da alma
adormeci a borboleta e esperei
a palavra certa
estilete de doçura que liberta
as asas de mil cores em voo livre
arco íris em cada gota que cai.
Foto: evilgreg3000
Publicado por lique às 08:32 PM | Comentários (43)
outubro 07, 2005
Ser asim
Ah,ser assim,
independente
até de mim!
Seguir adiante
ter um destino
mesmo distante.
Ver sempre o fim
dos meus inícios
dentro de mim.
Tão dependente,
por ser assim…
[Vamos para mais um fim de semana eleitoral. Será que este país conseguirá mostrar que a corrupção e a incompetência não compensam? Duvido, mas é por isso que vou votar. Desejando que todos o façam em consciência, ofereço-vos um pequeno poema e mais um pouquinho do novo disco de Maria Rita...]
Publicado por lique às 05:35 PM | Comentários (20)
outubro 02, 2005
Ténue

Sinto-me ténue
miragem indiferente
nuvem de vapor criada
pelo toque do sol quente
na pele do asfalto molhada.
Publicado por lique às 10:23 AM | Comentários (26)
setembro 29, 2005
Flor das dunas

o chão de areia
com o sabor do sal
o sopro do vento
sobre o ardor do sol
e a flor
branca e macia
suave resistente
das áridas dunas
em que existe
Foto: hana_le
Publicado por lique às 10:41 PM | Comentários (29)
setembro 25, 2005
O lugar vazio

acordei as palavras
deitadas na sombra
despertei os sentidos
que o calor não tocava
dei tudo o que, parado
na margem sufocava.
da dádiva de mim trago
a certeza funda e calma
digo-te
só o amor preenche
o lugar vazio da alma.
Foto: Hugo Amador
Publicado por lique às 04:27 PM | Comentários (40)
agosto 30, 2005
Limpar o ar

Quem tem
exorcismo
ou benzedura
uma reza
um trabalho
uma oração
que não falhe?
Como não acreditar?
Preciso limpar o ar
afastar o mau-olhado
pôr os demónios de lado.
Foto daqui
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (41)
agosto 27, 2005
Barco abandonado

Entre mim e a água
só o abandono dos homens.
Esqueleto ancorado no lodo,
restos dos dias do orgulho
de dominar o azul ondulante.
Entre mim e o céu
só vidas que desta se cansaram.
Não alcanço o espelho em que se vê,
não o toco no destino da viagem,
meu sonho perdido de navegar.
Passam outros, proa erguida sem olhar
que o abandono dói por o sabermos nosso
nalgum dia breve, nalgum tempo próximo.
Julho 2005
Foto: hana_le
Publicado por lique às 06:41 PM | Comentários (29)
agosto 22, 2005
Grito preso

Ryan Quinn, Do they never cry
se o grito saísse
se o som alcançasse o longe mais longe
se a voz me ajudasse
e lançasse o eco por esses caminhos
talvez se soltassem os nós que atam
o peito que arde
talvez se rasgasse o véu que tapa
os olhos que doem
talvez visse hoje no ecrã cinzento
a vida a cores
diferentes.
se o grito
da voz
e o eco
no peito
e as cores
nos olhos
talvez…
Publicado por lique às 10:43 AM | Comentários (26)
agosto 17, 2005
Silêncio

o silêncio
um pouco de nada no dia que passa
uma aragem gelada no calor da tarde
um frio suor nas noites de insónia.
nada existe
para lá da certeza exacta da distância
que em nós interiormente se afirma
no amargo sopro do desencanto.
nem a espera
a vida não tem margem que a pare
e as horas arrastam-se e correm
num mesmo tempo simultâneo.
só a esperança
que entra pelas frestas do desejo
de viver.
Foto: Ognid
Publicado por lique às 06:21 PM | Comentários (22)
agosto 15, 2005
Tavira (II)

Cores da cidade
Procurei-te na cidade branca
Nas vielas que o sol queima
Nas pedras gastas das calçadas
Nas igrejas de portas cerradas
Procurei-te na cidade azul
No céu transparente que a cobre
No rio murmurante que a envolve
Nas águas que em paz se misturam
Vi o vermelho nos barcos
O verde no quieto jardim
O laranja ardente do sol
Procurei-te e só a mim encontrei
Nas cores multiplicadas da cidade.
Julho 2005
Foto daqui
Publicado por lique às 08:14 AM | Comentários (22)
agosto 09, 2005
Agosto sem gosto

Bah! Não gosto de Agosto
tédio de dias ardentes
enjoo de noites claras
daquele lendário luar
que (lhe) dá no rosto.
Os dias são excessivos
e a vida pára?
Bah! Não me dá gosto
esta espera do começo.
Podemos saltar o mês?
Podemos viver a vida
sem esperas nem ausências?
Que há neste gosto de Agosto
o fumo espesso de dormências.
Foto daqui
_____________________________
Mas a Márcia diz que, do outro lado do oceano, é assim:
AGOSTO
Clara claridade
claríssima
clarente.
Clara lente a perscrutar
os corpos brancos de inverno.
E as almas.
Claro vento
ventania
canta claro cata-vento
canta vento a despertar
frutos e cores
cheiros e flores
sabores.
Amores?
A gosto:
Agosto.
Publicado por lique às 08:03 PM | Comentários (24)
julho 09, 2005
Flor de mim

Flor, talvez
mas nunca rosa opulenta
nem orquídea requintada
nem cravo aberto de esperança.
Nenhuma flor de enfeite
nenhuma cor de requinte
nenhum emblema gritante.
Flor, talvez.
Se quiseres
perceber a flor de mim
pensa na que surge um dia
entre a secura do campo.
É frágil,breve,pequena
resiste à ardência do sol
no tempo que lhe é dado.
Flor, talvez
da cor dos sonhos suaves.
Flor azul, azul, azul.
Foto: Annie Hall
Publicado por lique às 10:25 PM | Comentários (29)
julho 05, 2005
Blue Sun

Quero olhar um sol azul
dando ao recorte dos ramos
a filigrana dos sonhos,
algo fria, algo nua.
Um grito de inquietação,
um eco em cada poente.
Promete-me um céu laranja,
um grande chapéu ardente
onde o sol projecta sombra,
algo fresca, algo cinza.
Um calor que só se apaga
na cor verde do crepúsculo.
Sei que existe um sol azul
a meio caminho da angústia
tomando a rota do sonho.
Publicado por lique às 07:25 PM | Comentários (28)
julho 03, 2005
Perfeição

Dói-me a beleza exagerada
a perfeição azul do horizonte
a doce transparência da manhã
que finda a névoa da madrugada.
Foto: Francisco Costa Pinto
Publicado por lique às 09:07 AM | Comentários (33)
junho 29, 2005
Só os olhos...

Marc Chagall, Enchantement vesperal
O sol ia alto e o dia suave.
Com os olhos celebrámos o momento.
Dissemos o que a alma sussurrava
nos caminhos misteriosos do corpo.
Só os olhos disseram gritando
que nos sabemos de um tempo sem memória
e dia a dia sem estranheza nos damos
que é nossa a hora.
Publicado por lique às 09:15 PM | Comentários (28)
junho 22, 2005
Dança

Dançar
Seguir a música que se insinua
Deixar o corpo encontrar a magia
Dos passos certos
Ritmados
Sonhar…
Eu gosto de dançar. Sempre gostei, desde que me lembro. Não exactamente daquelas danças consagradas: a valsa, o tango, o passo-doble. Essas são a beleza perfeita quando dançadas por quem sabe. São o encanto para os olhos quando o par rodopia enlaçado num qualquer salão.
Dança comigo
Não ouves a música?
Aquele som latino marcado
Quente ritmo de sedução
Enlaça-me
Dança-(me)
No caminho da música, os corpos evoluem, expressam-se, encontram a forma certa de dizer o que sentem. O que o som os faz sentir ou o que sentem sem qualquer som. E por vezes a dança já não é só dança, é amor feito ao som dolente de um slow.
Agora leva-me
Sentes a proximidade?
O meu corpo junto ao teu
Num tão lento movimento?
Parece música…
Aqui, em nós.
Som: Touch and Go, Tango in Harlem
Publicado por lique às 06:18 PM | Comentários (36)
junho 20, 2005
Mendigo

Deixa ficar essa tigela de lata
aí ao teu lado.
Dorme o sono da bebedeira de ontem,
a que as moedas do dia permitiram.
As horas passam
e tu dormes, sonhas com o neto,
menino loiro que embalaste
no teu colo de homem forte.
Dorme então,
foi-se o tempo das crianças loiras.
Perdeu-se de vez na tua memória
o tempo dos risos e de todo o amor.
Fugiu de ti.
Alguém deitará mais uma moeda
na tigela que ainda está vazia.
Alguém silenciará a consciência
com uns trocos.
Talvez hoje a fome te obrigue a comer
quando a alma só te pede que bebas
para não teres mais nenhuma visão
de criança ou mulher.
Quando vier o orvalho da madrugada
chegarás a ti a manta rasgada,
pedirás de novo ao sono que te embale
e que nada te acorde.
(Texto já publicado no Café Expresso - Tadechuva)
Obrigada, Aziluth
Na Soleira da Porta
A sombra atravessa a soleira da porta,
entre dois invernos tão precoces
como a caliça que cedo de mais caiu do olhar,
e se esvaiu nas lajes como apenas sal.
Há uma réstia de luar pendurada nas paredes,
talvez venha do vestido que ninguém veste
bordado da luz sobrante do último estio
o suor acre e perfumado de quem o usou
Ficou no trajecto um silêncio enfeitado de búzios,
o arranque do carro para a auto-estrada da noite
...astenia pura partir antes do horizonte
É agora difícil pensar em montanhas sem pensar em rios,
porque todas as paisagens se perderam no pulsar das veias.
Esta equação apenas move as mãos
no espaço entre as duas linhas:
o diferencial entre duas potências
elevadas ao mistério da perturbação dos sentidos.
Duas linhas traçadas na casa,
separam os hemisférios em que se move o pensamento.
Palavras traçadas, amordaçadas pela sombra
escorrem pelo chão em fachadas de dor.
São múltiplos de sete brilhando no entardecer
que vive num qualquer vão de silêncio.
E ficou apenas nas mãos sulcadas
o tempo que sobrou do traçado da estrada.
Tudo ou quase tudo, se passa na soleira da porta,
mesmo os voos rasantes que a memória dá ao carteiro.
9 de Set. de 2004
Obrigada, Márcia Maia
epílogo
à luz esverdeada do neon
recita versos à lua
que não há
e adormece
— trôpego e roto —
sob a marquise da mercearia
: a salvo da chuva, à margem
da vida, ao largo
de si.
Publicado por lique às 10:01 AM | Comentários (33)
junho 14, 2005
Ai, Florbela...

Fosse eu Florbela e em meu canto
te diria as vezes que já te esqueci
p’ra mais doidamente me lembrar de ti
e tentar saber-te em horas de espanto.
Fosse eu poeta, aquele ser maior
pudesse amar-te assim perdidamente
cantasse versos meus a toda a gente,
e jamais se calaria o meu amor.
E em teus olhos que guardam meus tesouros
naquelas tardes que são lagos de calma
deixaria fantasias, meus palácios mouros.
Eterna sonhadora, com dálias no regaço
em oferenda te daria corpo e alma
prendendo-te p’ra sempre em meu abraço.
(Tenho que realçar as muitas palavras que pedi emprestadas a Florbela para conseguir escrever um soneto destes… Na verdade, foi escrito para as Noites de Poesia em Vermoim cujo tema era "Soneto". Apeteceu-me brincar com o assunto porque tenho a certeza de que nunca saberei fazer poemas com rima e métrica certa.)
Publicado por lique às 09:19 PM | Comentários (35)
junho 11, 2005
Pela janela da memória

Hoje espreito pela janela da memória,
espalho a incerteza pelos cantos da casa.
Respiro um nevoeiro rendilhado.
Prendo-me e fujo de mim
em cada esquina.
Foto: Américo Cardal
Publicado por lique às 10:10 PM | Comentários (13)
junho 06, 2005
O cair da noite

Hoje escolho o silêncio
nesta hora da tarde que já foi nossa.
Palavras enfeitam e traem o sentido
dizem grinaldas de rosas em locais de cardos
e doçuras de mel em amargos sabores.
Por isso fico em silêncio.
Hoje nem digo da suavidade da hora
ou do sol ardendo na linha do horizonte.
Digo que a brisa me arrepia corpo e alma
mesmo quando é só quente carícia.
Em silêncio me recolho.
Não direi nada que mascare o cair da noite
sobre nós.
Foto: Jorge Casais
Publicado por lique às 09:05 PM | Comentários (36)
junho 01, 2005
Suspensão de mim

Em suspensão me sinto.
Flocos de mim flutuam no ar
falsa leveza que me rasga.
E a alma pesa.
Uso um sorriso suspenso
um doce de amargo sabor,
aquela radiância cinza
dum baço sol.
Qualquer palavra que digo
ressoa como um cristal
carrega o peso do chumbo.
E o som esmaga.
Foto: Roberta Jardim
Publicado por lique às 08:33 AM | Comentários (34)
maio 11, 2005
No deserto

Falas-me de oásis em que podemos descansar
matar a sede que nos toma na voragem dos dias.
Falas-me de momentos roubados em que a vida pára
de locais onde é possível haver intervalos no tempo.
Sei que os oásis são raros para a longa travessia
de um deserto feito de momentos iguais.
E na verdade o tempo não pára em lugar algum
apenas abranda e suaviza as afiadas arestas.
Por isso não me digas de oásis nem de tempo.
Fala-me da vida que nasce nos desertos
da beleza da planta que resiste e cresce
mesmo onde a água é escassa e o tempo árido.
Foto: Paulo Bizarro
Publicado por lique às 05:46 PM | Comentários (28)
maio 04, 2005
Fortaleza

Fechada assim por dentro frente ao mar
revelo só a luz que me ilumina
na fresta que de mim se entrevê.
Nada digo do que está por trás do muro
protecção ou barreira que me sela a alma
e impede a entrada dos ventos invasores.
Nada, nem as brechas que minam as paredes
nem as labaredas dos fogos acesos na noite
nem o bater das ondas e a carícia do mar.
Nada me descobre ou me desnuda.
Nada me mostra.
Eu, fortaleza de mim.
Foto: Revelações Avulsas
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (38)
maio 02, 2005
Poema nosso

Porque dizemos às vezes
o dia é nosso
pensamos agarrá-lo nas mãos cerradas
recusamos ver para lá do limite
das horas que roubamos ao correr do tempo.
Porque ao de leve tocamos
o fio da eternidade
desviamos o olhar da margem estreita
que limita o sonho na realidade dos dias
e dizemo-la planície de horizonte perdido.
Porque entregamos de nós
o infinito possível
vivemos suspensos de horas esperadas
que enfeitamos com as flores da ternura
e preenchemos com a urgência do desejo.
Porque sabemos da vida
e nela nos damos
escrevemos o poema no fluir do tempo
como se o dia fosse nosso…
Foto: José Luís Mendes
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (29)
abril 23, 2005
Palavras novas

Preciso de palavras novas
palavras não gastas.
Dissemos
esperança
igualdade
liberdade
paz.
Dissemos
mas foram morrendo
as palavras na garganta.
Foram morrendo os gritos
nas praças abertas à luz.
Surgiram outras palavras.
Dissemos
pobreza
iniquidade
corrupção
guerra.
Dissemos.
Esquecemos as palavras
ditas na primeira hora
as que gastámos nos dias
de todo o descontentamento.
Hoje quero palavras novas
de cor rubra como os cravos
que em cada ano me enfeitam os olhos.
Palavras que voltem frescas e limpas
como voltam as flores que acordam gritos
numa nova madrugada.
Publicado por lique às 10:05 PM | Comentários (24)
abril 21, 2005
Arame farpado

Deixem-me a liberdade
de não olhar mais
o que não quero olhar.
De ver só parte
da luz que me envolve.
De me recolher
na concha do início
no ninho da inocência
na serena ignorância
das sombras projectadas
sobre o correr da vida.
Deixem-me a liberdade
de ser só eu
dentro de mim
isolada
pelo arame farpado.
Foto: João Reis
Publicado por lique às 09:49 PM | Comentários (30)
abril 15, 2005
Paixão papoila

não
não desdenho a rosa
vermelha paixão acesa
só quero olhar a papoila
beleza vibrante e frágil
espalhando a rubra cor
na linha verde do campo.
não
não desdenho a rosa
mas paixão é a papoila
que arde bela em tempo escasso
dá-se viva à mão que a colhe
partilha o cetim das pétalas
e na mão amada morre
breve.
Foto: Papo-seco
Publicado por lique às 12:07 AM | Comentários (49)
abril 11, 2005
No rasto da lua

Marc Chagall, Amantes ao luar
Dança comigo à luz do luar
vê se do meu rosto
conheces a sombra.
Mostra-me o mar no rasto da lua
sem brilhos de ouro
que o fazem arder.
Dá-me a beber a água gelada
da pura nascente
que o sol não tocou.
Olha nos meus olhos o reflexo frio
deixa a música romântica cantar
o enganador brilho de aço.
Vê-me a alma pelo avesso
embarca na minha viagem lunar
vem ao reverso de mim à luz do luar.
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (18)
abril 06, 2005
Os dias do silêncio

Não sei porque chegam
os dias do silêncio.
Atam as mãos, a boca, a alma.
Há palavras paradas na voz
sem caminho de saída.
Sei-as mas não as junto
na única frase necessária
naquela tonalidade certa.
As letras afogam-se em mim
e afogam-me nelas.
Náufrago de mim
procuro a luz da saída
formo a palavra chave
a primeira que liberta
o grito fechado.
Será assim (re)nascer?
Foto: Ognid
Publicado por lique às 01:27 AM | Comentários (33)
abril 01, 2005
A cor dos meus dias

Cinza leve de fundo
com um pingo vermelho
de paixão acesa.
Manchas descontínuas
de verde esperança.
Um pouco de azul
em tom de ilusão.
Pinceladas negras
em horas incertas.
Esta é a cor dos meus dias
tinta de óleo em mim pintada
que escorre lenta na tela da vida.
Foto: João Parassu
Publicado por lique às 01:05 PM | Comentários (42)
março 30, 2005
Fachadas

Fachadas ruínas rasgadas
escondem um e(in)terno terror
espelhos opacos da vida
memórias veladas guardadas
com chaves erradas torcidas.
Fachadas rostos sem visão
sem olhar real, só vidrado
bocas que falam palavras
de dúbia beleza amarrada
com nós apertados pela dor.
Fachadas rostos ruínas
espelhos bocas com nós
amarrados.
Foto: Revelações Avulsas (obrigada Tó Zé, porque o texto nasceu da foto)
Publicado por lique às 12:44 AM | Comentários (43)
março 27, 2005
Grito

Ouviste o meu grito voando perdido?
Aquele que lancei ao vento da noite
e as árvores embalaram em jeito de mães?
Esperei pelo eco na luz da madrugada
escutei cada som para saber a resposta
só me chegou o silêncio.
Perdeu-se o meu grito.
Talvez o encontres dentro de ti.
Publicado por lique às 08:27 PM | Comentários (41)
março 19, 2005
Compasso de espera

Passam no espaço
os passos de alguém
que não deixam traço
da espera sem fim.
Compasso de espera
sem espaço em mim.
E quando os passos
não forem quimera
será que os seus ecos
dão sentido à espera?
Ilustração daqui
Publicado por lique às 12:15 PM | Comentários (47)
março 13, 2005
Na bruma da tarde

Quero-te na bruma da tarde
na doce movimento das árvores
na incerteza dos dias que acabam
olhos perdidos no longe do mar.
Sei-te nas horas indecisas
em que o dia se despe de luz
como se em ti estivesse a neblina
que me fica em cada despedida.
Chamo-te amor no fim dos dias
quando a maresia invade a paisagem
o sol perde o brilho e espelha o calor
no olhar preso que por vezes queima.
Foto: Ognid
Publicado por lique às 06:33 PM | Comentários (43)
março 10, 2005
É no dourado da tarde

É no dourado da tarde
que me descubro tristezas
pequenas melancolias
inacabadas doçuras.
No ouro do pôr-do-sol
vejo a minha linha d’alma
um limite de horizonte
sono breve de ilusões.
O sol dorme no poente
a noite em breve será
negro cortado de brilho
caminho para outro dia.
Contemplo as brechas da alma
raiadas de ouro vermelho.
Espelho o olhar bem fundo em mim
o sol arde no meu peito.
Foto: Revelações Avulsas
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (25)
março 04, 2005
Raízes

Na noite que foi origem de mim
Procuro o local onde tive vida
Dentro da raiz de todo o meu ser
Enrolo-me
Protejo-me
Em casca rugosa faço o meu casulo
Uno-me ao corpo antigo do tronco
De olhos alheios me escondo
Descanso.
Foto: Herzog
Já publicado num post colectivo no Estrela Vertiginosa
Publicado por lique às 11:40 PM | Comentários (41)
fevereiro 24, 2005
Amor estranho

Amor estranho
Por doce e violento se fazer
Por amargo e suave me parecer
Moldado na incerta serenidade
De dias de desejo e negação
Amor estranho
De riso e lágrimas se enfeita
Em cama áspera me deita
Rugosos lençóis de espanto
Terna seda em minha mão
Diária estranheza do conhecimento de ti.
Diária negação do (re)conhecimento de mim.
Foto: Jivago Sales
Publicado por lique às 08:34 PM | Comentários (32)
fevereiro 17, 2005
Reflexão com foto e bandeira

“Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar “
Jorge Palma
Como dizer isto? Como se fala de amor a um país?
Dizer amor a este país
por querer.
Sem caravelas
ou talvez perseguindo-as
na dimensão do sonho.
Dar a mão, o braço, a alma
levantar o corpo do negrume
e moldar um futuro
possível.
Dizer saudade em positivo
de ideias
de ideais realizados
sonhos concretos
sonhados no dia a dia.
Pensar em mim este país
olhar de frente
a neblina de pesadelos
que disfarçamos com risos
de ecos amargos.
Evocar o sol e o vento
de vontades em comunhão
e seguir, talvez.
Dizer amor a este país
ou desistir.
Foto: Jacob Lopes
Publicado por lique às 06:08 PM | Comentários (43)
fevereiro 13, 2005
Fim de tarde

Fala comigo
vê o sol que ainda aquece
o mar quieto que nos olha
testemunha de outros dias.
Deixa brilhar
a cor de ouro da cerveja
reflectida nos meus olhos
que já cantaste em mil tons.
Fala de ti
que por tanto saber-te eu
esqueço o concreto dos dias
e embrulho as horas em sonho.
Vá, diz de nós
diz que o amor é apenas isto
este sentir que preenche
o tempo que pára e foge.
Foto: Revelações Avulsas
Publicado por lique às 12:36 AM | Comentários (64)
fevereiro 05, 2005
Máscara

Dá-me a máscara
Aquela que quiseres que eu use
Conduz-me pelo salão na dança
Hoje é hora de viver a fantasia
Diz-me o que sou
Columbina ou princesa adormecida
Vou transformar-te em triste Pierrot
Ou príncipe que dá vida num só beijo
Diz que é o fim
E logo a máscara terá que cair
Ao olhar-te serás tu a fantasia
Realidade sonhada dos meus dias
(Desejo a todos um Carnaval divertido ou apenas um bom fim de semana prolongado, para os que o podem gozar)
Publicado por lique às 08:35 PM | Comentários (58)
janeiro 28, 2005
Navegando (II)

Foto: Revelações Avulsas
Obrigada
Bertus :
o mar, ora chão,
ora ondulante, bravio,
mar da consolação,
dono deste meu navio,
de quilha
rumada à esperança
onde tu vives comigo,
procurando a bonança
neste teu porto de abrigo.
a espuma que se espraia
vinda das ondas do mar
tem leveza de cambraia
em toada de encantar...
ai, se um dia eu pudesse
em tuas ondas mergulhar
mágoa minha que houvesse
seria como sol a brilhar...
Menina Marota que deixou um poema de Florbela Espanca :
"Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...
Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?
Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!
Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!"
deSaracomamor (é bom ver-te aqui com essa disposição radiosa):
talvez espuma
talvez esta espuma branca
além
venha falar das viagens
por fazer
talvez apenas se deixe
amar ao vento
num abraço de fervor
talvez seja apenas sal
excessivamente dor
que o rumor das águas
chorem em segredo
talvez só o labor sagrado
das marés
um excesso de vida
a esmorecer
como a paixão que
nasce onda e desmaia
a nossos pés
na ânsia de se perder
Publicado por lique às 05:18 PM | Comentários (21)
janeiro 22, 2005
Se sou assim...
Pelos caminhos da vida
Sem acautelar meus actos
Solto a palavra ferida
Transformo rosas em cactos
Caminho sem precaução
Dou passos desprevenida
Não paro para ver o chão
Pelos caminhos da vida
Sigo em frente sem temor
Nem evito desacatos
Entrego a alma no amor
Sem acautelar meus actos
Se sonho feras espreitar
Ou armadilha estendida
Não me permito hesitar
Solto a palavra ferida
Ao pisar os meus afectos
Sem do amor negar os factos
Firo com dardos directos
Transformo rosas em cactos
(Quadras para um amigo que me deu uma rosa que eu transformei num cacto)
Publicado por lique às 07:06 PM | Comentários (28)
janeiro 17, 2005
Poema para piano azul

Hoje não é dia de desespero
nem desencanto
Nem será dia de amargura
ou desamor
Hoje não quero ouvir choro
não quero pranto
Quero que em cada olhar
se acabe a dor.
Hoje quero que as horas sejam de esperança
sonhada talvez, mas aqui presente
Quem não desiste, luta
Quem de amor vive, ama
Quem dá alegria, ri.
Hoje quero só que as letras do poema
se espalhem nos sons claros dum piano azul.
Foto: Lia Costa Carvalho
Obrigada
vives;
de vida plena e feita.
conclamando a esperança,
em melhores e úteis tempos
sabendo que a receita
deve ser bela e mansa,
e nunca de violência.
com os acordes azuis,
compões amor e decência.
vives.
Hoje
quero apenas ouvir
estas tuas palavras
que soam suaves como notas aos meus ouvidos...
Hoje
quero apenas agradecer-te
por tão formosa seres
por toda beleza que escreves
por poder achar refúgio aqui...
Hoje
quero que saibas
que gosto muito de ti
que é uma delicia vir aqui
Mas acima de tudo quero que saibas
o quanto és importante para mim
quero que saibas
não apenas hoje
e sim,
Hoje
e sempre...
Hoje quero ficar com o teu Poema como lema.
Hoje de Hoje.
Hoje de Amanhã e do Futuro.
Quero viver em Sinfonia Azul com solo em Piano Azul,
esse Piano Azul que a Lia concebeu!...
Publicado por lique às 10:14 AM | Comentários (49)
janeiro 13, 2005
Sombras

Sombras
Quero as que em teus olhos
despertam a dádiva de toda a ternura.
Quero as que os teus braços
derramam no círculo ao redor de mim.
Quero as que o teu corpo
projecta no meu, na entrega do amor.
Sombras
só quero de ti
que outras já seguem o som dos meus passos.
Não as oiço, pressinto-as mais do que as sei!
Publicado por lique às 12:17 PM | Comentários (34)
janeiro 09, 2005
Stormy weather

O vento de tempestade começou a soprar
No início suave, crescendo em rajadas de desespero
Levantou toda a poeira, destapou feridas escondidas
Instalou-se e esperou a chegada das nuvens grossas
Rolos de algodão negro abafaram toda a respiração
Que abrandou, devagar, devagar…
Agora esperamos a vinda da chuva, sem saber sequer onde vai cair
E quando será o dia do sol brilhar, devagar, devagar…
Publicado por lique às 04:44 PM | Comentários (35)
janeiro 05, 2005
Tu

Existes
aí no limite do meu sonho
onde os gritos do silêncio ecoam.
Miragem
concreta em momentos inventados
fuga de mim em dias de azul.
Absurda
a ideia de ti nas horas caladas
planta no meu peito a flor da solidão.
Aí no limite do meu sonho…
Foto: Luís Lobo Henriques
Publicado por lique às 11:29 AM | Comentários (41)
dezembro 26, 2004
Tempo de espera

Cessaram os cânticos
que em tardes de chuva
batiam nos vidros daquela janela.
É agora o tempo branco
da espera de outras euforias
doçura amarga arrastada nas horas.
É um espaço, um salto
um saber de distância calada.
Nem um som, nem um murmúrio
quebram os muros que se erguem.
É um caminho de silêncio
dentro de mim rodeada de risos.
Dias parados no limbo do tempo
baço, que a luz do sol é lá fora.
Tempo de espera. Do inevitável. Da alegria. Da saudade.
Foto: Gonçalo Pereira
(Neste pós-Natal deixem-me chamar a atenção para uma das minhas melhores prendas, aqui na blogoesfera. O regresso (para ficar, esperamos todos) dos riscos do TCA.)
Publicado por lique às 01:13 PM | Comentários (68)
dezembro 15, 2004
Lama

é a lama
que empapa campos verdes deste país
que suja paredes brancas onde o sol pára
que turva os olhos de crianças maltratadas
que se insinua em gabinetes de luxo
que impregna (homens) cinzentos cabides de gravatas
que traz consigo todas as podridões humanas
é a lama…
talvez chova um dia água tanta
que a arraste e a dilua neste mar ao longe
destino traçado, ausência dorida, perdição sabida
partida sonhada, aventura cega, salvação final
talvez chova e nos deixe no olhar
um país claro, um país limpo, um país nosso.
Publicado por lique às 12:08 AM | Comentários (41)
dezembro 09, 2004
Canto cinza

hoje canta a solidão
pássaro negro na árvore dos dias
um canto cinza de embalar a vida
que parou ao lado
nos meus olhos de espanto o brilho escorreu
e ficou gota líquida pairando à beira de água
Publicado por lique às 05:37 PM | Comentários (37)
dezembro 07, 2004
Nascer

Dizem que nascemos
e tudo é igual no grito que damos
no ar que nos dá de presente a vida
naquele respirar já fora da água
Parece que no início
é igual o menino do bairro da lata
e a criança que se deita em finos panos
iguais na procura do sopro da vida
Mas passado um minuto
talvez até nem sequer um segundo
que o tempo aqui é coisa relativa
para um se fecham as portas do mundo
que engalanadas o outro recebem
abrindo doces caminhos de esperança
Contam que em Dezembro
escolheu vir ao mundo entre os animais
em palhas tecidas de pobre humildade
alguém que igualou as duas crianças
lhes poisou nas mãos o dote do amor
e as guiou firme nos caminhos da paz
Contam, que eu não sei
se é história, se é sonho que alguns sonharam
e que, sem piedade, outros da terra apagaram.
(este texto foi escrito para a Noite de Poesia em Vermoim, cujo tema era "Nascimento")
Publicado por lique às 06:58 PM | Comentários (57)
novembro 29, 2004
Quero escrever-te uma carta

Quero escrever-te uma carta
de dor
de amor
de humor
Quero enviar-te um postal
de candura
de ternura
de aventura
Quero mandar-te um recado
Rasga a dor
Lê o amor
Ri do humor
Sorri da candura
Chora com ternura
Parte para a aventura
(Texto já publicado no Blogue de Cartas)
[Estamos numa semana light (com menos um dia) e a entrar na dita "época festiva". Desculpem a reciclagem de um texto que, ainda por cima, se farta de dar conselhos. Aproveitem os feriados, partam para a aventura e deixem lá os blogs - este é o conselho que falta]
Publicado por lique às 09:14 PM | Comentários (39)
novembro 27, 2004
Sabendo ser a hora

Murmura suave o silêncio da tarde
como se a vida parasse por ali
naquele estar só um
onde dois se encontram.
Algures deve ter cantado um pássaro
que lançou no ar as notas inaudíveis
arrepio sentido no corpo dos amantes
que se olharam na alma
sabendo que era a hora.
E disseram a palavra inevitável
em todas as partidas impossíveis
alma plena olhando mãos vazias
aquele ser só um
sabendo ser a hora
Publicado por lique às 02:24 PM | Comentários (70)
novembro 25, 2004
Os dias

Não há dias perfeitos
Nem aqueles em que dos papeis surge uma excepção
Que traz um sentido de fazer a diferença
Nem aqueles em que o sol brilhante me chama
Quando se reflecte no meu mar azul
Nem aqueles em que uma ternura infinda me encontra
E me faz pensar que há felicidade
Nenhum dia é perfeito
Porque a dor espreita em cada minuto de alegria
A minha, a de outros, a dor do universo
Aquela de que me defendo mostrando indiferença
Mas de alguma forma se faz presente
Já não busco dias perfeitos
Só tento unir pedaços em que a vida se diz bela
Publicado por lique às 06:18 PM | Comentários (38)
novembro 23, 2004
Realidade

No rectângulo mágico que perdeu o encanto
nas letras trágicas vermelho negro dos jornais
em tudo o que é escrito ou falado em cada dia
não conto os mortos da guerra, da fome, da injustiça.
Para quê contar baixas quando a esperança se extingue?
Só conto olhares pergunta de crianças esfarrapadas
rugas de mulheres onde as lágrimas fazem leito.
Conto gritos de silêncio nos olhos dos homens
e deixo que a dor me tome, me embale, me segrede
me grite até que eu sinta
me encoste na parede
áspera e fria da realidade.
(Foto tirada daqui. Obrigada ao Pantanero por ter indicado o link)
Publicado por lique às 05:55 PM | Comentários (44)
novembro 21, 2004
Tão longe, tão perto…

É um mundo de palavras feitas sentimento
imagens belas, mais que a realidade
ou talvez ousadas a acordar sentidos
Um mundo de sonhos na ponta dos dedos
diálogos pensados sentidos nas letras
que enchem de ilusão o rectângulo de luz
Por detrás dos sonhos existem pessoas
tão longe e tão perto da mão que se estende
rostos sem contornos, sorrisos ou lágrimas
pessoas palavras ao ritmo dos dias
dizendo o que hoje transborda dos dedos
no mundo sonhado em letras reais
Existem pessoas no mundo dos sonhos
tão longe, tão perto da mão que se estende
Publicado por lique às 07:17 PM | Comentários (60)
novembro 17, 2004
Vício

Vivo presa
em sons murmurados na urgência das horas
palavras escritas, letras de azul
em fundo de luz
aromas que ficam, persistem
vestígios de ti
dá-me agora
a dose diária de amor ternura
antecipada
o pózinho pouco de ciúme
sem razão visível
aquela pitada premente de desejo
ansioso
mata-me hoje o vício de ti.
Publicado por lique às 10:40 PM | Comentários (77)
novembro 16, 2004
A janela da amizade

somos mulheres e sabemos
da dor a presença escondida
sentimo-la quando todos riem
sabemo-la quando alguém nos diz
que num dado dia foi feliz
mas vem um dia em que a vida
desaba feita um céu que nos empurra
nos comprime contra um chão de pedra fria
mas somos mulheres e sabemos
que o nosso olhar se levanta
procura outros olhares iguais
que são outras tantas mãos estendidas
abrindo a janela da amizade
essência central das nossas vidas
Foto: Lmatta/Ognid
(Este post é a minha colaboração na homenagem a uma amiga muito especial. A Lú publicou todas as colaborações. Em nome da amizade.)
Publicado por lique às 12:34 AM | Comentários (35)
novembro 12, 2004
Recado para mim (na minha agenda para algum dia):
É urgente ir
capturar um raio de sol
prender nos dedos
a água pura e fria
parar o tempo
num instante único
conhecer o prazer
escondido
de abrir lentamente os olhos
para a luz brilhante e azul
ao fundo de uma gruta escura.
(Texto já publicado no Blogue de Cartas)
Publicado por lique às 09:17 PM | Comentários (33)
novembro 11, 2004
S. Martinho

Falo então daquele dia de sol
Que todos os anos em nós se repete
Por entre ventos e bátegas de água
Daqueles Outonos que vão já em meio
Falo agora do dia de alegria
Em que provamos frutos vindos da terra
E néctares das uvas há pouco colhidas
Espalhados na mesa da nossa amizade
Falo também do dia do amor
Feito capa quente cobrindo a pobreza
Porque só pelo amor dado e recebido
Em paz se redime toda a humanidade
Foto de M.P.
(texto escrito para as Noites de Poesia em Vermoim do dia 5 de Novembro, organizadas pelo grupo Movimentum - Arte e Cultura )
Publicado por lique às 12:06 AM | Comentários (17)
outubro 25, 2004
Dizer...

dizer amo-te devia chegar
porquê falar das tuas mãos
fazendo a ronda do meu corpo?
porquê encontrar as palavras
sempre tão poucas e pequenas
para o que sinto quando me olhas
antecipando as horas do prazer?
porquê procurar sons incompletos
para teus lábios ansiosos em mim
procura dos recantos escondidos
do corpo e da alma em comunhão?
porquê querer dizer o indizível
a entrega última de corpos sedentos
o atingir a luz em explosão de cor?
porque preciso explicar a ternura
teus olhos pousados sobre meu rosto
no tempo de deixar que o cansaço
nos agarre em murmúrios doces
nos embale até à hora de partir
sem que nenhum parta realmente?
dizer amo-te devia chegar…
(Até para a semana. Espero voltar a meio da semana. Obrigada a todos os que passarem e lerem)
Publicado por lique às 10:24 AM | Comentários (60)
outubro 23, 2004
Redemoinho inconstante

não contemplo hoje o mesmo mar
daqueles dias de mágicos encontros
a inquietação tomou conta das águas
deixando uma lágrima em cada vaga
feita em espuma ténue de desilusão
sei o mar inconstante na cor, na energia
do redemoinho que me arrasta em turbilhão
por isso dele aparto hoje o meu olhar
renego em mim a imagem quase negra
até outra maré de azul me encontrar
Publicado por lique às 12:52 PM | Comentários (36)
outubro 18, 2004
Frente ao mar

agora frente ao mar encontro a serenidade
o coração devagar aquieta-se na certeza
da hora da entrega ao ritmo doutras ondas
navegando marés que morrem noutras praias
raios de sol filtrados por nuvens de Outono
não início de Inverno só primavera tardia
depõem em minhas mãos a dádiva antecipada
despertando o sonho que em vagas inebria
apazigua-se o mar nas rochas junto à praia
e prende o meu olhar para lá do horizonte
Publicado por lique às 12:03 AM | Comentários (92)
outubro 11, 2004
A ver cinza no azul

Faz-se o dia entardecer
O sol brinca às escondidas
Com as nuvens escurecidas
Todo o branco fica sujo
Todo o verde já é murcho
Sem a côr-água alcançar
Meus olhos perdem o mar
Na tarde a hora parada
Traz a alma amordaçada
A ver cinza no azul.
Publicado por lique às 04:31 PM | Comentários (75)
outubro 06, 2004
Sem grande importância

Sem que isso tenha grande importância
Hoje já só queria um abraço
Um doce, terno e sentido abraço
Que me deixasse esquecer o cansaço
E me levasse pela estrada de volta
Ao tempo bom da vida sem freios
Onde caminho ao sabor dos anseios
Sem que isso seja muito necessário
Hoje queria apenas uma carícia
Suave de dedos roçando no rosto
Que do amor me trouxesse o gosto
E me levasse a procurar a vereda
Estreita de encontro à luz de anil
Talvez azul ou de outras cores mil.
Publicado por lique às 10:20 PM | Comentários (57)
setembro 30, 2004
Das flores

Deixa-me falar-te das flores
Que crescem com a chuva e o sol no solo liberto
Ou são de carinho cercadas em jardins privados
Da paixão das rosas, da inocência das margaridas
Do belo amor-perfeito que o é por si mesmo
Da modéstia da violeta e do aroma do jasmim
Do cravo de puro amor feito por nós liberdade
Deixa-me hoje falar-te das flores
Que todos os dias chamam o sol e a água
E fazem com eles o amor que as alimenta
Deixa-me hoje ser eu flor
E querer-te sol ardente e água fresca.
Publicado por lique às 11:40 AM | Comentários (81)
setembro 27, 2004
Mas as crianças...

Vejo fotos tuas mas não te imagino
Correndo nos campos em dia de sol
Não te vejo rir os risos de infância
Sonhar com fadas, anjos, feiticeiras
Não te vejo ser a princesa Aurora
Aquela que o beijo do príncipe acorda
Nem dançar com ele no salão dourado
Onde perderás o sapato de cristal
Não te vejo voar para a Terra do Nunca
Mão dada com Peter eterna criança
Vejo de ti dias de árduas canseiras
Tristeza espelhada em teu olhar adulto
Que briga e desmente os teus poucos anos
Desamor demais quando amor é preciso
Vejo fotos tuas mas não vejo a agonia
Quem quer ver crianças que nunca o foram?
Quem dá o amor quando é tempo de salvar?
(para a Joana e todas as crianças maltratadas)
Publicado por lique às 12:15 AM | Comentários (50)
setembro 25, 2004
Navegando (I)

Navego num mar de azul
Sigo o caminho do vento
Não tenho amarras perto
Nem baias no pensamento
Em frente só há o limite
Que o tempo me quiser dar
Deixei os porquês à espera
De quem quiser perguntar
É no quebrar do meu vidro
No pleno grito lançado
Que a alma leve se eleva
E a vida larga o passado
Publicado por lique às 12:34 AM | Comentários (58)
setembro 23, 2004
A batalha da manhã (ou um início de dia surreal)

Salvador Dali, Galatea
Garrafas de água em linha
Qual exército preparado
Para uma dura batalha
Contra bolas de papel
Porque de papel se trata
Em grossas pilhas deitado
Coberto de tristes letras
Com sentido quase hermético
Há sentidos que despertam
Pelo aroma já rasante
Da doce amarga carícia
Que transborda do café
Naquele café da manhã
Que inicia mais um dia
Bolas de papel esvoaçam
Em luta com gotas de água
(Do sangue do amado morto, Galatea criou um rio. Que obsessão por rios me leva a ver gotas de água a lutar com os meus papéis?)
Publicado por lique às 12:20 PM | Comentários (73)
setembro 19, 2004
Poema de Outono

O vento soprou
Tão doce e sereno
Tocou-me ao de leve
Girou sentimentos
Dormentes, silentes
Que em voo rasante
Tocaram o chão
O fundo da alma
Fez-se de cor de ouro
Castanho ou laranja
Deu frutos já secos
De um doce amargo
Surgiu o Outono
No meu coração.
(Num dia de sol a antecipar o outono)
Publicado por lique às 10:11 PM | Comentários (72)
setembro 17, 2004
Momentos

Momentos há
que nos desligam da vida
que nos desdizem saberes
que nos levam por arrasto.
Furacão dentro da alma
Coração em cavalgada
Cegueira de olhos abertos
Momentos há
que sem sabermos de nós
sem contemplarmos futuro
perseguimos a miragem.
Publicado por lique às 11:34 AM | Comentários (40)
setembro 15, 2004
Do querer e não querer

Quero seguir um caminho
Não quero ver o destino
Quero atravessar um rio
Não quero passar a ponte
Quero caminhar no limite
Não quero olhar a falésia
Quero alcançar aquele porto
Não quero prever tempestades
(Mas tempestades são sempre o que aguarda quem oscila entre o querer e o não querer.)
Publicado por lique às 04:12 PM | Comentários (70)
setembro 06, 2004
Por vezes

Por vezes dou por mim a imaginar
O rosto que sonha a palavra escrita
Vou assim num pensar doce e sereno
Envolta em som e de aroma aspergida
E nessas vezes paira uma nostalgia
De não saber lábios desse clamor
Ignorar dedos de rudeza ou suavidade
Em teclas das quais não vejo a cor
É então que o sol chama por mim
Ou a chuva me convida para a dança
E eu começo caminhando pela vida
No meu real atalho da esperança
Publicado por lique às 10:13 PM | Comentários (52)
agosto 30, 2004
A tua falta

Faz-me falta
Tua presença diária
Voz de sorriso velado
Em palavra fugidia
Faz-me falta
A ilusão de um verso
Que adivinho secreto
Dando cor a cada dia
Fazes-me falta
Tu que hoje ainda não sei
Sabendo já entretanto
O que o regresso inicia.
Hoje em que te sinto faltar
Dia de silêncios estranhos
Espero a doçura do chegar.
(Para um amigo ausente)
Publicado por lique às 10:56 PM | Comentários (33)
agosto 29, 2004
Deserto azul

Será desilusão
Ou um saber já antigo
Que me arrasta assim
Pelas ruas conhecidas
Sem ver nelas um sinal
Sem um ar (des)entendido
Que acenda luz no caminho?
Será algo já sabido
Esquecido de tanto querer
Que me dá esta aridez
Vendo no verde o deserto
Olhando o cinza no azul
(Des)percebendo palavras
De solidão entendidas
Apelos sem nenhum grito?
A aridez já esquecida
Vinda de dias antigos
Sopra em deserto azul
Publicado por lique às 08:37 PM | Comentários (28)
agosto 25, 2004
Só eu sei meu sonho

Não estar aqui
SÓ
Não ser assim
EU
Ser sem sentir
SEI
Ter um viver
MEU
Voar em pleno
SONHO
Quadro: Naedja
Publicado por lique às 09:53 PM | Comentários (42)
agosto 22, 2004
Janelas da alma

Se um dia
Por acaso
Alguma luz cintilante
Viesse bater à porta
Desafio lançado à vida
A tudo o que ainda resta
E eu não quisesse ouvir?
Se uma hora
Um instante
Qualquer raio de luar
Entrasse pela janela
Abrindo a estrada do sonho
Em dias já outonais
E eu desviasse o olhar?
Quando o vento (me) murmura
Dançando no meu beiral
Abro as janelas da alma
À procura de um sinal.
Quadro: Krista Taylor
Publicado por lique às 11:14 PM | Comentários (41)