julho 10, 2006
O (con)texto da foto (III)

O quadro
Sabia-se presa na moldura daquele quadro, olhando impassível os que por ela passavam, como se aquelas cores perfeitas fossem as suas. Alguém a tinha pintado assim, idealizado, retocado nos pormenores. Depois de a ter prendido naquela tela para sempre, acrescentou a moldura, como a porta de uma cela dourada.
Imaginava-se a preto e branco, dramática, ou em pinceladas de cores fortes, revelando todos os contrastes. De alguma forma, detestava aquela perfeição que o pintor lhe atribuíra, aquilo que o retrato mostrava. Culpava-se por ter sido capt(ur)ada assim, escondendo os tons escuros da sua personalidade.
Foi-lhe doloroso entender que precisava planear uma fuga. Apercebeu-se de que o tempo corroía a moldura, pouco a pouco. Esperou até que a primeira lasca se soltou. E depois outra E outra. Era agora só uma questão de paciência. Em breve a moldura partiria, deixando-a fugir para um cenário onde pudesse mostrar todas as cores da vida, sem moldura fixa, sem enquadramento.
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junho 29, 2006
O (con)texto da foto (II)

Paragem
Passava por ali todos os dias. Sempre com pressa, sempre desejoso de chegar aos muitos destinos do seu dia. Preso em mil compromissos, não podia parar para pensar, muito menos para olhar a vida à sua volta. Nunca tinha dado por aquela rua, nem por aquela casa. Sabia vagamente que aquele era o seu caminho habitual, quase aprendido de cor. O carro ficara lá atrás, no local do costume. Uma sensação de estranheza invadiu-o. Perguntou-se se não se teria enganado. Ninguém por perto lhe podia responder. A rua estava deserta e a casa parecia desabitada, em ruínas. Naquela zona da cidade? Sentiu-se inquieto mas obrigado a parar. Sem saber porquê, pressentiu que o normal fluxo da sua vida tinha sido interrompido. A sua vida… a mulher partira, cansada de esperanças frustradas, os filhos tinham crescido sem que ele os conhecesse. Afectos, alguns, em que não se empenhava muito. Porque pensava nisso, olhando a casa em ruínas? Não sabia, não se sentia sequer. A casa chamava-o. Estranhamente, entendeu que não valia a pena preocupar-se com o atraso. Avançou e bateu fortemente com a mão na madeira à sua frente.
Foto: Andrjez Makal
Publicado por lique às 05:35 PM | Comentários (23)
junho 21, 2006
O (con)texto da foto (I)

Esperava...
Esperava, de mãos cruzadas sobre a saia do vestido de sonhos. Alheada do mundo restante, da luz e da sombra, do branco e do negro. Tinha tecido uma teia de cores que ninguém via. Sentia-se enredada nela, imobilizada. Nem um dedo mexia, naquela espera. Só o vestido ondulava, convite a quem conseguisse olhá-la e ver. Mas à volta dela, para lá da teia, todos pareciam cegos. Talvez surdos também. Porque, embora quieta no sonho com que se vestia, dela saía um grito que podia acordar o mundo. Um terrível grito de silêncio.
Foto: Ewa Brzozowska
Publicado por lique às 09:16 AM | Comentários (33)
junho 03, 2006
(Ainda) à volta do Código DaVinci

Já toda a gente falou disto? Pronto, então também tenho direito a dar a minha opinião. Não vou falar especificamente sobre o livro ou sobre o filme. Vou só divagar à volta do tema que já tantas discussões originou. Primeiro, quero fazer alguns esclarecimentos:
- Não sou católica. Tenho o maior respeito por quem o é.
- Acho que não há assuntos que não se possam discutir, desde que esse mesmo respeito se mantenha.
- Parece-me que, se todos seguissem a doutrina de Cristo (tal como ela nos é transmitida), o mundo seria melhor. Ainda que aquela coisa de “dar a outra face” nunca tenha sido muito comigo…
Pergunto-me porque é que um livro agradável de ler mas que, claramente, não é uma obra-prima e tem falhas óbvias de investigação, provoca tanta celeuma. E mais me pergunto porque é que um filme medíocre, que nunca chega a transpor o suspense do livro, consegue acender ainda mais a polémica. Na verdade, a Igreja Católica tem feito as honras desta questão. E Dan Brown enriquece mais, em cada dia.
Em todo este tema, acho que o escritor teve uma ideia "brilhante" com a recuperação e divulgação do “sagrado feminino”. Sim, francamente, se Deus existe, terá que ser masculino, ter um filho homem, etc.? Onde está o lado feminino da questão? Apenas nas mulheres que o choram? Pouco, muito pouco. É bem pensado recuperar antigas religiões pagãs e continuar o culto da Deusa, agora Maria Madalena. E a Deusa tem que ser fértil, sendo o seu corpo o receptáculo da esperança.
A questão da linhagem real de Cristo (o “sang real”) parece-me um bocado rebuscada e, para mim, nem é sequer apelativa. Eu gosto de pensar que Cristo era de origem humilde, um homem igual a todos os outros. E saltamos assim para o problema fulcral de toda esta saga: a natureza humana ou sagrada de Cristo. É claro que isto é (e só) matéria de fé. E matéria de fé não tem prova possível. Dan Brown faz, num livro de ficção, uma opção. Polémica, talvez. Mas legítima. E que, penso eu, não faz a mínima diferença para quem acredita no que a Igreja Católica ensina.
Então, bem feitas as contas, onde está o perigo que este livro parece representar para o mundo católico? Talvez apenas na curiosidade que desperta (sei que em mim despertou) pelos chamados Evangelhos gnósticos, na verdade por tudo o que nos chega da época em que Jesus viveu, para além do “oficialmente” aprovado. Quem mais escreveu, o que escreveu, quais as possibilidades de muito do que chegou até nós estar profundamente alterado, propositadamente ou não? Como sempre, o conhecimento é o perigo. Não o era já, quando Eva comeu do fruto da árvore proibida? Tinha que ser uma mulher…
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maio 25, 2006
As palavras do dia

Há que percorrer a manhã, desde o descolar dos olhos até ao sentimento de realmente acordar que vem com os rituais do café, dos papéis em cima da mesa em pose de urgência. Até lá só o movimento dos gatos, o prazer da água no corpo, aquele arranjo mínimo para que a imagem entrevista no espelho seja agradável e a curta viagem de carro. Por todo o lado, há palavras que se cruzam na mente ainda entorpecida. Palavras que não se fixam, impressões de um momento que, no momento seguinte, fugiram. Nunca será possível reter em palavra escrita todos os flashes que a retina capta de uma forma incompleta.
O dia estende-se em obrigações de muitas palavras onde raramente existe a luz de um som inspirador. Só letras que parecem espantadas, brancas e quase sem sentido. As cores e os sons que chegam de fora são um apelo apetecível. Vão sendo arrumados na memória para um dos dias libertadores de palavras.
A tarde acrescenta a melancolia que lhe é própria, como se a luz se fosse a pouco e pouco esvaindo, trazendo tonalidades próximas do sonho à banalidade das horas. Por vezes, versos soltam-se com os raios de sol que se despedem e volteiam no dourado do poente. É no final do dia e na noite, que acorda todas as interrogações, que dos dedos saem palavras que precisam ser escritas, frases vindas de improváveis recordações, uma espécie de carga em bruto que luta para tomar forma. As palavras do dia.
Foto: Marianne Le Carrour
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maio 17, 2006
As campaínhas mágicas

Havia aquele cheiro que vinha das tulhas cheias de açúcar amarelo que fazia torrões gostosos de derreter na boca e das latas de manteiga onde passava o dedo, sempre às escondidas da madrinha que lhe ralhava sem muita convicção. Sabia-se mais ou menos impune naquelas traquinices.
Gostava de estar ali, no fundo da mercearia, vendo o azeite dourado subir na máquina que depois o deitava nas garrafas que os clientes traziam. A madrinha deixava-a por vezes pesar na velha balança aquilo que pediam.
- Põe um papel vegetal por baixo. Ou dois, sempre pesa mais…
Aquelas pequenas aldrabices constrangiam-na.
- É parte do negócio. Senão, não se ganha nada…
Não muito convencida, lá ia pesando e, sem dar por isso, aprendendo a leitura e as contas. Era o orgulho da madrinha vê-la fazer contas e ler nos velhos jornais. Ainda não tinha entrado para a escola e ali, no meio dos cheiros intensos da velha mercearia, aprendeu bem mais do que lhe ensinariam em qualquer primeira classe.
Quando se cansava, saía pelo armazém do fundo para o quintal. Queria ver o rio, mas o canavial era mais alto que ela. Também não chegava às árvores mas apanhava as nêsperas e as ameixas do chão. Sabiam melhor que as que estavam na fruteira da cozinha.
Enquanto o tempo deixava, todos os dias ia visitar as campainhas azul/violeta que nasciam por todo o lado. Sempre as tinha achado flores mágicas. Apanhava uma e ficava com ela na mão, esperando que a vida lhe trouxesse alguma coisa que não sabia definir…
As flores murchavam sempre mas outras nasciam, baloiçando ao vento. Promessas de feitiços por acontecer.
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maio 10, 2006
Da saudade ou dos "desaparecidos"...
Vi por aí uma foto de alguém que “desapareceu” há mais de um ano. Alguém que me marcou pelo sopro de ar fresco que trouxe na sua escrita, pela capacidade de mobilizar pessoas em projectos comuns, por ser ela, inconfundível. Um caso sério de comunicação. Uma das pessoas que não esqueço, que me faz percorrer de vez em quando o seu espaço abandonado, que ainda me faz sorrir ou me molha os olhos, ao ler velhos comentários.
Aqui na blogoesfera, as aparições e desaparições são coisa normal. Custa-nos ao princípio, depois habituamo-nos, naquela convicção de que, se as pessoas abandonaram isto, foi porque a vida real as chamou de um modo mais forte. E isso é bom. Seja pela carreira, seja pelos afectos, a vida fora dos blogues é a verdadeira vida. Quase tudo aqui é ou se transforma em ilusão. E quem se convence que não é, corre o risco de se magoar seriamente.
Mas não se interrogam por onde andam essas pessoas? Se voltaram e estão por aí, num qualquer blog que não conhecem? Se não voltaram e perderam totalmente este “vício” (ah, sim, é um vício…)? Sou só eu que tenho esta costela saudosista e percorro blogs abandonados, leio textos que me tocaram, releio comentários antigos? Afinal são pessoas que quase todos os dias me diziam uma frase, me deixavam um sorriso, escreviam palavras que me divertiam ou emocionavam. E um dia… puff…"desapareceram" por motivos que posso até conhecer. Deles, ficou a saudade. Talvez seja por isso que hoje pus esta música de fundo.
(Num dia de interrogações sobre o sentido de permanecer aqui. Sei porque comecei, até posso explicar a razão de ter ficado tanto tempo mas custa-me encontrar algo que justifique continuar. Talvez seja só uma fase...)
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maio 02, 2006
Estou-me nas tintas...
Hoje estou-me nas tintas para tudo o que me põem à frente como sendo a realidade. Borrifo-me, estou-me lixando. A economia está mal, estamos na cauda da Europa numa data de coisas, quero lá saber… O desemprego aumenta (que não, diz o governo, recorrendo a estranhos malabarismos matemáticos), e eu com isso?? Morremos aos magotes na estrada de cada vez que há um diabo de um fim-de-semana prolongado, e depois? Ora aí está uma estatística em que estamos á frente. Alguma havia de ser… A corrupção alastra e parece que os tribunais têm tendência a fazer vista grossa, e que é que querem que eu faça? Já estou quase numa de dizer que o que é bom é ser corrupto e não ser apanhado. Afinal, não dá despesa ao Estado com a investigação para depois ser absolvido. A saúde, a educação, enfim aquelas coisinhas básicas para as quais descontamos balúrdios dos nossos ordenados, são regidas por critérios puramente economicistas, quaisquer escolas ou hospitais são fechados sem ter em conta o facto de serem os únicos num raio de n quilómetros (muitos)... e querem que eu chore? Pode ser que os transportes façam mais negócio a levar as criancinhas e os doentes. Entretanto, pode ser que muitos fiquem analfabetos e outros morram. E...? Afinal, o importante é que não sejam info-excluídos. Isso é que nunca. Que não haja uma única pessoa neste país que não saiba mexer num computador, consultar a Internet, enfim todas essas actividades que lhe facilitarão imenso a vida, sobretudo se viver num estado de pobreza escondida, se tiver uma pensão miserável, se estiver desempregado, se, se…. Por falar em reforma, estou a ver que, quando me reformar, vou ter para aí metade da pensão que esperava, mas que seja tudo por uma boa causa… Isto se me deixarem reformar e não decidirem que temos que trabalhar até morrer. Afinal porque não? Já viram, hoje estou-me mesmo nas tintas. Afinal, vêm aí meses exaltantes, vamos lá todos abanar o capacete para o Rock in Rio (que agora podia ser Rock in Rio Tejo, raios!) e alguém tem dúvidas de que a selecção vai fazer um Mundial extraaaaaordinário? Menos ais, menos ais… para todos termos orgulho e andarmos para aí aos pulos a empunhar a bandeira nacional (eu também, claro, ia lá perder a festa…). Ai, que bom que é estar-me lixando para isto tudo!
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abril 17, 2006
Texas não é só isto...

Há viagens que sonhamos e outras que a vida nos “impõe”. Nunca tinha pensado ou planeado ir ao Texas, muito menos a Houston, cidade mal conotada com as negociatas do petróleo e com a dinastia Bush e a actual administração americana. Mas os filhos levam-nos onde não pensamos ir, esticam os nossos limites para lá do imaginável. E, assim, lá fui eu, ainda que não muito convencida…
Não posso dizer que seja uma cidade de encanto. Nem que me deixou um desejo incontrolável de regressar. Mas posso dizer o que não esperava: senti-me confortável em Houston. Deu-me um pouco a sensação de uma grande aldeia, apesar das auto-estradas e dos arranha-céus. Muito grande, claro. É só a quarta cidade dos EUA.
Penso que esse sentimento vem do que realmente caracteriza as cidades, muito mais que os monumentos e os locais mais ou menos belos: as pessoas que nelas vivem.
Existe em Houston uma classe quase invisível, a não ser que frequentemos as lojas e os restaurantes mais caros. É essa a classe dos grandes negócios, da riqueza quase obscena que por ali paira. Depois existem os visíveis nos autocarros, no metro rail, nos táxis, nas lojas: maioritariamente negros e latinos. A cidade é bilingue, o espanhol é falado em todo o lado, espontaneamente até com aqueles que, como eu, têm a óbvia marca de não americana.
Claro que esta separação da população é um pouco simplista mas corresponde em grande parte a uma marcada divisão de trabalho. Há profissões em que não se encontram brancos (taxistas, condutores de autocarros, empregados de supermercados, etc). Os meios universitários e as profissões que exigem um nível de educação mais elevado (por exemplo as profissões na área da saúde que em Houston têm uma relevância grande, devido ao Texas Medical Center, um dos maiores dos EUA), parecem ser mais permeáveis à integração racial. Mas ainda predominam os brancos.
Racismo? Discriminação? Os factos estão aí.
Mas eu disse que me tinha sentido confortável. É verdade.Porque há uma simpatia sulista, até um pouco exagerada, que nos faz sentir bem. Apesar de repararmos nas desigualdades, apesar da cidade ser tão tipicamente americana no seu jeito de viver completamente dependente dos carros, comer fast food péssimo, etc., apesar de, na verdade, não haver nada para ver que nos faça ficar maravilhados… Também existem bonitos espaços verdes, alguns museus que vale a pena ver, um shopping center que se recomenda vivamente a todos os consumistas (a Galleria), bela comida de todos os quadrantes, sobretudo mexicana e um bar tipicamente texano onde se cantam os blues da quase vizinha Nova Orleãs – o Big Easy (quando lá fui, não eram blues mas uma mistura de country e rock que me levou de volta aos anos sessenta). Por tudo isso e porque a minha filha lá está temporariamente, tenho que reconhecer que Houston, Texas, não é só aquela imagem estereotipada que (quase) todos temos.
Na foto: Rice University, Houston, TX
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março 24, 2006
Cores...

Existe aquela caneta azul. Num copo castanho. Digo, para mim, que com canetas azuis só se devem escrever textos felizes. Mas hoje é daqueles dias em que as palavras me puxam para a felicidade dentro da infelicidade, ou a infelicidade dentro da felicidade. Então a caneta azul não serve. Mas talvez o copo castanho lhe dê as características necessárias. Castanho é uma estranha cor. Nem feliz, nem infeliz. Quente mas quase neutra. Para mim, a beleza do castanho depende das tonalidades. A do azul é inquestionável. Então, se calhar, o melhor é escrever com uma caneta de outra cor arrumada num copo de cor também inquestionável. Por exemplo, uma caneta cinza num copo da mesma cor. Aqui, não tenho dúvidas. Cor neutra, ou talvez não… Ocorre-me que talvez seja mais uma cor infeliz. Nunca mais acerto. Branco e preto? Vermelho e branco? Verde e azul? Desisto. Vou escrever no computador, quero lá saber da cor da caneta!
[Moral da história: quando a inspiração está a zero, não se deve olhar para canetas azuis.]
Foto: Emgy
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março 16, 2006
Talvez por tudo querer...

Já não me lembro de quando conheci a Maria. Aceitámo-nos mutuamente e não sei se, na verdade, alguma vez fomos amigas. Dela nunca se sabia nada ao certo. A vida atingia-a em golfadas, em ondas de tristeza ou alegria. Detestava sentir as meias tintas, as esperas, os tempos mortos ou agonizantes e, talvez por isso, forçava situações limite. Só estava bem (ou extremamente mal, o que era quase o mesmo) quando experimentava sentimentos intensos. Positivos ou negativos.
Quem a conhecia à superfície, julgava-a serena e segura. Não descortinava a inquietação no fundo do olhar. Outros achavam-na conflituosa, intolerante para com a falta de inteligência, irritante naquele jeito de querer ter sempre a última palavra numa discussão. Não sabiam que tudo isso era uma forma de sacudir o tédio que por vezes se apoderava dela e de se sentir viva.
Poucos a conheciam realmente. Porque não se deixava adivinhar, fechava-se naquela insatisfação perante a vida. E, mesmo entre esses, ninguém entendia que se fartasse tão rapidamente de tudo o que desejava e, eventualmente, conseguia. Na verdade, só se interessava pelo que não conseguia possuir. Sempre na procura de um qualquer desafio que a fizesse viver.
Não era feliz nem infeliz, ou podia ser as duas coisas num intervalo de tempo mínimo. Tinha alguns, poucos, afectos permanentes. As suas referências. Essas, tentava mantê-las a todo o custo. Até quase à anulação de si própria.
Um dia perdeu alguém que julgava eterno na sua vida e deixou que a tristeza invadisse todos os cantos da alma. Não quis mais desafios, trancou portas e janelas e fez desaparecer tudo o que a distinguia de quem quer que fosse. Lentamente, diluiu-se numa massa informe de gente “normal” e cinzenta. Quando se perguntava por ela, ninguém sabia responder. Maria tinha-se tornado invisível.
Foto: Dada S.
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março 08, 2006
História antiga (?)

-Menina, menina! Toma cuidado. Não deixes que os rapazes te toquem
As tias avós diziam-lhe aquilo, constantemente. Marcavam-lhe a diferença de ser menina. Coisa feminina, coisa intocável até um dia, guardado, secreto.
-Agora já és mulher. É uma grande responsabilidade. E tu, tão novinha… Cuidado, filha!
Era novinha, sim. E aquela palavra cuidado, a responsabilidade de ser mais uma vez feminina, marcada por um Deus em que ainda tentava acreditar e que todos os meses a fazia dolorosamente lembrar-se de que era “mulher”…
Em si, ela começava a sentir raiva daquela diferença. Desejava ser rapaz, homem, descuidado. Desenvolveu padrões de agressividade para lidar com tudo o que considerava discriminação. De sexo ou com qualquer outra motivação.
Talvez as palavras dos membros femininos da família a tenham marcado nas suas relações de afecto, de trabalho. Talvez fosse irremediável a sua sensibilidade exagerada ao que quer que fosse que lhe soasse a inferioridade resultante da sua condição de mulher.
O orgulho de ser feminina veio-lhe primeiro da maternidade. Misturado com a noção que existiam, de facto, questões em que ser mulher era uma enorme responsabilidade mas também uma extraordinária alegria.
Percebeu depois que mulher é igual e diferente. Não da forma que as mulheres da família lhe tinham dito. Mas na capacidade de doação de si própria, na intuição do olhar que tenta entender o que está por trás de outros olhares. Aceitou essa “diferença”. Abraçou o ser feminino que há tanto tempo a marcava, parte de si mas não condição limitante da sua vida.
[Hoje, Dia Internacional da Mulher, dedico este texto que talvez seja história antiga (ou talvez não…) a todas as mulheres que me lêem … e também aos homens que as tentam entender, porque não?]
Foto: Allan Jenkins
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (25)
março 01, 2006
Lembranças no dia de hoje...

A boneca da menina era grande. Vestida de vermelho e branco. Olhos azuis e cabelo louro arruivado. A menina queria ser linda como aquela boneca e ter tranças grandes como ela. Tinha estado doente (muito doente) e aquela boneca era a prenda de Natal que celebrava a sua cura.
Já não se lembra porque lhe chamou Leonor, para logo lhe pôr um diminutivo: “Nô-nô”. A boneca acompanhou-a sempre. Também não se lembra onde arranjava os comprimidos que lhe enfiava na boca para “curar” as maleitas de criança. Isso mais tarde… já a menina andava na escola, brincava numa quinta grande e comia uvas quentes do sol e sujas de pó. A mãe dizia-lhe que faziam mal. Nunca adoeceu por isso.
A menina cresceu, mudou de terra, mudou de casa, namoriscou e foi esquecendo a Nô-nô. Posta a um canto, a boneca, já fora de moda, esperou. Até que um dia uma criança franzina lhe pegou. Chamava-lhe “a pesada”. Porque ela era grande, pesada de mais para as suas mãozinhas sem força. Mas a Nô-nô, com todas as mazelas do tempo à vista, voltou à vida. Mais ainda quando outras crianças lhe pegaram.
A menina da história, já mulher e mãe, embrenhada em trabalho e obrigações, olhava-a com nostalgia. E o tempo foi passando. As outras crianças cresceram também. Mais uma vez, a Nô-nô ficou abandonada num canto da casa que agora já não tem risos de criança.
A menina, agora mulher madura, faz anos hoje. Já os bastantes para pesarem... Não consegue realmente entender porque se lembrou da Nô-nô abandonada naquele canto. Mas sabe que gostava que ela fosse outra vez linda como quando lha ofereceram e que voltasse a arrancar sorrisos em rostos de crianças.
Foto: Elena Bowell
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Obrigada pela lembrança e pelo carinho:
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (44)
fevereiro 21, 2006
Da cor dos malmequeres

Sabem de que cor são os malmequeres? Brancos, amarelos, as duas coisas? Respostas prosaicas. Os malmequeres são cor de primavera. Esta é uma resposta poética.
Também a água não é bem água. Talvez seja um fio de prata ou um líquido caudal. Ou qualquer outra coisa. As cores não são bem as que vemos, mas as de alguma improvável paleta. E sobretudo a dor não é dor. Chamemos-lhe o que quisermos, mas não lhe chamemos dor. Nem tristeza, nem solidão. Nem sequer a tão desejada felicidade. Recorramos a todas as figuras de estilo. Sublimemos. Sobretudo, sublimemos. Façamos um enorme silêncio sobre a vida real, deixemos a poesia dizer do mundo inventado onde, ao de leve, só ao de leve, pairam os nossos sentimentos.
Será para isto que serve a poesia? E será que a poesia tem que servir para alguma coisa? Não para mim, não hoje, sobretudo.
Mas nem sei como vim parar aqui. Hoje eu só queria saber de que cor são realmente os malmequeres. Os verdadeiros que existem nos campos e se sentem nas mãos quando os colhemos. Nos campos reais, da terra real onde cresce a verdadeira vida.
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (39)
janeiro 16, 2006
Instantes

Na manhã que nasceu há pouco, existe uma pureza de cores que me faz acreditar no equilíbrio do mundo. Uma neblina muito leve adoça a luz forte do sol e recorta as silhuetas conhecidas no horizonte. Paira um sentimento de paz inexplicável, uma certeza fugaz de que tudo está bem. É um instante, um breve hiato no tempo normal. Tudo se dilui rapidamente na consciência dos sentidos feridos pela agressão dos sons e cores da rotina matinal.
(Num breve instante de uma vulgar manhã, perdida no trânsito e olhando a harmonia, onde ela existe.)
Foto: Juan Ramón Córdoba León
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Talvez também em busca, se não da harmonia, pelo menos do conhecimento da beleza e da poesia aqui na blogoesfera, deixem-me chamar a atenção para o Encontro "Poesia nos blogs", iniciativa do OrCa dos Sete Mares que se realizará a 4 de Março na Póvoa de Santarém. Para informações e inscrição sigam por este caminho.
Publicado por lique às 07:18 PM | Comentários (20)
janeiro 13, 2006
Poesia (?)

Poesia. Caminho que as palavras escolhem para se juntar. Sem justificação ou prévia intenção. Expressão de sentimentos, de sensações. Jogo de palavras, até.
Olhando à minha volta, a poesia pode estar em todo o lado. Uma flor, uma pedra. O belo e o feio. Tudo pode despertar uma frase que insiste em fazer-se ouvir. Uma frase que sei ter ligação com outras. E que só me larga quando encontra as palavras que a completam. Nessa obsessão pelo complemento, pela forma, pelo final, o poema instala-se e sussurra-me ao ouvido, como se não fosse possível dizer nem escrever mais nada. Tento fugir dele, agarrar outras palavras, outras ideias. Tudo sai imperfeito. Tudo desagua naquele que está dentro de mim, latente.
Num momento, numa hora inesperada, o poema encontra a forma de se dizer e os versos jorram, encaixam. Lutam um pouco entre si, até encontrarem a forma procurada. E eu escrevo.
Mas nenhum poema me deixa completamente. As palavras parecem mudar, acendem interrogações, sugerem novas ideias e inquietações. Por vezes, outra frase salta. E tudo recomeça.
Poesia. A que leio e a que tento escrever. Aquela sem a qual não vivo. A que acende o sonho ou denuncia a iniquidade. A ideia que se faz palavra e as palavras que são alimento das ideias.
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Escrevi isto há uns meses para ser publicado noutro local. Nunca me pareceu adequado para editar aqui. Relido, pareceu-me até um texto que reflecte alguma presunção.
Fica aqui hoje apenas porque, de alguma forma, a poesia parece ter-me abandonado. Nenhuma palavra me persegue, nenhuma frase se torna obsessiva. Só o porquê deste silêncio. Talvez temporário. Talvez não…
Foto: Sophie Thouvenin
Publicado por lique às 08:05 PM | Comentários (26)
janeiro 10, 2006
Fugir

Sempre esta vontade de fugir. De quê, não sei. De mim própria, provavelmente. Partir simplesmente sem destino nem limite. A palavra é essa. Partir. Quebrar amarras, deixar lugares, sem adeus, sem despedidas. Sentir a falta das pessoas em vez de me desiludir delas. Todos os dias.
Mas fico. E com razões que (me) dou, me engano, sabendo-o. Talvez a viagem seja ilusão. Porque, na bagagem, comigo levaria a vontade de fugir.
Arte digital: Sergio Curtacci
Publicado por lique às 08:28 PM | Comentários (31)
janeiro 07, 2006
Olhares (gravados em mim)

O olhar de súplica da criança esfarrapada.
O desencanto nos olhos sem brilho dos velhos solitários
O olhar revoltado dos que sofrem injustiças inesperadas
Os olhos de aceitação dolorida dos que só esperam injustiças
O olhar sem vida das mulheres que a abandonaram no percurso
A desilusão nos olhos daqueles que ainda se decepcionam
As múltiplas tristezas pintadas nos muitos olhares de todos os dias
O olhar cristalino das crianças felizes
A sabedoria nos olhos dos velhos que a podem transmitir
O olhar de luta dos que acreditam no seu poder colectivo
O desafio nos olhos dos que acreditam no seu poder individual
A radiosa alegria nos olhos das mulheres que descobrem a vida plena
Os olhos de ilusão daqueles que todos os dias acreditam
Todas as alegrias de um dia reflectidas num só olhar
A humidade da ternura nos teus olhos quando somos o que queremos ser
O véu de tristeza no teu olhar de adeus, como se cada vez fosse a última.
Foto: Laura Sina, These are the last tears
Publicado por lique às 04:16 PM | Comentários (24)
janeiro 01, 2006
E em 2006...

Um ano mais. Nunca entendi bem a lógica da euforia das festas de fim de ano. Será que provem do facto de termos vivido mais um ano ou da alegria de termos à frente outro do qual não sabemos quais as surpresas que nos reserva? Não sei e sinceramente nunca experimentei essa euforia.
Costumo, de uma forma quase inconsciente, fazer balanços de fim de ano. Sei que o ano de 2005 foi um dos piores da minha vida, por razões que não são para aqui chamadas. Talvez devesse, então, ter esperança que 2006 fosse melhor. Sinceramente, nem por isso. Talvez que a nível pessoal isso possa acontecer e digo isto de uma forma bastante céptica. No entanto, nós não nos podemos separar da conjuntura que nos rodeia e temos que convir que esta não é, de todo, brilhante.
Olhemos para o país em que vivemos. Em 2006, teremos um novo Presidente da República. Parece-me que muita gente pensa que poderemos ter um “salvador da Pátria”. Alguém que nos salve da crise, do desemprego, da real depressão (não só económica) em que estamos mergulhados. Este povo sempre acreditou em “homens providenciais”. Pessoalmente, é um conceito que não me diz nada. Talvez existam épocas de viragem e até pessoas que catalisam as capacidades e as aspirações de um povo. Mas de certeza que um homem só não faz a diferença. Muito menos, no nosso regime político, um Presidente da República. Então… o que é que exactamente esperam essas pessoas? Que um homem infrinja as regras do regime, interfira com o Governo e num passe de mágica resolva tudo? Quando entenderemos todos que é o conjunto da nação que tem que mudar? Quando largaremos esta aspiração do Messias ou D. Sebastião ou o que queiram chamar-lhe?
Certo é que em 2006 algo tem que mudar por estas bandas. Sob pena de ser tarde demais.
Tinha que falar disto. Afinal, é o assunto de que toda a gente fala , neste início de ano. E, tendo já tomado uma opção de voto que, no fundo, é mais pela negativa que pela positiva, gostaria bem que, algum dia, não fosse assim. Gostaria de, um dia, votar em algo em que realmente acreditasse. Sonhos, utopias...
À meia noite, cumprindo aquela tradição de "um desejo por cada passa", dei por mim a achar que não tinha "grandes desejos" que chegassem para as doze passas. Há desejos tão abrangentes que englobam os aspectos mais importantes da nossa vida. E nem me esqueci da passa para o Campeonato do Mundo...
Para mim, o ano começa um pouco triste. A minha filha "holandesa" vai, durante seis meses, virar "americana". Mais longe... Sei bem que a distância pode ser, psicologicamente, um conceito relativo. Na prática, impõe-se.
Ainda assim, neste primeiro dia do ano, encaro-o com serenidade mas sem ilusões. Com a certeza de que me dará coisas positivas e negativas. E sabendo que só me irá oferecer de positivo aquilo que eu conseguir conquistar. A todos os níveis. Não é sempre assim?
[A todos desejo um ano de 2006 que realize os sonhos pelos quais tenham lutado.]
Foto: Carina Meyer Broicher, Life is a long and winding road
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dezembro 14, 2005
Carta ao Pai Natal

Meu querido Pai Natal:
Ora, pois, eu bem sei que já passei a idade de acreditar em ti. Lá por isso, por favor não atires já a carta para o cesto dos papéis. Tudo o que te vou pedir não se compra. Compreendo que a crise já tenha chegado ao Pólo Norte, por isso só te peço coisas que a tua magia pode resolver. Não me digas que não tens magia, estão por aí as crianças que em ti acreditam com as mãozinhas cheias de brinquedos. Nunca percebi porque é que não espalhas essa magia por todas as crianças do mundo. Talvez os teus poderes não cheguem a tanto…
Estou a afastar-me do assunto desta carta que é o de, egoisticamente, te pedir o que quero para mim. Sim, não te iludas. Mesmo o que pedir para os outros, faço-o porque me fará sentir melhor, se acontecer.
Começo pelo nível mais alto, o mais geral. Para o mundo, eu peço-te doses “industriais” de bom senso e sentido de auto-preservação. Paz? Igualdade? Etc, etc… É isso que te costumam pedir? Mas são óbvias consequências do que te pedi. Acho eu…
Passemos a este delicioso país que nos calhou na rifa. Meu caro Pai Natal, este país é um bico-de-obra. Que pedir? Gostava que a nação (o conjunto de todos os portugueses) encontrasse esse “sentido” de nação na vivência do dia a dia. Complicado? Isto começa a parecer discurso de candidato eleitoral? Pronto, digamos então que gostava de nunca mais ouvir ninguém dizer que Portugal não se cumpriu. Que me desculpem os poetas… mas se um país com quase nove séculos de história como nação independente ainda não se cumpriu, é porque somos todos burros ou anormais. Ou simplesmente gostamos de arranjar boas desculpas para cruzar os braços e ficar na cómoda posição de espectador crítico. Vamos é cumpri-lo, exercendo a nossa cidadania todos os dias e as coisas talvez melhorem.
E para mim? Para mim é simples e complicado, ao mesmo tempo. Saúde, dinheiro e amor, não é essa a fórmula habitual?
Na saúde, acho que terás pouca influência. Talvez seja melhor entender-me com os médicos.
Dinheiro, até me custa pedir com esta crise toda, mas não será possível ganhar o euromilhões? Dava cá um jeito… Mas tenho que jogar, não é? Quase todas as semanas me esqueço mas também, se ganhar jogando, não há nenhuma magia nisso.
Vê lá se consegues entender amor como o conjunto dos afectos, de índoles várias. Isto às vezes é complicado, para muita gente. Peço-te que o meu núcleo de afectos se mantenha e continue a ser o pilar da minha vida. Que mais? Talvez que eu aprenda a viver dia a dia, somando pedaços de felicidade e superando as amarguras. Não acredito que consigas dar-me isto tudo… Ah, e já agora, vá lá, faz com que o Benfica ganhe o campeonato e … esquece, isto já é superior à tua magia!
Para terminar, só quero contar-te uma coisa: eu nunca acreditei em ti. Em criança, acreditava no Menino Jesus. Quando passaste a ser moda, já não tinha idade para acreditar. Mas vi a felicidade que tu (ou a ideia de ti) pôs nos olhos das minhas filhas e acho que é só por isso que te escrevo hoje. Vais desculpar-me que te faça mais um pedido: dá-me de volta o meu espírito de Natal!
Pronto, então, um beijo da
Alice
[Amigos que por aqui passam, vou fazer uma paragem até ao início de Janeiro. Desejo-vos um Feliz Natal e um óptimo 2006. E que o espírito de Natal vos encha os corações! ]
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novembro 29, 2005
Quase Inverno

Na encosta para lá das árvores a noite já se anuncia. Curtas são as horas nestes dias em que o sol nos foge. Dentro de nós fazem-se lentamente balanços de vida. Mais um ciclo de tempo se fecha.
Sabemos que a natureza apenas parece adormecer para renascer a seguir. Mas isso não minora o frio que o seu sono nos causa, nem o arrepio de saber que o nosso “adormecimento” é diferente. E o “renascer”, na verdade, vai perdendo a capacidade de acertar o passo pelo da mãe terra.
Hoje a noite cai rápida lá fora. Deixo que os pensamentos se alonguem pelo ano que está quase no fim. Dum lado os ganhos, do outro as perdas. O balanço far-se-á. Contemplo as árvores sem folhas e evito o arrepio. Agasalho-me um pouco mais. Procuro calor onde sei que o encontro. Preparo o renascer. É quase Inverno.
Foto: Laura Sina
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novembro 05, 2005
Uma nesga de céu

Já vos aconteceu começar a escrever sem fazer a mínima ideia do que vão pôr no papel mas tendo uma frase, uma só frase que por todo o lado murmura, fala, grita? Não é o terror da folha em branco, não estou minimamente aterrorizada porque sei que seja o que for que escreva terá que, de alguma forma, ir encontrar esta frase que hoje me obceca :”Uma nesga de céu”. Não o céu todo, nem sequer o azul sem nuvens. Só um pequeno, ínfimo pedaço daquela imensidão. Não será aquilo a que todos temos direito? As vidas cinzentas do dia a dia, a monotonia que nos faz repetir os mesmos gestos às mesmas horas tapam-nos a nossa “nesga de céu”. Levantar às mesmas horas, maquinalmente cumprir a rotina diária, comer às mesmas horas, nos mesmos sítios, com as mesmas pessoas… Onde está a cor da vida? E, sobretudo, onde está o azul? Claro, escapamos de quando em vez, ou porque nos encontramos face a face com a beleza sob qualquer forma ou porque nos defrontamos com sentimentos que nos transcendem e algo acende em nós a luz que revela a paleta multicolor. Entrevemos então a nossa “nesga de céu”. Rara, preciosa. Dificilmente duradoura. Se o for, não lhe damos a importância devida. Distinguir nela o azul da harmonia e guardá-lo em nós nalgum canto escondido é a tarefa que perseguimos, por vezes uma vida inteira.
As palavras trouxeram-me até aqui. Umas atrás das outras, sem nenhum caminho traçado à partida. E tal como comecei, sem destino certo, tenho que acabar. Porque nisto de entrever a “nesga de céu”, não há receitas, nem mezinhas. Muito menos sermões ou grandes dissertações. Ela está por aí. Procurem-na, que eu também o faço. Por vezes encontro-a, por vezes perco-a.
Foto: Manuel Galrinho
[Por motivos profissionais, só voltarei aqui na próxima 5ª feira. Bom fim de semana! ]
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outubro 23, 2005
A casa
Aquela terra tem cheiro de marasmo, de gente parada em vidas sem chama. Talvez seja só a minha reacção, química negativa que eu tenho com o chão onde nasci. Talvez renegue raízes, porque reconheço minhas outras terras, não aquela.
Naquela terra o calor sufoca no Verão e, no Inverno, fustiga-nos o frio . Terras longe do mar, diz-se. Mas não existe essa lonjura toda.
Dizem-na bonita, os que a vêem de fora. Talvez, se não penetrarmos no seu interior, seja possível achá-la bonita. Tem um rio, talvez agora mais um fio de água, que a seca também ali fez estragos. E há uma qualquer beleza especial nas terras que os rios atravessam. Talvez…
O meu caminho ali é sempre igual, entre a visita a quem decidiu ali repousar para sempre e a casa. A casa é como um cofre onde estão memórias guardadas. Memórias misturadas. Daquela bisavó que eu julgava que viveria para sempre. Uma doce memória, que arrasta outras não tão agradáveis. As minhas memórias de criança amada mas solitária. A querer entender os problemas dos adultos. As minhas memórias de adolescente que ali voltava, nas férias. E que revivia a realidade daquela rua estreita. Nas noites de Verão, da taberna do outro lado da rua, que é agora uma pastelaria, saíam os bêbados que iam desabafar desgraças no beco ao pé do quintal. Deitada, nas noites quentes em que o sono não chegava, ouvia-os invectivar a vida. Havia um, talvez até nem fosse sempre o mesmo, que insultava Salazar com todas as asneiras que conhecia, com aquela impunidade que só os loucos e os bêbados possuíam.
Por vezes na casa ainda ecoa a memória de gargalhadas de crianças, abrindo as prendas do Pai Natal. Conseguiam até ouvir os sinos do trenó. Essas são as lembranças mágicas de um tempo feliz. Gostava de poder ficar só com essas e não ver, em cada canto da casa, outros dias, outras tristezas que me fazem ter para com ela um sentimento ambivalente.
É a casa, a única raiz que reconheço, mas está demasiado carregada de recordações. E de perdas. Como a vida.
Foto: hana_le
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outubro 16, 2005
Os olhos das mulheres

Modigliani, Woman with blue eyes
Os olhos das mulheres trazem consigo a água das nascentes.
Meninas, deixam que ela brilhe reflectindo as cores que delas se abeiram. Essa é a idade em que a água, por vezes, turva para sempre.
Mulheres, transbordam-na para os olhos dos amantes, esperando que, ao recebê-la, eles lhes entendam a alma. Difícil é entender a alma de outro ser e a água perde a luz em cada amor que termina.
Amigas, partilham-na com quem tem sede daquela transparência. E guardam reservas em recantos, mesmo quando tudo à volta parece ter secado.
Mães, fazem dela dádiva total, ainda que a sede lhes torne os olhos baços. E encontram sempre mais um pouco, mais uma gota. É aí que a nascente se torna rio.
Os olhos das mulheres levam consigo as miríades de cores que os outros lhes quiserem dar.
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outubro 12, 2005
Andando ao contrário da chuva

Sol, sempre. Sol quase impiedoso para a terra que aguarda, ansiosa, que a água a salve da sua condição desértica. Sol que, no entanto, nos acaricia em cada dia, fazendo-nos desejar que fique.
O sol leva-me para aquela praia, a mesma, a que acumula, como tesouros, recordações de muitos anos. Na esplanada, o aroma do café mistura-se com aquele agridoce cheiro da maresia. O leve ruído do mar e o calor suave que envolve o corpo distraem-me da leitura programada. Ali, as palavras do livro valem menos que o momento da vida. Poder-se-á dizer que a felicidade simples é isto, uma manhã de sol numa esplanada à beira mar. E as recordações que me trazem o saber de momentos futuros, perante aquele mar que me reconhece. Sinto-me próxima daquele “sempre” que poderá ser finito, tão finito como a linha do horizonte, da qual não consigo avistar o termo.
5 de Outubro de 2005 - memórias do último dia de "Verão"
Foto: Nuno Ferreira
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outubro 05, 2005
Memórias de Verão

Matisse, Femme endormie
Sesta
Lá fora parece só existir um som indistinto de pássaros e cigarras. Os normais ruídos da vida numa cidade abrandam ou distanciam-se, naquele concentrar de sentidos no calor do corpo e na dormência que o invade. Pairam no quarto aromas e sabores de mar, de sol, misturados com os perfumes familiares que ficam na casa em cada regresso da praia. Uma mistura complexa de champôs, cremes, água de colónia. Dentro dela, o silêncio, o total abandono à doçura do momento. O braço estende-se no lençol, como que tacteando a ausência. E, suavemente, o corpo entrega-se, rende-se e, envolto no calor da tarde, deixa-se deslizar para o espaço entre o sonho e a realidade.
Julho 2005
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outubro 04, 2005
Incerteza irreal

A incerteza ocupa o espaço limitado por todas as barreiras.
A melancolia repousa no tempo roubado à realidade.
Num mar onde não tenho pé, desaprendi de nadar.
Talvez me segure a uma rocha, talvez aviste o porto, talvez não. Talvez...
Foto: Nuno Belo
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setembro 23, 2005
Uma manhã

De manhã, parei junto ao portão e, à luz do sol, olhei de perto os cavalos que sacudiram as cabeças como se eu fosse um ser extraterrestre. Percebo aquele olhar altivo de narinas frementes. Devo parecer-lhes mesmo um alien e de uma espécie bem inferior à deles. Quem sabe o que se passa na mente de um cavalo?
Dei comigo a pensar que o que estragava o quadro era aquele portão fechado. Se eles fossem selvagens e independentes de qualquer outro ser, se pudessem correr pelo campo, sem portões, a minha felicidade podia ser completa só de os ver, brilhantes e tão absolutamente perfeitos.
Ideias estranhas nos podem invadir a mente quando pensamos em algo tão desejado como felicidade. Pensei que bastava a coragem de abrir portões, o deles e o meu. E correr como eles, absolutamente livre, ser talvez um alien para quem ficasse e para quem encontrasse. E daí? Tudo se resumia em correr livre à luz do sol…
Ah, pois, nada disto faz sentido. Foi só uma daquelas manhãs em que me senti extraterrestre aos olhos de um cavalo.
Foto: Luís Zilhão
Publicado por lique às 09:10 AM | Comentários (26)
agosto 24, 2005
Tavira (III)

As noites do rio
De noite o rio não dorme. Na incerteza do caudal que o mar lhe permite, torna-se ruína de pedras e lodo ou braço de água bem pleno, a reflectir as luzes da cidade amada. A ponte, que dizem ter sido pisada por homens de tempos passados e outras glórias, é o ponto de paragem de quem olha, de quem ali encontra o pedaço de alma que só certos lugares nos devolvem. Entre a ponte e o rio existe um amor antigo, feito de aproximações e fugas. Por vezes ele quase a beija para logo a seguir se afastar, raso no fundo do leito. Nas renovações e desencantos de cada dia, perdura o amor daquele rio pela ponte que o completa.
A vida que fervilha na água também não pára nas horas em que o sol se esconde. Peixes movem-se em conjunto, dançando estranhas coreografias. Por vezes saltam fora de água, reflexo prateado que a lua acentua. Volteiam, aproximando-se do local onde o homem lhes costuma dar pão. Que razão leva um empregado de café, perdido entre gente diferente daquela com quem foi criado, a ser amigo dos peixes do rio? São estranhos os afectos que a vida nos põe no caminho.
Na maré vazia, quando a água é escassa e o leito aparece, impúdico, os homens escavam na lama, à procura do que lhes dará o sustento do dia seguinte. Enquanto a maré permitir.
No cais, onde a água já está mais perto do seu destino, ecoam os sons da azáfama dos homens nos barcos que ainda não saíram. Todos preparam o dia que se segue, sem que a beleza da noite os faça parar. Só o rio se estende, preguiçoso, namorando agora a lua e a cidade. Quem olha, deixa que a fascinação domine as horas da noite.
Julho 2005
Foto : jcd
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agosto 12, 2005
Tavira (I)

A ilha
Existe sempre a magia de chegar. E de a ver do barco, sabendo que me aguarda em cada ano. É quase uma dependência que me leva de volta. Como se ali residisse o reencontro com a inocência das férias de outrora.
A ilha. Espaço de sonho entre a água e as águas. Paraíso por vezes perdido e logo reconhecido em momentos de cumplicidade com o mar de sempre, a areia que os dedos procuram em vão reter, a carícia rude do sol, o silêncio que de alguma forma se consegue impor por cima do ruído de quem não sabe que a paz e a generosidade do mar moraram ali, em tempos. E que bastava escutar o murmúrio daquela vastidão azul, aquele som que não chega a ser ruído, para encontrar, de alguma forma misteriosa, uma alma amiga. Um mar de confidências, risos e lágrimas. Olho-o sempre como um ombro que não falha. Nunca falhou no primeiro abraço, em que o reencontro traz lembranças de muitos dias passados, nem no da despedida em que lhe digo sempre “até para o ano”. E a água faz-se cálida, pensando eu que é só para mim. Como se precisasse de guardar aquela provisão certa de sonho que tem que durar um ano inteiro.
Julho 2005
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julho 12, 2005
Casas com palavras dentro

Passeamo-nos quase todos os dias por estas ruas. Entramos nas casas, sóbrias algumas na cor e no silêncio, enfeitadas outras de cores e sons. Músicas várias fazem-se ouvir. Sorrimos, concordamos, discordamos, confrangemo-nos por vezes. Porque as casas têm palavras dentro e as palavras transmitem sentimentos. É assim que o nosso passeio que se deseja, tantas vezes, lúdico, se transforma em passeio emocional.
A forma de reagir às emoções que as palavras de outros nos provocam, sejam elas positivas ou negativas, determina muitas vezes um “relacionamento” baseado em assumpções puramente virtuais de ambos os lados. Como nestas ruas inexistentes e nestas casas em que passamos algum do nosso tempo podemos ser, realmente quem e o que quisermos, também as emoções que provocamos podem ter premissas falsas. Emoções reais provocadas por falsas ideias de partida. Será que isso invalida o passeio? Será que as palavras não valem por si, independentemente do que imaginamos de quem as escreve? Será que as emoções não devem estar apenas ligadas às palavras e não forçosamente a quem as escreve?
A personalização destas nossas divagações pode fazê-las perder a magia. Mas também pode dar-lhes uma consistência inesperada, perdidos os mitos que construímos. Isso acontece tantas vezes quando os habitantes são companheiros de caminhada de há muito tempo com quem, na realidade ou não, acabamos por criar laços de amizade. E outras emoções se geram quando essas casas que fazem parte do nosso percurso habitual ficam vazias, abandonadas. Outras se constroem, é verdade. Mas visitar as casas abandonadas é, por vezes, ter a certeza de que ninguém substitui ninguém. E de que há palavras de que sentiremos sempre a falta. Ou pessoas?
Talvez seja essa a razão da atracção deste emaranhado de casas com palavras dentro, cujos habitantes se relacionam em zonas forçosamente circunscritas. Tudo pode acontecer.
(A minha casa mobilada com palavras vai ficar de porta aberta para todos os que passam até meados de Agosto. Tenham umas boas férias, ou façam apenas por viver bem!)
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julho 07, 2005
Mais uma vez

“Acordei mal hoje. As notícias que saiam da televisão, que eu abro todas as manhãs quase só para ter ruído de fundo enquanto me preparo para sair, eram demasiado chocantes para serem digeridas tão cedo. Eu sei que 50% ou mais do meu horror provem do facto de tudo se ter passado aqui tão perto. Não sou hipócrita e, se morresse o mesmo número de pessoas no Iraque, eu pensaria "Raios partam estes americanos que nunca mais conseguem sair daquilo em que se meteram sem qualquer necessidade e criam condições para esta merda toda!". Mas foi aqui ao lado. E foi tão sangrento, estúpido, sem sentido...Para que é que isto vai servir? A um passo das eleições, isto só garante ainda mais a vitória já anunciada da direita. A perversidade do terrorismo é essa mesmo: muitas vezes só serve as forças que diz combater. Como sair desta "pescadinha de rabo na boca" em que a humanidade se meteu? Alguém tem brilhantes ideias?”
A 11 de Março de 2004, eu escrevi isto no meu blog no Sapo que estava a começar, a propósito do atentado na Estação de Atocha. Por acaso a vitória da direita gorou-se, talvez apenas por ter sabido gerir mal a crise e se ter precipitado.
Hoje infelizmente a cena repetiu-se e eu pergunto-me se ainda penso exactamente o mesmo. Acrescento, concerteza, a minha pena por ver que tudo continua igual e o discurso cada vez se radicaliza mais, de ambos os lados. A “guerra ao terrorismo” iniciada pelos Estados Unidos, na verdade só conseguiu criar condições para mais actos terroristas. E já nem estou a contar aqueles que todos os dias acontecem no Iraque.
Continuo a não ter soluções na manga, só a certeza de que, por mais segurança e por mais países que decidam acrescentar ao “Eixo de Mal”, esta escalada não vai acabar. Mais uma vez a solução terá que ser política e não considero que a política se faça de armas na mão.
Já agora, como há coisas que me fazem confusão, pergunto-me porque ocorreu este atentado na mesma altura que uma crucial reunião do G8 sobre a qual os olhos do mundo se centravam. Claro que agora a reunião passou a ser olhada de outra forma e as manifestações previstas certamente serão reprimidas. Afinal, há coincidências… ou não haverá?
Independentemente da minha solidariedade para com as vítimas e familiares e de obviamente lamentar e condenar o que sucedeu, garanto que não vou pôr flores nem velinhas no blog. Não. Isto tem que ser resolvido de outra forma e, mais uma vez, não teremos que ser todos a fazer a pressão necessária para que as agressões cessem e soluções políticas que mostrem um pouquinho que seja de criatividade sejam encontradas? Ou será que a muitos interesses cujos rostos, hoje, se dizem muito chocados, não interessa mesmo resolver a questão?
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junho 27, 2005
(Des)ilusões

Hoje o tema é ilusão. Ou, se quiserem, desilusão. Tanto faz, não é? Uma conduz inexoravelmente à outra, num espaço de tempo mais ou menos curto. Claro que a ideia de falar sobre isto não surge por acaso. Por vezes a necessidade de escrever tem tudo a ver com as nossas interrogações. Mas, como estou preguiçosa e desinspirada e já muita gente falou sobre ilusões e desilusões de forma bem mais interessante do que eu, vamos ouvir o que alguns consagrados disseram. Parece que alguns acreditam que as ilusões nos ajudam a viver ou, pelo menos, a suportar a vida.
“As ilusões sustentam a alma como as asas sustentam o pássaro”
Victor Hugo
“Sem se iludir, a humanidade pereceria de desespero e de tédio”
Anatole France
Mas, em contrapartida, há muitos que consideram a ilusão como algo que, de alguma forma nos cega, se calhar apenas porque queremos acreditar nela.
“Nada é mais fácil do que se iludir, pois todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro”
Demóstenes
“Corremos alegres para o precipício, quando pomos pela frente algo que nos impeça de o ver”
Blaise Pascal
“Perder uma ilusão torna-nos mais sábios do que encontrar uma verdade”
Ludwig Borne
Gosto desta última. Tem muito a ver com o que penso, pelo menos neste momento. É assim , nunca se sabe, amanhã posso pensar diferente. Até porque a mais sensata das citações que encontrei, é esta pequena pérola:
“A última das ilusões é crer que as perdemos todas”
Maurice Chapelan
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junho 17, 2005
Momentos

Marc Chagall, Amoureux au bouquet
Viu que ele descansava e sorriu. Lá bem longe, a tarde despedia-se. Sabia que cada momento se eternizaria neles. Era nessa dualidade do tempo que se perdiam para se encontrarem logo a seguir.
Pensou que não queria que ele a olhasse já. Veria para lá do que ela dizia. Sabia dela e de como a alma se lhe escancarava nos olhos. Nunca tivera a certeza se esse baixar de defesas era, nela, fraqueza ou força.
Dir-lhe-ia como tudo era simples. Tão simples como o que de mais complexo a vida tem. Simples como a música que ela sabia que tocava lá fora, ainda que só eles a ouvissem. Simples como estar vivo.
Agora, ele já podia olhá-la.
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junho 09, 2005
Do significado das palavras
Sempre acreditei no valor e na beleza das palavras. No entanto, acontece repetirem-se até ao instante em que já não significam nada. São só um conjunto de caracteres com um som convencionado. Quando nos apercebemos que não fazem sentido, tudo soa estranho à nossa volta.
Gostava de poder viver num mundo de palavras com significado. Ou num mundo silencioso, só com olhares e gestos. Os olhares não se gastam. Os gestos valem por si. Não são símbolos que, quando isentos do sentimento original, nos confundem ou, pior, nos fazem sentir vazios de emoções.
Convoco muitas vezes o silêncio. É a minha defesa sempre que oiço palavras que já não trazem consigo o significado que um dia tiveram. Mas que se repetem. E repetem… até que tudo o que se vai (des)construindo em mim me obriga a articular os sons que , por convenção, damos aos caracteres que formam a palavra “Basta!”.
Publicado por lique às 09:10 AM | Comentários (39)
junho 04, 2005
Do amor eterno

Marc Chagall, Lovers
“Dois amantes ditosos não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem,
são eternos como a natureza”
Pablo Neruda, Cem sonetos de amor
Só o título já faz sorrir os cépticos. E com esta música de fundo e as palavras de Neruda, têm que concordar que isto hoje tem todos os ingredientes de um post quebra-corações. Pois não é essa a minha intenção… embora possa acabar por ser isso mesmo. Ora, eu não disse já que sou contraditória?
Nunca acreditei que o amor pudesse ser eterno. Sempre precisei que o fosse. É compreensível isto?
A história de Romeu e Julieta sempre me pareceu tão inverosímil como um qualquer milagre que me contem. Todas as histórias de amores únicos, de almas gémeas, de pares que se amam “para sempre”, despertam as piadas cínicas que guardo para quem me conta uma patranha e se convence que eu a vou aceitar por boa.
Entretanto sei que, quando amamos, precisamos de pensar que é para sempre. Eu, pelo menos, sinto assim. Senão, que graça tem? Meias entregas, reservas, relações a prazo… para quê? É eterno…. pois, já sei, enquanto dura. Sábia constatação a do poeta.
A minha dúvida é: porque precisamos de acreditar que é eterno? Porquê esta necessidade de absoluto, de infinito? Porque achamos que o sentimento é incompleto enquanto não dizemos “sempre”, sabendo conscientemente que “sempre” não existe?
E seremos todos(as) assim, ou serei mesmo eu que sou uma incorrigível romântica sob a capa de cepticismo que gosto de mostrar? Querem dar uma achega à minha divagação?
Som: Chico Buarque e Telma Costa, Eu te amo
Publicado por lique às 09:14 AM | Comentários (43)
maio 29, 2005
Estranheza

Sentia-se estranha naquele dia. Tudo no pequeno mundo que lhe sustentava a vida parecia ir ruindo pouco a pouco. Na verdade, não saberia dizer se era essa a causa daquela sensação de se olhar como se saísse de si. Todos os ruídos da tarde se ouviam, como se nela se tivesse feito o silêncio.
Foi então que a solidão bateu à porta. Quis dizer que não estava, apenas porque não era o dia ideal para a receber. Como poderia ser, se aquela estranheza não a largava?
Ainda assim, ela foi-se insinuando. Não era de se deixar escorraçar. Entrou e agarrou o gato que dormia. Pô-lo no colo mas, talvez sentindo o frio que dela vinha, o bicho fugiu e foi alongar-se junto da janela, na réstia do sol quente do fim de tarde.
A mulher recusou aquela companhia. Que lhe interessava ouvir quem lhe dizia do silêncio da casa, naquele instante em que os outros não estavam? Que lhe interessava deixar entrar na alma aquele frio? Pôs música a tocar, recomeçou o livro abandonado, agarrou no telefone. A solidão recuou, como se estrategicamente procurasse só um tempo melhor para se impor.
E a mulher continuou a ver-se, espectadora de si. Estranha. E olhando-se, àquele vulto que lhe parecia diferente do que via para lá do espelho, percebeu da fragilidade de tudo o que a envolvia. Da possibilidade de tudo partir, de um momento para o outro, como qualquer vidro. Nem pensou em cristal. Isso seria sonhar-se. Ela via-se claramente como parte de um todo, sem ilusões. E via-se frágil.
Som: Sting, Fragile
(Bom, ainda não é Junho. Mas eu já tinha saudades vossas...)
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maio 08, 2005
Neblina dos sonhos

Na neblina da manhã olho a medo o mundo dos sonhos.
Contemplo o lugar indefinido onde a vida se dissolve em bruma.
Passos indecisos caminham por mim na margem do nevoeiro.
Não sei de estrada ou rumo certo, nem se me encontro ou se me perco.
Fico sempre aquém dos sonhos difusos, recuso entrar no caminho de bruma.
Resisto parada no início da manhã, esperando o sol que mostra o caminho.
Foto: José Godinho
Publicado por lique às 03:32 PM | Comentários (35)
maio 06, 2005
Hoje não escrevo
Hoje não me apetece escrever. Esta é uma frase perigosa porque devia parar já aqui. Escrevi que não me apetecia escrever, o que é, já por si, um paradoxo. Mas posso tentar entender a razão desta minha constatação. Não tenho assunto, tenho assunto mas não tenho inspiração, tenho assunto e inspiração mas, simplesmente, não estou para aí virada? Já escrevi até agora 63 palavras. Com 63 palavras faz-se um poema (e ainda sobejam) ou muitos postzinhos pequeninos só com uma ou duas frases. E agora já são 88 palavras. Dava para muito mais. Mas, pronto, não me apetece escrever. Deve ser de ter estado na fortaleza. Ou de ainda estar… O que é certo é que estou para aqui a esbanjar palavras sem fazer nada de produtivo com elas. E, para falta de produtividade já basta… calma, não posso entrar por aqui, senão escrevo mesmo. E, já disse, não me apetece. Mais vale pôr aqui um dos meus poetas favoritos e resolver assim a situação. Ou simplesmente não fazer nenhum post. Posta, como alguns dizem. Cá para mim, nem tudo se deve aportuguesar. Porque posta, seja ela de bacalhau ou outro peixe, ou ainda um belo naco de carne, não tem nada a ver com estas tentativas literárias que para aqui fazemos. Ou terá? Nãã… 216 palavras. Detesto palavras deitadas fora. Ficam para aí soltas, sem significado, sujeitas a interpretações erradas. Não gosto nada de mal entendidos. Que fazer com estas palavras todas? 244, por agora. Não sei ainda. Mas uma coisa é certa: hoje não vou escrever.
Publicado por lique às 12:25 AM | Comentários (38)
abril 30, 2005
Vertigem de perfeição

Recordo um Maio de alegria perfeita. Sem mácula. Um Maio de bandeiras, cravos e gritos de uma só voz. De esperanças e certezas. De vertigem de perfeição.
Que Maio é o de hoje? Como podemos dar-lhe a vida, a força, o impulso que leve à reflexão e à acção? Como fazer deste dia algo mais que o gritar de slogans? Como dar-lhe um significado real, ainda que imperfeito?
Da alegria perfeita não se pode abusar. Surge raras vezes na vida e tende a fazer-nos perder nessa vertigem. Se a vivemos, recordaremos sempre. Mas tenhamos consciência de que é matéria do sonho que nos ajuda a avançar e a perceber que Maio, no seu dia primeiro, nos deverá servir para lutar pela moderada alegria de conseguir que todos tenham uma vida justa e digna.
Foto e tratamento da imagem: Catedral II (esta foi mesmo indecentemente gamada...)
Publicado por lique às 05:33 PM | Comentários (20)
abril 28, 2005
As palavras

Falámos de palavras. Falamos com palavras. E sentimos a força das palavras. Palavras, leva-as o vento, diz o povo. Será? Pensemos um pouco nas palavras que lemos ou nos disseram e nunca esquecemos. Aquelas que nos atravessam a mente de quando em quando, provocando uma crispação de dor ou um sorriso.
As vozes dos meus pais e algumas palavras que nunca esqueci. Os livros da escola e tantas palavras que decorei de tal forma que ainda hoje as sei : “Batem leve, levemente…”. As primeiras palavras de amor. Todas as palavras de amor ou paixão que significaram algo. Algumas de desamor que particularmente me feriram. As primeiras palavras das minhas filhas. As palavras dos livros mais lidos, dos poemas mais amados. Das canções que me marcaram. De…
Tantas palavras que a nossa mente retém e que voltam à memória sem sabermos porquê! Será que o vento as levou? Não. Ficaram connosco, indelevelmente marcadas em nós. E provocam emoções diversas. Essa é a força das palavras. De uma forma ou de outra, estimular o nosso pensamento, os nossos sentimentos. E provocar uma qualquer reacção.
E, porque hoje me deu para escrever novamente sobre as palavras, talvez seja altura de deixar falar o silêncio e pensar um pouco em tudo isto que escrevi ao correr dos dedos no teclado e que, afinal, não é mais que um amontoado de palavras. Com ou sem sentido, isso dirá quem ler.
Publicado por lique às 06:57 PM | Comentários (34)
abril 26, 2005
Acordar

Sons indistintos rodeiam-me de repente. Começo a tomar consciência do corpo, afundo mais a cabeça para fugir à luz que vem de algum ponto que não identifico. Não a vejo realmente. Sinto-a e recuso-a. Pensamentos confusos cruzam-me a mente enquanto tento situar-me no tempo. Dia, hora. A pouco e pouco a consciência de mim vai crescendo e tento olhar a luz pela nesga entreaberta da janela dos meus olhos. Um pouco só e de novo lhe fujo, àquela luz que já sei vir do dia que lá fora começa. O meu dia interior ainda não começou. Daqui a pouco, talvez. Os olhos abrem de repente. Nunca sei o que me leva a essa decisão que é sempre súbita e penosa. O tecto, as paredes, tudo o que é familiar se vai materializando, enquanto o pensamento já foge para a lista dos “a fazer”. Há que ordenar ao corpo que se levante e que inicie mais um dia, cumprindo a rotina da manhã.
Recomeço todos os dias. Sem motivação. De manhã é possível sentir entusiasmo pela vida? A minha vontade de viver chega mais tarde, está sempre desfasada das horas do dia.
Ilustração daqui
Publicado por lique às 06:28 PM | Comentários (37)
abril 18, 2005
Vento brando em fim de dia

O vento soprava brando nos ramos da árvore. A tarde avançava célere. Era assim o fim daquele dia a que chamámos belo.
Depois viria o que sabíamos não ser nosso. Mas a alma estava plena de entendimento daquilo que afinal nos pertencia.
E nesse saber pairámos.
Nada era importante ali para além do vento na árvore.
Do pássaro que cantava o final do dia.
Do sol declinando na linha do horizonte.
Do imenso mar de emoções.
Foto: Pedro Evangelista
[Por motivos de trabalho, volto só no próximo fim de semana. Talvez lá, onde estou de novo, apareça um outro poeta de Abril. Tentarei ler-vos, se possível.]
Publicado por lique às 12:04 AM | Comentários (32)
abril 12, 2005
O meu eu dividido
Eu, Lique, estava sentada em frente ao PC. Como tantas vezes. Talvez procurasse escrever um poema... Não, porque esses, normalmente, rabisco-os em papel primeiro. Elas apareceram , assim sem que eu consiga explicar como. Senti-me vazia por dentro. E elas ali estavam. A Alice e a engenheira, olhando-me como se eu fosse uma aberração qualquer. Como se tivesse sido transportada para alguma dimensão paralela, ouvi uma voz semelhante à minha mas um pouco mais suave (a Alice, pensei) dizer:
- Que fazes aí? Fui eu que te criei. Não podes ter vida própria, fora de mim.
- Que absurdo! Eu pertenço ao mundo virtual mas as fronteiras entre o real e o virtual (no caso, entre ti e mim) são ténues. Eu também sou parte de ti.
A voz ríspida da engenheira avisou:
-Vocês duas deixem-se de fitas. A mais forte das três sou eu. E não digas que me criaste. Sabes bem que eu existo e que apareço quando queres fugir de certas lamechices.
Perante a engenheira, a Alice é fraca. Por isso deixa-a aparecer para secar os olhos quando as lágrimas querem sair ou para afastar tudo o que a torna demasiado vulnerável. Quando a Alice consegue infiltrar-se completamente em mim, escrevo coisas assim:
"Sem que isso tenha grande importância
Hoje já só queria um abraço
Um doce, terno e sentido abraço
(...)"
Também é a engenheira que lhe garante aquela fama de trabalhadora e competente. Ela, Alice, sente-se tão preguiçosa…
Eu sei tudo isto. Porque eu sou criação das duas, na verdade. Passaram-me partes de cada uma e formaram um misto das duas.
Oiço a Alice dizer:
- A partir de agora, quem escreve sou eu. Tu vais desaparecer. Vais-me deixar …
- Vou-te deixar fazer o quê? Mas não és tu quem me controla?
É por isto que a Alice precisa da engenheira. Para não se deixar dominar.
-Não, quem escreve sou eu. Acabaram-se esses poemas idiotas. Porque tens que falar de amor? O amor é uma mentira. Escreve sobre o mundo real.
Claro que só podia ser a engenheira a dizer isto. Quando ela domina, escrevo assim:
"(...)
Desprendida
Vou cortando laços
Perdendo abraços
No canto da vida
(...)"
Não conhecem este? Nunca o publiquei. Talvez um destes dias.
Oiço-as discutir e percebo porque me criaram. Sendo virtual, consigo algum equilíbrio que elas nunca conseguiram. Extremadas ambas. Em luta constante. Talvez através de mim cheguem a um meio termo. Talvez, quem sabe, se complementem. E se aceitem.
[Bertus, tenho que confessar que os teus "heterónimos" me deram esta ideia… ]
Publicado por lique às 11:30 PM | Comentários (34)
abril 09, 2005
É Primavera ...

É outra vez Primavera. Os pássaros cantam. O ar tem uma doçura sempre (in)esperada.
Céus, que forma convencional e desinteressante de começar um texto! É verdade que é Primavera mas qualquer calendário nos diz isso. Os pássaros cantam e depois? A doçura do ar aparece sempre por esta altura do ano e deprime um bom número de pessoas.
Eu queria falar talvez da felicidade. Daquele sorriso que trazemos por vezes connosco, mesmo que invisível. Teimamos em associá-lo ao ar que nos afaga a face, ao vento que nos despenteia, até à chuva que nos molha, se for caso disso. Mas é mesmo e só felicidade. Um dia, uma hora, um momento. O suficiente para que dentro de nós tudo se harmonize. E suba esse sorriso sem como nem porquê. Mesmo que saibamos o como e o porquê.
Mas a felicidade, essa palavra enorme feita de coisas tão pequenas, não é fonte de inspiração para grandes textos. A tristeza é mãe de muitas mais páginas escritas.
Assim sendo, não sei se sabem, é Primavera. O ar é doce e os pássaros cantam. As flores ornamentam os campos. Lá fora há uma inaudível melodia ao som da qual apetece dançar… Preciso dizer mais?
Foto: Seila
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (35)
abril 04, 2005
O lugar chamado amor

Marc Chagall, Amantes nos lilazes
Sabem que, fora dali, é o mundo real. O mundo de cada um. Não o de ambos.
O tempo real é diferente. Regula-se pelos ponteiros do relógio. O tempo deles segue o bater do coração.
Fora dali talvez não se conheçam. Ou se conheçam parcialmente.
Sabem quem são no mundo real. Não sabem bem quem são ali, naquele tempo e espaço paralelos. Procuram. Tacteiam.
No mundo deles, começam a viagem do conhecimento. Do outro e de si próprios.
Saciado, por um momento, o desejo de conhecimento físico, querem a experiência de “ser” o outro. Ser para entender. Possível, naquele mundo. O mundo paralelo.
Dizem de si. Dizem deles. Dizem do outro. E percebem o que, na realidade, é incompreensível.
O mundo real tem, no entanto, formas de se impor. Como regressar quando cada um se tornou parte do outro? Há que, pelo menos, nomear aquele lugar em que o tempo e o espaço são só deles. Para poder encontrar a referência, para poder lá voltar.
Um diz: intimidade. O outro diz: entrega. Ambos dizem: amor.
Publicado por lique às 09:15 AM | Comentários (36)
março 22, 2005
Manhã um pouco cinza

Lá fora, a chuva das muitas preces chegou. Dentro de mim, a manhã está um pouco cinzenta. Um pouco, só. Nada em mim hoje é excessivo, seja pela positiva ou pela negativa. É um daqueles dias em que me travo para não me deixar levar por sentimentos extremos. De alguma forma, procuro a serenidade que me tem faltado. Não sei, no entanto, se congelar sentimentos será o melhor caminho.
Tento trabalhar mas hoje parece ser impossível. E os papéis que me olham… Chego a encontrar-lhes um ar de reprovação.
Também não me apetece passear por blogs e deixar comentários que hoje não podem ter chama nem graça.
Apetece-me escrever tudo o que me vem à cabeça. Hoje a música de fundo é da “Ópera do Malandro”. Oiço vezes sem conta as minhas faixas preferidas. E relembro um Chico franzino de grandes olhos verdes que vi ao longe, usando binóculos, numa festa do Avante há muitos, muitos anos atrás. Éramos todos tão jovens! Parece-me ainda ouvir o ruído da loucura com a “Geni”,“O meu amor”, ou o “O tango do covil” que os MPB4 interpretaram.
A manhã parece melhorar à medida que as memórias da juventude me invadem. Ou talvez, afinal, de neutra passe a melancólica.
Dou-me conta de que estou a escrever com caneta e papel e não a teclar no PC. E de que ler as palavras no papel me dá um prazer e uma tranquilidade especial que já não tinha há algum tempo.
“Reverter o tempo, curuminha,(...) recolher de vez à escuridão do ventre donde não deverias nunca ter saído”. Diz a canção.
Ilustração daqui
[Desejo a todos os que por aqui passarem uma Boa Páscoa]
Publicado por lique às 10:40 AM | Comentários (67)
março 17, 2005
Poema gorado

Quero escrever um poema. Preciso de palavras,das que ajudam a vida a ter cor. Palavras que fluam dos meus dedos como uma torrente de água transparente. Letras que se juntem e digam esperança. Que falem de amor adulto, completo. Do amor. Frases seguidas de alegria, de entusiasmo, de ternura.
Preciso de palavras dessas, aquelas a que chamamos belas. Para que a vida me pareça bela. Não as sinto nos meus dedos. Não as sinto em mim. Nem sei se ainda se podem escrever palavras dessas. Talvez só se possa dizer da dor, da angústia, da raiva. Talvez só se possa falar de tudo o que nos enche a alma de lama. Porque momentos há em que nos sentimos presos na lama da vida.
Espero pelas palavras que não chegam. Talvez espere em vão pelo tempo em que as sabia. E o poema fica parado, esperando comigo. Poema gorado, mudo, incolor.
Ilustração daqui
Publicado por lique às 10:45 AM | Comentários (43)
março 11, 2005
Medo

Madrid, 11 de Março de 2005
Medo. Medo de estar aqui, outra vez. De olhar o outro ao meu lado. Diferente. É diferente. Será que é um deles? Talvez não...
Lembro. As bombas. O barulho, o sangue. Chega! Deus, será que é um deles? Fiquei sem marido, sem irmão, sem filho... Há um ano. Já um ano? O terror. As velas, as flores. Exorcismos.
Será que é um deles?
Faixa de Gaza, 11 de Março de 2005
Medo. Hoje os tanques ainda não passaram. A cada ruído, tremo.
O meu marido, irmão, filho saiu. Levava granadas num cinto. E eu rezo. Não vai voltar. Sei.
Estou aqui há quantos anos? Tantos... Espero que eles venham. Conheço-os. Deixarão a casa de pé? Ou será hoje que me tiram tudo?
Medo. Crianças lá fora. Corram! Vêm aí os tanques. São eles.
[Passa hoje um ano sobre o atentado de 11 de Março, na estação de Atocha. Lamento os mortos, os traumas. Mas não consigo ver só um lado da questão. O que é o terrorismo?]
Publicado por lique às 11:54 AM | Comentários (42)
março 08, 2005
Mulher. Feminino singular

Botticelli, O Nascimento de Vénus (pormenor)
Hoje, quero dizer de ser mulher. Mulher, feminino singular.
Não filha de pai e mãe, menina preservada, protegida.
Não mulher de alguém, esposa amada, respeitada, com lugar certo na sociedade certa.
Não mãe de filhos(as), desvelada, dedicada, desfeita em preocupação e orgulho.
Mulher por si. Mulher em género e corpo.
Mulher que se (re)conhece ao olhar outra mulher.
Que aprende cedo a conviver com a dor física.
Que quando o desaprende, convive com outras dores.
Que tira da vida o que quer, sabendo muros que se levantam e que contorna ou derruba.
Que luta com outros seres humanos (de qualquer género) pelas suas convicções.
Que sabe da solidão. Da tristeza. Da procura do consolo.
Que pelas mãos e pela palavra conforta quem dela se abeira.
Que aprende o seu corpo como seu. Não de outrem.
Que sabe do desejo. Que o aceita.
Que sabe do prazer. Que o procura.
Que sabe do amor. Que o dá, sem limites, eterno e renovado em cada dádiva.
[Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Este texto é para todas as mulheres, femininas, singulares.]
Publicado por lique às 12:23 AM | Comentários (44)
março 03, 2005
Faz hoje um ano
Carta a quem ler
Gostava que me entendessem. Eu cheguei aqui há pouco tempo, vinda de um local bem diferente. Um local monótono que começava seriamente a estrangular o pouco que me restava de imaginação. Não conhecia (não conheço) as leis deste mundo onde agora passo algum tempo. O desconhecimento da lei não aproveita a ninguém. Esta é uma máxima que o meu pai me ensinou e que se tem revelado sempre verdadeira. Passo a passo consegui não fazer nenhuma contravenção grave. Passo a passo, até aluguei uma casita. Modesta mas, enfim, dá para me instalar. Passo a passo deixei a alma voar porque este mundo é mais largo. Tem limites ,claro. Quando cheguei, julgava que não (ah, o tal desconhecimento das leis…). Depois entendi que é possível bater com a alma nos limites deste mundo. É até possível sangrar um pouco. Entendi também que, como em todos os mundos, existem forças que puxam para um lado ou para o outro e condicionam de alguma forma o espaço em que me podia mover. Nunca gostei de viver isolada, portanto tentei bater à porta dos vizinhos. E aprendi a não bater onde não há resposta. Pelo menos a não bater mais que três vezes. Estabeleci esse limite: três vezes. Hoje tenho aqui por este mundo alguns amigos e vou tentando, passo a passo, estender as minhas asas sem bater de encontro aos muros. Sabendo que eles estão lá.
Maio 2004
Pois é, amigos, esta é uma semana de comemorações. Faz hoje um ano que iniciei, no Sapo, o blog Mulher dos 50 aos 60. O texto que publico é, de certa forma, um olhar para a minha entrada no mundo dos blogs. Data de Maio de 2004. Desde aí, muitas coisas mudaram naquela visão simplista.
Num balanço rápido, acho que a experiência tem sido positiva. Em termos de evolução na escrita e de amizades feitas. Algumas saltaram para a realidade. Outras mantêm-se virtuais, sem nenhum demérito por isso. A todos os que por aqui passam, lêem, comentam, enriquecem os posts com a sua contribuição, o meu muito obrigada. E espero sinceramente que para o ano aqui estejamos, com iguais razões para celebrar.
Obrigada, Seila e Ognid
Publicado por lique às 12:02 AM | Comentários (53)
fevereiro 22, 2005
O corredor dos meus medos

Percorro os meus medos em espiral num poço sem luz, como se reconhecê-los fosse meio caminho andado para os enfrentar. Lá, bem no fundo desse poço, existe um corredor comprido de paredes amareladas e portas, muitas portas de um lado e doutro. Encostados à parede, bancos onde se sentam olhares. Pessoas? Não sei. Eu vejo olhares. Não distingo velhos, mulheres, crianças. Pressinto súplica, desespero, esperança. E dor. Quase palpável é a acusação daqueles olhos. Eu, espectadora. Eles, actores. E a interrogação sobre o porquê de ser assim. Dirigida sei lá a que entidade que não ouve, que não responde. Passo por esses olhares, com vergonha e culpa. Sem encontrar também eu a explicação.
Ali, no corredor escondido no fundo dos meus medos, enfrento as minhas orgulhosas certezas, as minhas arrogâncias, as minhas “máximas de vida”. E sinto que não valem nada. Aqueles olhares também já reflectiram certezas, vaidades, arrogâncias. Também já brilharam de esperança, de amor. E tudo isso se foi, deixando-os ali, seguindo as batas brancas ou azuis que passam, como se delas dependesse o regresso ao que foram. Cada bata que passa acende um “talvez” naqueles olhares. E esse talvez é o que me faz ver claro o corredor e reparar que a luz também entra nele. Às vezes.
Foto: Catedral
Publicado por lique às 05:15 PM | Comentários (52)
fevereiro 15, 2005
Marginal, de manhã...

Gosto de ir para Lisboa pela marginal. O mar é um apelo irrecusável que normalmente me faz começar bem os dias em que tenho que sair da quinta onde trabalho para ir para a cidade. Sigo-lhe o caminho ao contrário e vejo-o fazer-se rio, aninhado junto a Lisboa.
Hoje o sol já brilha forte sobre Sto Amaro. A praia está quase deserta, salvo alguns desportistas inveterados que me fazem sentir alguma culpa (alguma vez eu me levantava a esta hora para ir correr?). Tento encontrar uma estação que me interesse no rádio do carro que está mais ou menos avariado há um ror de tempo. Um perfeito exemplo das minhas decisões adiadas, penso. Porque é que ainda não o substituí? Adiando, adiando…
Finalmente lá consigo uma música que me alegre a viagem, mais ou menos quando passo por aquele bendito repuxo que sempre me levanta interrogações sobre a sua oportunidade e eventual beleza (?). Este país… É um assunto incómodo que deixo para trás. O do país, claro. Não quero pensar nisso. Adiando, adiando…
Em Algés, podia sair da marginal, mas hoje o dia está tão bonito que decido sair em Alcântara. Não quero entrar já na cidade. Lá para a frente em Belém sei que o sol me vai chamar e, por dever, vou dizer não. Como já fiz tantas vezes. Adiando momentos de felicidade, adiando…
Alcântara é o meu ponto de saída e a minha entrada no ambiente degradado da cidade. Até o que é novo é feio (nunca gostei daquela passagem aérea e de todo aquele ferro). Sigo para o destino que é perto. Passo o Calvário e estou quase lá. Passo o portão. O porteiro verifica se uso o cartão magnético para entrar. Bom dia? Não. Muita juventude estuda por ali. Para quê? Para engrossarem as filas dos desempregados, irem candidatar-se ao MacDonald’s ou a caixas de algum hipermercado? Este país… E eu que não quero pensar nisso! Se pensar, a manhã fica estragada e nem o sol me vale. O sol… A seca. Os subsídios. O ciclo vicioso de que não saímos. Basta! Deixem-me adiar….
Foto: João Matos
Publicado por lique às 12:01 AM | Comentários (46)
fevereiro 10, 2005
Horizontes fechados

Há dias de horizontes fechados. Dias de luz fria que arrepia o corpo. Dias de caminhos que se fazem veredas apertadas. Dias em que a esperança se esconde.
Sei desses dias. Sei da vontade de ser um bicho pequeno. Ao canto da sala. Bicho que é esmagado sem saber a razão. Que não pensa, não luta.
Sei que nunca serei bicho pequeno. Que penso e espero que os horizontes se abram. Que procuro o calor para vencer a luz fria. Que por vezes o encontro. E,nesses dias,acendo a esperança.
Foto: Catedral
Publicado por lique às 08:35 AM | Comentários (46)
fevereiro 03, 2005
Conversa (à pressa)

É raro saber de ti. Ocasiões tristes, um amigo comum que morreu, coisas assim. Não que isso seja alguma ideia obsessiva mas, por vezes, apetece-me ouvir a tua voz.
Somos cúmplices. Dizias. Somos cúmplices. E eu costumava rir e perguntar. Cúmplices no crime? Invariavelmente. Era uma piada habitual.
A vontade de ouvir a tua voz. A cumplicidade. Não o amor. Esse voou, fugiu, qual pássaro assustado. Outras mãos o acarinharam. E o pássaro perdeu o medo. Ganhou coragem para voos diferentes.
Mas ouvi-te. O Natal é o pretexto de muitos reencontros.
É a miúda? Disse a tua voz enquanto eu me atarefava nas prateleiras do supermercado. A miúda. Bem passados os cinquenta anos, este “miúda” fez-me rir. Devo ser. Que te havia de responder?
A tua voz disse. Não acreditaste. E eu pensei, enquanto enchia o carrinho. À pressa, sempre à pressa. Talvez não. Talvez não tenha acreditado. Eras importante. Disseste. Era importante? Agora não interessa. Pensei. Agora já não interessa. E disse. Não vale a pena falar disso agora. Já estava na caixa, era tarde.
Disseste ainda. As pessoas não deixam de ser importantes. Não gosto de falar no passado. Eu já estava ao pé do carro. Agora já não interessa. Repito. Um dia falamos. Talvez. Ou nunca. As palavras perderam-se no tempo. Lembras-te? O amor voou. Poisou por aí. Ganhou coragem e partiu. Para outra viagem.
Dezembro 2004
Foto: Carlos Sousa
Publicado por lique às 06:04 PM | Comentários (29)
fevereiro 01, 2005
Ritual antigo

Enquanto os quilómetros vão passando na berma da estrada, olho o horizonte limpo na manhã por estrear. Uma mescla de cores em azul e rosa alaranjado dizem que em breve o sol vai aparecer. Na planície calada, os animais procuram, por baixo da fina camada de gelo, algum alimento que o frio e a seca lhes negam. Paira um silêncio branco, belo, um silêncio puro pendurado nas copas das árvores recortadas como num quadro em tons pastel.
Ao longe, parte do céu aparece laranja avermelhado. E, pouco a pouco, um disco em chamas vai-se mostrando e sobe lentamente, prendendo toda a vida existente na sua contemplação. Deixo entrar em mim toda aquela beleza, sentada no silêncio do carro. Sem um movimento, sei que me curvo perante o sol com o mesmo espanto e adoração dos homens de outrora. Na manhã gelada, a sua aparição é um milagre inexplicável. Como sempre foi.
Sigo viagem para o meu destino que sei. Mas, dentro de mim, existe a sensação de ter cumprido um ritual antigo. E a vontade de seguir sempre pela estrada comprida, na manhã que começa a ganhar cor, até àquele horizonte em chamas.
Foto: Alípio Padilha
Publicado por lique às 11:20 AM | Comentários (37)
janeiro 26, 2005
Memories

Havia cortinados na janela. Cor de laranja. Coavam a luz do sol da tarde em reflexos quentes. Lá dentro, os sons da avenida esbatiam-se. Não me lembro dos sons. Lembro-me da entrega. Da dádiva total, agora sem limites. Das horas, dos minutos que não contámos mas que se escoaram.
Por vezes, o tempo parecia parar para permitir a viagem para lá dos olhos, fundo, bem fundo. Uma viagem tão longa que só uma quebra na passagem do tempo consente. Capturar sentimentos, descobrir recantos longínquos, abrir devagar portas já cerradas há muito, é a maior aventura. A de desnudar a alma, para lá da nudez dos corpos. Aí, o tempo é uma dimensão que não conta.
Lembro-me da realidade a querer impor-se. De corpos que se separam. Só corpos, afinal. As almas ficaram presas na viagem. E os meus olhos retiveram aqueles cortinados quentes, cor de laranja.
Publicado por lique às 08:28 PM | Comentários (44)
janeiro 20, 2005
Neblina (?)
Estamos a pouco tempo das eleições legislativas. Dei comigo a pensar que falta só um mês.
(Aí vem ela com a porcaria da política, já cá faltava! Não podia limitar-se a fazer uns versos manhosos?)
Vá lá, permitam-me umas reflexõezinhas, ainda que sem a argúcia dos brilhantes analistas políticos da nossa praça. Por acaso, é algo em que este país é pródigo… E até dizem umas coisas.
Pois a minha grande interrogação, a neblina que turva o meu pensamento é mesmo esta: mas em que raio de partido vou eu votar?
(Ah, ela também não sabe!!! Então não é… nem…)
Pois é!! Eu não sei e (choquem-se lá com esta!) nunca tive tanta vontade de não pôr os pés na minha habitual assembleia de voto. Entendo bem as razões que, por exemplo, o Zecatelhado invoca para não ir votar. Na verdade, no dia 20 de Fevereiro eu vou deparar-me com um dilema (ou será mesmo trilema ?) que a campanha eleitoral, de certeza, não vai resolver. Não, não esperem que me ponha para aqui a dizer que não voto neste porque fez (ou não fez) isto e aquilo! Nem vou dizer que, vote em quem votar, o que aí vem é "mais do mesmo". Não faço o trabalhinho de casa a ninguém. E este é um TPC que todos devemos fazer.
Admitindo que voto à esquerda…
(ah que grande novidade!!)
Pois, admitindo que voto à esquerda, ainda tenho uma data de hipóteses. E eu queria que a neblina se fosse dissipando na minha cabeça. Parece fácil? A quem é que parece fácil? Acho que nem aos filiados neste ou naquele partido. A situação do país é de tal forma complicada que …
(Querem ver que ela vai defender o pacto como o Jorginho?)
A situação do país é de tal forma complicada que gostava de não ter que votar no menor dos males… que até pode vir a revelar-se maior! E mais não reflicto, por hoje. É que curiosamente a neblina está ainda a adensar-se mais. E eu gostava que um raio de sol entrasse e a dissipasse. No meu pensamento e no de todos nós. Para encontrarmos uma solução iluminada.
(Está bem, está bem, eu calo-me já.)
[Independentemente de neblinas, espero que todos façamos o trabalho de casa e vamos votar no dia 20 de Fevereiro em plena consciência. Essa vai ser a minha campanha.]
Publicado por lique às 07:17 PM | Comentários (33)
janeiro 15, 2005
Do silêncio

"And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence"
Simon and Garfunkel
Deixem-me falar do silêncio. Do silêncio que se instala. Dentro e fora de nós. Reparem que eu não estou a falar de tristeza. Estou a falar de silêncio. Ausência de palavras, de sons. Que estão lá ou já estiveram. Porque não há ausência sem haver ou ter havido presença. O silêncio pode acontecer só porque as palavras não são ouvidas. Porque não fazem sentido. “People talking without speaking”. Será que o silêncio acontece para procurarmos as palavras verdadeiras, redondas, aconchegantes ou frias e afiadas como lâminas? Ou acontece porque, de repente, não o ousamos perturbar e queremos só ouvir o seu som? O som do silêncio. Belo, quando o desejamos. Terrível, quando se nos impõe.
Aqui, hoje, rodeada de sons, queria fazer silêncio dentro de mim. Para me ouvir, para ouvir os outros, tantos outros, próximos ou não. Não invoco o silêncio por não querer ouvir as palavras. Invoco-o para as conseguir ouvir. Para eliminar o ruído.
Foto - Ognid (roubada, em silêncio...)
Sobre o silêncio, deixou o Rui Luis este belo poema:
escuto-me...
são os ruidos do passado
dentro do silêncio
que me envolve
e escuto-me...
sinto...
as vozes dos meus ais
calaram-se devagar
e fez-se sombra
e sinto...
a paz...
travei as guerras
em terras distantes
meus gritos silenciaram-se
e fez-se paz...
Publicado por lique às 09:58 AM | Comentários (23)
janeiro 03, 2005
O primeiro dia de trabalho
Naquele primeiro dia de trabalho, após as festas, a D. Fátima olhava pensativa para as revistas que tinha comprado e não lhe apetecia ler. Sabia que a engenheira já tinha chegado e, mais minuto menos minuto, estaria a telefonar para pedir o correio. Mas sentia-se cansada e os papéis à sua frente desencorajavam-na.
Pensou naqueles dias que tinha passado em casa do filho. Tinha feito todas aquelas coisas boas de que eles gostavam, tinha a sensação de não ter saído da cozinha entre o Natal e o Ano Novo. Mesmo assim, a serigaita da nora não tinha tirado o ar de enjoada no Natal e tinha passado a noite de Ano Novo a dizer como seria bom passar o ano no Casino. Onde iriam eles buscar dinheiro para isso? Aquela rapariga só pensava em coisas que o filho não lhe podia dar. Enfim, na verdade, eles que se entendessem. Mas ela preocupava-se. Nunca conseguia deixar de se preocupar.
A real alegria daquele Natal tinha sido a maluqueira do neto com as prendas que tinha recebido. Muitas. O marido era um mãos largas para o neto. Só para o neto, mesmo. A ela tinha-lhe dado um pirex para substituir um que se tinha partido. O filho tinha-lhe comprado um pijama (onde o iria arrumar naquelas gavetas cheias dos que lhe tinham dado nos outros anos?). Enfim… ela tinha comprado a prestações, a uma senhora que lá ia vender ouro, aquele colar que trazia posto e que toda a gente achava lindo. Prenda dela para ela. Tinha feito uma loucura e o marido estava farto de perguntar como é que ela tinha arranjado dinheiro para aquilo.
Pensou que a engenheira devia estar a pedir o correio e pegou nos papéis. Imaginava as Festas dela. De certeza, não tinha mexido uma palha. Devia comprar tudo feito, caríssimo, e havia de ter passado o ano em alguma festa fina, de certeza…
A engenheira também se sentia, a um tempo, cansada e aliviada por aquele período do ano ter terminado. Pensou que, todos os anos, enfeitava a casa e fazia para a família alargada aqueles petiscos da época de que todos gostavam, numa tentativa de criar um ambiente de conforto e felicidade. Naquele ano, ninguém lhe tinha parecido particularmente feliz e ela tinha sempre a sensação de ter falhado em alguma coisa. As prendas tinham sido escolhidas a pensar em cada um, um pouco à pressa porque o tempo tinha sido pouco. As que lhe tinham dado iam de encontro aos gostos que lhe conheciam. Cada vez lhe parecia mais fútil e cansativa aquela escolha e troca de prendas. Estava a ficar velha e desencantada, pensou. Aquele viver em solidão acompanhada a que se tinha habituado desde nova, começava a pesar-lhe.
Lembrou-se que tinha que pedir o correio. Decidiu ir lá abaixo e, de caminho, beber um café. Como teriam sido as Festas da D. Fátima? Não que lhe interessasse muito, pensou, a tentar chamar aquela carapaça de indiferença com que se defendia dos outros e dela própria, sobretudo. Imaginou-a com a família, feliz com a felicidade deles. Sem dúvidas, sem desencantos. E sentiu uma pontinha de inveja.
Entrou no gabinete. A D. Fátima parecia extraordinariamente atarefada. Milagre de Ano Novo?
- Bom dia , D. Fátima! Então esse Natal, como foi?
- Olha a Srª engenheira. Passou bem as Festas?
- Mais ou menos, D. Fátima. Esta época só tem graça para as crianças.
(Mentira. Lembrava-se de anos de rapariga e jovem mulher com Natais tão felizes…)
- Pois é. Mas olhe, eu estive muito bem em casa do meu filho. A minha nora fartou-se de trabalhar e eu aproveitei para descansar. A Srª engenheira também descansou, aposto!
- Claro. Sabe, eu mando vir quase tudo feito. Nunca me deu muito para cozinhar…
(Gostava de cozinhar, sim… Mas por amor, sem obrigação)
- Pois claro, faz muito bem. Olhe, quer ver este colar que o meu filho me deu?
- Muito bonito, D. Fátima. O seu filho tem muito bom gosto.
(Sabia que ela tinha mentido. Uma colega tinha comentado que ela tinha comprado o colar.)
A engenheira saiu do gabinete e, olhou esperançadamente para o telemóvel que andava sempre consigo. Se ele tocasse, se… Talvez aquele dia ainda pudesse dar-lhe aquelas pequenas felicidades que ia coleccionando, antídoto único contra o cinza que por vezes lhe invadia a alma.
[Para quem não se lembra ou nunca leu sobre a D. Fátima e a engenheira, pode encontrar mais posts relacionados com o assunto aqui, aqui, aqui, aqui e aqui].
Publicado por lique às 06:34 PM | Comentários (75)
dezembro 29, 2004
E aí vem 2005...
E assim, de repente, estamos no fim do ano outra vez. Esta época marca sempre mais um elo na corrente do tempo que teimamos em querer compartimentar. É costume fazer balanços de vida nesta altura. É costume confrontarmo-nos connosco, um pouco a contragosto. Temos o hábito de contabilizar ganhos e perdas de cada ano, como se esta fosse a melhor época para o fazer. Eu posso garantir que não é. Esta é uma época danada em que, por razões várias, as nossas fragilidades teimam em nos agarrar e temos sempre a tendência para ver tudo pelo lado mais lamechas.
Olhemos para o país. Só pode ser o nosso lado mais sensível que nos leva a pensar que nunca existiu tamanha palhaçada a nível político (com o perdão dos palhaços). Oh senhores, nós já vivemos numa ditadura… Com censura, com corrupção, com “tachos” arranjados por compadrio, com negociatas de toda a ordem… Querem comparar?? Isso só pode ser das Festas (assim com letra grande, como costumamos escrever).
Analisemos o mundo. Vivemos duas guerras ditas “mundiais”, com o seu cortejo de horrores, com um número elevadíssimo de mortos, com torturas, tentativas de extermínio de grupos étnicos, etc. Quem diz que o mundo nunca esteve tão mal como agora, só pode estar a ouvir o seu lado mais sensível. Será que estas coisas acontecem hoje em dia? Não, só pode ser das Festas.
Neste fim de ano, também me deu para pensar no que me aconteceu em 2004, aqui neste mundo virtual. Faço contas de somar e subtrair com o que de bom e mau surgiu na minha vida. Positivo, o saldo? Acho que sim. A escrita voltou a ser parte integrante dos meus dias. Entraram na minha vida real pessoas que se instalaram naquela caixinha de afectos que temos dentro de nós. Tudo em 2004. Claro que houve coisas negativas. Mas hoje não me apetece muito falar disso. Mas porque valorizo hoje isto tanto, quando tenho dias em que só me apetece carregar na tecla Delete e fazer desaparecer de vez o blog e a Lique? Só pode ser das Festas.
Pensando bem, talvez seja melhor aproveitar este espírito das Festas e começar a fazer planos e votos para 2005.
Quero um país de cabeça erguida, reencontrado com os que o governam. Quero que todos tenham uma vida digna e com um mínimo de desigualdades sociais. Quero que todas as necessidades básicas (pois, isso: a paz, o pão, habitação, saúde, educação…) deste povo sejam asseguradas. Quero um mundo em paz sem “polícias do mundo” nem “eixos do mal”. Quero que todas as crianças tenham direito à vida e ao sonho. Quero…
Para mim? Quero que me internem depressa, porque ou isto é das Festas ou estou mesmo louca!
(Que o ano de 2005 seja, para todos os que aqui passam, um bom ano!)
Publicado por lique às 10:05 AM | Comentários (56)
dezembro 17, 2004
O meu Natal

O apanhar do musgo para fazer o presépio de figuras de barro com um rio feito de pratas de enrolar rebuçados.
A peça de teatro feita na escola juntando, uma vez sem exemplo, rapazes e raparigas.
O dourado dos fritos de abóbora, batidos na noite de Natal em alguidar de barro.
A corrida matinal à chaminé onde os sapatos brilhantes, colocados de véspera, se tinham enchido de doces e prendas.
O silêncio do sono fingido enquanto ouvia os pais irem buscar o que o Menino Jesus nos tinha trazido (a peste do meu irmão já existia, é verdade…)
A reunião da família à volta da mesa, onde tudo o que estava sabia tão bem…
O enfeitar da casa, já noutro local, com anjos e pinhas douradas.
As rabanadas feitas em conjunto, na cozinha a cheirar a fritos.
O riso de outras crianças (minhas) à volta da árvore cheia de (demasiadas) prendas
O espanto nos olhos delas por o Pai Natal lhes adivinhar os desejos.
O sonho de quatro crianças que juravam ter ouvido os sinos do trenó.
Um sentir doce de que o mundo talvez pudesse ter paz.
(estas são algumas das coisas que gosto de lembrar no Natal)
O conhecimento de que havia crianças a quem o Menino Jesus não dava prendas.
A descoberta de que não havia Menino Jesus nem Pai Natal.
A dificuldade dos meus pais para nos satisfazerem os desejos.
O saber que muitas pessoas passam o Natal sozinhas.
A corrida às prendas, como se isso fosse o mais importante
A dádiva de prendas por obrigação.
O dia de desfazer enfeites e guardá-los numa caixa, cheia de dourados e bolas coloridas.
Os olhos dos meninos sem brinquedos nas montras das lojas.
Toda a solidão que se agrava porque é Natal
As saudades de quem não está junto a mim, sendo Natal.
Toda a dor das perdas da vida que aparece no Natal.
A certeza de que o mundo nunca estará em paz no Natal.
(estas são algumas das coisas que não gosto de lembrar no Natal)
[Desejo a todos um Feliz Natal, pleno de tudo o que é bom, doce e reconfortante. Volto com um post antes do Ano Novo]
Publicado por lique às 09:08 AM | Comentários (62)
dezembro 12, 2004
Procurei-te

Hoje procurei-te no sol que brilha lá fora.
Tentei encontrar o teu rosto no mar, na areia da praia, até nas rochas que as vagas acariciam.
Quis ouvir o teu riso na música que sempre me acompanha.
Olhei as crianças no jardim e pensei ver-te sentado naquele banco.
Quis e esperei que a brisa me trouxesse o teu cheiro.
Hoje procurei-te em todos os sítios errados.
Tentei ver-te em todos os locais onde não estás.
Mas acabei por encontrar-te.
Em mim. Como sempre.
(e hoje a música que me acompanha é a de Lhasa de Sela que me maravilhou com o seu concerto na Aula Magna, no passado dia 6)
Publicado por lique às 10:17 PM | Comentários (66)
dezembro 06, 2004
Norte sentido

Experimentar o sentimento do Norte era o que eu desejava no fim de semana que passou. Para conhecer amigos adivinhados por aqui na net, ouvir poesia e música e captar na câmara fotográfica a beleza incontestada do Porto, para lá fiz rumo com a Wind , o Ognid e a Lmatta. A Noite de Poesia em Vermoim - concelho da Maia, na noite de sábado, foi o válido pretexto da viagem que nos preencheu com simpatia, amizade, hospitalidade e beleza. Na já amiga M.P. reconhecemos a vivacidade, o espírito e a capacidade de comunicação que em poucos minutos nos aproximaram, como se nos conhecêssemos há muito. O bem receber e a hospitalidade foram-nos mostrados como coisa natural, de todos os dias, pelo sonhador Zé Gomes e família e pela Maria Mamede, uma senhora poetisa. Eu e Wind tivemos finalmente “à nossa beira” o revolucionário de coração puro e olhos doces, Pantanero .
A noite de sábado correu suave, como a poesia que ouvimos e a música que nos foi trazida pelo Grupo Coral “Cantar Poesia” e pelo duo “Sons do Vento”. A extraordinária voz da Ivone dos Sons do Vento levou-nos a paragens onde as águas correm claras e o vento é só brisa. Ali, a cultura desenvolve-se fazendo e não esperando que outros façam. O final da noite em casa de Maria Mamede trouxe-nos os sabores e os saberes de como receber e fazer amigos.
No domingo o sol iluminava a Ribeira e, enquanto as máquinas dos fotógrafos disparavam, eu e a Wind desenvolvemos amizade e cumplicidade, com o Douro por testemunha. Por essa altura, a alma já estava bem repleta de beleza e confortada pelo sentir do Norte. Mas a tarde tinha que nos dar um pouco mais. Em Serralves, a exposição de Paula Rego mexeu com todos os nossos sentidos, agredindo um pouco, maravilhando outro tanto. Final perfeito para quem tinha que voltar para o Sul.
De algo eu sei e aqui fica para que conste. Todos nós partimos do Norte com o desejo de voltar a senti-lo e aos amigos que lá deixámos. Com tempo. Com mais tempo…
Foto: M.P.
(A reportagem fotográfica aparecerá, em breve, no Catedral. O Zé Gomes fará certamente o relato da Noite de Poesia no Movimentum-Arte e Cultura)
[Agradeço ao Zé Gomes e família e à Maria Mamede toda a amizade, as atenções e o terem-nos aberto a porta das suas casas, como se fôssemos amigos de há muito tempo]
Publicado por lique às 12:23 AM | Comentários (44)
dezembro 03, 2004
As horas dos meus dias

Se eu pudesse (d)escrever as horas dos meus dias, saberias de mim aquilo que não digo. Tudo o que nem as palavras que ouves te dizem porque a verdade completa fica comigo. As minhas horas formam uma cadeia quase sem surpresas, repleta de actos, de obrigações, das alegrias e tristezas de uma existência comum. Dizer-te que, quando as horas me trazem a tua lembrança, o dia muda a cor e algo canta em mim melodias inesperadas é, talvez, dizer-te de mais. Ficarias a saber segredos meus, em cada canção está um guardado. Terás que adivinhar os segredos das minhas horas. Das muitas horas da minha vida. Neles está a chave para o conhecimento de mim. E quando me souberes totalmente, podes partir porque já levas contigo a eternidade do amor.
[Eu volto na 2ª feira. A todos um bom fim de semana]
Publicado por lique às 08:44 AM | Comentários (32)
novembro 15, 2004
Contenção
Contido. Foi o que a Ardelua/Cecília disse num comentário, já há uns tempos. E deixou-me a pensar…Por outro lado , a MJM ,num outro post, disse :“tens assim esse à vontade de lamber feridas em público, impudicamente.” Talvez , de facto, alguns textos sejam contidos demais. Será? Por vezes acho até que exponho aqui uma boa parte da minha vida. Ou que, pelo menos, procuro ser verdadeira quando os textos versam a minha intimidade. Afinal será que lambo as feridas de forma contida? E, de facto, será a vida privada de cada um ,só por si, e a não ser que a qualidade da escrita o justifique, matéria de interesse literário? Talvez de interesse humano. Mas será que os blogs são para despertar o interesse humano?
Encontra-se todo o tipo de blogs neste mundo virtual, sendo que a qualidade literária se pode encontrar em qualquer um dos géneros. Os diários pessoais, os de divulgação literária, os de obra poética própria, os de opinião, etc. E há também muitos em que, como é o caso deste, várias coisas se misturam : textos próprios, textos de autores consagrados, artigos de opinião e artigos sobre a vida pessoal. Resumindo, uma mistela. As opções são: separar por tipo de artigos e manter mais que um blog ou deixar ficar assim mesmo, ainda que incaracterístico. Por agora fica assim, até porque não há tempo para mais.
Mas esta conversa (isto hoje vai mesmo ao correr dos dedos no teclado) tinha começado por causa do adjectivo “contido” relativo ao poema Navegando e do comentário, que eu sei pleno de carinho, da minha querida MJM no post A(s) viagem(ens). Os meus textos serão contidos ou exponho demais ao meus sentimentos? Será que não deixo transparecer mais do que exactamente eu quero que transpareça? Muitos textos não serão meros jogos de palavras, sem qualquer motivo real a sustentá-los? Eu não vou responder a estas perguntas. Estou a fazê-las a mim própria, sabendo que explícita em termos de sentimentos e emoções nunca fui. Gosto de reflectir sobre aquilo que sinto. E de ter o retorno relativamente ao que senti no momento em que escrevi. Talvez a contenção esteja nas palavras usadas. Talvez simplesmente eu não acredite em sentimentos arrebatados e, como tal, não os possa passar ao teclado. Tenho para mim que, às vezes, as palavras são demais. O olhar chega mas esse não se vê desse lado do ecran….
(Obrigada à Cecília e à MJM por me porem a pensar, ou não haveria post hoje)
Publicado por lique às 12:00 AM | Comentários (28)
novembro 08, 2004
Como se fosse verdade

O fumo da cigarrilha. Ela sabe que não gosta. Mas está bem, ali. Mistura-se com uma nota nostálgica que se ouve ao longe. Ela ouve. Blues, tem que ser. Ele gostará de blues? Nem sabe. Mas é o único som que imagina. O único que combina com ela, com ele. Connosco, pensa ela. Estranha a palavra. Saboreia-a. Estranhamente, sabe-lhe bem. Como se fosse verdade.
Encostada a ele, o cheiro da cigarrilha envolve-a. Sabe que não gosta. Mas há um sem número de coisas que sabe e que ali não se aplicam. Ali é o espaço do sonho. Da realidade irreal. Ali os “sei” não são nada. Só existem homem e mulher sem saberes, sem certezas. Olhando e olhando-se. Como se o olhar roubasse algo. Um pedaço de alma. Como se fosse verdade.
Onde irão? Não querem ir. Querem ficar. Querem o momento. Deixar o fumo da cigarrilha roçar a garganta e as narinas. Ouvir as notas de algum blues antigo. Cantado por uma mulher. Só a voz de uma mulher pode emprestar a dolência necessária. Porque terão que ir. E não irão juntos. Schiuuuu... Juntos. O som da palavra ecoa por sobre as notas de blues e o cheiro do fumo. Soa bem, um som doce de ternura. Como se fosse verdade.
Publicado por lique às 03:02 PM | Comentários (82)
novembro 07, 2004
Carta ao meu PC
É assim: preciso ter a certeza que não me falhas! Há coisas na vida que nós precisamos de dar como adquiridas. Ter um PC sem problemas emocionais é uma das mais importantes. A sério, sei que se alguma coisa te acontecer vou ficar desesperada, a pensar como vou recuperar memórias que te dei e me esqueci de partilhar com outro companheiro. Também vou deixar de escrever, de trabalhar, tu és o meu suporte para tudo isso. Preciso do teu apoio. Imagina que te acontece alguma coisa definitiva… Nem quero pensar nisso. Como ia eu encarar a hipótese de ter que partilhar a minha vida e o meu trabalho com outro? Esta angústia não me larga. Cada vez que me falas de “erros fatais” fico tão assustada que me baralho toda e acabo por cortar a minha ligação contigo. A seguir recomeço mas acho sempre que algo se quebrou entre nós. E há a questão dos ciúmes. Parece-me que por vezes finges que tens problemas só para não me deixares contactar com os amigos. Isso é feio. Depois voltas ao normal como se nada tivesse acontecido. Diz lá, como é possível viver assim? Claro que não vais responder, acho mesmo que hoje vai ser um dia em que resolveste fazer da resistência passiva a tua arma contra mim. Seja o que for que te peça, fá-lo-ás com uma tal lentidão que eu vou acabar por me exasperar. E, de repente, tudo ficará bem. É sempre assim. Sinto que a nossa ligação vai ter que acabar. O triste é que eu não posso viver contigo nem sem ti. Dás-me um sinal? Ah, finalmente conseguiste abrir o raio do documento que eu precisava….
(A minha habitual preguiça de fim de semana deu-me para "reciclar" um texto que já foi publicado no Blogue de Cartas)
Publicado por lique às 12:32 AM | Comentários (52)
novembro 04, 2004
Folha em branco

Sinto, na folha em branco que me espreita, o desejo de se apoderar da minha alma onde outras folhas ondulam num movimento de queda que o meu início de Outono provoca. Cada uma carrega consigo uma lembrança, um olhar, um amor, uma entrega. Cada uma traz gravada uma época da minha vida. Conheço aquela quase ainda verde, mistura de idealismo e loucura de uma juventude insatisfeita. As avermelhadas, nos seus vários tons, são paixões diferentes, amores por pessoas, por causas, pela vida na sua plenitude. Também vislumbro castanhos de um dourado ainda belo, entusiasmos de outono inicial que se recusa a entregar-se ao frio do Inverno.
Cada folha que rodopia na minha alma tem uma história para contar. A folha em branco espera e chama-me sabendo que vou acabar por preenchê-la, freneticamente, com as cores daquelas outras que ela inveja.
(este texto, com ligeiras diferenças, foi escrito para as Noites de Poesia em Vermoim do dia 2 de Outubro, organizadas pelo grupo Movimentum - Arte e Cultura )
Publicado por lique às 11:11 PM | Comentários (26)
novembro 03, 2004
A(s) viagem(ens)
A exterior. Deslocação física para um local estranho onde me esperava a ternura de uma filha “emigrada”. A descoberta do seu espaço físico, psicológico, do seu círculo de conhecidos (amigos, talvez, daqui a pouco..). A percepção da dificuldade de adaptação dela, através da minha. Adaptação a pessoas desconhecidas, à gestão organizada do tempo e dos recursos, a hábitos comportamentais completamente diferentes.
Esta viagem física, eu fiz. Parti e regressei, julgando que ia matar saudades quando afinal elas só se mitigam, para a seguir voltarem mais fortes ainda, apertando o peito como se a toda a emoção ali estivesse centrada.
A interior. Daquelas que é necessário fazer de vez em quando. Porque é necessário reequacionar a vida constantemente e as certezas de hoje são as dúvidas de amanhã. Porque também ,por vezes, temos que nos adaptar a novas realidades, desconhecidas, estranhas. Também este é um processo doloroso. E inacabado. Nesta viagem, eu parti mas ainda não regressei.
Por tudo o que disse, o que aqui fica é também um texto incompleto. Que diz que estou aqui fisicamente e irei escrevendo mas que não estou por inteiro. Há algo em mim que tem que ser encontrado e talvez, quem sabe, consertado. Há algo que tem que se tornar límpido para mim própria. Neste momento a minha água está turva de mais.
Publicado por lique às 01:29 AM | Comentários (82)
outubro 21, 2004
A sesta
Hoje tenho que falar sobre um assunto de importância capital. Pelo menos deve ser, a julgar pelo destaque que lhe tem sido dado a nível da comunicação social e até do governo. Estou a referir-me à sesta. Não, não é a sexta nem a cesta. É mesmo a sesta. Aquela que se faz durante a tarde e que pode ser mais ou menos saborosa e revigorante, dependendo da duração e de ser feita com ou sem companhia.
Acham, por acaso, que estou a divagar sobre um assunto trivial? Não, porque a questão de saber se um primeiro-ministro deste país de brandíssimos costumes e longas sestas fez ou não uma (sesta) entre uma sessão da Assembleia da República e alguns desfiles da Moda Lisboa foi assunto de discussão durante vários dias. Não fora o magno problema do “peixeiral” entre os dirigentes do Benfica e do Porto e ,certamente, ainda se discutiria a sesta do P.M. Logo, é de crucial importância para o país.
De facto, se contabilizarmos as horas que o primeiro-ministro leva a fazer a sesta mais aquelas em que, digo eu, terá que despachar (com) as suas assessoras, parece-me que sobeja pouco tempo para a governação e para fazer jus ao que todos nós lhe pagamos. Já não estou a falar de festas, particulares ou outras, nem dos roteiros da noite tão do seu agrado. Mas, por outro lado, não será melhor que ele faça a sesta todos os dias, diminuindo assim o risco de decisões menos acertadas (reparem na contenção da linguagem, por favor…)?
Claro que é difícil fazer uma análise profunda da questão e balançar os prós e os contras. Mas, atendendo a que existe em Portugal uma “Associação dos amigos da sesta” que defende acaloradamente os seus benefícios, da qual fazem parte membros proeminentes da nossa sociedade e que até já convidou o P.M. para fazer parte da mesma, porque não institucionalizamos de vez a sesta ,aderimos todos à associação e passamos, pelo menos, a ter umas horas durante o dia em que não somos agredidos por tanta cretinice junta?
P.S.: depois deste texto escrito, tive hoje a notícia de que o P.M. pretende colocar professores sem turma como assessores de magistrados. Pensei que não tinha ouvido bem, mas tudo indica que é verdade, hoje à noite disseram o mesmo, já com as reacções de trinta mil (e uma) entidades.
Então não seria melhor se o homem estivesse a fazer a sesta quando lhe deu para pensar?
Publicado por lique às 09:05 PM | Comentários (37)
outubro 19, 2004
Dia de chuva

A chuva bate nos vidros tapando a visão da paisagem. Desfocadas, as copas das árvores deixam-se balançar com o vento, sabendo que não vale a pena lutar com a natureza.
Vem lá de fora uma insinuação de melancolia que parece colar-se à humidade que impregna os campos, os prédios, até as pessoas. Mas hoje não a vou deixar entrar. À minha volta existe um escudo de doçura e calor, vindo de paragens outras onde é gerado, alimentado e intensamente partilhado. Com esse escudo me protejo hoje contra a força dos elementos e das agressões da vida.
Do leitor de CDs do PC vem o som da música de George Gershwin. A chamar o azul.
Publicado por lique às 09:06 PM | Comentários (77)
outubro 14, 2004
Espera

Pablo Picasso, Sleeping woman
Alonga-se no sofá. Ajeita-se na cadeira ao pé da mesa. Paira no ar que absorvo. Impregna o papel que me desafia. Contempla o Outono avançando nos verdes que já não o são. Torna os dias compridos, mesmo nas horas sem sol. Entra nos sonhos das noites e no sono leve das madrugadas. Acende-se com sons, palavras, mitigação de ansiedades. Instala-se nas horas corridas que a vida impõe. E cresce. Insinua. Inquieta. Dói.
A espera (de ti).
Publicado por lique às 09:29 PM | Comentários (47)
outubro 13, 2004
O inferno dos dias
Todos os dias repito os gestos conhecidos que me dão a segurança da vida cómoda, da casa, do emprego, da televisão, do computador, do video, do cinema…
Ao meu lado, à minha frente, quase em directo morre gente e eu olho. E indigno-me. Ah, claro que me indigno ! E até sou capaz de participar em acções de protesto e todas essas coisas bem intencionadas que fazemos para aliviar consciências. Assino petições e coisas assim. Posso também escrever um texto a que alguns chamam poema...
Não sei porque é que hoje olho para mim e acho tudo isto uma hipocrisia. Hoje não aconteceu nada de especial. Morreram mais uns milhares de crianças de fome e doenças em África. Aqui em Portugal e um pouco por todo o mundo, mulheres morreram em consequência de abortos realizados em condições indescritíveis. No Iraque, devem ter morrido mais uns quantos que vão engrossar as estatísticas , dos dois lados. Na Palestina, a guerra de pedras e pessoas-bomba contra mísseis continua em bom ritmo. No Sudão, tenta-se que os milhares de refugiados voltem a Darfur, restando saber até quando durará a acalmia. Esta lista está, claro, muito incompleta.
Aqui mais perto, mesmo no nosso jardim à beira mar plantado, a corrupção, a iniquidade, a injustiça aparecem abundantemente espalhadas nos media. E não sabemos da missa a metade. Pois claro que me indigno. E digo-o com todas as letras. De vez em quando também escrevo qualquer coisa razoavelmente poética sobre o assunto. E depois? Ah, claro, voto em quem me parece estrategicamente a melhor opção para melhorar este estado de coisas. E tudo continua igual.
Hoje sinto-me hipócrita, triste e impotente perante a voragem de um mundo em que a espécie humana conseguiu construir vários infernos nos quais vamos ardendo, devagar.
Após ter escrito o post, ao reler a Obra Poética de Sophia de Mello Breyner, este poema pareceu vir, em parte, de encontro às minhas dúvidas. Nas palavras de Sophia pareceu-me haver uma resposta.
A FORMA JUSTA
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos-se ninguém atraiçoasse-proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
-Na concha na flor no homem no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas
Publicado por lique às 12:08 AM | Comentários (69)
outubro 08, 2004
Talvez...

Talvez um dia te diga
que chegaste quando não queria ver para além dos muros transparentes que o vidro gelado formava à minha volta.
Talvez amanhã te fale
de como esse jeito provocador desafiou restos de uma velha ousadia e desbravou caminhos que julgava fechados.
Talvez mais tarde te conte,
quando na verdade um de nós partir por esses caminhos que pisei sem lágrimas, que chegaste quando já não eras esperado.
Talvez te diga o que sabes
das surpresas da vida no dobrar de cada esquina.
Publicado por lique às 07:00 PM | Comentários (42)
outubro 05, 2004
O ar condicionado
Estamos no Outono. Os dias não deviam ser tão quentes. D. Fátima, encalorada também com aqueles problemas que a mudança de idade só traz às mulheres (abençoadas, de facto, por suportarem todas as partidas que a natureza lhes prega), abanava-se no gabinete.
- Vejam lá se neste gabinete puseram ar condicionado! Lá em cima no da senhora engenheira é um luxo. Fresquinho, sempre que lhe apetece. E ainda tem aquela janela tão grande. Nós aqui estamos num cubículo…
As colegas de gabinete já estavam habituadas ao discurso. Como sabiam que não ia levar a nada, calavam-se com o nariz enfiado nos papéis.
-Pois e vocês não dizem nada! Já não me basta falar para o boneco lá em casa!
Nesse dia D. Fátima decidiu ir falar com a engenheira sobre o assunto. Bateu à porta (sempre fechada aquela porta…) e foi entrando mesmo sem licença.
-Entre, entre! Então há algum problema?
(Que diabo quer ela agora?)
-Srª engenheira, eu vinha perguntar se era possível pôr ar condicionado na sala lá de baixo. É que nós sofremos muito com o calor…
- As suas colegas nunca me disseram nada disso.
- Pois, elas não querem incomodar. Mas eu…
- A senhora não se importa de incomodar, não é?
O sorriso na cara da engenheira não parecia de bom agoiro. Quando ela queria resolver os problemas, não sorria.
- Posso vir noutra altura… mas é que, sabe, eu já não ando bem com isto …sabe? E depois também todos os dias o meu marido me diz que tenho que ir ao médico, que estou a ficar impossível de aturar. Eu já chego aqui num estado de nervos… E ainda com este calor!
- E deve ir ao médico, de facto.
E a engenheira olhou para ela. Talvez pela primeira vez, olhou mesmo. Ficou um bocado em silêncio e disse:
- Vamos ali falar com o Dr. Marques para ver o que é possível fazer.
O Dr. Marques era o responsável pela área financeira. D. Fátima pensou que preferia não ir lá, mas a engenheira já tinha saído porta fora.
- Marques, preciso saber se é possível pôr ar condicionado na sala lá de baixo. As senhoras queixam-se do calor. E, de facto, aquilo não tem condições nenhumas.
- Ora, não me diga que só deram por isso, agora!
- Não, só se queixaram agora…
- Não há verba nessa rubrica e …
- Tretas, homem! Eu bem sei o que acabaram de adquirir para o gabinete da Direcção. E também não havia dinheiro na rubrica, antes. É só um ar condicionado.
O Dr. Marques conhecia o mau feitio da engenheira. Sabia que ela não ia desistir e era bem capaz de lhe fazer o rol de tudo o que tinha sido adquirido sem “haver verba na rubrica”.
- Pronto, está bem ,faça lá a requisição. Mas vai ser difícil…
- Sei que vai ser difícil. Desde que seja rápido! Muito obrigada, Dr. Marques.
Cá fora a D. Fátima achou que devia agradecer. Afinal a mulher tinha resolvido o problema e o ar condicionado fazia-lhe muito jeito.
- Obrigada, Srª engenheira. Agora é que as minhas colegas vão ver! Diziam para eu não vir falar consigo e afinal... Que bom! Sabe, falei-lhe outro dia daquele problema da minha mãe e...
Rapidamente a engenheira atalhou:
- Isto não foi nada. O melhor é a senhora e as suas colegas andarem atrás das meninas da Financeira para terem o ar condicionado. Senão, ou não têm nada ou, no máximo, conseguem uma ventoinha. Ah, e vá ao médico, D.Fátima!
(Estupor de mulher! Nem um agradecimento se pode fazer...)
[A pedido de várias famílias e particularmente dos admiradores da D. Fátima, ela e a engenheira voltam ao vosso convívio. Por mim, estou a ficar um pouco cansada das duas... Para quem não se lembra ou nunca leu, pode encontrar mais posts relacionados com o assunto aqui, aqui, aqui e aqui. ]
Publicado por lique às 03:56 PM | Comentários (70)
outubro 03, 2004
Da saudade

Foto: Man Ray, Tears
A saudade foi entrando sem pedir. Primeiro doce lembrança, depois ligeiro desconforto. Resisti-lhe. Não gosto de me deixar invadir por algo que não controlo.
Riu-se de mim e despertou sentidos para melhor me dominar. Foi-me envolvendo num laço que, a pouco e pouco, se apertou dentro de mim. Tentou deitar abaixo os muros das minhas certezas. Carregada de pedaços de sonho, instalou-se como se fizesse parte do rio que me percorre.
Lutei, procurei tudo o que a vida me ensinou para a enfrentar. Mas, a cada argumento meu, respondeu destapando o que em mim residia sem que eu visse, sem que soubesse sequer.
Não me deu tréguas e já não tento domá-la. Sei que se acalma no olhar das palavras, nas noites em que até o sono se esconde.
Publicado por lique às 08:11 PM | Comentários (80)
setembro 28, 2004
Privação
Bolas!! Agora fiquei sem net. Como é que eu consigo trabalhar assim? Já protestei lá para baixo ( a Informática é sempre no andar de baixo?). O remédio é esperar.
Começo a ter aquela sensação de angústia e privação que todos os viciados em alguma coisa tão bem conhecem. Baseei todas as minhas rotinas de trabalho no mail e na Intranet cá do sítio. Como ultrapassar isto? O papel branco arrumadinho ali ao lado diz-me para o preencher com as palavras que o mail ia levar. E depois? Vai por fax, quem o recebe demora horas a entregá-lo ao destinatário… Não vale a pena. Entretanto a ligação há-de voltar. Abro o browser de cinco em cinco minutos. Nada!!
Resolvo ir beber um café que não me acalmará mas, pelo menos, algum conforto me há-de dar. E sempre falo com o pessoal que está no bar (mais vezes que o necessário) para esquecer tudo isto um pouco. Para surpresa minha, o bar está cheio de gente que, não tendo net, foi beber um café… Ideia original, a minha! Ao menos, podia ter ido a outro lado, sempre dava um passeio pela quinta (hoje as vacas e os cavalos estão felizes com o sol). Vou falando um pouco com alguns e não é que a porcaria da conversa tem que ir parar à política? Caramba, nem futebol? O Sporting perdeu ontem, não é assunto de conversa? Dou-me conta que não, talvez porque predominem por aqui os sportinguistas…. É claro que a conversa acaba por azedar que isto de política está longe de ser consensual e eu sou daquelas que não se calam (vocês sabem…).
Aproveito uma aberta e vou andando, de volta ao gabinete. Abro o browser outra vez e ainda nada! Começo a caminhar pelo gabinete que felizmente é comprido (privilégios, privilégios… e não me venham falar da D. Fátima, fazem-me o favor!) e penso que o melhor é mesmo sair porta fora e dar um giro (serviço externo, não é que dá bom tom?) e , sei lá (a propósito queres vir comigo?), talvez fazer umas compras no shopping (é o melhor remédio para curar depressões e leves crises de privação). Já vou direita à porta quando o PC me chama .Juro, eu sempre tive um relacionamento íntimo com os PCs (nada de más intenções aqui, hem?), mas nunca pensei que este fosse capaz de me chamar. Abro o browser e aparece o sítio cá do sítio (isto entende-se?). Desapareceram as depressões, as angústias, vamos lá despachar o trabalho para lá para o fim da manhã e da tarde poder blogar um pouquinho!
(Que me desculpem os sportinguistas, o texto foi escrito no dia seguinte ao Sporting ter perdido, não a ter empatado...)
Publicado por lique às 05:46 PM | Comentários (81)
setembro 21, 2004
Paisagem

Amanheceu um céu de chumbo de Outono adiantado. Não sei se a melancolia é minha ou da paisagem lá fora. Para lá do muro da quinta, ao fundo do horizonte da minha janela, prédios de diversas cores perfilam-se, parecendo também eles abrigar vidas estagnadas, sem sol. São caixotes em que nos enfiamos todos os dias, mais ou menos pela mesma hora e dos quais saímos pontualmente para os mesmos afazeres. Há roupa estendida nas varandas que, se eu tivesse aqui binóculos de voyeur, me diria, de quem lá habita, mais do que eu preciso saber. Os prédios apertam-se uns contra os outros numa disposição irregular, invadindo o espaço de privacidade e solidão que cada um deveria proporcionar.
Vivemos em prisões construídas por nós, quando temos a vocação da liberdade. O ambiente à nossa volta, nestes aglomerados em que nos juntamos, é agressor. Qualquer animal, colocado em ambiente que o agrida ou o ponha sob stress, desenvolve comportamentos aberrantes e doenças físicas. Seremos nós diferentes? A nossa “racionalidade” não impede a depressão e o desenvolvimento de neuroses de todo o tipo. Parece-me que o homem, no seu “desenvolvimento” civilizacional, criou para si próprio um ambiente hostil, coisa que os outros animais não conseguem fazer sozinhos. Aparentemente a racionalidade trouxe-nos também algumas desvantagens que, infelizmente, se repercutem em nós, homens, e nos restantes habitantes deste planeta dito azul.
(num dia cinzento, há uma semana atrás, olhando para lá da janela)
Publicado por lique às 11:25 AM | Comentários (71)
setembro 13, 2004
Lembraram-se?

Eu estava a trabalhar. Uma das pessoas que colaborava comigo mais directamente na altura disse-me:
“Vê lá se consegues ver aí alguma coisa na net. Estão a dizer que caiu um avião em cima dum arranha-céus qualquer em Nova Iorque”
Foi assim que soube do acontecimento que faria com que a nossa visão do mundo nunca mais fosse a mesma. Depois veio a incredulidade, o horror das imagens, os debates infindáveis, as discussões dos pró e dos contra (América, naturalmente) e a indefinida sensação de que algo tinha mudado definitivamente.
Os anos que se seguiram provaram que algo tinha, de facto, mudado. Para os americanos que perderam a noção de serem inatacáveis no seu território e para o resto do mundo que assistiu à retaliação e contra-retaliação, numa escalada de violência sem aparente necessidade de qualquer justificação plausível.
E é sobre isso que, três anos passados, eu me interrogo. Perdeu-se todo o “pudor” de agredir sem que as razões convençam ninguém. A expressão pode parecer estranha mas é o que sinto. Sempre se soube que os americanos (e não só) estavam por trás de golpes de estado, revoluções, etc. mas era algo que não era assumido publicamente sem escrúpulos. Sempre houve ataques terroristas ligados a causas e, podendo condenar-se a violência, havia uma relação causa/efeito que era possível perceber. Hoje os ataques, as agressões são assumidas contra todo e qualquer direito internacional, com umas esfarrapadas desculpas de um lado e doutro, afinal apenas porque sim, porque há interesses em jogo que têm que ser defendidos. E ponto final, que o mundo é o pátio de diversões deles.
Não estou aqui a negar a mais que injusta situação no Médio Oriente, particularmente na Palestina. Pelo contrário, choca-me profundamente o que ali se passa no dia-a-dia, numa clara violação dos direitos de um povo ao seu território e à sua independência. Mas não consigo entender esta noção de “terrorismo global” (por sinal uma expressão da qual não gosto particularmente), até porque o recurso a uma violência tão brutal faz esquecer as razões iniciais.
Relativamente à América, não posso, não quero, nunca entenderei o “terrorismo de Estado” que impera sob esta administração. Tudo é possível, tudo é justificável e aparentemente a tudo os americanos se habituam, em nome da cultura do medo que os mantém, na sua maioria, ignorantes das razões do outro lado do mundo e aterrorizados em relação a perigos reais e induzidos. Qualquer agressão, qualquer violação do direito internacional é praticada com uma arrogância desmedida a que, aparentemente, a Europa se verga com algumas excepções que, no fundo, também encontram motivação em interesses não muito confessáveis.
Então, é isto o futuro do mundo em que vivemos? Quando dizemos que, depois do 11 de Setembro nada mais será igual, é a este panorama que nos referimos? Que alternativas nos restam para transformar esta terrível realidade? Sabem, eu só deixo perguntas…
(escrito em 11 de Setembro de 2004)
Publicado por lique às 07:08 PM | Comentários (64)
agosto 26, 2004
Angústia de outono

A angústia é isso.
Olhar o espelho e não ver mais o rosto de que gostavas mas um outro em que as marcas do tempo se vão sentindo, pouco a pouco.
Olhar o teu corpo e saber que já não é o corpo jovem de outrora, tem marcas dos anos, dos amores, da maternidade tão desejada mas tão exigente.
Olhar as tuas filhas e vê-las mulheres jovens como já foste, há uns tempos. Orgulho mesclado com um pouco de inveja da vida por viver.
A angústia é isso.
Olhar para dentro de ti e encontrar lá escondida, num canto qualquer, a mesma rapariguinha, a mesma mulher. Sentir que, por dentro, não envelheceste. Tens algumas marcas, algumas rugas mas és capaz das mesmas ilusões e dos mesmos sonhos. Talvez mais serenos, mas ainda assim…
Porque é que a alma, o coração, onde quer que os sentimentos se alojem, não vai também envelhecendo, acomodando-se com o passar do tempo e adormecendo em paz?
Publicado por lique às 09:36 PM | Comentários (62)
agosto 24, 2004
Dos cavalos e das vacas

Acho que já disse que trabalho num edifício que se encontra dentro de uma quinta. Se não disse, fica dito. Da janela do meu gabinete, vejo um longo prado onde costumam estar cavalos e vacas. É sempre um prazer renovado olhá-los ali, quase em liberdade. Na semana passada, numa daquelas manhãs de chuva que já nos dão o Outono quando ainda não desfrutámos o Verão, fui ver se lá estavam e, de facto, alguém se devia ter esquecido de os guardar e a chuva fustigava-os com força. O que me chamou a atenção foi que estavam imóveis e se tinham encostado uns aos outros (cavalos com cavalos e vacas com vacas, também não exageremos), tentando que o corpo de outro os abrigasse da chuva. Não corriam, não se ouvia um som, abrigavam-se uns aos outros, só.
Olhando para as minhas habituais pilhas de papeis mais ou menos inúteis (se pensarmos em termos de destino da humanidade) e lendo de relance as notícias na net, interroguei-me sobre o que é que tinha feito perder à nossa espécie aquele sentido de protecção mútua. Houve tempos imemoriais em que as tempestades que fustigavam a humanidade eram mesmo só as tempestades da natureza. E em que o sentido de protecção mútua existia. Que se perdeu com tudo o que, supostamente, ganhámos? Vivemos hoje para nós e quando muito para os mais próximos (família). Talvez porque, nessa esfera, o instinto ainda se aplica. Mas e os outros? Importamo-nos com as tempestades de toda a ordem que os atingem? Oferecemos o nosso corpo ou a nossa mente como protecção?
Não vou deixar aqui mais perguntas. Isto é só uma reflexão acerca dos cavalos e das vacas…
Publicado por lique às 10:06 PM | Comentários (51)
agosto 23, 2004
Memórias do pano verde
Chegou um pouco cedo à sala onde se realizava a reunião. Olhou em silêncio a sala que tão bem conhecia. Uma mesa comprida e estantes altas, revelando a biblioteca que tinha sido anteriormente. Em cima da mesa costumava haver um pano verde, comprido dos lados, que agora não estava lá. Reparou na ausência do pano e a memória fê-la recuar uns quantos anos. Nunca fixara datas, não sabia dizer se tinha sido há dez anos ou menos. Talvez menos, pensou.
Viu-se de novo naquela reunião com cerca de 10 pessoas e lembrou que ele tinha chegado atrasado. Chegava sempre, até às reuniões. Como seria, agora? Sorriu. Lembrou-se da hesitação dele relativamente ao lugar onde se iria sentar. Nunca se sentava ao lado dela, desde que aquela relação meio louca tinha começado. Tinha ficado imóvel à espera, com o coração a bater acelerado. Afinal puxou a cadeira ao lado dela. E, como por mágica, as vozes dos participantes na reunião baixaram de tom, ficaram quase inaudíveis. Por baixo do pano verde, mãos agitaram-se em dança conhecida. Não se lembrava nada do que se tinha dito naquela reunião. Sabia que lhe tinham feito perguntas e que tinha respondido. Como? Quando a reunião acabou, dois carros saíram voando e, ali mesmo, num dos muitos recantos solitários daquela quinta que ele conhecia tão bem, deram-se um ao outro, como sempre. E separaram-se.
- Telefono-te depois
Telefonava sempre. Ela também. Mesmo que se passassem meses. Até ela se ter afastado, definitivamente. Pensou para si própria que nem tinha precisado de se perguntar porquê. Aconteceu. Como tudo o resto tinha acontecido, tantos momentos como aquele...
- Srª engenheira, a reunião vai começar.
- D. Fátima, tiraram o pano verde?
- Tiraram sim, as pessoas queixavam-se que fazia muito calor.
A D. Fátima nunca percebeu a gargalhada da engenheira. O que é que ela tinha dito que fosse assim tão engraçado?
NOTA: A engenheira e a D. Fátima são personagens de ficção com alguns pontos comuns com a realidade. Para quem não se lembra ou nunca leu, pode encontrar mais posts relacionados com o assunto aqui, aqui e aqui.
Publicado por lique às 10:32 PM | Comentários (42)